Hugo Antunes, 14 de Julho de 2020

Evoluir para o incerto

texto António Branco fotografia Miguel Valle de Figueiredo

Muito embora tenha vivido os quatro anos anteriores em Portugal, o contrabaixista Hugo Antunes (n. 1974) regressou em setembro de 2019 a Bruxelas, cidade onde já vivera longamente e onde espera ficar até, pelo menos, 2024. Antes do eclodir da crise pandémica voltava a Lisboa quatro ou cinco dias por mês para ensaiar com duas bandas – Madnomad e RAN –, de forma a mantê-las operacionais. «Aproveitava também para tocar com amigos e celebrar a vida, mantendo alguma proximidade. Deixava espaço para que pudessem surgir alguns convites para concertos», disse o músico à jazz.pt.

Em “Perspectrum”, o disco novo com edição da JACC Records, o contrabaixista alia esforços a duas figuras de peso das músicas improvisadas europeias: o pianista e compositor espanhol Agustí Fernández e o baterista britânico Roger Turner. Em concerto integrado na edição de 2016 do Jazz ao Centro – Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra, os três juntaram-se, a 20 de outubro desse ano, na belíssima antiga igreja do Convento de São Francisco (espaço que remonta ao início do século XVII, com condições acústicas peculiares), para acrescentarem pontos ao conto da configuração “clássica” piano-contrabaixo-bateria. A música, rica em pormenores e subtilezas, atesta uma cumplicidade que se desenvolve sem atropelos ou pressas. Tudo é partilhado a três, em tempo real, num jogo pitagórico revelador de abordagens individuais distintas, mas que notavelmente se completam, saudavelmente longe de rótulos e convenções.

Hugo Antunes nasceu no Barreiro, histórica porta de entrada na capital para quem vinha do Sul e importante polo industrial nos últimos 150 anos, cujas sequelas (negativas e positivas) ainda hoje se fazem sentir. O seu percurso musical não se iniciou cedo para os padrões habituais. Com 26 anos ingressou na Escola de Jazz Luiz Villas-Boas, do Hot Clube de Portugal, para estudar baixo elétrico. Passado meio ano, trocou-o pelo corpulento contrabaixo, decisão que tomou exortado pelo antigo presidente do Hot, Bernardo Moreira. Alguns anos mais tarde prosseguiu a sua formação no Conservatório em Amesterdão, onde começou a estender a sua atividade. Regressado a Portugal, teve aulas particulares e gravou alguns discos como “sideman”. Não muito depois, fez novamente as malas e partiu para Bruxelas, cidade “hub” da Europa, e por lá se envolveu em diversos projetos que o catapultaram para a linha da frente do jazz mais aventuroso do velho continente.

Ao longo dos anos, o contrabaixista tem liderado e integrado diversas e multifacetadas formações, como Madnomad e RAN, mas também Cornettada (com o pianista Giovanni Di Domenico e o baterista João Lobo), o quarteto Velkro, o trio Malus ou o projeto eletroacústico Symph, ao lado do baterista Pedro Melo Alves. Vai para uma década editou o primeiro disco em nome próprio, “Roll Call”, com chancela Clean Feed, no qual explora uma inusitada configuração instrumental, servindo de fiel da balança para dois sopros e duas baterias.

A mira de Hugo Antunes esteve sempre apontada em múltiplas direções. Para além dos já citados Fernández e Turner, já trabalhou com muitos outros músicos relevantes no plano internacional, como Nate Wooley, Paul Lovens, Seppe Gebruers, Michael Moore, Giovanni Di Domenico ou Chris Corsano. Por cá, o rol de colaborações também é extenso e significativo: Carlos “Zíngaro”, Rafael Toral, João Lobo, Rodrigo Amado, Miguel Mira, Luís Vicente, Gabriel Ferrandini, João Lencastre e o já mencionado Melo Alves, apenas para nomear alguns.

Em 2011, num formato mais próximo da linguagem do rock que desde sempre o influenciou, lançou, com os Velkro (que se completa com o guitarrista Stephan Meidell, o saxofonista Bostjan Simon e o baterista Luís Candeias), “The Future of the Past”, na Pling Records. Da sua discografia avultam ainda “Posh Scorch” (Orre, 2013), com o trompetista Nate Wooley, o saxofonista Daniele Martini, Giovanni Di Domenico em Fender Rhodes e eletrónicas e o baterista Chris Corsano e três registos na lituana NoBusiness: o disco do trio “Malus” (2014), com Wooley e Corsano, “Purple Patio” (de 2016, embora gravado quatro anos antes), com os mesmos Wooley e Corsano, a que se juntaram, numa frente rítmica inusitada, os igualmente bateristas Jorge Queijo  e Mário Costa – e “Salão Brazil”, também de 2016, com o saxofonista John Dikeman, o trompetista Luís Vicente e o baterista Gabriel Ferrandini.

Em 2018, integrou a formação que gravou “Space Quartet” (Clean Feed), do manipulador de eletrónica e estratego sonoro Rafael Toral, com o baterista / percussionista João Pais Filipe e Ricardo Webbens nos sintetizadores. Nesse mesmo ano, editou com o pianista belga Seppe Gebruers e essa lenda viva que é o baterista Paul Lovens “The Room: Time & Space” na El Negocito Records. No ano passado, ao lado de Luís Vicente, John Dikeman, do pianista Alexander Hawkins e de Roger Turner, deu-nos a escutar o excelente “Corda Bamba” (JACC Records).

A jazz.pt conversou com o contrabaixista para abordar o que fez até aqui e o que perspetiva para o futuro.

 

“Perspectrum”, o teu novo disco, acaba de sair na JACC Records. Nele, partilhas o processo criativo com dois nomes incontornáveis da música livremente improvisada europeia do nosso tempo: o pianista Agustí Fernandez e o histórico baterista Roger Turner. Como descreves este registo?

“Perspectrum” revelou-se um disco muito especial para mim por inúmeras razões. Antes de mais porque é o disco com o qual mais me identifico. Apesar de ter sido gravado há quatro anos, a música ali cristalizada continua a soar fresca aos meus ouvidos, o que por si só lhe acrescenta (a meu ver) valor artístico. Outra das razões pelas quais considero-o especial deve-se à conjuntura em que foi desenvolvido, tendo em conta os constrangimentos surgidos à última da hora aliados às desafiantes condições acústicas para um concerto com este tipo de instrumentação. Tudo nasce quando me é dada uma “carta branca” para participar nos Encontros de Jazz organizados pelo JACC, à qual respondi convidando John Butcher, Agustí e Roger. O Roger e eu já tínhamos trabalhado juntos, mas, apesar de adorar (também) o que o John e o Agustí desenvolvem, nunca me tinha cruzado com eles. Aliás, a ideia inicial partiu precisamente da admiração artística que tenho por cada um deles. Havia também um sentido, uma direção, que almejava para além da manifesta curiosidade de me ouvir mergulhado naquele contexto. Pensei em cada um deles e como eventualmente poderiam resultar em conjunto. Pensei que o Butcher poderia estimular, trazer ao de cima, aquilo com que mais me identifico no Agustí e que o Roger, para além do mais, poderia ser a força motriz (sem que perdesse a sua voz) que me permitiria libertar-me duma posição “pivot” que gostaria de evitar (talvez abandonar, não sei) tentando evitar cair numa óbvia engrenagem funcional tipo roda dentada.

Queria dar vida à ideia de ter simultaneamente, por um lado, quatro vozes em discurso direto, inspirando-se, motivando-se constantemente, sem que cada narrativa pusesse em causa as demais (um híbrido do primado da não ingerência sem o lado diplomático nem o politicamente correto) e, por outro lado, um arco de composição de total liberdade estética, não identitária, não idiomática, na medida do possível, se é que é possível (muito discutível). Dado curioso, o John e o Roger vêm de uma ilha e eu e o Agustí de uma península. Depois do concerto confirmado e dos voos comprados, no derradeiro momento, o John adoeceu e não pôde voar para Portugal. Eu estava na Suíça em residência artística na AMR e só voaria no dia do concerto para me encontrar com todos em Coimbra, o que encurtaria o plano inicial de residência, restringindo a gravação ao concerto e excluindo a possibilidade de uma sessão gravada no Salão [Brazil] que, se bem me recordo, fazia parte do plano inicial. Após uma troca de e-mails e de alguns telefonemas, todos acordámos em avançar em trio. A súbita ausência de Butcher acabaria então por condicionar, por deitar abaixo, todas as minhas expetativas, bem como as do JACC, calculo. Fator este que acabou por tornar este disco mais especial ainda para mim.

Outro dos desafios seria lidar com uma sala com condições acústicas de elevado nível de reflexão. Com um pé direito altíssimo, a igreja do convento tornou-se um elemento fulcral a ter em conta nas nossas escolhas e, mal nos instalámos no palco improvisado (creio que perto do altar da igreja), pudemos sentir essa marcante influência do espaço. Esse momento em que íamos sentindo a sala à medida que íamos colocando os dedos nos instrumentos acabaria por ser também o primeiro momento em que os três tocámos juntos pela primeira vez. Recordo que, apesar de tudo, me sentia bem, confiante, e mesmo tento partido uma corda no momento exato antes de o concerto começar não me deixei abalar. Tinha consciência do potencial do trio e acreditava que poderíamos estar no encalço de algo... e assim foi. Sem falsas modéstias, não escondo que acredito no valor artístico deste disco, assim como não tentarei camuflar a ansiedade (natural?) que sinto pela forma como poderá ser recebido. Este disco, este trio, tem um som único. “The Room: Time & Space”, com o Seppe e o Paul, também o tem. Se há denominador comum entre estes discos é esse, a identidade, a forma como nos ouço como um e a sensação de diferenciação. Em “Perspectrum” movemo-nos como “UNo”, sem que deixemos de ser “OUTro”. Adoro a sua narrativa construída, a forma como nos tocámos tocando o espaço em volta. Espero termos conseguido traduzir tudo isso na mistura e na masterização do disco, pois foi esse o objetivo: respeitar os intervenientes, o espaço e a forma como estes se relacionaram entre si e com aquela sala.

 

O disco é constituído pelas duas peças a que te referiste – uma muito longa, “UNo”, com quase 45 minutos de duração, e outra mais curta, “OUTro”. Ambas revelam uma grande atenção à minúcia, à filigrana. Tudo é frugal e sentido...

As duas peças são o concerto na totalidade, sem edições. O que se pode ouvir foi o que se pôde ouvir então. Foi totalmente improvisado. Talvez tenhamos feito alguns comentários sobre as características acústicas da igreja, pouco mais. Aconteceu assim. Tocámos uma longa peça, como se de uma suíte se tratasse, sem que essa fosse a estratégia: o plano não era outro que o de simplesmente tocar. Depois tocámos uma “OUTro”, bastante respirada, desafiando o espaço e o tempo. O Agustí é um músico muito especial e tocou bastante dentro do piano, algo que eu adoro nele. Era o que eu pensava que o Butcher poderia extrair dele, trazer essa característica ao de cima caso tivesse tocado connosco. Ao fazê-lo, Agustí superou as minhas já altíssimas expetativas, confesso. O Roger é o Roger. Não há outro Roger. Estou muito feliz por nos termos cruzado e super orgulhoso por tudo o que trouxe de seu para o disco. Estou muito grato aos dois pelo contributo artístico, pela partilha, pela entrega, pelo constante “estar no momento” que trouxeram à música.

Com eles senti que cada gesto musical contava e que o seu peso poderia influenciar não só o gesto seguinte como o arco geral. Cada escolha individual condicionou, assim, as escolhas gerais a um grau elevadíssimo e deixa-me extremamente feliz e orgulhoso saber que isso passa, que se ouve. Este nível de escuta e de entendimento quase visceral é mágico e só se atinge com um nível de concentração e alienação total. Tanto o Agustí como o Roger são pessoas muito sensíveis, mas ao mesmo tempo extremamente ágeis e “rápidas no gatilho”. O meu amigo Paul tem-me falado nessa rapidez que vem da liberdade de escolha desligada da “racio”. É possível ser-se livre e consciente não pensando, seguindo e respeitando o ouvido interno, a intuição. Defende. Penso que para isso é importante também dominar o instrumento e explorar as sua inesgotáveis capacidades e possibilidades. Quanto mais apurarmos tecnicamente os gestos, mais curta e rápida ficará a distância entre o que o nosso ouvido interno nos diz e as suas tradução, interpretação e posterior execução. É como se construíssemos uma ligação direta e imediata entre o nosso universo interno e o mundo exterior. Para que consigamos ser livres de intuitivamente, irracionalmente, “escolher” o que tocar, para atingir esse estado de liberdade total, não poderemos permitir que fatores externos e / ou internos nos condicionem. O Paul é um mestre desse fenómeno que, a título de exemplo, como exercício, poderemos por agora apelidar de vodu. É inexplicável o seu nível de conexão. É magia. Pura concentração e religação com a música e o espaço.

Quando dou “workshops” ou aulas de combo ou ensemble muitas vezes digo que, para nos podermos conectar, temos todos de procurar levitar o nosso ponto de interceção para o ar, o espaço por cima das nossas cabeças, de modo a que não haja obstáculos físicos e para nos conseguirmos colocar mentalmente no mesmo espaço. Como se afinássemos pela mesma onda energética, de vibração. Como se fossemos espíritos com uma capacidade de escuta muito apurada que conseguem ouvir o todo muito antes de haver som. Vodu. O Roger trabalha num plano não menos genial, conseguindo manter uma escuta apuradíssima sem perder contacto com eventuais camadas que possa estar a explorar sem perder, por muito densas que possam ser, o contacto com o que se passa ao seu redor. Vodu mesmo. Ambos são um enigma para mim. Tanto Agustí como Roger são músicos muito especiais, muito amáveis e complexos. O que gravámos, a nossa música, é o resultado direto do que somos. Sinto que quando tocamos criamos uma identidade sem personas, porquanto única.

 

As coordenadas da música foram decididas a três e em tempo real ou trabalharam algum material pré-preparado?

Nada foi decidido nem a três nem por mim. Não houve preparação nem estratégia delineada. O único critério foi o da escolha dos músicos, quando inicialmente o Zé Miguel e eu debatemos o projeto, nada mais, e mesmo essa ideia foi abandonada com a notícia de que John Butcher não conseguiria participar.

 

Queres falar-nos um pouco mais da vossa relação em palco e fora dele, daquilo que vos une enquanto criadores?

Sinto que entre os três há um enorme respeito e uma amizade que cresce com a proximidade que, de formas diferentes, cada um de nós cultiva. Sem dúvida que há valores envolvidos no processo. como a autenticidade. e que tudo gira ao seu redor. Creio que entre mim e o Roger talvez houvesse inicialmente uma maior cumplicidade, por já termos tocado antes em outras ocasiões. No entanto, quando tocámos pela segunda vez na Bélgica, senti que Agustí se tinha aproximado e que gostaria de partilhar muito do que viveu comigo. Espero não estar a cometer alguma inconfidência. Para além de uma identidade sónica, creio que na segunda atuação, em Ghent, essa ligação se traduziu em mim num sentimento de pertença. Pena que tenhamos tão poucas oportunidades para tocar e desenvolver esse lado humano um pouco mais. Conversamos muito. Temos muito em comum, muitas pessoas nos unem também e de certa forma já tenho aquela sensação de que os conheço há muito mais tempo. Quando tocámos em quarteto na Bélgica, o Butcher encaixou que nem uma luva e a crítica desse concerto foi excecional. Sinto-me bem com eles dentro e fora de palco. Tenho muito orgulho no disco “Perspectrum”. Que mais poderei querer se não concertos para continuar a caminhar, continuar a desenvolver o que já construímos e poder evoluir para o incerto?

 

 “Perspectrum” é um disco em que estão presentes os elementos centrais que já conhecemos da tua abordagem, mas parece que os tentas esticar sempre um pouco mais. O gosto pelo risco é para ti uma força motriz?

É muito gratificante “ouler” que há características pessoais já evidentes no que faço. Espero que um dia essa impressão digital se materialize numa rúbrica ou numa assinatura, pois significará que finalmente estarei a dar um rosto à minha voz. Para mim, o meio não é um fim em si, bem como o fim não deverá depender desse meio como veículo para que possa existir. O risco no que desenvolvo é permanente e o mistério é o terreno onde esta forma de criação se move. A fragilidade de todo o processo roça uma corda bamba, tornando o perigo num fator constante. O desafio pessoal, o pôr-se à prova, o gosto pelo risco, a adrenalina podem ser inebriantes, mas não poderão nunca ser a coluna vertebral ou o fim a atingir. Não é disso que se trata. O que referes são pegadas, num percurso de um largo arco que será o todo. Poderão ser etapas ou capítulos de uma narrativa mais esparsa na qual, mesmo que ainda impercetíveis, já começam a mostrar lucidez. Já dizia Mário Soares, caminhar caminhando. Essa é a minha força motriz. Ou matriz.

 

Foram para palco já com essa intenção ou foi perante um resultado tão satisfatório que resolveram depois editar a gravação?

A ideia inicial foi sempre a de gravar, para que depois o JACC pudesse lançar o disco. Esse era o acordo. Não só cumprimos e honrámos, como também excedemos largamente a minha expetativa.

 

O trio, dito “clássico”, de piano, contrabaixo e bateria ainda permite descobertas. O que te atrai nesta geometria sonora?

O que me atrai nesta formação é precisamente o desafio de procurar encontrar novas perspetivas de abordagem a essa geometria, questionando o que chamas de clássico em todas as dimensões. Não o faço com o intuito de reescrever a história ou de fazer “algo diferente e inovador porque sim”, na angústia de poder inscrever o meu nome na história. Não. Faço-o porque acho pertinente colocar em perspetiva a razão pela qual este tipo de conjugação de instrumentos se tornou “clássico” como se houvesse uns certos requisitos que teriam de ser cumpridos para que fosse aceite ou ganhasse reconhecimento. O que faço quando o exploro não tem de ser diferente de quando improviso a solo. O contexto é diferente, mas a ausência de pré-requisitos está presente em ambos, bem como as margens e as fronteiras não terão de existir em nenhum dos casos. Porque não abordar a escuta deste trio como se de três ou mais vozes se tratasse? O que gostaria de conseguir trazer ao mundo é algo que, caso não o tentasse, não o desenvolvesse, não existiria. É esse o risco que corro, o de falhar trazendo ao mundo mais um trio de piano clássico, estéril, insípido, sem valor artístico. Acredito muito no disco “Perspectrum”. Tanto que o assumo assim frontalmente, muito antes de receber alguma crítica, sem arrogância.

 

Gosto bastante da capa, desenhada por Marco Franco...

É um quadro do meu querido amigo Marco Franco, que me fascina. Achei que se adequava pela linguagem, pela composição. Sabe bem ver que a minha geração traz ao mundo coisas boas. Sinto um orgulho enorme por todos os que o conseguem. São uma fonte de inspiração e no caso do Marco de resiliência e elevação. O Marco é também um músico e compositor de excelência e fiquei muito contente por ter aceitado a minha proposta, porque sei que também ele se identificará com a música. Dentro do disco há uns textos com os quais também me identifico muito. O quadro do Marco é feito de elásticos e pioneses, mas foi traduzido para linear porque graças à pandemia e ao respetivo confinamento não conseguiríamos fotografá-lo a tempo para o lançamento. Para além da música, tudo neste disco foi pensado e é especial para mim. Fica o “teaser” para quem quiser mergulhar um pouco mais no meu universo.

 

O teu percurso – vertido em múltiplas colaborações, em concerto e em disco – tem revelado uma personalidade versátil, sem sacrifício da coerência. Procuras posicionar-te esteticamente ou tal não é algo que te preocupe?

Talvez haja coerência “nisto” tudo, não sei, se a consegues ver deve haver. Espero que tenha valor, e esse é o posicionamento que procuro. Em meu nome, o que tento fazer parte de uma reflexão e nesse sentido há uma inequívoca direção ou posicionamento como improvisador. Se olharmos para as participações, outros desafios aceites, bem ou mal conseguidos, sejam concertos sejam gravações, já não há esse cuidado e reflexão. Aceito pelo desafio, por questões egoístas como que a testar-me neste ou naquele contexto, para perceber como me situo ou reajo, por exemplo. Não há tanto um cuidado nesse posicionamento, mas sim outras razões. Um músico precisa de concertos para se manter no ativo, outro exemplo. Também acho importante dar espaço para que outros colegas possam ter uma visão e como tal, muitas vezes, aceito convites sem sequer questionar seja o que for. Nesse registo funciono mais aleatoriamente, talvez em modo tentativa-erro. Agora, para que me sinta atraído, terei de sentir que há potencial e espaço para fazer acontecer magia, como diz o meu amigo Pedro. Mesmo se o resultado final não seja do meu agrado, o processo fez-me passar por momentos em que tentei acrescentar, elevar a música e isso, só por si, para mim, já é positivo.

 

Costumas dividir a tua atividade por vários projetos. Que tipo de contextos preferes para te exprimires musicalmente?

Pergunta difícil. Havendo espaço para me exprimir musicalmente, abertura e aceitação por parte dos colegas, creio estarem reunidos os “mínimos olímpicos” para que tente o meu melhor. Ninguém gosta de ser ou de cometer um erro de “casting”. Já estive nos dois lados. A música não ganhou com isso. Não tenho preferências, mas tenho formações ou bandas em que só o facto de saber que irei sair de casa para tocar com elas me deixa feliz. Sabe-me muito bem não sentir preocupação ou insegurança sobre o que não consigo controlar. Se é que me faço entender...

 

Aproveitaste a crise pandémica para lançar alguma música na plataforma Bandcamp. Algumas peças no baixo elétrico (“Vila Miséria”, que apreciei particularmente, “Mini a Limos”, “Afro Disse Algorítmica”, “Road Trip Short Song”) e também “The Magistrat Sessions”, com a trompetista Sanne van Hek (recentemente falecida) e o baterista Nico Chkifi. O que te ia na alma durante este período? Como te preparas para o (novo) normal?

Da necessidade veio a tentativa de me preparar para o novo normal. Uma conduziu à outra e dei por mim a comprar o meu primeiro portátil e uma placa de som. Precisava de viver, de ganhar dinheiro e pensei em partilhar material inédito e “bootlegs” de concertos. Estas composições no baixo elétrico foram surgindo enquanto explorava as possibilidades da placa de som e do Reaper (programa de gravação multipistas). Há muitos anos que componho em baixo elétrico com recurso a pedais e esta foi uma boa oportunidade para o por em prática colocando no Bandcamp. Entretanto morre a Sanne e ocorreu-me fazer-lhe um tributo. Acho que foi a forma que encontrei de dizer ao pequeno mundo que gravita em torno do que faço que a minha amiga não seria esquecida.

O que me ia na alma (para além de tudo o que todo o ser humano no mundo sente neste momento)? Que as minhas filhas e as outras crianças não merecem isto. É de uma injustiça atroz para uma criança ficar privada do social, do contacto físico com os seus amiguinhos e familiares. Que isto é um sinal de que tudo falhou. Todos os sistemas. Tudo o que é artificial, feito por nós, pensamento económico, fronteiras, política, saúde, energia, credos, religiões, enfim, tudo de A a Z, falhou. Eu, nós, falhámos. Pensei que a Terra poderia estar a querer livrar-se de nós, parasitas. Não deprimi, mas fiquei muito atento às injustiças sociais e à falta de noção de equidade e de transparência que muitos músicos e artistas têm. Vi-me deparado com um setor com mais de cem mil pessoas deixadas ao abandono nos últimos 46 anos de democracia. Decidi arregaçar as mangas e fui professor do primeiro ano para a minha filha Olívia e assistente do sexto ano para a minha filha Camila. Como não tinha cordas decentes no contrabaixo, por pensar que tudo isto seria algo de passageiro, quando fiz a mala com pouca roupa de inverno para vir para Lisboa, não pensei que não poderia comprar cordas “online” e como resultado tive de montar uma corda Lá num Ré para poder praticar um pouco, mas confesso que sem ânimo, muito desmotivado.

Sem recursos técnicos para gravar vídeos, perdi as duas ofertas de trabalho que recebi nos dois meses que estive fechado em casa, já em Lisboa, e decidi compor aquelas peças no baixo elétrico. Ocupou-me a cabeça, fez-me esquecer o contrabaixo e ajudou-me a passar o pouco tempo que me restava entre filhas e lida da casa de uma forma construtiva. Confesso que gosto de compor assim, por camadas. Confesso também que não houve muito investimento nessa música, mas que ainda assim me deu prazer e foi de alguma forma desafiante. Tinha umas pequenas janelas de tempo para o fazer e notoriamente falta de domínio tecnológico (sorri sem falsa modéstia).

 

Também gostei bastante da música que disponibilizaste do trio com Rodrigo Pinheiro e Pedro Melo Alves, registo de uma apresentação ao vivo, no início de março, na Guilherme Cossoul. Apesar de ter sido a primeira vez que tocaram juntos, parece-me haver ali uma química muito especial. É uma parceria para continuar?

Curiosamente, esse foi o último concerto em que toquei antes do confinamento. Fico feliz que tenha sido com o Pedro e com o Rodrigo. Nunca tínhamos tocado os três e já há algum tempo que não tocava no meu contrabaixo. Os meus primeiros seis meses na Bélgica foram sem o meu instrumento, que ficou em Portugal, logo foram tempos de pouco contacto com esse contrabaixo. Esse concerto foi um reencontro com esse matulão, o Pedro, e uma “première” com o Rodrigo. Se é para continuar, não sei. Também gostei do resultado, apesar de me sentir muito em baixo de forma. O meu instrumento é grandinho e quando me afasto dele faz questão de o cobrar. A acontecer uma “reprise” seria um prazer e poder-me-ia proporcionar essa vingança que lhe é devida. Não se avista nada desse género no horizonte. Fica a dica, caso algum programador ou promotor me esteja a ler...

 

Fala-nos no teu conceito de improvisação, que me parece abrangente. Prefere-la completamente livre ou admites algumas coordenadas pré-fixadas?

Depende muito do contexto e das pessoas com quem trabalho. Não creio ter um só conceito ou uma concreta abordagem à improvisação, nem me sinto confortável a pensar de forma hermética. Se analisarmos o que já gravei em meu nome constatamos que há um pouco de tudo o que gosto, desde a improvisação totalmente livre em “Perspectrum” à escrita de conceitos ou ideias base sobre as quais improvisar em “Roll Call” e, inclusive, uma tentativa de recurso a amplificadores em “Malus”. Digo tentativa porque, apesar de achar que funcionámos bem nesse campo, acabámos por escolher música mais acústica para o disco. Continuando, em “The Room: Time & Space” explorámos a microtonalidade de dois pianos, mas já gravei alguns discos mais de free jazz (diz que é um subgénero de um género?), de “fire music” (talvez, não domino bem esses nomes) e um em que nos inspirámos no princípio “harmolódico” de Ornette Coleman. Ou seja, onde quero chegar e tentando continuar a responder à questão, gosto tanto de improvisação livre como de música escrita. Não sou fundamentalista. Gosto muito de improvisar, mas também gosto de me divertir a tocar música (simples) escrita por mim ou escrita por alguém que admire e reconheça valor, mesmo que complexa e sem espaço para improvisação. Por exemplo, Madnomad, que lançará o disco de estreia este ano, navega entre o mundo do hip-hop em modo “mishmash / collage” com recurso a alguma improvisação. É um projeto com canções trabalhadas ao mínimo detalhe, no qual toco baixo elétrico. Adoro tocar baixo elétrico no rock. Adoro rock. Redescobri-o com os Ih8camera e em Portugal fundei os RAN para o cultivar. E quero tocar mais, porque também aí poderá haver espaço para improvisação, para a criatividade. Em suma, há princípios básicos dos quais não abdico, que exijo e respeito (obviamente) como o “estar no momento”, não desconetar do que está a acontecer e manter um espírito aberto em relação a tudo. Havendo também respeito pelo espaço e pela aceitação das escolhas, nossas e alheias (quando aplicável), ficam reunidas as condições para criar. 

Luta interior

 

És natural do Barreiro, cidade às portas de Lisboa com um longo passado industrial. As origens marcam-te, ainda hoje?

Não sei se consigo responder a isso sem que esclareça o que entendo ou como interpreto o conceito de “origens”. Acredito que “nós somos aquilo que comemos” e isso poderá ser considerado como fonte, como a origem. Ou seja, descascando um pouco esta cebola, todas as experiências vividas, todos os locais visitados, pessoas com quem interagimos, tudo o que se sente, como nos relacionamos entre nós e com o que nos rodeia, de uma forma ou de outra acabará por nos moldar. Se e quando decides tocar ou fazer seja o que for partindo do teu ser, mesmo que decidas criar uma persona, o simples facto de não o quereres revelar, optando por ser visto como outro, acontece condicionado por algo que sucedeu, que conduziu a isso aliado ao teu organismo, fator extra e não controlável. Com isto não me quero afirmar como um behaviourista ferranho, mas sim como alguém que reconhece e identifica alguns dos fenómenos que condicionam a existência humana. Disse em tempos que o que fazia, que desenvolvia, relacionava-se em certa medida com toda a “paisagem industrial barreirense” em que cresci. Por paisagem entenda-se toda a infraestrutura fabril, mas não só. Os valores, códigos e condutas daí resultantes também estes fazem parte dessa paisagem.

Não consigo, nem sei se será possível precisar ou sequer quantificar o grau de influência de tudo o que enumerei na pessoa que sou. No entanto, sei que tudo o que “como” acabará por se refletir na música que faço porque é muito pessoal. Também é progressivo, ou talvez exponencial, porque quanto mais toco, mais vivo, e quando vivo, experimento, sinto coisas que depois irão adensar e realimentar todo esse o processo. A arte para mim está associada à pessoa, ao criador. Não o estando é só uma caricatura, uma alegoria do autêntico com origem noutro lado, noutro artista. Isso não me interessa. Por exemplo, quando comecei a preparar o instrumento (lembro-me perfeitamente do dia em que o fiz) não tinha tido até então contacto com o conceito “object trouvé” ou “ready made”. O que me conduziu a procurar em casa materiais que pudessem alterar o som do contrabaixo foi a necessidade de alargar a minha paleta de expressão no instrumento, na tentativa de aproximar o lado exterior (contrabaixo) ao meu interior (universo sonoro por explorar). Queria experimentar e desenvolver tudo o que ouvia cá dentro sem que nunca tivesse tido oportunidade de sair para fora. Já existia, mas não tinha sido alienado. Não fui o primeiro no mundo a fazê-lo, mas também nunca o tinha presenciado, por falta de oportunidade ou por até então estar focado noutro sentido. Nessa altura, ao contrário de hoje em dia, ia muito a concertos em Portugal, conhecia bem o que os colegas faziam e quando decidi colocar molas de roupa nas cordas, correntes metálicas e papel alumínio de cozinha senti-me um pioneiro. Nunca tinha visto isso a ser feito pelos colegas em Portugal ou de outras nacionalidades. Mais tarde observei que alguns colegas também começaram a usar as cordas da roupa como eu o fazia. Não quero com isto afirmar que os influenciei. Pouco me interessa, muito sinceramente. No entanto, acredito que, ao começar a fazê-lo, poderei ter contribuído para que em Portugal se questionasse também a abordagem ao contrabaixo e o seu papel na música até aí feita. Sem modéstia, onde quero chegar é que a minha curiosidade, algum pragmatismo e o agarrar da oportunidade que surgiu desse convite para substituir um contrabaixista americano num concerto de música improvisada, conduziu-me àquele momento e esse crédito não o deixo por mãos alheias.

Desde então, o meu percurso musical foi enriquecido por muitas experiências que me ajudaram a sentir-me apto, hoje, a conversar (musicalmente), olhos nos olhos, seja com quem for. Estou muito grato por todas as oportunidades que me foram surgindo entretanto, porque sei que em cada encontro cresço um pouco mais. Hoje em dia sinto que não estou tão preso a maneirismos, tão apoiado nessas bengalas como outrora, o que faz de mim alguém mais livre. Espero que um dia “Roll Call”, “Malus”, “The Room: Time & Space” e “Perspectrum” possam ser a origem de algo.

 

Que música havia na tua infância e juventude?

Que pergunta fantástica! Na minha infância, a minha irmã que me perdoe a imprecisão, ouvíamos muitas histórias da Disney em vinil, algumas em português do Brasil, ouvia umas pirosices românticas com a minha avó Margarida, que comprava sempre que podia no mercado “o último single!”, “o que estava na berra!”. Ouvia Carlos do Carmo ao vivo no Olympia aos domingos, muita Rita Lee (graças à minha mãe e à minha irmã), Led Zeppelin, Black Sabbath (pela mão do meu pai) e muito cancioneiro de intervenção: do Zeca ao Zé Mário Branco, sem deixar de passar pela Banda do Casaco. Tínhamos sempre à mão umas coletâneas “Jackpot” e os Queijinhos Frescos de Ana Faria eram uma obrigação. Também brincávamos aos clássicos. Ouvia-se de tudo. Era feliz mesmo quando ouvia Marillion, ouvíamos música muito variada. Os meus vizinhos introduziram-me ao metal e com o meu primeiro cheque-disco comprei o “Piece of Mind” dos Iron Maiden. A minha vida teve sempre uma banda sonora. Frequentava “discotecas” (conhecidas hoje como lojas de discos), o que me levou a cultivar alguma proximidade com alguns audiófilos, proprietários e clientes dessas lojas. Muitas tardes da minha adolescência foram passadas na Ferro e Fogo no Barreiro e ao Manel, o proprietário, muito devo, e não só em termos de cultura musical. Era um verdadeiro consultório sentimental, umas horas de terapia sonora. Fui desenvolvendo e apurando o gosto que me fez mergulhar na música independente. Tentei distanciar-me do comercial.

Cresceu em mim essa atitude, de querer ser diferente, de querer sair da caixa. Os meus amigos aceitavam que era volúvel e intempestivo. A música tornou-se um porto seguro, ajudava-me a sarar feridas e muitas vezes expressava o que sentia, mas que por incapacidade e inabilidade não conseguia verbalizar. Seguia movimentos sociais associados ao metal, ao grunge. Surgiu o veganismo na minha vida e outros ismos. Procurava encaixar-me, mas queria ser diferente. Sentia-me numa constante luta interior. Demorei muito a encontrar-me, disse a Maria um dia, «mas há pessoas assim». Todos os meus amigos gostavam muito de música. O Barreiro tem muita qualidade humana. Os meus avós foram muito importantes e tiveram uma grande influência na minha adolescência pelo amor que me deram e por nunca terem desistido de mim, não permitindo que baixasse a guarda ao ponto do não retorno. Tudo tinha uma banda sonora. Obrigado ao Sol pelo Alburrica, onde eu fazia “jump around” com os amigos ao fim-de-semana. Em Lisboa, da casa onde vivi e faço agora quarentena, vejo o Barreiro. Como se fosse para não esquecer de onde venho. Vista de lá, da minha puberdade, Lisboa era um segmento de reta com luzes bonitas. Tivesse tido um “walkman” e depois um “discman” e teria andado em pé na muralha a ouvir Alice in Chains. Como nunca tive, esperava chegar a casa, descalçava as “dirty boots”, pedia o “tijolo” emprestado à minha irmã e tentava ouvir a “Cure for Pain”. Quem passou frio na infância sentirá arrepios a vida inteira. Obrigado, mana.

 

Só começaste a estudar baixo elétrico por volta dos 25 anos, na Escola de Jazz Luiz Villas-Boas do Hot Clube de Portugal. A que se deve este início, diria tardio?

Tendo em conta a minha estória, nada foi alguma vez tardio. Depois dos meus pais se separarem a minha vida mudou drasticamente. A necessidade levou-me a procurar trabalho. O meu tio Zé salvou-me, ensinando-me uma profissão, a de oculista. Mais tarde, quis estudar Direito por acreditar no sonho europeu de Jacques Delors e talvez por uma vez mais querer fazer parte, querer ser igual aos meus amigos. A minha irmã estudava Direito e talvez me tenha motivado a entrar para a universidade. Desisti. Sempre me foi difícil terminar algo, levar as coisas até ao fim. Até então nunca o tinha conseguido e dessa feita não viria a ser diferente. Sentia-me frustrado, tinha de trabalhar em “part-time” e os dias eram pequenos demais para que o conseguisse fazer. Achava isso injusto. Num dado momento, vindo sabe-se lá de onde, houve um chamamento que decidi abraçar. Cortei o cordão umbilical com a loja do meu tio e lancei-me numa aventura que até hoje continua. Inscrevi-me no Conservatório Regional de Setúbal, mas não me senti bem rodeado de tantas crianças. Falaram-me do Hot Clube e telefonei. Tinha 26 anos então. Já tinha visto tudo. Tardiamente ou não, foi quando tudo começou, no ano 2000. Comecei já com toda uma vida na bagagem. Não me foi possível de outra forma. Aprendi que não há fórmulas para isto da arte e não estou certo que se tivesse começado antes conseguiria aqui chegar. Não sei, essa não é a minha estória. A minha começou aos 26. Alguém me disse uma vez que toda a vida fui músico sem que disso soubesse. Não sei. Tenho 46 anos.

 

Poderias não ter sido músico?

Sim, poderia. Mas são os “ses” que nos prendem. Hoje sou um músico porque deixei de os ouvir, os “ses”. Se penso em desistir? Se sim, recorrentemente. Se...

 

E porquê o baixo elétrico? É verdade que foi o antigo Presidente do Hot, Bernardo Moreira pai (Binau), pouco depois do teu início, a convencer-te a mudar para o contrabaixo?

Baixo elétrico porque era o instrumento que tinha tocado na banda de garagem que me entretinha e ocupava em dada altura os fins de semana. Não sabia nada de teoria musical e nunca o levei muito a sério, mas memorizava as posições dos dedos e, durante algum tempo, tornou-se um passatempo. Lá está, talvez me fizesse sentir que pertencia a algo, não sei, nessa altura vivia num enorme nevoeiro. Houve em tempos um grupo de amigos que se juntava para tocar, improvisar, sem grande regularidade, que talvez me tenha alimentado e fomentado a paixão por tocar. Na altura já ouvia também jazz e free jazz. Isto acontece um pouco antes de me despedir do oculista onde trabalhava e me inscrever na escola de jazz. Quando as aulas no Hot Clube começaram, não tendo contrabaixo, foi natural o recurso ao elétrico. Foi o Binau quem me convenceu e empurrou para o contrabaixo, sim. Era a minha ideia a longo prazo, mas foi graças a ele que comecei a estudar, um ano depois de entrar na escola, o contrabaixo. O Senhor Engenheiro deu-me esse empurrão. Obrigado por isso.

 

Barry Guy é uma das tuas grandes referências no contrabaixo. Queres falar-nos de outras? És um ouvinte criterioso?

Sou muito criterioso, mas também tenho muita facilidade em conseguir encontrar algo em qualquer contrabaixista com que me consiga relacionar, gostar ou até mesmo admirar. Em todos vejo algo de especial. É uma virtude minha que muitas vezes não encontra eco na sensibilidade de outros colegas músicos. Também me acontece o inverso. Por vezes as pessoas consideram alguém especial sem que eu consiga acompanhar os argumentos que o fundamentam. Sinto que se criam mitos e endeusamentos que são muito desnecessários à arte e que muitas vezes não se traduzem em valor. Sou imune a isso. Dá-me asco esse inflacionar de nomes. Dá trabalho a quem não o merece e poderá colocar na prateleira e em risco arte com letra maiúscula. Seria importante que se começasse a debater verdadeiramente como escrutinar onde e por que razão o erário público é canalizado numa direção e não noutra. Recentrando a questão, um grande contrabaixista, um grande músico em geral para mim é aquele que me surpreende e suscita a vontade de tocar e evoluir. Alguém que tenha uma identidade, algo de peculiar, seu, uma voz própria, um conceito forte, atrai-me. O preconceito afasta-me. O som é muito importante para mim. A forma como um músico se relaciona com o espaço e com o momento, também.

 

O que guardas da passagem pelo Conservatório de Amesterdão?

Algumas amizades, uma experiência baseada na sobrevivência, o contacto com o ensino da música e a vontade de querer romper com essa fórmula.

 

Depois do regresso a Portugal, voltaste a fazer as malas e partiste para Bruxelas onde ficaste vários anos e te envolveste em diferentes projetos. Como é a cena de Bruxelas, cidade que goza de uma centralidade invejável no contexto europeu, uma espécie de placa giratória?

A Bélgica construiu a sua centralidade. Quando cheguei a Bruxelas, em 2009, percebi porque havia tantos artistas: o estado incentiva a sua fixação com o estatuto de artista. Em Portugal incentivaram-se os “vistos gold” e a vinda e fixação de pensionistas... Cada um tem aquilo que promove. Na Bélgica os artistas são pagos para serem artistas, para criar. A Bruxelas de há cinco anos era uma cidade vibrante pela centralidade e pela multiculturalidade existente, o que me proporcionou o contacto com a mais variada música e com músicos muito completos. Quando regressei a Portugal senti que, quando lá voltava em trabalho, o país tinha mudado um pouco, por força do terrorismo, mas como estava sempre em locais de ambiente controlado, não conseguia ter uma leitura precisa de como o meio evoluía nem da dinâmica cultural das cidades. Com o meu regresso a Portugal, a minha relação com a Bélgica ficou reduzida a um grupo restrito de músicos e não tanto com o meio em si. Desta vez, ao regressar em setembro passado, tinha decidido que os primeiros seis meses seriam para instalar a família e assegurar o seu bem-estar e não para tentar penetrar no mercado ou dizer um “olá, voltei”. Senti que a família precisava de mim a 100% e que para isso teria de adiar a estratégia de reentrada. A pandemia veio atrasar um pouco esse plano, mas acredito que em setembro próximo já consiga reatar alguns contactos e quem sabe iniciar outros.

 

Queres destacar alguns desses projetos em solo belga, eventualmente pelas sementes que deixaram?

Muita música me passou pelos ouvidos e pelos dedos enquanto lá vivi, o que me conduziu a atravessar várias e diferentes fases. Desde o pós-rock dos iH8camera, grupo que integrei fundado por Rudy Trouvé, Teuk Henri e Stef Kamil Carlens, e que estimulou o meu lado mais elétrico e rock, ao projeto – que me pôs em contacto pela primeira vez com Paul Lovens – “all star” europeu de tributo a Sun Ra (Arkestra), reunido por Joost Buis e que envolvia membros do Doek e alguns belgas que se estreou em digressão tocando no Follow the Sounds Fest em Antuérpia, na Bimhuis e em Nickelsdorf no Sun Ra Fest, local onde a Arkestra atuava todos os anos. Destaco ainda o trio Cornettada com Giovanni Di Domenico e João Lobo, com o qual descobri o conceito “harmolódico” e com que senti uma grande afinidade musical. Há uma pequena comunidade de improvisadores que gravitam em torno uns dos outros, à qual pertenci ou pertenço (logo se verá), que me colocou na rota do pianista Seppe Gebruers, com quem tenho trabalhado num trio que me é muito querido com o baterista Paul Lovens. Reaproximei-me de Nico Chkifi e já tocámos em trio com John Dikeman, que agora também vive na Bélgica. Certamente será também muito positivo ter o John por perto durante esta minha “rentrée” belga. 

Shhiuuuuu... é segredo

 

Há dez anos editaste o teu disco de estreia em nome próprio, “Roll Call”, na Clean Feed. Este disco ficou desde logo marcado pela inusitada configuração instrumental, com o contrabaixo a funcionar como eixo equilibrador entre os dois sopros e as duas baterias. Dez anos é muito tempo?

Dez anos é uma eternidade, especialmente quando o telefone não toca com convites para tocares no teu país em teu nome, seja num festival, na Casa da Música ou no CCB. Dez anos são suficientes para retirar o brilho a qualquer moeda. Em dez anos é natural que a frustração se instale. Quando há falta de transparência, começa-se a questionar qualquer «cracia», seja ela a democracia ou a meritocracia. Quando o mérito não é critério, começas a questionar o sistema, os programadores e os promotores. É natural. Quando durante dez anos desenvolves trabalho de qualidade inigualável em Portugal, mas não és convidado para o Jazz em Agosto, questionas o sistema e começas a desconsiderar o curador. É nossa responsabilidade questionar o valor artístico da linha de programação e conteúdo. Temos de questionar porque é que há pessoas sem valor artístico promovidas como artistas e artistas relegados para o esquecimento. Há músicos em Portugal que trabalham ano após ano como se tivessem avenças com alguns teatros, fundações, galerias, muitas vezes utilizando o erário público por meio de amizades e compadrios, criando-se assim um ciclo vicioso e a ideia (errada) junto do público em geral que esses músicos estão na vanguarda ou serão a “next big thing”. Há um dever de esclarecimento. Por isso falei em transparência. Meritocracia. Crescer com arte, educação para a arte é um fator muito diferenciador.

Nos últimos dez anos fui bolseiro Inov-art e construí um nome que não se traduz em trabalho cá. Gostaria de saber porquê. Há programadores que só dão trabalho a uns e outros que só dão trabalho a uns. Torna-se confrangedor até, para ser sincero. A Casa da Música e a gnration, apesar de nunca me terem programado, respondem-me aos e-mails. Do CCB nunca recebi sequer uma única resposta. Porquê? O programador tem de programar, tem responsabilidade, não deve ficar na mão de agências, de editoras e / ou de promotores. Que também têm o seu papel... O JACC tem sido uma das poucas estruturas que me acolheram nos últimos dez anos. Sem ele, por exemplo, o disco “Perspectrum” não existiria. Dez anos é uma eternidade, mas apenas um pequeno grão de areia no tempo. O que faço durará mais que esses dez anos e isso ninguém me poderá tirar.

 

Em “Purple Patio” – com Nate Wooley, Jorge Queijo, Mário Costa e Chris Corsano – são três as baterias numa amálgama sonora desafiante e que detona estereótipos e convenções...

Estávamos de passagem pelo Porto, onde tocaríamos no Serralves em Festa, e tínhamos um dia livre antes do concerto. O Chris tinha combinado ir a estúdio com Jorge Queijo e Mário Costa nesse dia e acabou por nos desafiar a passarmos por lá para participar. O contrabaixo era horrível e recordo que foi difícil encontrar espaço (musical) onde me colocar. Talvez me tenha sentido esmagado pela muralha sonora, talvez o contexto não fosse o mais adequado ou pode simplesmente ter-se dado o caso de não ter conseguido ultrapassar o fator instrumento. No entanto, foi uma experiência muito enriquecedora. