Nazaré da Silva, 20 de Julho de 2021

Espaço para a surpresa

texto António Branco fotografia Ana Frias

Nos escaparates está já o primeiro disco de Nazaré da Silva, “Gingko”, com selo da Robalo Music, editora que por estes dias organiza a 4.ª edição do seu festival em parceria com a Antena 2 (no Liceu Camões, com transmissão em direto pela estação pública), que a cantora encerrará, com o seu quinteto, no dia 23 de julho. A seu lado no disco estão outros jovens, mas já sólidos, músicos, como o trompetista João Almeida, o saxofonista Bernardo Tinoco, o contrabaixista José Almeida e o baterista Samuel Dias. Não obstante a juventude, já tem um percurso deveras interessante, revelando ideias claras quanto ao que pretende com o seu trabalho.

Filha de pais músicos, Nazaré nasceu em Lisboa, em 1997. O fascínio pela música e pelo teatro acompanha-a desde sempre. Durante a adolescência interessou-se por outras expressões artísticas, como a dança, tendo tido aulas de “ballet” e dança contemporânea durante dois anos.

Entre 2014 e 2017 estudou jazz vocal na Escola de Jazz Luiz Villas-Boas do Hot Clube de Portugal, tendo então ingressado na licenciatura em jazz da Escola Superior de Música de Lisboa (ESML), que concluiu já em 2021. Durante este período teve oportunidade de estudar com Luís Tinoco, Maria João, Afonso Pais e Gonçalo Marques, entre outros. Em paralelo, tem tido aulas particulares de voz com a cantora Rita Maria.

Nazaré gravou os discos “Crime”, com o pai, o pianista João Paulo Esteves da Silva (para quem já escreveu música a partir de poema e poema a partir de música), e o já mencionado Samuel Dias na bateria, “Vago Pressentimento Azul por Cima”, disco de canções de Esteves da Silva com poemas de Ana Paula Inácio e “O que Já Importa”, do guitarrista Afonso Pais.

Para além do seu próprio quinteto, integra outros projetos, como o grupo de improvisação vocal Circular, sob a direção de Aixa Figini, o duo Chapéu Preto com o guitarrista Afonso Albuquerque e um trio com o mesmo Albuquerque e o contrabaixista e baixista Francisco Nogueira, que tem dado vida a composições originais e a canções de Egberto Gismonti, Munir Hossn e Ayub Ogada. Colaborou ainda enquanto letrista para a Big Band Júnior.

A jazz.pt foi ao seu encontro.

 

“Gingko” é o seu álbum de estreia. Como o descreve?

A ideia deste disco surgiu no meu último ano da licenciatura em jazz da Escola Superior de Música de Lisboa, instigado pela Maria João, minha professora de voz, que lançou às suas alunas finalistas o desafio de idealizar e gravar um disco. O disco tem essencialmente composições minhas, música e textos, com uma ou outra exceção. A escrita destas composições coincidiu com a adoção da minha gata Gingko, que cumpriu um papel fundamental para a minha inspiração e para o meu universo criativo, nomeadamente com composições espontâneas da sua autoria (caminhando nas teclas do piano), das quais aproveitei uma para gravar, acabando, também, por dar o nome ao disco. Para mim foi essencial fundir duas vertentes que são muito importantes para mim: as canções e a improvisação. A meu ver este disco reflete isso, tanto as melodias e palavras como a improvisação, por vezes mais livre e de caráter coletivo, têm um papel fundamental na música. Diria que foi a primeira vez que senti que tinha consolidado suficientemente alguma coisa que justificasse ser gravada e editada.

 

Está satisfeita com o resultado?

Sinto-me bastante satisfeita com o resultado. Penso que este disco é um reflexo honesto da música que faço neste momento.

 

Em que circunstâncias se formou este quinteto de jovens músicos? Como é o trabalho em conjunto, há uma “química” especial?

Todos fomos estudantes da escola do Hot Clube e, mais tarde, da Escola Superior de Música de Lisboa, mais ou menos durante a mesma altura. Ou seja, tivemos bastantes anos para nos conhecermos. Para além de serem dos músicos da minha geração que mais admiro e com quem mais gosto de tocar, são também dos meus melhores amigos. Foram logo as pessoas que me saltaram à cabeça no momento de escolher uma banda para tocar as minhas músicas, e sinto que o resultado foi bastante bom. A meu ver, existe efetivamente essa “química especial”.

 

As composições do álbum são, na sua maioria, de sua autoria (textos e música). Pensou nos músicos que a acompanham quando escreveu os temas? Que margem de intervenção lhes concedeu?

Na verdade, existem algumas exceções: “Tristo” é uma composição do meu pai, João Paulo Esteves da Silva, com uma letra minha, e também existe o inverso, “Na Prisão das Laranjas” é uma composição que fiz a partir de um poema seu. Para além disso, o tema “Lisboa, 1936” foi feito a partir de um texto da escritora Irene Lisboa. Não pensei nos músicos no momento de escrever os temas. Escrevi-os todos ao piano, e a certa altura senti uma grande necessidade de me desprender do som que foi naturalmente acompanhando as minhas composições. Foi aí que apareceram as pessoas. As pessoas e a formação: este quinteto sem instrumento harmónico surgiu, por um lado, pela grande vontade que tinha de tocar com estes músicos, e por outro, pela procura de uma sonoridade bastante distinta daquela que acompanhou o nascer das composições. Em relação à margem de intervenção que lhes dei, muita coisa está escrita (os arranjos foram feitos por mim e pelo Samuel Dias), mas quis deixar bastantes coisas em aberto, porque sabia que a música só iria crescer com o contributo deles. Não senti a necessidade de definir tudo, antes pelo contrário, quis deixar algum espaço para a surpresa de ver o que é que acontece.

 

Qual a importância que atribui às palavras no seu processo criativo? Elas são o motor para a música ou acontece-lhe o contrário?

Ambas as coisas acontecem. Acontece escrever música a partir de textos e escrever textos para músicas que já existem, sejam elas minhas ou não. Mas sem dúvida que as palavras têm uma grande importância, gosto muito delas.

 

Considera-se sobretudo uma cantora que compõe ou uma compositora que canta?

Nem uma coisa nem a outra. Custa-me (talvez vá deixar de custar) olhar para mim como cantora ou como compositora, é muita responsabilidade, atribuo esses títulos às pessoas que admiro. Diria que sou uma pessoa que canta e compõe.

 

Voltemos ao papel da improvisação. É uma componente estruturante na sua abordagem enquanto artista?

Sem dúvida. Desde bastante cedo a improvisação foi um dos aspetos que mais me atraíram na música. Ter escolhido estudar jazz há de ter sido bastante influenciado por isso. A possibilidade de criação em tempo real e a interação com outros músicos são dos elementos que mais tenho a intenção de explorar neste momento.

 

O tema que mais me despertou a atenção, e de que já falou, chama-se “Lisboa, 1936”, com a sua atmosfera sombria e intrigante. Bem sabemos o que aconteceu nesse ano, em Portugal, em Espanha e pelo resto da Europa... Quer explicar o que quis transmitir com esta peça?

É engraçado, mas de facto não tem nada a ver com isso. Quero dizer, na verdade até tem, mas não foi a minha intenção. Este é um dos poucos temas do disco cuja letra não é minha. Foi feito a partir de um texto da Irene Lisboa que se encontra no seu livro “Solidão”. O que eu fiz foi abrir o livro aleatoriamente e deparei-me com uma espécie de entrada de diário, que começa, precisamente, com esta data: “Lisboa, 1936”. O meu exercício foi o de transformar o texto em música, através do som das palavras e não tanto do seu significado. Mais tarde, prestando atenção ao significado do texto, fez-me muito sentido. A tal atmosfera sombria que tinha criado correspondia ao texto. Acho curioso pensar que terá sido escrito nessa altura, ou que pelo menos corresponde a uma reflexão que de alguma forma terá a ver com a data, e que o próprio som das palavras, o ritmo, e não só o significado, remete para um ambiente que nos transporta para os acontecimentos desse ano. Pensar que naquele texto está carimbado um estado de espírito.

 

O disco desvenda um canto que vai para além das fronteiras estritas do jazz, sendo possível descortinar outras dimensões musicais. Fale-nos das suas principais referências, no jazz e não só...

Sempre gostei de muita coisa diferente na música. De facto, não me sinto de maneira nenhuma presa ao jazz. E é-me bastante difícil responder de forma breve a esta pergunta, muita coisa vai ficar de fora. São grandes referências para mim, fora do jazz, os cantautores portugueses, como Zeca Afonso ou Sérgio Godinho. Para além deles, a cantora Filipa Pais, talvez também por razões afetivas. Terá sido uma das primeiras vozes femininas que ouvi, e para mim, tem um trabalho mesmo inspirador. Posso dizer que a música portuguesa é uma forte referência e creio que isso se reflete na música que escrevo.

Por outro lado, também o é a música brasileira. Elis Regina, Mônica Salmaso, Tom Jobim, Edu Lobo, Guinga, entre muitos outros, são todos grandes inspirações. Também, sem dúvida, Joni Mitchell e Kate Bush. Para mim, são maravilhosas escritoras de canções. Agora falando de jazz, foram, numa altura mais inicial da minha aprendizagem, muito importantes nomes como Ella Fitzgerald, Chet Baker, Charlie Parker e mais tarde Charles Mingus, Thelonious Monk, Lee Konitz, Bill Frisell, Kenny Wheeler, Norma Winstone, entre muitos outros. Para além destes, devo dizer que tive muita sorte, porque ambas as minhas grandes referências enquanto cantoras e improvisadoras foram minhas professoras: Maria João e Rita Maria.

 

Por vezes opta por um canto sem palavras, em certas passagens próximo do “scat” jazzístico, noutras nem tanto...

Apesar de adorar canções sempre adorei também interpretar melodias sem letra, usar a voz como um instrumento de sopro, o que, de certa forma, o é. Sempre o fiz de maneira intuitiva e quando comecei a estudar este aspeto, de forma mais consciente, uma forte referência que tinha era esse tal “scat” jazzístico. A minha tentativa foi de, tendo esse “scat” em pano de fundo, me libertar dele, procurando outras possibilidades e sonoridades que a voz potencia. Creio que seja por isto que ainda se ouve esta dualidade na forma como canto. Existe esta reminiscência de uma linguagem da qual não me consegui libertar completamente e já uma previsão daquilo que poderá vir a ser outra coisa.

 

Apesar da situação que continuamos a viver, tem agendados concertos de apresentação de “Gingko”?

Felizmente sim. O lançamento do disco vai acontecer no dia 23 de julho, no festival Robalo Jazz Antena 2. Para além deste concerto, a nossa vontade é de tocar e esperamos ter novidades em breve. 

Sempre uma procura

 

Vamos conhecê-la um pouco melhor. Os seus pais são músicos. Sente que esse facto determinou, de algum modo, a sua opção por uma carreira nas artes, designadamente na música?

Sinto que sim, mas não de uma forma consciente ou premeditada. A música, e as artes no geral, sempre estiveram presentes ao longo do meu crescimento e isso teve, claro, influência no desenvolvimento da minha personalidade e dos meus interesses. Nunca houve pressão da parte dos meus pais para que eu sequer aprendesse música e muito menos optasse por isso como carreira, e também nunca houve da minha parte uma vontade de fazer igual a eles. Era uma coisa que simplesmente estava lá.

 

Para além desse contexto familiar, quais foram as principais portas de entrada no jazz? Tem memórias auditivas desses tempos iniciáticos?

Apesar de a música ter estado sempre presente na minha infância, para além das esporádicas aulas de piano que tive com a minha mãe, não estudei música formalmente até aos 17 anos, momento em que entrei para a escola de jazz do Hot Clube. Já vinha cantando desde há muito tempo, mas tenho ideia de que a primeira vez que cantei um “standard” e experimentei improvisar por cima de uma harmonia foi a preparar a minha prova para a escola do Hot. Já não me lembro qual foi o “standard” que levei para a prova, mas lembro-me de ter levado o tema “Fado Chão”, do meu pai, e de ter sido uma escolha bastante ingénua da minha parte, uma vez que estava longe de perceber o quão difícil era o desafio que estava a colocar a mim própria. Acho que lá me safei.

