Luísa Gonçalves, 3 de Dezembro de 2020

Uma história de amor

texto António Branco fotografia Ana Pissara e David Gonçalves

O nome de Luísa Gonçalves é menos reconhecido do que deveria. Na última década, tem trabalhado regularmente em projetos ligados sobretudo à palavra escrita, em especial a poetas, portugueses e estrangeiros, entre Paris e Lisboa. Integrou a mais recente configuração do ensemble String Theory, dirigido por Ernesto Rodrigues, que se apresentou no Creative Fest reunindo alguns dos mais reputados improvisadores da cena lisboeta.

Tem colaborado com outros músicos, bailarinos e “performers”, em concertos, arranjos e gravações de estúdio. Do seu pecúlio constam sete discos editados, de entre os quais se destacam os em nome próprio “Book of Songs / Songwritting for E. E. Cummings Poems” e “Cuco”, uma encomenda no âmbito do projeto “Mimos e Livros à Mão de Semear”, da Câmara Municipal de Lisboa / Direção Municipal de Cultura / Bibliotecas de Lisboa, lançado em dezembro de 2018. Atualmente, desenvolve atividade docente na Associação Europeia do Método Suzuki, trabalhando essencialmente como “freelancer” no seu estúdio.

Luísa nasceu em Lisboa, onde iniciou os estudos musicais com o seu pai aos quatro anos de idade. Mais tarde, completou o curso geral na Academia de Música de Santa Cecília, onde foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo atuado com o maestro Maurice Gendron. Completou o curso de Piano do Conservatório Nacional e o curso superior de Piano na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo, no Porto. Frequentou também o Mestrado em Piano Performance na Universidade de Évora, onde estudou com o pianista António Rosado.

As referências centrais são as da música erudita, o desejo de liberdade vem do jazz. Sobre isto e mais, Luísa Gonçalves conversou com a jazz.pt.

 

Li na sua biografia a expressão «I play at my own risk.» / «Toco por minha conta e risco.» O que quer dizer concretamente?

Traduz exatamente aquilo que sinto como uma resistência ao conformismo, à imposição do óbvio e classificável. Sinto isto desde criança, quando comecei a aprender a tocar e não sabia como o dizer. Significa também, para mim, a liberdade e a independência indissociáveis da aprendizagem, da criatividade e da enorme responsabilidade que isso implica. Esta frase, que li, entretanto, num cartaz na casa de um amigo, devolveu-me a identidade, por isso a subscrevo.

 

Como foi a gestação de “Unno”, o seu registo mais recente?

Foi lenta. Comecei em 2017 os primeiros registos. Em 2018, tive o apoio fonográfico da GDA, que me deu imenso alento para continuar e concretizar o CD. Em 2019, a aceitação por parte da editora Trem Azul. Foi uma gestação lenta e feliz.

 

Quando escutei as primeiras notas de “Unno”, e depois as restantes peças, invadiu-me uma sensação de serenidade, resultado da beleza abstrata e indefinível que perpassa o disco. Será o antídoto que encontrou para os tempos conturbados que vivemos?

Fico contente por ter conseguido transmitir exatamente as minhas propostas interiores, nomeadamente os valores da “beleza” e da “serenidade” A beleza atrai-me, a serenidade ajuda-me a sobreviver. São condimentos indispensáveis para vivermos todos os tempos, acho que trespassam e “antepassam” os tempos em que vivemos, são transversais.

 

Vieram-me à memória vários pianistas nórdicos. E eis senão quando constato que uma das peças do disco se chama... “Iceland”. Aquelas paisagens – geográficas e sonoras – atraem-na?

Imenso. O culto, a demanda do silêncio, a estética, a ligação à natureza, a simplicidade, a paz, as cores, as opções que preservam e ao mesmo tempo impulsionam a contemporaneidade.

 

Por falar em preservação e impulso. Aborda um bem conhecido “standard” do jazz, “Laura”, de David Raskin, que já conheceu incontáveis versões. O que nele encontrou que a motivou a explorá-lo em detrimento de outros?

Na realidade, aprendi a tocar este tema com o meu pai na minha infância. Cresci e não o esqueci. O ambiente do filme é incrível. É uma homenagem a tudo isso.

 

“Circle” é uma curtíssima peça em que, por outro lado, descortino ecos, filtrados, do cancioneiro tradicional português. Ilusão de audição?

Sim, é uma ilusão... É uma peça “tricky”...

 

Na sua música são claros os jogos de construção-desconstrução-reconstrução...

Na minha música e na minha cabeça. É um “modus operandi” divertido e... cansativo. Uma arquitetura em que se expõem os esquiços... Como estar a pensar alto. Como estar a fazer lego.

 

Fale-nos das suas referências, pianísticas, musicais e não só...

Tenho primordialmente uma ligação visceral à música erudita. Um bocadinho obsessivamente o repertório pianístico. Em criança adorava Philippe Entremont, ouvia pianistas de todos os lados e nações, Maria João Pires, mais tarde Martha Argerich, que adoro sempre. Toda a escola francesa e russa a que tivesse acesso. Ao mesmo tempo, na adolescência, Oscar Peterson, Keith Jarrett e igualmente todos os pianistas de jazz a que tivesse direito. Como agora, aliás. Sou incessantemente curiosa por conhecer, portanto, tudo é motivo.

 

Sentem-se muito as suas bases eruditas. Como equilibra o rigor que decorre da tradição “clássica” e a liberdade da improvisação?

O meu percurso não me aprisionou, levou-me à consolidação da minha identidade, persegui o potencial até o igualar à possibilidade. Saiu assim a minha linguagem.

 

Atrevo-me a dizer que a sua música tem muito de banda sonora, na medida em que apela à construção de imagens mentais. Já pensou na junção da sua música a imagens?

