Bernardo Moreira, 13 de Setembro de 2021

Uma viagem coletiva

texto António Branco fotografia Márcia Lessa

Bernardo Moreira levou vários anos a concretizar o novo álbum “Entre Paredes”, entre a análise aturada das peças de Carlos Paredes, todo o trabalho de absorção e processamento desse universo tão característico, a fase de composição e a gravação, que foi sendo adiada por culpa da situação pandémica, e que só teve lugar no início de novembro de 2020, no Convento de São Francisco, em Coimbra, cidade natal do genial guitarrista e do pai do contrabaixista.

Para este novo álbum, Moreira operou algumas alterações ao seu sexteto, que agora se completa com o seu irmão João Moreira no trompete, Tomás Marques no saxofone alto, Mário Delgado na guitarra, Ricardo J. Dias ao piano e Joel Silva na bateria. O registo tem chancela da JACC Records, editora sediada também na cidade do Mondego, que assim inaugura uma nova série de discos intitulada “Terra” e que juntará os trabalhos que, embora situados no universo jazzístico, têm ligações com outros domínios da música portuguesa e dos países lusófonos.

Neste novo álbum, Bernardo Moreira propôs-se inverter o processo de abordagem: se no primeiro sente que foi Carlos Paredes a vir ter consigo, enquanto músico de jazz, hoje entende que havia chegado o momento de ser ele a ir ter com o Mestre. O seu percurso, nos últimos anos, deu-lhe a segurança e a possibilidade de compreender a linguagem e as fundações que sustentam a música de Paredes. E deste processo, que envolve Wayne Sorter, nasceu “Entre Paredes”, lançado no passado dia 23 de julho, curiosamente o dia do falecimento de Paredes (em 2004) e o do aniversário do contrabaixista.

Bernardo Moreira nasceu em Lisboa, em 1965, no seio de uma família com pergaminhos nos meios cultural e jazzístico. É filho de Bernardo Moreira (Binau), engenheiro e contrabaixista do lendário Quarteto do Hot Clube de Portugal e posteriormente presidente da direção do clube, e da poeta, romancista e ensaísta Yvette Centeno. Iniciou os seus estudos musicais formais aos 16 anos, tendo frequentado a Academia dos Amadores de Musica de Lisboa e estudado com Fernando Flores, Niels-Henning Ørsted Pedersen, Rufus Reid e Reggie Workman.

Em meados da década de 1980 fundou com os seus irmãos Pedro, Miguel (que abandonou a prática musical profissional para enveredar pela astrofísica, tendo sido então substituído ao piano pelo primo, Bernardo Sassetti) e João, o grupo Moreiras Jazztet, com o qual participou em vários festivais e concertos por todo o país e no estrangeiro e gravou o álbum “Luandando” (Groove/Movieplay, 1995) com o trompetista Freddie Hubbard, e o Moreiras Quinteto.

Ao longo do seu vasto percurso, tem tido ensejo de tocar e gravar com uma infinidade de músicos de jazz como Al Grey, Benny Golson, Bruce Barth, Carl Burnett, Carlo Morena, Conrad Herwig, Curtis Fuller, Daniel Humair, Eddie Henderson, Enrico Rava, Frank Lacy, John Stubblefield, Julian Argüelles, Mark Turner, Norma Winstone, Perico Sambeat, Rick Margitza, Steve Nelson e Wayne Shorter.

Entre nós já tocou com (quase) toda a gente, do jazz e não só, sendo de destacar a sua longeva relação com o pianista e compositor Mário Laginha, em vários contextos. Tem acompanhando fadistas e cantores de relevo, como Camané e Cristina Branco. Com Paula Oliveira, homenageou poetas e compositores da música portuguesa nos álbuns “Lisboa que Adormece” (Universal, 2005) e “Fado Roubado” (Universal, 2007). Realizou concertos com inúmeras formações, como a Orquestra Metropolitana de Lisboa e a Big Band do Hot Clube de Portugal, com quem gravou um álbum para a Polygram (com Benny Golson, Curtis Fuller e Eddie Henderson).

A sua discografia inclui ainda, entre outros, títulos relevantes como “Encontro em Lisboa” de Eddie Henderson (Movieplay, 1994), “Tom Maior” (Groove, 1995) de Nanã Sousa Dias, “The Next Music” (Groove, 1996), do trio de Carlo Morena com Rick Margitza, “Tudo Muda” com Steve Slagle (Movieplay, 1998), “Conferência dos Sons” (Up Beat, 1999), de Paulo Gomes e Fátima Serro, “This Is It” (Numérica, 2008), de André Sarbib, “Guimarães Jazz/TOAP Colectivo Vol. 2” (Tone of a Pitch, 2008), “Espaço” (Clean Feed, 2007), “Mongrel” (ONC. 2010) e “Terra Seca” (ONC, 2013), estes três do trio de Mário Laginha (o último com a guitarra portuguesa de Miguel Amaral), e “Iridescente” (Universal, 2012), de Maria João e Mário Laginha.

Tem igualmente desenvolvido atividade na área do ensino, como professor da Escola de Jazz Luiz Villas-Boas do Hot Clube de Portugal e da Escola Superior de Música de Lisboa. Um percurso que deu pistas para a conversa com a jazz.pt.

 

Quase vinte anos depois de “Ao Paredes Confesso”, retomas o teu projeto de homenagem ao génio maior da guitarra portuguesa, com “Entre Paredes”. Para além do xadrez instrumental, que alteraste ligeiramente (designadamente, trocando uma das duas guitarras por piano), quais os paralelismos e as diferenças que identificas entre ambos os álbuns?

Senti sempre que a minha abordagem à música de Carlos Paredes podia ser uma viagem com dois momentos bem distintos e de percurso inverso. Se no primeiro álbum, “Ao Paredes Confesso”, a predominância de todo o universo jazzístico me parece evidente, neste “Entre Paredes” tudo me soa muito mais subtil. É na verdade a segunda parte da história que ficou inacabada e um regresso às origens e à verdadeira essência de um universo que nos é tão próximo e familiar. Eu diria que, sendo dois álbuns muito diferentes, acabam por se completar e são, na verdade, o reflexo um do outro.

 

Consegues precisar o momento em que contactaste pela primeira vez com a música de Paredes? É mesmo verdade que tocaste com ele? Conta-nos o episódio...

É a mais pura das verdades: toquei com ele e digo, com toda a honestidade, que hoje sei que não estava minimamente preparado. Estávamos no final dos anos 1980, talvez 87, 88, e eu tinha acabado de receber um convite do Mário Laginha, para integrar o seu quarteto (felizmente o convite mantém-se até hoje). Um dos primeiros concertos foi no Porto, penso que no Rivoli. Na primeira parte tocava a solo Carlos Paredes que, rapidamente e muito amavelmente, nos sugeriu que no final fizéssemos uma improvisação livre, conjunta. Lembro-me de ficar absolutamente maravilhado e rendido ao mestre. Aquela sonoridade nunca mais me saiu da cabeça e levei alguns anos a processar tanta emoção.

 

Soubeste recentemente que o teu avô paterno, professor de Direito em Coimbra, chegou a acompanhar Artur Paredes, pai de Carlos Paredes...

É uma curiosidade engraçada, começo a achar que o gene do fado e da canção de Coimbra passou do meu avô diretamente para mim, saltando o meu pai que, tendo nascido em Coimbra, gosta mesmo é de jazz.

 

Conheces muito bem todos os músicos que estão contigo. Acomodaste contributos que levaram o som da formação para onde não tinhas inicialmente pensado ou tudo estava fechado na tua cabeça?

É um luxo poder escolher com quem se trabalha. Por muito que algumas das ideias já estivessem estruturadas e bem definidas, o processo de criação com músicos deste calibre é sempre um processo coletivo. A experiência de grande parte deles noutras áreas como o fado e a música popular portuguesa foi absolutamente preciosa na definição e na construção do som do disco.

 

Tempos houve em que a relação entre os universos do jazz, de onde provéns, e da música popular portuguesa não foi a mais próxima...

Os meios eram bem mais fechados e a informação circulava devagar. Os músicos de jazz eram muitas vezes acusados de serem arrogantes, elitistas e de não quererem grandes “misturas”. Confesso que tive a minha fase de músico de jazz iludido que, felizmente, me passou depressa. Um dos concertos da minha vida continua a ser o de Fausto Bordalo Dias, no Terreiro do Paço, no ano de 1998, em que na véspera recebi um telefonema desesperado do André Sousa Machado a pedir-me que substituísse Vítor Milhanas, que tinha acabado de partir um pé.

 

O som da guitarra portuguesa não é fácil. Quais os principais desafios que se te colocam quando transpões para terrenos jazzísticos o tão idiossincrático universo do Mestre, seja nas leituras dos seus originais ou nas tuas próprias composições por ele inspiradas?

O som da guitarra portuguesa, mal tocada, não é fácil. Quando bem tocada é único e maravilhoso. Aprendi muito sobre o instrumento a ouvir de perto e, sobretudo, a tocar com alguns dos mestres da atualidade, tais como Bernardo Couto e José Manuel Neto. As variadíssimas incursões que tenho feito, nos últimos anos, no fado de Coimbra e de Lisboa e na música popular portuguesa ajudaram-me a desenvolver a ideia de que era possível levar a minha gente ao encontro da guitarra de Carlos Paredes.

 

Como é que Wayne Shorter entra em todo este processo?

Pergunta maravilhosa que me leva a recordar um dos episódios mais bonitos e felizes da minha vida musical. Em 2001, tive a sorte e o privilégio de trabalhar arduamente durante 10 dias com Wayne Shorter, culminando num concerto, para mim, inesquecível. O convite veio a propósito da Porto Capital da Cultura e envolvia a Orquestra Clássica do Porto e um quinteto liderado pelo Wayne Shorter com Mário Laginha, Mário Barreiros, José Salgueiro e eu. É impossível descrever por palavras o que senti, no momento em que ele pegou no soprano e deu aquele mítico mi bemol agudo, à Shorter. É um ser iluminado e ajudou-me, por incrível que pareça, a perceber o universo de Carlos Paredes, que na altura já me fascinava. Percebi com ele a importância do “peso” que cada nota deve ter. “A Dança dos Montanheses”, do álbum “Ao Paredes Confesso”, está cheia de referências à música de Wayne Shorter.

 

Sentiste em algum momento que estavas a cometer uma espécie de “sacrilégio” ao interpelares criativamente a música de Paredes?

Não iria tão longe mas senti, sem dúvida, o peso da responsabilidade. Não há universos intocáveis, mas deve haver respeito. Se no primeiro álbum a irreverência da idade me levou a não pensar muito no assunto, desta vez achei que corria o sério risco de não trazer nada de novo ou verdadeiramente interessante.

 

Um dos retratos que considero mais interessantes de Carlos Paredes, homem de personalidade introvertida, foi-nos dado pelo próprio, em entrevista publicada em 1983, quando disse: «Vivo muito no século XVIII, mas por vezes já respiro o século XXI.» Na sua cabeça e nas suas mãos estavam passado e futuro, tradição e modernidade, legado e risco...

Essa é, sem dúvida, uma forma maravilhosa de estar na música. Conseguir criar algo de novo conjugando todos esses fatores é um verdadeiro desafio. Perceber a tradição e todo o seu legado é o primeiro passo para se poder romper com o passado, sem o desvirtuar.

 

O álbum tem chancela da JACC Records, editora com sede em Coimbra. Como surgiu esta oportunidade?

O álbum “Entre Paredes” é, na realidade, também uma homenagem à cidade de Coimbra. Foi gravado no Convento de São Francisco, mesmo ao lado do Mondego. Fala de Paredes, de Zeca Afonso, fala também do fado e da canção de Coimbra: só poderia ser editado pela JACC Records.

