Elliot Mason e Sofija Knezevic, 8 de Novembro de 2021

Alinhar os planetas

texto António Branco fotografia Luís Belo

Com apenas quatro anos de idade, o inglês Elliot Mason (n. 1977) recebeu as primeiras aulas de trompete ministradas em casa por seu pai, o músico e professor Barry Mason. Quando, três anos depois, decide adotar o trombone, logo revela o virtuosismo que o levará até Boston e, mais tarde, a fixar-se em Nova Iorque. Com uma abordagem abrangente, integra diversos projetos, dos mais tradicionalistas a outros nos quais revela em maior profundidade as suas aptidões enquanto instrumentista e improvisador.

Depois de anos de rodagem a tocar em salas de concerto, clubes e “pubs”, e de ter vencido alguns prémios, inclusivamente ao lado do irmão, o trompetista Brad, Elliot parte para os Estados Unidos ao encontro deste no Berklee College of Music, onde estuda com nomes referenciais como Hal Crook e Phil Wilson, entre outros. Continua a vencer prémios, como o prestigiado Frank Rosolino Award, em 1994, ou o Slide Hampton Award. Completos os estudos superiores, mudou-se para a Big Apple, onde se distinguiu no trombone e no mais raro trompete baixo.

Em 2006, foi convidado para se tornar membro da Jazz at Lincoln Center Orchestra (JLCO), dirigida por Wynton Marsalis, com a qual tem gravado abundantemente. Em simultâneo, colidera o Mason Brothers Quintet com o irmão Brad. Inicia também um percurso enquanto académico na Universidade de Nova Iorque e, mais tarde, na Juilliard School of Music. Do seu currículo constam colaborações com Count Basie Orchestra, Mingus Big Band, Maria Schneider Orchestra, Ted Nash Big Band, Maynard Ferguson Big Bop Nouveau, Toshiko Akiyoshi Orchestra, Ahmad Jamal, Chick Corea, Bobby Hutcherson, Joe Lovano, Dave Liebman, Chris Potter, Branford Marsalis, para apenas citar alguns. O seu álbum de estreia na condição de líder, “Before, Now & After”, foi editado em 2018 e conta com a participação da cantora sérvia, e sua mulher, Sofija Knezevic (n. 1990).

Nascida em Belgrado, Sérvia, Knezevic tem vindo a erguer uma interessante atividade como cantora e educadora. Ancorada na tradição do género, tem sabido desenvolver uma voz própria, revelando qualidades especiais enquanto improvisadora. Licenciou-se na Universidade de Música e Artes Performativas, em Graz, Áustria, na turma de Dena DeRose. Ganhou vários prémios, entre os quais o programa Betty Carter Jazz Ahead, que promove talentos emergentes, o Marianne Mendt Jazz Award e o Thailand International Jazz Voice Competition, em 2016, entre diversos outros. Já teve direito a verbete próprio na Enciclopédia do Jazz Sérvio.

Sofija vive em Nova Iorque desde 2011, ensinando técnica vocal em várias escolas e estúdios. Tem trabalhado com figuras de relevo como Sheila Jordan, Jason Moran, Terence Blanchard, Wynton Marsalis, Tim Hagans, James Moody, Joey Alexander e Christian McBride. É também embaixadora de diversas instituições, como a Campanha Estée Lauder para o cancro da mama. Foi distinguida em primeiro lugar na lista das 30 pessoas mais bem-sucedidas com menos de 30 anos da revista Elle e considerada pela Cosmopolitan uma das mulheres mais belas do mundo. Publicou dois livros na série “Evolution of Voice: The Art of Breathing”, em 2019, e “The Art of Warming Up”, no ano seguinte.

Editou em 2020 o seu álbum inaugural, “Sofijazz”, com material de sua autoria. Como compositora, escreveu também letras para o sexteto do saxofonista (e membro da JLCO) Sherman Irby (“A New Christmas Story”), e para os Jazzotron, entre outros artistas e formações. Tem composto e gravado música para cinema, incluindo um documentário sobre a sua própria vida, e para o filme “Balkan Spirit”, de Hermann Vaske, onde contracenou com Marina Abramovic e Angelina Jolie. Juntamente com Elliot Mason, já escreveu música para o MoMA de Nova Iorque e o Museu Crystal Bridges no Arkansas.

