Maria do Mar, 7 de Julho de 2021

Música e liberdade

texto Sofia Rajado fotografia Vitorino Coragem, Vera Marmelo e Isabel Cardeira

Violinista que entende os concertos como performances e que cada vez mais surge em projetos transdisciplinares, Maria do Mar tem um trajeto ainda curto – menos de 10 anos, vinda da música clássica – na improvisação, mas ao longo deste tempo tem-se destacado em vários dos seus circuitos, desde as suas colaborações com Ernesto Rodrigues a uma formação como Lantana, formado por mulheres porque, para todos os efeitos, há bandas só de homens. E não só: quando a jazz.pt conversou com ela num jardim em Lisboa estava quase de partida para o KISMIF, no Porto, a fim de tocar com uma banda punk, Matriarca Paralítica. Afinal, ela própria assume que tem «um lado muito punk».

 

Em que projetos estás atualmente envolvida?

São sempre vários. Nos últimos anos toquei com muita gente da música improvisada, portuguesa e estrangeira. O MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia teve nisso um papel importante. Há sempre grupos que vão surgindo. Neste momento, o grupo que está mais ativo é Lantana. Vamos tocar no ZigurFest. Alguns projetos pararam com a pandemia, mas vou recomeçar a tocar com Xentra, que é outro grupo a que pertenço. Lantana é um grupo feminino, somos todas mulheres: Maria Radich, Carla Santana, Joana Guerra, Anna Piosik, Helena Espvall e eu. O Xentra é com Miguel Mira, Philippe Trovão, José Bruno Parrinha e Miguel Almeida. Neste período recente, tenho feito mais concertos com Joana Guerra, em trio com Carlos Godinho. Estamos a apresentar o álbum da Joana, “Chão Vermelho”.Grande parte é improvisação, embora estruturada.

 

O que aprecias mais em música? O que ouves, o que gostas de tocar?

Comecei por ter uma educação musical clássica ou “erudita”, como gostam de chamar, mas tudo me interessa. Sempre fui muito eclética nos meus gostos, sempre ouvi rock, gosto imenso. Tenho um lado muito punk, que também toco às vezes com grupos desse tipo. Vou participar na KISMIF com um grupo de punk feminino chamado Matriarca Paralítica. Quase tudo me pode despertar a atenção e sempre ouvi muitas coisas diferentes, apesar de ter tido essa formação muito clássica – um género musical que adoro também e, claro, que me faz sentir em casa. Com o andamento das coisas, e pelo facto de ter sido professora, aprendi muito com as crianças, com os miúdos. Tudo isso me levou a pensar, a ligar a música a muitas outras coisas, à vida, à política… A arte é sempre um espelho do que se passa no mundo e isso também tem que ver com a minha vida e as de todos. Enveredei por aqui, que é o que tem que ver mais comigo, esta coisa mais experimental e improvisada (como tudo no nosso dia-a-dia) e mais livre, porque também é no que acredito que pode ser melhor politicamente.

 

Fala-me mais sobre a tua adesão à música improvisada. Esta é tida como uma música de escuta difícil e também de execução muito intensa. Como se estabeleceu a tua relação com esta tendência musical?

Esta música começou por ser não-idiomática, mas o conceito evoluiu e pode não ser necessariamente assim, nem de escuta difícil, porque é livre. Pode ir para muitos idiomas diferentes e cruzarem-se todos eles e ser tudo improvisado – isso também é música improvisada. Mas tem que ver com escuta. Sempre ouvi muita música, muito jazz, a chamada música do mundo, de outras culturas, e quase sempre essas músicas também têm um lado de improviso na sua tradição. Como professora, apercebi-me que temos muitos conceitos criados à priori, de coisas que não são bem assim, que nos são impostas pelo ensino, dentro da perspetiva política vigente na estrutura social. O ensino transmite isso de uma maneira que acho que mata muitas vezes a criatividade. Não somos todos iguais, mas somos iguais nessa unicidade; cada pessoa tem a sua criatividade, a sua identidade, e isso é tudo um bocado apagado, uniformizado. Somos todos colocados dentro de uma sala: «Agora tens de estar sentado, agora tens de ouvir isto, agora tens de tocar aquilo», porque essa é a regra, isso é o que “está certo”. Daí que tenha sentido a necessidade de ir ter com a liberdade de escuta e de expressão da música improvisada.

Acabei por ir para outros sítios e deixei a academia há quatro anos. Nos últimos anos dediquei-me mais à improvisação e só comecei a deixar a partitura há uns sete ou oito anos. Foi depois de um “atelier” que fiz no CCB com Butch Morris e o seu conceito de Conduction: condução de orquestra por meio de gestos codificados que se destinam à interpretação de improvisadores. Foi então que comecei. Esta é uma fase da minha vida, não foi sempre assim. Comecei a interessar-me pela improvisação e a sentir que este era o meu lugar na música, que havia algo mais para mim que não apenas interpretar peças de compositores. Também adoro e acho muito importante, porque acredito que cada visão é única, mas há imensa gente a fazê-lo e muito bem. O meio clássico é muito exigente e muito difícil, onde o erro tem uma importância enorme e negativa, sempre, nunca positiva. Fui atrás dessa ideia: «Mas porque é que o erro tem tanto peso assim, tanta importância?». Comecei a desconstruir tudo isso. Foi assim que vim parar aqui, à música improvisada, onde o acaso, o acidente, o imprevisto, é aproveitado de outra forma e não existem propriamente erros. Sem este conceito de “erro”, acaba-se com a hierarquia que é criada na estrutura musical. A liberdade cria, assim, uma horizontalidade neste tipo de expressão.

 

Recua um pouco mais na tua história. Como foste parar à música? Porque escolheste o violino como instrumento?

Oiço música desde que nasci, desde pequenina. Fazia parte do meu dia-a-dia. Do lado da minha mãe, muitos familiares meus estudaram música. Do lado do meu pai não estão tão ligados, mas ele sempre adorou música. Portanto, são ambos amantes de música. A minha mãe tem o curso de piano, a minha avó tinha de violino, piano, canto e harpa. As minhas tias-avós também estudaram todas piano, muito à frente para o seu tempo. Isto nos anos 1930. Tive as coisas muito facilitadas e tenho consciência desse privilégio. Mas não escolhi logo o violino: o que havia em casa era um piano. A minha mãe tocava piano, o meu irmão estudou piano. Começámos todos pelo piano, mas sempre ouvia falar no violino por causa da minha avó. Ela faleceu pouco antes de eu nascer e havia sempre uma foto dela com o violino. Fiquei sempre com a ideia de o violino ser bonito. Continuo a adorar o piano e ainda bem que o estudei. Só comecei a estudar violino um pouco mais tarde – aos 12 ou 13 anos.

 

Fizeste curso superior em música?

Sim, fiz o curso de violino na Escola Superior de Música de Lisboa e antes o Conservatório, o percurso todo normal. No início frequentei a Academia de Amadores da Música e gostei muito. Fiz prova para entrar para piano no Conservatório e alguém me perguntou: «Se pudesses, o que te apetecia fazer?». E eu respondi que gostaria de tocar violino – isto na própria prova de piano! (risos). Acabei por seguir o violino.

Houve momentos em que pensaste desistir?

Às vezes interrogo-me sobre como é que sobrevivi até aqui. Durante a vida académica, muitas vezes pensei «o que é que estou aqui a fazer?». Porque isto é realmente muito difícil, é muito frustrante, muito complicado e exigente, muito inglório e muito conservador. Muitos dos programas de ensino ainda são dos anos 40 do séc. XX. Por isso é que me pus a fazer experiências pedagógicas. Tive a sorte de a minha família ter uma escola e de poder fazer coisas diferentes – experimentar e chegar a conclusões de que há outras maneiras de ensinar que podem ter bons resultados, sem ser estas que nos impõem. Mas pronto, devagarinho, o ensino vai abrindo. Por exemplo, a improvisação vai, cada vez mais, pé ante pé, entrando um pouco na academia, embora ainda haja muito a fazer. Nesta resistência contínua durante os meus estudos, houve sempre uma coisa que me dizia «olha que a música não tem culpa disso». A música é outra coisa, é uma entidade superior a isso tudo. Continuo por amor à música, e nem vou dizer que é por amor ao meu instrumento, é à música em geral, como expressão.

 

Há uma ideia, talvez até cliché, que diz que não há géneros musicais superiores. A música é boa ou má, independentemente do género, e ou te diz algo ou não te diz. Até pode ser uma música “pimba”, mas pode tocar-te. Concordas com isso?

Sim, isso já aconteceu, pode haver uma parte que me toque. São coisas que acontecem comigo. Não acredito na superioridade de uns géneros musicais sobre outros. Há muitas outras expressões que são também desenvolvimentos de linguagens incríveis, como o rock e o punk, que são fortes e mexem comigo, e isso é o mais importante. Não as desvalorizo face à música clássica ocidental.

 

Como vês o panorama português deste tipo de música? Achas que temos construído um espaço próprio, nomeadamente na área da música improvisada?

O cenário está diferente, sem dúvida. Nestes últimos anos, os últimos 10 talvez, houve uma abertura e um interesse mais generalizados. Claro que estamos sempre a falar de uma certa franja social que é mais aberta a vários géneros musicais. Acho que há uma dimensão internacional maior, há mais gente interessada e que ganhou mais voz nesta última década. Já havia gente a fazer muito bom trabalho, mas eram mesmo poucos. Foi-se fazendo caminho e essas pessoas foram e continuam a ser importantes para o que está agora a acontecer. Nem há 10 anos que eu toco esta música, mas isso não quer dizer que antes não assistisse a alguns concertos de música improvisada. Lembro-me de ir ver Carlos “Zíngaro”, que é muito importante para mim, e Ernesto Rodrigues, Luís Lopes, Rodrigo Amado, Sei Miguel, Fala Miriam… O MIA foi crescendo e trouxe mais gente para este tipo de música. O meio “underground” de Lisboa, que é o que conheço melhor, originou mais espaços para se tocar. Esses espaços começaram a interessar-se por estas novas linguagens mais experimentais e passou para fora que havia uma cena em Lisboa, em bares como o Irreal, por exemplo, que foi muito importante.

 

Achas que há conservadorismo em relação à música improvisada?

O jazz já é uma música improvisada, já tem um fator de improvisação – portanto, é natural que venha um maior número de gente daí do que da música clássica, para esta música. Ainda que as linguagens da música “clássica contemporânea” e da música improvisada se toquem, por vezes sendo difícil distinguir o que é escrito do que não é. Acho que, em geral, entre músicos e ouvintes, as pessoas estão um bocadinho mais abertas do que há uns anos. Vou dar-te um exemplo: comecei há uns anos a organizar a ImproJam, uma série de “jam sessions” de música improvisada. Podia ir toda a gente que quisesse improvisar. Começou a aparecer gente muito jovem, ainda alunos, fosse dos cursos de jazz ou da clássica, do Hot Clube, da Escola Superior de Música e de outros sítios... Portanto, estudantes ainda que diziam que adoravam fazer música improvisada, que na escola já havia alguma flexibilidade, mas ainda não tanta assim para se ter uma disciplina de música improvisada – por exemplo, de “jam”, de liberdade. Eles próprios tinham criado grupos e as suas próprias “jams”, e depois encontraram esta, onde podiam tocar com outros músicos de fora da sua escola, alguns deles já experientes. Passaram dois ou três anos e muitos desses miúdos estão agora aí a tocar em todo o lado, porque têm uma formação e uma abertura incríveis, que eu não tive. As coisas já evoluíram para melhor, nesse sentido.

 

Como vês a tão forte ausência de mulheres instrumentistas na música?

Sou positiva quanto a isso: há uma evolução. Devagar, mas as coisas têm estado a evoluir nestes últimos anos. Mesmo assim, é verdade que há menos mulheres na música improvisada do que há no jazz, por exemplo, ou na música pop. Acho que cada vez há mais mulheres instrumentistas no jazz, sem serem só cantoras ou pianistas, mas o jazz, de facto, é uma música muito machista. Ou tornou-se, nos primeiros anos da sua história não era assim tanto. Afinal, a base de tudo o que somos é patriarcal. Estruturalmente, a nossa sociedade é patriarcal e os problemas vêm daí. Por muitas lutas feministas que tenham sido travadas e continuem ativas, o lugar da mulher ainda é muito difícil. As mulheres precisam de fazer um enorme esforço para terem acesso, para se fazerem notar e para serem aceites, na maior parte dos casos. Ainda há muitas mulheres músicas que nem sequer sabem da existência de música improvisada… Há uma estrutura patriarcal de raiz. Graças à luta de muita gente, e à luta feminista neste caso, devagarinho lá vamos ganhando alguns direitos e invadindo alguns espaços. É natural que as coisas levem algum tempo, são séculos de poder masculino. No caso desta música, acho que tem mesmo que ver com essa raiz machista que se instalou no jazz, e ainda se faz um pouco sentir, porque a maior parte das pessoas vêm de lá… Até te digo que senti menos machismo no ambiente da música clássica do que sinto na música improvisada. E na clássica as mulheres tocam uma diversidade de instrumentos muito maior do que no jazz e na improvisada. Já relativamente à questão do assédio sexual verifico que existe tanto na música clássica como no jazz. Mesmo falando disto tudo sou positiva: há cada vez mais mulheres a aparecerem.

 

Sabemos que estás ligada ao Queer Fest. Fala-nos um pouco deste festival e de como vês o ativismo interseccional aplicado à música.

Entre as várias lutas pelos direitos humanos que existem, duas ganharam especial pertinência nos tempos que correm pela sua comum dimensão interseccional: o feminismo e o movimento queer, abrangendo ambas, por exemplo, a luta contra o racismo, a luta pelo trabalho digno ou a luta por igual acesso aos mesmos direitos por homens, mulheres e pessoas de outros géneros. Tudo isso influencia também a música. Apercebi-me que havia muita gente que tinha pouca projeção, pouca voz, mas que anda a fazer muito bom trabalho e falei sobre isso com Rui Eduardo Paes. Ele convidou-me para organizarmos juntos o Queer Fest, até porque eu também tinha começado a fazer programação. Fizemos um levantamento des artistas queer que existiam e concordámos que era urgente dar palco a estas pessoas. O festival inclui também performance, literatura, artes plásticas e debate, o que é muito importante.

 

O que achas que poderia ser feito para alterar a realidade em que vivemos? O facto de estares ligada à formação de uma banda composta só por mulheres foi também uma necessidade de resposta?

Como o problema é de base, o sistema político tem de ser transformado, porque vem tudo daí; é o sistema que nos leva a fazer as coisas de uma maneira ou de outra. E claro que a educação tem nisso um papel super importante. Como sabemos que é muito difícil mudar o sistema assim de repente, vamos fazendo estas lutas interseccionais – todas estas lutas combinadas poderão vir a mudar o que está tão mal. Embora o meu desejo fosse por uma mudança mais radical e mais rápida, as coisas não acontecerão assim, acho eu…

 

E o que achas de encontros e espaços só com mulheres a tocar? Por exemplo, a vossa banda Lantana surgiu por acaso, foi pensada como uma banda só com mulheres ou foi já em resposta a isto que temos estado a falar?

Tem um bocadinho disso tudo. Começa pelo gosto de tocarmos juntas, primeiro do que tudo, como pessoas. Todas nós já tocávamos umas com as outras, mas não as seis ao mesmo tempo. Ninguém faz esta pergunta a um homem que tenha um sexteto, ninguém faz, pois não? Então, por causa disso, a Joana [Guerra], que está nestas lutas como eu – mais engajada –, pensou: «Porque não fazermos uma banda só com aquelas amigas mulheres com quem gostamos mais de tocar?»… E fizemos as Lantana por causa disso. É também em resposta, mas vem muito do gosto de tocarmos umas com as outras. Não tenho nada contra existirem espaços onde estejam só mulheres a tocar, mas não vejo o mundo separado entre só homens e só mulheres, não tenho uma visão binária. Somos levados a crer que há apenas duas maneiras de ser, mas o ser humano é muito mais plural do que isso. Em certos tipos de ambientes e de estruturas sociais, compreendo que as mulheres se juntem e assim se sintam mais seguras para fazer o que pretendem. Preferia, claro, que isso não tivesse de acontecer. Seria bom que houvesse liberdade para toda a gente e que as mulheres não tivessem medo de tocar o que quisessem.