Não pensei, embora desde pequena as imagens fossem bastante sugeridas para atingir certas sonoridades musicais, o que é bastante comum no ensino clássico do instrumento. Talvez tenha uma abordagem natural nessa junção.

 

É alguém muito interessada no “som”, que trabalha como se fosse algo material. Diria que a sua abordagem tem uma dimensão quase escultórica nesse sentido de burilar a matéria-prima...

O som move-me e leva-me a todo o lado. Foi sempre a minha perseguição e a minha ferramenta. Mais do que tudo. É mesmo orgânico. Das poucas coisas que consciencializei muito cedo. Como uma coisa, como uma companhia. O inverso também coexiste no meu quotidiano, o silêncio.

 

Optou por um registo a solo, muitas vezes considerado a “prova de fogo” para um pianista. Foi o tal apelo pelo risco de que falámos?

Foi um ato proveniente de uma necessidade interior. Uma história de amor. Uma necessidade de retiro. «Só não foi um risco porque fiz primeiro e pensei depois»... Curiosamente, tive mais apoio quando não esperava e estive menos a solo do que em muitos projetos coletivos.

 

O disco tem chancela da Trem Azul. Como surgiu esta oportunidade de gravar para uma editora que a partir de Lisboa tem alcance global?

Gravei no Estúdio Namouche e, em conversa com Joaquim Monte, sugeriu-me algumas hipóteses de edição. Entrei em contacto com Pedro Costa, da Trem Azul, que disse «sim»! 

Gavetas desarrumadas

 

Nasceu no seio de uma família de músicos e artistas. Foi uma vantagem para o seu desenvolvimento pessoal e enquanto pianista?

Acho que sim, sem dúvida. Porque ouvi e vivi muita música, porque tive acesso a uma boa formação. Por outro lado, tive de me autonomizar das experiências de pais e avós e tios, para seguir o meu próprio caminho e não ser condicionada por experiências alheias.

 

Iniciou os estudos formais bastante cedo. A ideia era, desde logo, ser pianista?

Não. A ideia era ter formação musical na minha educação geral. A Academia de Música de Santa Cecília conciliava um excelente ensino curricular com um ensino musical de excelência. Podia-se optar porque tínhamos uma formação bem sólida.

 

Quer dar-nos nota de algum episódio ou de alguém que a tenha marcado especialmente ao longo do seu percurso?

Alguns desacatos meus, quase no final do curso de Piano no Conservatório Nacional, foram pontos de viragem fundamentais para encontrar o som de piano com que sonhava... Os meus filhos foram e são as personagens mais marcantes no meu percurso.

 

Aos dezasseis anos já tinha completado o curso do Conservatório. Estudou depois com um pianista russo em privado. Que vantagens teve esta opção?

Justamente encontrar o som que perseguia, a dureza que me deu a força da persistência, o exemplo e a admiração de que eu precisava na altura para crescer, o confronto com o limite, a autossuperação, que me fez optar de forma inequívoca.

 

Rumou então ao Porto e depois a Évora para completar a sua formação em piano. Como foram estas experiências noutros ambientes?

O Porto foi a melhor coisa que me aconteceu, tornou-se a minha cidade, fico sempre grata a todos com quem trabalhei. É uma cidade incrível para viver, ter bons amigos, trabalhar. Évora foi um percurso interrompido, não terminei o mestrado, mas tive imensa sorte com quem trabalhei e com o que aprendi.

 

Em que circunstâncias começou a escrever o seu próprio material?

Após um “workshop” de piano em Belgais sobre a “frase musical”. Resolvi pegar na obra completa de E. E. Cummings e escrever canções. Desta junção fiz uma edição de autor, o disco “Book of Songs”, que lancei em Paris, na Cidade Universitária. Seguiu-se um disco para crianças também em piano solo chamado “Cuco”, por iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa. Depois recolhi e escrevi o “Unno”.

 

Como é o seu “modus operandi” criativo? As gavetas lá de casa estão cheias de peças?

Sim, mesmo quando faço outras coisas toco piano, e quando não toco estou sempre a tocar. As gavetas estão desarrumadas e arrumo e desarrumo e ando nisto. Gosto muito.

 

Colabora com ensembles de câmara e músicos de várias áreas, foi pianista acompanhadora. Tem também trabalhado na área de interseção entre a música improvisada e as palavras, especialmente poesia de escritores portugueses e estrangeiros. O que mais lhe interessa explorar?

Neste momento gostava de consolidar a linguagem musical e pianística que apresento no “Unno”, acho que é por aí a estrada principal. À volta estão sempre coisas a acontecer que me completam e às quais espero corresponder com igual alegria e autenticidade.

 

Como acompanha a evolução das discussões em torno das questões de género na música, em Portugal e no mundo? Quais os motivos pelos quais não se valoriza e reconhece mais a contribuição das mulheres para as músicas criativas?

As questões de género fazem-me uma certa confusão, mas, sendo eu eclética e curiosa, compreendo que as pessoas tenham de se organizar. Tenho tendências estéticas mais do que de género. Toco para existir e partilhar. Gosto imenso de ser mulher e celebro vivamente o universo feminino e a nossa evidente contribuição para o panorama criativo.

 

Como tem vivido esta dura realidade pandémica que estamos a viver? Tem sido para si um período de fertilidade criativa?

Tenho vivido com imensas regras e o máximo de respeito por tudo e todos, tenho agradecido cada momento em que existe um avanço e uma recuperação. Tenho aprendido e consolidado certas práticas de existir. Tenho criado e toco em família.

 

Já sabe o que vai fazer a seguir?

Toco diariamente. Estou a compor um novo disco, espero que todos consigamos voltar a tocar e estar juntos em segurança.