Mariana Zwarg, 15 de Fevereiro de 2022

Música universal

texto: António Branco

Mariana Zwarg é flautista, saxofonista, compositora e arranjadora. É filha do baixista, compositor e arranjador Itiberê Zwarg e afilhada do compositor, arranjador e multi-instrumentista Hermeto Pascoal. Faz por isso parte de uma terceira geração apostada e dar continuidade à difusão da tradição da “música universal”, conceito criado por Pascoal. Após quase duas décadas de carreira, lançou em 2020 “Nascentes”, álbum gravado com um pé no Rio de Janeiro e outro em Berlim, o seu primeiro trabalho com o Sexteto Universal, consórcio multinacional fundado em 2016 na sequência de um convite para organizar na Catalunha um concerto dedicado a Hermeto Pascoal.

Integram o Sexteto Universal músicos originários de diferentes países, mas que partilham profundas afinidades musicais: a dinamarquesa Mette Nadja Hansen (voz e percussão), o alemão Johannes von Ballestrem (piano), o brasileiro Ricardo Sá Reston (baixo elétrico), o francês Pierre Chastel (bateria, percussão) e o fino-brasileiro Sami Kontola (percussão). “Nascentes” inclui oito temas da autoria de Mariana, a que acresce um da autoria do pai Itiberê e outro ainda do padrinho Hermeto (ambos tocam como convidados no disco), todos compostos/arranjados em especial para este grupo.

 

O que poderemos esperar deste concerto do Sexteto Universal em Espinho?

Bem, vai ser um concerto muito alegre e festivo, pois trata-se de um reencontro. Devido à pandemia não nos encontramos desde novembro de 2019, logo após gravarmos nosso primeiro álbum em Berlim. Lançamos “Nascentes” virtualmente e tivemos muitas digressões canceladas em 2020, 2021 e também em 2022. Estamos muito felizes por fazer música juntos outra vez e fazer o lançamento presencial do álbum!

 

A música que apresentam é fresca e cosmopolita, resultando da exposição e processamento de influências diferentes. Como caracteriza o vosso som?

A minha música está profundamente conectada com as minhas raízes brasileiras e muito inspiradas pelos ritmos do meu país. Mas considero a música universal de Hermeto Pascoal como minha principal influência musical. Eu já nasci no meio dos ensaios e nos “backstages” do grupo de Hermeto, já que meu pai é seu contrabaixista desde antes do meu nascimento. Digo sempre que essa música é não só a música que eu toco, mas a música que eu vivo e também a trilha sonora da minha infância e adolescência.

 

Esse cosmopolitismo está desde logo vertido na constituição do grupo, multinacional, criado em 2016. Em que circunstâncias se proporcionou a formação deste sexteto?

Em 2015 fui convidada para dirigir a big band do festival Tallers Musicals de Avinyó, na Catalunha/Espanha. Foi uma vivência muito bonita onde dirigi mais de 60 músicos. Os organizadores ficaram muito felizes com o resultado e convidaram-me para voltar no ano seguinte, desta vez dirigindo uma banda menor e na forma de um tributo a Hermeto Pascoal, que fez 80 anos em 2016. Tive que convidar somente músicos que morassem na Europa, pois o festival não poderia pagar pelas passagens aéreas de músicos vindos do Brasil. Meu primeiro pensamento foi tentar encontrar músicos brasileiros que morassem na Europa… Mas aconteceu algo surpreendente: conheci a genial cantora dinamarquesa Mette Nadja no Rio de Janeiro. Assim que escutei o seu canto pela primeira vez, soube que ela seria perfeita para o projeto. Então Mette não só apresentou-me os outros músicos da banda, como produziu, naquele ano, a nossa digressão na Alemanha e Dinamarca. No final da digressão, depois de quase um mês, os músicos reuniram-se e disseram-me que gostariam de continuar com o projeto. Então estamos aqui, seis anos depois, cada vez mais motivados para fazer música juntos.

 

Como foi o processo que levou à edição do disco de estreia, “Nascentes”?

Ao longo desses seis anos de banda fizemos muitas digressões na Europa e no Brasil. Foram digressões longas, onde pudemos desenvolver o nosso som aos pouquinhos e eu, enquanto arranjadora, tive a oportunidade de escrever para músicos fantásticos, e também profundamente comprometidos em fazer o melhor para que a música soasse bem. Gravar o disco em 2019 foi consequência natural. O trabalho já estava pronto e os músicos, apesar de seus “jazz backgrounds”, já haviam estado bastante em contato com a música universal e os ritmos brasileiros.

 

«A música universal é uma mistura de músicas do mundo, onde cabem as influências mais inimagináveis que possam imaginar. No meu caso são as minhas influências, mas todos temos influências diferentes. Eu digo que como pessoa sou brasileiro, mas como músico sou universal», disse Hermeto. Quer falar-nos um pouco deste conceito?

