Peixe-Boi, 11 de Julho de 2022

Estar sempre alerta

texto: Nuno Catarino

O peixe-boi é um mamífero marinho herbívoro, também conhecido por manatim ou vaca-marinha. Peixe-Boi é igualmente o nome de um trio que reúne João Carreiro (guitarra), João Fragoso (contrabaixo) e Miguel Rodrigues (bateria). Os três músicos do trio já lançaram discos em nome próprio, todos com características diferentes: Rodrigues editou “Empa” (Cena Jovem jazz.pt), Fragoso gravou com “Dura Natureza” (também Cena Jovem jazz.pt) e, mais recentemente, Carreiro publicou “Pequenos desastres” (edição Robalo). Três jovens músicos em processo de afirmação na cena jazz nacional, exploram aqui um universo musical distinto. O trio vai apresentar-se ao vivo no festival Que Jazz é Este?, em Viseu, no dia 21 de julho. Antecipando essa atuação, o trio Peixe-Boi apresenta-se.

 

Antes de mais, porque escolheram este nome, “Peixe-Boi”?

Pensámos em nomes de animais e escolhemos dois que nos soassem bem juntos e que fossem de habitats diferentes. Apesar de o peixe-boi ser também um animal por si próprio, em termos de conceito, pelo menos nesta fase, interessa-nos mais a interação entre dois seres, dois elementos, duas formas de estar, por aí.

 

Como nasceu o grupo? Quem teve a iniciativa de convidar/desafiar os outros?

Conhecemo-nos e tocámos juntos pela primeira vez no grupo do Fragoso, ficámos amigos desde aí e continuamos a tocar em diferentes situações. No ano passado surgiu o primeiro concerto em Coimbra. Acho que podemos dizer que foi a empatia que nos juntou neste trio.

  

Como caracterizariam a vossa música? Como poderiam descrever a vossa música, para quem nunca a tenha ouvido?

Cruzamos a música escrita com a improvisada, sendo que as passagens escritas são também tratadas de uma forma bastante livre, alteramos regularmente a forma de as tocar. Pensamos muito nos ambientes característicos de cada música, e na forma de os combinar, para que o conjunto tenha também uma leitura, além do individual. 

 

Como é o processo de trabalho deste trio? Trabalham a partir de composições originais? Como decorre o processo de improvisação? 

Tocamos apenas música original. Já tocámos alguns destes temas noutras formações e, ao trazê-las para este trio, temos a intenção de descobrir novas formas de as encarar, de repensar a abordagem à melodia, se as queremos mais rítmicas ou mais espaciais. Ainda assim, o nosso processo está sempre a mudar, por vezes não combinamos nada antes de tocar, outras vezes procuramos discutir mais concretamente o caminho que gostávamos de traçar em cada música. Temos sentido que, em cada concerto que damos, existem momentos muito distintos, sobretudo ao nível da nossa interação ao tocar. É para nós natural procurar um som característico deste grupo, mas também consideramos a possibilidade de este nunca se chegar a definir. É um processo de constante descoberta, do qual gostamos e em que queremos estar sempre alerta.

  

Os três elementos de Peixe-Boi já tocaram juntos no Fragoso Quinteto, que gravou “Dura Natureza”, mas aqui encontram-se sem os sopros (Albert Cirera e João Almeida). O que diferencia o Peixe-Boi do trabalho no Fragoso Quinteto?

No Fragoso Quinteto a música é escrita apenas pelo João Fragoso, desta forma, e apesar de grande parte do resultado final se materializar com o contributo musical dos cinco músicos, o conjunto das composições formam-se em torno de uma musicalidade pessoal do Fragoso. Por outro lado, em Peixe-Boi, temos os três o papel de compositor e vamos descobrindo e discutindo as composições uns dos outros, tentando encontrar formas interessantes de as aplicar a esta formação. Enquanto que no quinteto parece ser mais facilmente alcançável uma maior variedade de formas de combinar timbres, exacerbar dinâmicas e criar contrastes na música, no trio lidamos mais com a dicotomia silêncio/som, deparamo-nos com a necessidade de gerir de forma mais atenta a duração e conteúdo dos ambientes sonoros que criamos, as opções de estrutura nas músicas, e o desenho do alinhamento quando tocamos ao vivo. 

 

fotografia: Jorge Carmona

 

Apesar de todos jovens, os três músicos do trio já editaram discos em nome próprio, cada um com características diferentes. Que ideias novas trazem neste projeto em trio, distintas desses discos? 

Neste trio tentamos centrar a nossa atenção no que podemos retirar das composições, tentamos expandir-lhes o conteúdo e ir além da abordagem usual de tocar o tema, depois improvisação e de novo o tema (não invalidando esta opção). Ultimamente temos pensado que, de certa forma, cada música pode ser uma região, uma imagem, um elemento, e temos tentado encontrar formas de fazer valer, no todo, essa associação que lhe demos.

 

Têm planos para a edição de um disco?

Não temos previsão, mas queremos registar em breve a música que temos tocado. Em relação à edição, identificamo-nos com editoras que nos são mais próximas, como a Robalo e a Porta-jazz, portanto, alguma delas faria sentido para nós.

 

Como Peixe-Boi têm desenvolvido trabalho unicamente em trio. Estão abertos a colaborar com músicos convidados? 

Sim, claro, ainda que como dissemos, o grande desafio que se nos apresenta passe por tocar as nossas músicas nesta formação. Há com certeza muitos músicos com quem gostaríamos de partilhar estas ideias, e até, a partir da presença de outros elementos, encontrar novas formas de interagirmos musicalmente entre nós.

 

São três jovens músicos em processo de afirmação na cena jazz nacional. Sentem que fazem parte de um processo de renovação? Como veem esta nova geração de músicos que está a surgir no panorama português? 

Estão sempre a aparecer músicos novos, não achamos que haja um momento de renovação, é uma continuidade, até porque as gerações anteriores continuam a renovar-se. O que achamos que tem vindo a acontecer mais regularmente é a junção de músicos que vêm de diferentes contextos musicais, seja jazz, clássico, contemporâneo, rock, improv, eletrónica, entre outros. Pensamos que este movimento de mistura pode vir de uma vontade cada vez maior dos músicos de quebrar as barreiras dos estilos musicais. O resultado que vemos é o surgimento de muita música, sem rótulos, pelo menos no processo de conceção, e achamos que isso é bom. 

 

Quais são os vossos planos para os próximos tempos?

Continuar a tocar juntos, registar este grupo, compor, ouvir e conhecer mais música, ver concertos, dar concertos, dar continuidade aos projetos de cada um e criar novos projetos.

 

Agenda

29 Novembro

Sélène Saint-Aimé

Teatro da Trindade - Lisboa

29 Novembro

Mariana Dionísio e João Pereira “Tracapangã”

Hot Clube de Portugal - Lisboa

30 Novembro

Sul

Museu Nacional Soares dos Reis - Porto

30 Novembro

Miguel Ângelo Quarteto

Teatro Municipal de Bragança - Bragança

30 Novembro

Gonçalo Sousa e Francesca Guatteri

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

30 Novembro

Orquestra Jazz de Matosinhos com Chris Cheek

Casa da Música - Porto

01 Dezembro

Manuel Oliveira, Rodrigo Correia, Alexandre Frazão e Tomás Marques

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

01 Dezembro

Sul

Hot Clube de Portugal - Lisboa

02 Dezembro

João Lencastre Free Celebration

SMUP - Parede

02 Dezembro

Júlio Resende

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

Ver mais