 

Interessa-se por outras expressões artísticas, como o teatro ou a dança. Pensa cruzá-las, tem planos nesse sentido?

A vontade de o fazer é grande, sim! Penso que vai acontecer mais tarde ou mais cedo. Este lado da “performance” multidisciplinar é algo que me interessa mesmo muito. Aliás, já tenho desenvolvido algum trabalho com bailarinas e, penso, em breve, ter novidades para apresentar.

 

Quer contar-nos algum episódio, ou falar-nos de alguém, que a tenham marcado particularmente ao longo do seu percurso formativo?

Episódios houve muitos, certamente. Não sei se saberia isolar um específico. Em relação a acontecimentos e/ou pessoas que me marcaram fortemente no meu percurso enquanto estudante vou destacar a minha entrada para a escola do Hot e mais tarde para a Escola Superior de Música de Lisboa. Foi nestes sítios que conheci pessoas, tanto professores como colegas, que me inspiraram e me fizeram crescer muito enquanto música. Da minha experiência na ESML destaco as aulas com Maria João, que me abriram um mundo de possibilidades, ajudaram a quebrar complexos e a extravasar fronteiras estéticas. Foram um espaço de total liberdade e procura criativa. Também as aulas de História da Música dos séculos XX e XXI com Luís Tinoco, que serviram como primeiros passos para o meu envolvimento com a música contemporânea. Para além disso, foram sem dúvida determinantes para a minha formação os vários anos de aulas particulares que tive com Rita Maria, durante os quais cresci muito como intérprete e improvisadora e tive a oportunidade de criar uma relação de confiança, cumplicidade e amizade com uma cantora que muito me inspira.

 

Tem trabalhado de forma próxima com o seu pai, o referencial pianista João Paulo Esteves da Silva. Presumo que seja alguém muito importante na sua própria forma de encarar a música...

Penso que é uma influência inevitável. Cresci a ouvir o meu pai tocar. O trabalho que fazemos juntos também surgiu de uma forma muito natural. Eu estava em casa quando ele acabava de escrever uma canção e acabei por ser muitas vezes a primeira pessoa, depois dele, a tentar cantá-la. Às tantas demos por nós a ter um repertório que poderia ser um concerto ou até um disco. Inevitavelmente, a minha forma de encarar a música foi fortemente influenciada por estas situações e pela convivência quotidiana com o meu pai e a sua música. Creio que, de certa forma, o mesmo aconteceu com a poesia, outro interesse que partilhamos.

 

Está atenta ao que se passa musicalmente à sua volta, é eclética? O que tem escutado mais nestes últimos tempos?

Diria que sim. Gosto de muita coisa diferente e aquilo que quero ouvir varia de dia para dia, ou até de hora para hora. Nesta última semana, por exemplo, ouvi os Noturnos de Chopin pela Maria João Pires, o disco “Cheio de Dedos” do Guinga e o primeiro disco dos Garfo, uma banda de músicos da minha geração que muito admiro, vale muito a pena ouvir. Dois deles tocam no meu disco “Gingko”.

 

Como está a viver esta situação pandémica, de que modo esta tem condicionado o seu trabalho?

Esta situação é péssima para os artistas. Não só para os artistas, é uma situação péssima para toda a gente, mas o setor da cultura, como sabemos, foi fortemente afetado. Condiciona muito o meu trabalho porque de repente não é possível tocar. Quando isto tudo começou lembro-me de ter pensado que se, à partida, soubesse que ser músico seria como é agora neste paradigma (grande dificuldade de tocar ao vivo, proliferação de “lives” e eventos “online”), teria escolhido fazer outra coisa. Felizmente, ainda assim tento ser positiva, aos poucos vamos voltando a poder tocar e exercer a nossa profissão.

 

Para além do seu quinteto, quer destacar outros projetos em que esteja envolvida atualmente? Algum deles poderá chegar a disco?

