Not There Yet, 22 de Fevereiro de 2022

Qual caminho?

texto: Nuno Catarino

Acaba de surgir um novo grupo, uma formação inédita que reúne quatro músicos com créditos firmados na cena jazz nacional. Not There Yet é o nome deste novo quarteto, que junta Daniel Neto (guitarra), Samuel Lercher (piano), Gonçalo Leonardo (contrabaixo) e Rui Pereira (bateria). O quarteto apresentou-se pela primeira vez ao vivo no Hot Clube, em Lisboa, e acaba de lançar o seu registo de estreia, "Which Way?", onde revela uma música original ligada à electricidade. Numa conversa a quatro vozes, os elementos do grupo apresentam este novo projeto.

 

Este grupo junta quatro músicos experientes, com percursos musicais bem desenvolvidos. Como se deu este encontro? Como perceberam que queriam tocar juntos nesta formação?

Em 2017 o Gonçalo Leonardo, o Rui Pereira e eu, começámos a fazer sessões regulares em trio, tendo realizado alguns concertos dedicados ao repertório dos standards de Jazz. Paralelamente eu tocava com o Daniel Neto no seu "organ trio" dedicado ao Wes Montgomery. Nesta fase estava a explorar as possibilidades sonoras dos teclados, rhodes, hammond, sintetizadores e outros. Senti que juntando o Daniel Neto, com o seu lado eléctrico e rock assumido, o Gonçalo Leonardo, que na altura estava a tocar com os Dead Combo e o Rui Pereira, cuja escrita musical faz uma ponte entre os universos do rock, da pop e do jazz, iria encontrar um espaço para desenvolver um novo caminho, mais eléctrico e aberto. De facto funcionou muito bem e após algumas sessões decidimos juntar temas de cada um e preparar a gravação de um disco. (Samuel Lercher)

Porquê a designação Not There Yet? É uma expressão enigmática, especialmente para um nome de grupo musical. O que querem dizer com isto?

O nome partiu do título de um dos temas, composto pelo Rui Pereira. Na verdade, somos terríveis com títulos e ao fim de algum tempo, achámos que podia ser uma possibilidade, assumindo esse lado um pouco irónico (ou não!). Por outro lado, sentimos que o jazz e a improvisação têm sempre novos caminhos por percorrer e talvez seja esta maneira de pensar que nos torna inquietos, criativos e sempre em busca de algo melhor do que aquilo que já fizemos. (Gonçalo Leonardo)

O disco "Which Way?" junta composições originais da autoria dos vários membros do grupo. Como decorreu o processo de composição e seleção destes temas?

Sim, todos nós já escrevíamos música e tínhamos discos em nome próprio. Depois de várias sessões a tocar standards e também a improvisar livremente, só mesmo para praticar, achámos que a banda funcionava e que seria bom tocarmos repertório original. Sempre houve muita cumplicidade pessoal e musical entre todos. Cada um de nós trouxe um par de temas e começámos a trabalhar neles, criando uma linguagem de banda que ligasse de alguma forma todas as composições. Não tínhamos a pré-condição de fazer um disco, mas houve uma altura em que achámos que fazia sentido, que a banda e os arranjos estavam a soar bem e decidimos então marcar estúdio. (Gonçalo Leonardo)

O vosso som tem uma vertente elétrica assumida - além da guitarra, também têm também, por vezes, o piano elétrico. Como chegaram a esta sonoridade específica?

Como referi na primeira pergunta da entrevista, parte da nossa direção estética assenta na procura de uma fusão entre a vertente acústica do jazz e a componente elétrica do rock e da pop. Os dois temas compostos por Rui Pereira, "Moving Forward" e "Not there yet", têm uma identidade claramente rock/pop e dão asas à imaginação do Daniel Neto no que diz respeito ao uso dos efeitos na guitarra. Do meu lado para este disco, gravei metade dos temas no piano e metade no rhodes com efeitos. Não foi algo premeditado, acabou por se tornar a opção mais natural à medida que fomos gravando os temas no estúdio e representa bem o equilíbrio entre a tradição acústica do jazz e os novos caminhos mais elétricos que a nossa banda está a trilhar. (Samuel Lercher)

O título do disco, "Which Way?", parece revelar uma indefinição sobre quais os caminhos a seguir. Já tem definido o caminho para este projeto?

O título do disco foi escolhido de um tema composto pelo Gonçalo com o mesmo nome. Segundo o que nos contou acerca do imaginário dessa composição que também integra o álbum, diz ser um tema bastante aberto com várias possibilidades de interpretação, de caminhos e de rumos, sem solos definidos. Trata-se de uma improvisação coletiva em torno de uma estrutura harmónica com uma melodia bastante forte e sempre presente, ora tocada por um dos elementos ora por todos. Quando toco essa música sinto o que perguntas com facto de parecer revelar uma indefinição sobre os caminhos a seguir, é verdade. Isso para mim é incrível, porque adoro a liberdade de escolha, o desconhecido e a surpresa de um novo caminho. Tanto o tema como o álbum têm algo de pacífico mas ao mesmo tempo alguma inquietude que nos faz questionar qual o caminho que queremos seguir. Em relação a este projeto a prioridade neste momento é apresentar o disco e o som do coletivo nas mais diversas salas, clubes e festivais, continuarmos com o mesmo modus operandi e continuar a compor música original para num futuro próximo termos um novo registo áudio. (Daniel Neto)

Acabaram de apresentar ao vivo no Hot Clube. Como correram estas primeiras apresentações? Há planos para mais concertos no horizonte?

Os primeiros concertos correram muito bem. A empatia que temos dentro do grupo transparece quando nos apresentamos ao público. Há uma grande cumplicidade e aceitação das características e propostas musicais de cada um dos elementos do grupo, da parte dos restantes, o que conduz à criação de momentos muito distintos ao longo dos concertos. Uma das particularidades deste grupo está patente na consciência de cada um dos elementos, que não procuramos uma afirmação individual, mas sim uma linguagem e um espaço colectivo. As reações que tivemos nestes primeiros concertos deram conta disso mesmo, a coesão e homogeneidade do repertório e da sonoridade do grupo, apesar de individualidades tão diferenciadas, foram várias vezes referidas. Nos dias de hoje, os planos não podem ser elaborados a longo prazo, uma vez que o ritmo de consumo e o tempo médio de duração dos projectos de música são muito limitados, daí que, para nós, neste momento o foco está em tentar concretizar mais apresentações ao público, antes de pensarmos no próximo passo. (Rui Pereira)

 

Para saber mais:

notthereyet.bandcamp.com 

 

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