O conceito de música universal é muito aberto e basicamente é um convite para que todos os músicos toquem e componham o que os inspiram, sem barreiras estilísticas e estéticas. Eu sinto-me muito livre para misturar diferentes influências, criando com liberdade e sempre aberta para escutar coisas novas e ser inspirada por elas. Há uns dois anos tive uma conversa com o meu pai Itiberê Zwarg e Hermeto e falamos no quanto é importante que cada um de nós encontre e toque a nossa própria música universal. Eu transito pelos ensaios do Hermeto e também toco no grupo do meu pai há muitos anos, então seria fácil observar e reproduzir alguns sons e padrões. Mas a música universal não é sobre isso, é mais sobre não seguir regras e sim o seu coração, a sua inspiração. Por exemplo, como a minha banda é composta por músicos europeus, eu não posso esperar que eles soem como brasileiros. Mas a chave da questão é: como deixar a minha banda livre para criar e ainda sim deixar a essência da música que eu compus presente. Eu peço para que eles se inspirem nos ritmos brasileiros e não que copiem os ritmos brasileiros. Isso faz muita diferença para mim. Eu, por exemplo, amo música sul-americana e também amo jazz. Mas tenho clareza que eu nunca vou tocar essas músicas de maneira fidedigna, pois as minhas raízes são outras e não tive estudos formais nessas áreas. Isso não impede que ambos estejam presentes nas minhas composições e arranjos, da forma como me inspiraram, sem compromisso com estética e perfeição.

 

Para além deste primeiro registo discográfico, já tem atrás de si todo um percurso de trabalho. Quer destacar alguns momentos que tenham sido particularmente gratificantes?

Tenho memórias inesquecíveis de cada digressão, de cada lugar em que tocámos. Seja num grande festival ou num clube de jazz pequeno, muitas vezes fecho os olhos e lembro-me desses momentos bonitos e de cada lugar. Ver a minha música ganhar vida e sentir a paixão dos músicos da minha banda por cada nota que eu componho emociona-me e move-me.

 

Em que medida as figuras tutelares que são o seu pai Itiberê e o seu padrinho Hermeto estão presentes na sua música e influenciam a sua abordagem?

Esses dois são as minhas principais inspirações, que me inspiram na música e na vida. É uma honra para mim ser filha e afilhada. É também um desafio desenvolver a própria identidade… Mas conto com o apoio incondicional e também a torcida deles para que eu crie os meus sons e voe cada vez mais em direção ao que me inspira.

 

Para além destas, quais são as suas principais referências, musicais e não só?

O flautista brasileiro Teco Cardoso, a flautista francesa Amina Mezaache, a cantora e compositora brasileira Joyce Moreno. Três artistas que me inspiram profundamente.

 

Como tem sido a receção à vossa proposta, por exemplo, em públicos não-latinos?

Posso dizer que 70 por cento dos nossos concertos até hoje foram na Alemanha e em toda a Escandinávia, então posso dizer que a receção é maravilhosa. Depois das primeiras digressões por lá comecei a receber também muitos convites para aulas e workshops nas universidades nórdicas.

 

O que há de jazz no mundo criativo do sexteto? O elemento “improvisação” está presente e condiciona o que acontece?

A liberdade do jazz está presente no som do sexteto, a improvisação também está muito presente nos nossos concertos e há espaço para criação a todo o tempo, apesar de termos muito arranjos complexos e densos. É uma mistura e os diferentes elementos estão presentes em proporções que mudam a todo o tempo.

 

O que está nos planos para os tempos mais próximos?

Voltamos para a Europa em maio e também em setembro. Em 2023 quero muito gravar nosso novo álbum.

 

Para saber mais:

https://www.marianazwargsexteto.com/ 

Agenda

01 Outubro

Jorge Moniz “Cinematheque”

Fórum Cultural do Seixal - Auditório Municipal do Seixal - Seixal

01 Outubro

Orquestra de Jazz de Espinho & Orquestra Clássica de Espinho “Kind of Blue”

Auditório de Espinho - Espinho

01 Outubro

Quarteto Cabaud / Marques

Hot Clube de Portugal - Lisboa

02 Outubro

Desidério Lázaro Quarteto

Espaço Espelho d'Água - Lisboa

02 Outubro

Zé Eduardo Trio e Lighthousers

Cantaloupe Café - Olhão

03 Outubro

Ernesto Rodrigues, Daniel Levin, Maria da Rocha e João Madeira

Cossoul - Lisboa

04 Outubro

Luke Winslow-King

Auditório Carlos Paredes - Lisboa

04 Outubro

Stanley Jordan

Douro Jazz - Teatro Municipal de Vila Real - Vila Real

05 Outubro

Nicole Mitchell

Museu Nacional Machado de Castro - Coimbra

05 Outubro

Luke Winslow-King

Casa da Cultura - Setúbal

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