“Slidin’ Easy” é o nome do espetáculo que Elliot Mason e Sofija Knezevic apresentam juntamente com a Orquestra de Jazz de Espinho. Estiveram ambos à conversa com a jazz.pt.

 

O que podemos esperar do vosso concerto com a Orquestra de Jazz de Espinho?

[Elliot Mason, EM]: Esperamos levar um divertido, mas rico concerto, que abranja um conjunto de emoções, com conversas musicais entre a Sofija, eu próprio e a maravilhosa orquestra.

[Sofija Knezevic, SK]: Podem esperar muita musicalidade com sentido partilhada em palco. Estamos ambos bastante entusiasmados por trabalhar com os talentos da orquestra, trazendo à vida a música em que estamos a trabalhar.

 

Será a vossa primeira vez em Portugal?

EM: Já tive o prazer de viajar várias vezes em Portugal. A minha primeira visita foi quando era bastante jovem, numas férias em família. A segunda vez foi num concerto com a Jazz at Lincoln Center Orchestra, com Wynton Marsalis. A mais recente foi a minha favorita, pois pude experimentar a cultura, o amor e o apreço que as pessoas têm pelo jazz e pela música de todos os estilos. E também já tinha idade para provar o vinho do Porto! [risos]

SK: Será a minha primeira vez em Portugal e não posso esperar por experimentar a cultura e a arte do vosso belo país.

 

Como surgiu o contacto com a orquestra?

EM: Durante o último ano da pandemia, tive o prazer de me ligar a músicos e professores de todo o mundo, muitos dos quais não conhecia antes. Um dos estudantes é Hugo Caldeira, um trombonista português extremamente talentoso, cuja musicalidade e vontade de aprender, e a sua pura personalidade de ouro, trouxeram-no para o meu radar. O Hugo ajudou a arranjar esta colaboração. Por ironia, ele mudou-se recentemente para Nova Iorque para estudar na Manhattan School of Music e não vai tocar com a Orquestra de Jazz de Espinho neste concerto, mas estou desejoso de nos juntarmos para ouvi-lo pessoalmente quando regressarmos a Nova Iorque.

 

Estão de alguma forma familiarizados com o jazz que se faz hoje em dia em Portugal?

SK: Sigo alguns músicos de Portugal. E estou a pensar em várias colaborações em álbuns futuros. Há tantas cantoras/cantores em Portugal que será um prazer gravar e atuar com elas/eles.

 

Podem revelar algum do repertório que irão apresentar em Espinho? Assumo que será fundamentalmente material dos álbuns “Before, Now & After” e “Sofijazz”… Podemos esperar também algumas surpresas?

EM: Temos algumas surpresas na manga. Alguma música nova e novos arranjos, combinados com alguns clássicos. Mas a orquestra também trará coisas de que não estamos à espera e vão surpreender-nos também!

SK: Haverá algumas surpresas, o Elliot tem escrito peças extraordinárias para orquestra, e uma delas nunca ouviram, que bem pode ser a minha composição preferida dele. Será por isso uma ocasião especial, bem como algumas peças que apresentaremos pela primeira vez.

 

Como aconteceu o vosso encontro musical? Que tipo de química existe entre vós?

EM: Foi amor à primeira audição! A voz da Sofija é verdadeiramente única, e é muito difícil descrevê-la, uma vez que não soa como a de nenhuma outra vocalista. Ela tem este enorme instrumento com imenso corpo e caráter, enquanto sussurra e respira “nuances” que hipnoticamente requerem a nossa atenção total. Como improvisadora, ela canta qualquer coisa que eu toque, pelo que a música raramente é sacrificada/simplificada para ir ao encontro das capacidades de cada um. Este amor, admiração e química em palco continua ao longo das nossas vidas quotidianas, o que nos ajuda a crescer mesmo fora do palco.

SK: O Elliot e eu conhecemo-nos num clube de jazz, e se forem ouvir o Elliot tocar pela primeira vez na vossa vida, então fico com ciúmes da vossa experiência, pois recordo-a vividamente. E, se forem músicos, ao ouvi-lo tocar quererão ter forma de tocar qualquer coisa com ele. Tenho a sorte de também poder trabalhar com ele na música, no processo de escrita, e isso tem sido ainda mais especial, porque ele é um compositor muito talentoso. A primeira vez que tocámos juntos foi num concerto meu num pequeno clube em Manhattan. Estavam lá outros grandes músicos, mas fiquei mais feliz de tocar com o Elliot. E questiono-me de como fico confiante em tocar em concerto com alguém como ele, que é um monstro no instrumento. Tudo o que posso dizer é que somos todos diferentes e temos coisas diferentes para trazer para a mesa. O máximo que conseguimos fazer num concerto é sermos honestos com aquilo que damos de nós próprios, e se nos conseguirmos inspirar uns aos outros para sermos honestos e mantermos o sentido das nossas criações, então completamos as musicalidades uns dos outros.

 

Como se descrevem enquanto músicos? Que tipo de emoções tentam transmitir a quem vos escuta?

EM: Os meus músicos/concertos favoritos estão cheios de conteúdo emocional. Tentamos ambos utilizar as nossas próprias experiências de vida, as boas e as más, para ajudar a adicionar um nível mais profundo de intenção naquilo que dizemos. A música não é nada sem emoção. Pormos o nosso coração e a nossa alma no que fazemos tornou-se uma parte integral da nossa música e o principal combustível para a evolução da nossa jornada.

SK: Pensamos muito sobre isto em casa. O meu objetivo na música não é apenas ser proficiente e intelectual, mas também criar emoções que mexam com as pessoas. As emoções que elas trazem consigo vão além do concerto. Dito isto, gostamos de nos desafiar a nós próprios e ao outro nos nossos instrumentos, por isso nunca é uma tarefa fácil, são múltiplas camadas de musicalidade e presença no momento.

 

As vossas abordagens estão ancoradas na tradição. Gostam de questionar esta tradição, trazendo outros elementos para a vossa música?

EM: A tradição pode ser facilmente confundida com copiar os mestres e tentar recrear o que eles fizeram. Para mim, tradição é ter o conhecimento e o sentimento do que chegou primeiro, mas permitir que as perspetivas/personalidades próprias possam brilhar através dela.

SK: Na canção “Before, Now & After”, para a qual escrevi a letra, falo sobre este assunto particular. Sinto que a chave é conhecimento, estudo, análise e estar atento à grandeza que foi criada antes da minha existência musical, e então construir a minha própria expressão sobre ela. À medida que ficamos mais velhos, que compreendemos melhor e encontramos novos significados nos outros e na arte dos outros (eu digo arte porque não se trata apenas de a música que cria música), evoluímos. E com isso as nossas criações evoluem também.

 

Emoções e memórias

 

Recuemos um pouco no tempo. Lembram-se de como a música, e o jazz em particular, entrou nas vossas vidas?

EM: Os meus pais são músicos de jazz. O meu pai foi um professor que tocou trompete, trombone e trompete baixo e a minha mãe foi vocalista. Desde tão cedo quanto me consigo lembrar houve sempre jazz em casa, se alguém não estava a ouvir, estava a estudar. Para mim, isto criou uma imensa curiosidade pelos extravagantes objetos de metal na sala proibida!

SK: Era muito nova quando ouvi o disco de Ella [Fitzgerald] e Louis [Armstrong] e apaixonei-me por ele. Esse amor nunca desapareceu. Foi refreado porque o jazz não era uma música comum para estudar numa escola de música, era música clássica. Mas a oportunidade surgiu e o meu coração encontrou o caminho de casa.

 

Elliot, começou as aulas de trompete com o seu pai, Barry Mason, aos quatro anos de idade. Aos sete, mudou o foco para o trombone. Porquê esta mudança?

EM: Quando tinha quatro anos tentei tocar o trompete baixo Bach Mount Vernon do meu pai e isto resultou em ter o meu próprio trompete. Aos sete, o meu pai pensou que a minha embocadura se adequava melhor ao trombone, bem como anteviu dois irmãos competindo no mesmo instrumento. A princípio, ressenti-me ligeiramente, mas fiz a mudança e agora estou muito agradecido.

 

São ambos não-americanos de nascimento. O que procuraram nos Estados Unidos que não encontraram nos vossos países de origem, Inglaterra e Sérvia? Têm uma personalidade cosmopolita e de que modo esta passa para a vossa música?

EM: Há excelentes músicos de jazz em Inglaterra e tenho a sorte de viajar e ligar-me a músicos fantásticos um pouco por todo o mundo. O jazz é uma linguagem. Se eu quisesse aprender Português, teria aulas, iria à escola, leria livros e consultaria aplicações, mas seria muito desafiador apanhar as subtilezas, as “nuances”, as acentuações e a terminologia como um nativo. O jazz é similar, envolve o invisível, coisas que não se explicam com palavras. Mudar-me para os Estados Unidos fez-me apreciar a oportunidade de estar com mestres e de absorver lições sem preço que passaram ao longo de gerações.

SK: Belgrado, a minha cidade natal, é como uma pequena Nova Iorque. Eu sabia que se houvesse algum lugar no mundo onde viveria teria de ser uma versão ampliada de Belgrado, por isso foi uma escolha natural. Mas a escolha teve a ver com o facto de a maior quantidade dos melhores músicos de jazz do mundo viverem em Nova Iorque, ou perto. E há sempre escolhas que uma pessoa jovem tem de fazer: ficar em casa e talvez ter uma carreira como uma jovem estrela do jazz (porque não há muita competição em ambientes pequenos) ou ir para um lugar como Nova Iorque e tocar com todos estes músicos diferentes, aprender mais e experienciar mais. Ambas as escolhas são válidas, eu apenas fiz a segunda, porque como jovem queria experiências diferentes. E estou muito grata por ter feito essa escolha, não é fácil sobreviver em Nova Iorque.

 

No álbum “Before, Now & After” apresenta as suas próprias leituras de clássicos de Duke Ellington – “Caravan”, “In A Sentimental Mood” –, bem como de “Resolution”, de John Coltrane... Ellington e Coltrane continuam a ser fontes de inspiração?

EM: Coltrane e Ellington são referências absolutas para mim. Durante as fases iniciais, tive uma encomenda do MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, para escrever uma peça para a “Summer Garden Series”. À medida que explorava diferentes abordagens de associar os valores dos museus aos meus próprios valores, as similaridades entre as artes visuais e o jazz como forma de arte, começaram a ser mais reveladoras para mim. A minha ideia era trazer o ouvinte para mais perto do conhecimento e dos tesouros criativos do passado, deixados para nós pelos grandes, com uma nova roupagem e uma atmosfera sónica que representasse o agora e que, de alguma forma, ajudasse as gerações futuras a fazer a ponte para o passado. Todos os mestres tiveram impacto em mim de alguma forma, como Freddie Hubbard, J. J. Johnson, Woody Shaw, Frank Rosolino, McCoy Tyner, Steve Grossman, Chick Corea, etc. São demasiados para os mencionar a todos!

 

É membro da Jazz at Lincoln Center Orchestra (JLCO) desde 2006. Do que mais gosta quando toca com uma grande orquestra?

EM: É extremamente recompensador. Estou muito grato não apenas por tocar jazz como modo de vida, mas por tocar de modo contínuo música nova e clássica do que parece ser uma biblioteca infinita. Cobrimos de forma diversa a forma de arte que é a paixão da minha vida, e faço isto com alguns dos melhores músicos de jazz da atualidade. Tocar com Wynton [Marsalis] e as personalidades únicas na JLCO influenciou-me, sem dúvida, nas minhas escolhas musicais. O Wynton disse recentemente: «Ser membro da JLCO significa que posso não solar tantas vezes como numa configuração mais pequena, mas sou um melhor músico para tal.». Isto realmente tocou-me, posso não solar tantas vezes quantas gostaria, mas escutar a perspetiva única de cada um, enquanto toco música cobrindo todas as eras do jazz, aumentou sem dúvida o meu nível de musicalidade.

 

Com o seu irmão Brad, trompetista, colidera o Mason Brothers Quintet. Têm planos para a continuação de “Two Sides, One Story” (2012) e “Efflorescence” (2016)?

EM: O meu irmão Brad e eu tocamos juntos desde que tínhamos quatro anos de idade. É maravilhoso, temos uma ligação musical como nenhuma outra que eu tenha experimentado. Desde terminar as frases um do outro, a começar frases novas em harmonia, fico muitas vezes chocado quando isso acontece, mas, de alguma forma, ambos esperamos e sabemos que isso acontece sempre que tocamos. Estou muito desejoso de avançar com os nossos próximos projetos, temos duas ideias prontas: uma são arranjos de “standards” e a outra é uma suíte nova que continua na mesma direção dos nossos álbuns anteriores.

 

É um compositor talentoso, bem como um dotado improvisador. Como gere o equilíbrio entre composição e improvisação?

EM: São a mesma coisa, a única diferença com a improvisação é que não temos o luxo de editar as melodias que compomos. Uma trabalha de mãos dadas com a outra e completam-me enquanto músico. Sinto-me musicalmente incompleto mesmo quando estou a tocar todos os dias, mas não encontro tempo para compor, e vice-versa.

 

Tem uma “zona de conforto”? De que modo gosta de correr riscos musicais? Reparo na forma como ilumina velhos elementos do jazz com uma luz contemporânea, sem se desligar da história do género…

EM: Gosto de correr riscos a expensas próprias, individualmente, com a possibilidade de o nível musical ser elevado. Temos de estar extremamente confortáveis para sair da zona de conforto durante um concerto. Mas esses momentos mais expostos e vulneráveis são muitas vezes os mais intuitivos e também nos momentos das decisões tomadas por todos. Se entro em palco sabendo o que vou tocar, sim, estarei confortável, mas também mais longe de ter uma conversa no momento.

 

Tem sido professor em várias universidades. Que tipo de conselhos dá aos músicos mais jovens de modo a que estes possam desenvolver o seu próprio som?

EM: Como músico, passa-se uma quantidade infinita de tempo a tocar e a estudar sozinho. Muitas vezes, isto pode ajudar a chegar ao centro de quem somos enquanto pessoas. Quando comecei a desenvolver o meu vocabulário musical, mergulhei no trabalho dos grandes do jazz, tentando absorver influências em vez de imitá-los. Sempre tentei gravitar em torno da minha própria voz e na minha forma de expressão pessoal, dedicando muito tempo a dar sentido à música que tinha dentro. A essência de quem somos é destilada quando improvisamos. Toda a gente tem um som distintivo, mas o estudo é crucial nessa expressão sonora. Para mim, como se conta a estória define a nossa própria voz. A entrega é tão importante quanto o conteúdo, isto está claramente refletido no trabalho dos mestres do jazz. Alguém com uma intenção por trás do solo pode falar connosco, mesmo que não falemos a língua. O que me ajuda a evoluir continuamente é examinar de forma rotineira os meus motivos e prioridades. Sinto que, como artista, nada influencia mais a nossa voz individual do que alimentá-la com a nossa história de vida. Abraçar as nossas experiências, positivas e negativas, e deixá-las impactar o que dizemos e como escolhemos dizê-lo.

 

Sofija, como foi crescer num ambiente político e social tão trágico e turbulento como aquele que se viveu nos Balcãs nos anos 1990?

SK: Bem, eu nasci em 1990. E os conflitos que estavam a acontecer não eram perto de mim, felizmente. A guerra estava a ter lugar nos países vizinhos, exceto os bombardeamentos da NATO na Sérvia, em 1999, e infelizmente estava lá. A política é complicada, não posso dizer que a minha família não ficou magoada, mas também o ficaram outras famílias. As guerras são lideradas principalmente por pessoas que querem mais poder, e é sempre fácil sacrificar e atacar o inocente, enquanto as pessoas que instigam continuam seguras e incólumes.

 

Estudou com Dena DeRose na Universidade de Graz, na Áustria. Em que medida foi importante estudar com ela e que lições guarda desses dias?

SK: A Dena “swinga”! Tive muita sorte de estudar com muitos grandes professores na universidade, estimo os meus dias lá. Foram algumas das pessoas que me moldaram como música, e como vocalista. Se não fosse a minha professora de voz “clássica”, Mary Lubahn, não poderia ser tão boa vocalista como sou agora e isto é um facto. Ela abriu os meus horizontes de muitas formas diferentes e por causa dela comecei a investigar sobre a voz e escrevi dois livros.

 

Sim, na série “Evolution of Voice” sobre técnicas vocais: “The Art of Breathing” em 2019 e “The Art of Warming Up” em 2020. Tem planos para continuar a escrever e a comunicar com vocalistas de jazz?

SK: Sim, sem dúvida. Foi um ano cheio, por isso não me foi possível dedicar muito tempo à escrita, mas vai haver mais livros meus nos próximos anos. Ambos os livros são dirigidos a vocalistas contemporâneos e abordam várias matérias. Muitos dos meus alunos consideram-nos muito úteis na abordagem a um novo repertório de jazz.

 

Quem são as suas cantoras de jazz favoritas? Dê-nos exemplos de gravações que contribuíram para definir o seu estilo e direção artística…

SK: Sarah Vaughan, Anita O’Day, Ella Fitzgerald, Carmen McRae, Blossom Dearie, Lorez Alexandria, etc. Há tantas cantoras de jazz incríveis na história do género, que levaria dias a nomeá-las e todas tiveram uma grande influência na minha própria expressão artística. Algumas das minhas gravações favoritas de cantoras de jazz que ainda adoro ouvir são “Time After Time” de Sarah Vaughan, “I’m Hip” de Blossom Dearie, “Guess Who I Saw Today” de Nancy Wilson, “Airmail Special” e “Billy Boy” de Ella FItegerald, “I’m Glad There Is You” de Carmen MacRae, “Sweet Georgia Brown” de Anita O’Day e muitas outras.

 

Escreveu e gravou música para vários filmes, incluindo um sobre a sua própria vida musical. O que mais lhe interessa na relação entre música e imagens?

SK: Tudo é arte. O visual e o sonoro, juntos, podem elevar a experiência. Cresci numa família de artistas visuais, por isso para mim estão ligados, não apenas o som e a imagem, mas também o movimento, o toque e o sabor. Tudo é desencadeado por emoções e memórias, e se bem ligado, é mágico.

 

Como está hoje o jazz sérvio? Pode recomendar-nos alguns nomes a que deveremos estar atentos?

SK: A Sérvia está cheia de talento musical. Há muitos jovens artistas a surgir, agora que têm um bom som. Alguns deles são Luka Ignjatovic [saxofonista], Pedja Milutinovic [baterista e compositor] e Rastko Obradovic [saxofonista], entre muitos outros.

 

De que forma a pandemia de Covid-19 e os confinamentos afetaram a vossa atividade enquanto músicos e educadores?

EM: Tudo mudou. Eu mantive-me ativo, abrindo o meu estúdio e ligando-me a músicos maravilhosos de todo o mundo. Vi muita gente a esgotar depressa e mesmo a questionar se queriam continuar a estudar música. O que me ajudou foi entender o porquê de fazermos isto, relaxar algumas das práticas críticas e tocar canções de que gosto, garantindo que olhava para o meu instrumento com amor em vez de ser algo sem fim à vista. Quando concertos como este começaram a aparecer, a minha apreciação como músico, educador e ouvinte está nos altos, o que acredito ser evidente no espírito da música.

SK: Mudou, mas não posso dizer que tenha estado menos ativa. Mas ativa de forma diferente. Dedicámos o nosso tempo a dar aulas “online”, a escrever música, a fazer planos musicais e também a gravar em casa, com amigos de todo o mundo. Foi devastador e excitante ao mesmo tempo. Foi maravilhoso tocar com outras pessoas, mas o sentimento de tocar em pessoa não pode ser igualado.

 

Podem partilhar os vossos planos para os próximos meses?

EM: A JLCO vai estar em digressão: nos próximos seis meses estaremos quatro na estrada. Eu e a Sofija temos dois álbuns em preparação, tentando encontrar tempo para “alinhar os planetas” e juntar toda a gente na mesma sala é uma parte desafiadora! Mas o nosso amor e paixão por tocar e criar nova música em conjunto para estes próximos projetos mantém-nos motivados, inspirados e desejosos da próxima oportunidade para criar.

SK: Muitas viagens, concertos, aulas, escrever arranjos e canções e aproveitar a vida enquanto podemos, nas pequenas pausas que temos.

 

Para saber mais

https://www.elliotmason.org/

https://www.sofijazz.com/