 

Este álbum acaba por ser assim, também, uma homenagem àquela magia tão característica da cidade de Coimbra...

É uma homenagem a uma cidade muito especial, que tem a tal magia que não se explica, mas que se sente. Eu não nasci em Coimbra mas sinto que, às vezes, é ali que pertenço.

 

Ainda falando da ligação de Paredes ao jazz, que juízo fazes da colaboração com Charlie Haden, insigne contrabaixista, vertida em especial no disco “Dialogues” de 1990? Achas que a sinergia funcionou ou foi uma oportunidade perdida? Haden pareceu demasiado preso ao magnetismo do guitarrista...

O que eu gostava mesmo era de ter tido o meu momento com Carlos Paredes uns anos mais tarde. Mais experiente e sobretudo já com variadíssimas noitadas de fados de Coimbra no currículo. Falando mais a sério, acho que é um momento histórico, irrepetível e, por isso, tão especial. Não me preocupa tanto o que funcionou menos bem. É fácil, obviamente, identificar momentos do concerto em que se jogou “ao gato e ao rato”, mas penso que isso não é o mais relevante.

 

Não faz sentido estar aqui e agora a desfiar a lista infindável de nomes com quem tocaste ao longo dos anos. A pergunta deve colocar-se ao contrário: há alguém com quem ainda não tenhas tocado e que gostasses de o fazer, cá e no plano internacional?

É sinal de que já fui mais novo. Há agora, em Portugal, uma quantidade assinalável de jovens músicos, absolutamente fantásticos. Consigo pensar em alguns com quem ainda não toquei mas gostava de tocar: Miguel Meirinhos, Eduardo Cardinho, Pedro Branco e Diogo Alexandre, por exemplo. No plano internacional, sou um admirador confesso de Ambrose Akinmusire e de Craig Taborn.

Segredos por desvendar

 

Analisando o teu riquíssimo percurso é possível concluir que tens trabalhado sobretudo como instrumentista, mais do que como compositor. Penso que esta conclusão pode ser retirada da tua discografia em nome próprio, que, ainda assim, não é muito extensa. Em que papel te sentes melhor?

Levei algum tempo a encontrar o meu lugar. Cresci ao lado de compositores inatos como Mário Laginha, João Paulo Esteves da Silva, Bernardo Sassetti, o meu irmão Pedro e, mais tarde, André Fernandes. Todos eles de escrita rápida, fluente e de inspiração avassaladora. É provável que isso me tenha inibido nessa altura. Foi uma época maravilhosa, em que a vida de instrumentista me preenchia por completo. As solicitações eram mais que muitas, entre projetos portugueses e as “tournées” pela Europa com músicos americanos. Nessa altura não sentia a urgência de criar algo que tivesse a ver comigo. Só mais tarde percebi que o meu lugar não era exclusivamente no jazz. As experiências que tive no grupo de Airto Moreira e Flora Purim (foram seis anos intensos e maravilhosos), a entrada no universo do fado e da música popular portuguesa com Cristina Branco, Fausto e Camané ajudaram-me a descobrir a vontade de liderar projetos em que todos esses universos se cruzam.

 

Cresceste num ambiente familiar onde o jazz esteve sempre muito presente: vasta coleção de discos em casa, contacto próximo com muitas das figuras mais marcantes do jazz em Portugal, incontáveis concertos no Hot... O teu pai é um histórico, tu e os teus irmãos são também nomes fundamentais. Todo este enquadramento tem reflexos, hoje em dia, na tua atividade quotidiana enquanto músico?

Já senti bem mais esse peso do que sinto hoje em dia. O passado está lá e foi marcante e, quase sempre, maravilhoso. É obvio que fazer parte de tantas histórias do Hot é motivo de orgulho, mas traz também uma responsabilidade acrescida. É fundamental passar à malta nova a importância do Clube.

 

Do teu pai herdaste o nome, a paixão pelo jazz e o instrumento que tocam...

Curiosamente, o meu pai nunca impôs o jazz lá em casa de forma óbvia e direta, antes pelo contrário. Foi extremamente subtil a forma como deixou que fossemos nós a ir, lentamente, ao encontro da sua belíssima coleção de vinis. O meu pai nunca teve um contrabaixo em casa, o que ainda hoje me deixa perplexo: como era possível tocar tão bem sem estudar. Estuda hoje, com 89 anos, num contrabaixo emprestado por mim.

 

Voltando a Paredes, não deixam de ser curiosas estas heranças familiares. Ele deu continuidade ao trabalho do bisavô António, do avô Gonçalo e do pai Artur. E tu amplias o trabalho pioneiro do teu pai...

Com as devidas diferenças, naturalmente. O legado da família Paredes é, ou devia ser, património da humanidade, mas não nego o contributo da família Moreira nos últimos 70 anos.

 

O primogénito escolheu o contrabaixo. Todos os irmãos escolheram instrumentos diferentes. Foi uma opção pensada para tornar mais exequível a criação de uma formação da base “familiar”?

Por incrível que pareça, não foi nada planeado e o primogénito até foi o último a arranjar instrumento. O João e o Pedro começaram por tocar flauta de bisel e o Miguel foi, naturalmente, para o piano que havia em casa e eu, durante algum tempo, tocava baixo numa guitarra clássica do meu pai. Como disse, nunca houve contrabaixo lá em casa. O meu pai só se convenceu a pedir um trompete e saxofone emprestados a amigos músicos quando, um dia, entrou em casa e ouviu um solo do Coltrane nas flautas de bisel. A partir desse dia começou a aventura...

 

São conhecidas as principais referências na vossa formação jazzística de base: Parker, Miles, Coltrane, os Jazz Messengers, os irmãos Marsalis. Fala-nos um pouco desse processo evolutivo de descoberta...

São os verdadeiros fundamentos do jazz. Os alicerces que permitem compreender e estruturar ritmo, harmonia e melodia. Foi uma fase maravilhosa da nossa vida que consistia em passar horas intermináveis a ouvir discos e a tocar até mais não. A música entrava pelos ouvidos e jamais pelos olhos.

 

E contrabaixistas? Sei que és grande apreciador da gestão do tempo de um Paul Chambers...

Dessa época, devorei sobretudo Paul Chambers, Ron Carter e Jimmy Garrison. Mais tarde descobri Charlie Haden, que mudou a minha maneira de pensar o instrumento. Hoje gosto de ouvir Thomas Morgan.

 

O estudo da “tradição” do jazz continua a ser fundamental para ti? Há ainda segredos por desvendar?

Há sempre segredos por desvendar. Como professor, entendo que o estudo da tradição tem de ter um papel fundamental na aprendizagem de um aluno que quer ter contacto com o jazz. O que acho é que não tem forçosamente de haver compartimentos estanques. Acredito numa abordagem mais flexível.

 

Em que circunstâncias começas a prestar mais atenção ao que se passava do lado de cá do Atlântico?

Houve uma série de circunstâncias felizes que me levaram a olhar para o nosso país. O tal concerto com Fausto marcou-me profundamente. A gravação em Coimbra do álbum “Alentejanas e Amorosas”, do Vitorino, fez-me entrar em contacto com uma série de músicos ligados à MPP e ao fado de Coimbra, tal como o pianista Ricardo Dias. A partir daí, comecei a entrar gradualmente nesses universos e a querer juntá-los.

 

Pretendes continuar a explorar essas interfaces entre o jazz e as músicas de inspiração popular?

A ideia de me mover “entre paredes” fascina-me e desafia-me em simultâneo. Interessa-me procurar um som que é nosso e que não foi, por isso, totalmente importado.

 

Esta associação também está presente nos discos com Paula Oliveira, “Lisboa que Adormece” (2005) e “Fado Roubado” (2007). Há planos para voltarem a fazer mais coisas em conjunto?

Em parceria, não temos nada planeado, mas participei, recentemente, na gravação do álbum de originais da Paula, com poemas de José Saramago.

 

A tua celebrada parceria com Mário Laginha, em diferentes configurações, é outra das joias do jazz nacional. Também aí vários elementos se cruzam e ganham uma dimensão muito própria...

Ao fim de 30 anos, o Mário ainda me consegue surpreender. A sua capacidade inesgotável de criar melodia e gerar harmonia à sua volta continua a comover-me.

 

Faço-te a mesma pergunta que fiz há uns meses ao teu irmão Pedro. Está nas vossas cogitações a possibilidade de retomar o Moreiras Quinteto, ainda que pontualmente?

De certa forma, nós fomos arranjando maneira, sobretudo nas formações lideradas pelo Pedro, de manter o Moreiras Quinteto, de forma mais ou menos velada. O álbum “Viagens”, do Pedro, é uma espécie de extensão dos Moreiras. Nesse sentido, sinto que o grupo não desapareceu totalmente.

 

Nos anos mais recentes, temos vindo a assistir ao surgimento de diferentes projetos e colaborações entre músicos provenientes de vários quadrantes estéticos do jazz e de outras músicas improvisadas. O que pensas sobre isto?

Confesso que não gosto da ideia que se foi criando, no sentido de dividir o jazz e a música improvisada, ou livre. Parece haver um muro que separa as várias tribos e que só alguns aventureiros ousam saltar, de vez em quando. Seria muito interessante, um dia, fazer-se um verdadeiro debate sobre improvisação. Até que ponto somos verdadeiramente livres quando improvisamos? Não é, seguramente, o contexto ou estilo musical, mais ou menos estruturado, que define o grau de liberdade no ato criativo de um músico improvisador. Não conheço maior hino à liberdade do que um desenho de uma criança de três anos. Não se pode é confundir isso com uma pintura do Miró, que explora e redefine os limites do real e do abstrato. O desafio está, para mim, na desconstrução, na redefinição e interligação dos três pilares que sustentam a música ocidental (ritmo, harmonia e melodia). Renegá-los, por completo, poderá ser uma opção legítima, acertada e, provavelmente, interessante. Mas não será nunca, por si só, garantia de relevância ou mesmo inovação artística. Um improvisador pode ser libertador se tiver a capacidade de nos transportar para outro lugar. Se conseguir transformar uma viagem solitária numa viagem coletiva. A música improvisada, no seu todo, não precisa de rótulos nem de chavões, cheios de preconceitos. Precisa de emoções fortes e de sentimento. Nesse sentido, todas as experiências são bem-vindas.

 

Também tens desenvolvido intensa atividade docente, designadamente na Escola do Hot e na Escola Superior de Música de Lisboa. O ensino do jazz deu um enorme salto nos últimos anos. Como analisas o que hoje se passa, com tantas escolas e tantos alunos? A quantidade encontra eco na qualidade?

A quantidade traz, inevitavelmente, qualidade. É incrível o que aconteceu ao país nos últimos anos. Longe vão os tempos em que a Escola do Hot e a Escola de Jazz do Porto esgotavam, em si, o ensino do jazz em Portugal. O desafio que se coloca agora é como é que um país tão pequeno consegue dar resposta a um número crescente de músicos e professores de enorme qualidade.

 

Para além das preocupantes repercussões da falta de festivais e concertos que afetaram músicos e outros agentes culturais – agora a voltarem paulatinamente – como tens vivido esta pandemia que nos virou a vida do avesso? Apesar das dificuldades, foi, ainda assim, um período prolífico para ti?

Num período tão difícil, acabei por ter tempo para pensar mais nos meus projetos. Consegui gravar o “Entre Paredes” entre confinamentos e desenvolvi outros projetos, que gravarei em breve.

 

Que perspetivas tens para os próximos meses?

Nos próximos meses, para além dos concertos que tenho agendados, vou gravar três discos, com dois trios: SUL com Bernardo Couto e Luís Figueiredo e outro, ainda sem nome, com Ricardo Dias e João Moreira, para além de As Cantigas de Maio, com André Santos, Ricardo Dias e João Neves na voz.

 

Para saber mais

https://clavenamao.org/bernardo-moreira/