Neste momento canto e toco teclados numa banda de indie rock, liderada pelo contrabaixista e baixista Francisco Nogueira, os Biloba, e muito em breve vamos lançar o nosso primeiro disco. Também gostaria de destacar o grupo Circular, “ensemble” de improvisação vocal do qual faço parte. Temos estado em processo de pesquisa e desenvolvimento da nossa linguagem desde 2019, trabalhamos com um sistema de improvisação dirigida, o “ritmo com señas”, desenvolvido pelo produtor e percussionista argentino Santiago Vasquez. Poderá certamente chegar a disco; mais tarde ou mais cedo iremos gravar.

 

Apesar de em número significativamente inferior ao dos homens, o facto é que muitas foram as mulheres que intervieram de modo relevante para que o jazz e outras músicas improvisadas sejam o que são nos nossos dias. Em que medida é que o papel que as mulheres desempenham em todo este processo impacta a sua atividade enquanto criadora?

Impacta no sentido em que são referências. Por nos chegarem menos mulheres artistas relevantes do que homens, a tal discrepância em termos de número, devemos pensar no porquê de isto acontecer, o quão mais difícil foi para estas mulheres conquistar o seu espaço enquanto artistas e o quão importante é continuar a abrir caminhos e possibilidades para que artistas mulheres possam afirmar o seu trabalho, em última instância, para que deixe de existir este desequilíbrio. Para mim, ter referências de mulheres criadoras é inspirador, dá-me vontade de, acreditando no meu trabalho, continuar a expô-lo.

 

Não obstante a sua juventude, e daquilo que é já a sua experiência, a valorização, as oportunidades de trabalho, os rendimentos e a exposição mediática são diferentes relativamente aos homens? Que opinião tem sobre estas questões?

Para responder honestamente a esta pergunta, devo dizer que a minha experiência ainda é pouca. Tenho plena noção de que estas questões existem e da importância de falar sobre elas. Sinto que estou muito no início do meu percurso artístico para as ter sentido verdadeiramente na pele. No entanto, tenho noção de que o meio jazzístico e da música improvisada é predominantemente masculino, e que isto coloca entraves às mulheres. O facto de termos muito menos referências de mulheres neste meio faz com que menos mulheres sintam a vontade de enveredar por aqui. Existe uma espécie de círculo vicioso: não dando espaço a mulheres artistas, menos mulheres se sentem identificadas com a atividade artística. No entanto, tendo a ser positiva em relação a esta questão, vejo cada vez mais mulheres a aparecer, mesmo nas escolas, o que é fantástico. Por exemplo, foi muito raro ter um combo em que não fosse a única rapariga, e, há uns dias, conversando sobre estas questões com uma colega, ela referiu que o seu combo na ESML para além dela, cantora, tinha uma pianista, uma guitarrista, uma contrabaixista e uma baterista, todas mulheres. Acho que as coisas estão a evoluir. Mesmo o facto de eu não me ter sentido discriminada por ser mulher na música pode querer dizer, por um lado, que me rodeio das pessoas certas e vivo numa “bolha” em que quase toda a gente é respeitadora, o que não é totalmente falso, mas, para mim também reflete uma maior consciência que existe na minha geração em relação a estas questões. Fala-se muito mais sobre elas e espero que estejamos a caminhar para o melhor.

 

O que acha que poderia ser feito, e por quem, para melhorar esta situação?

Penso que a questão das referências pesa muito aqui. Sinto que é preciso cada vez mais abrir espaço para mulheres artistas continuarem a fazer e dar a conhecer o seu trabalho, para que cada vez mais mulheres se possam sentir compelidas também a fazê-lo. É preciso acabar com esta ideia de que só os homens são grandes pensadores ou grandes artistas. E falar sobre estas questões, denunciar injustiças quando elas ocorrem. Penso, e espero, estarmos a caminhar nesse sentido.

 

O que procura, afinal de contas, com a sua música?

É difícil responder. Neste momento procuro estar satisfeita com aquilo que escrevo, como soam os meus grupos ou até com o meu próprio som. Vai ser sempre uma procura, não penso algum dia chegar à conclusão de que já está, é isto. Por agora procuro estar suficientemente satisfeita com o que faço, de maneira a continuar a fazer qualquer coisa.

 

Para saber mais

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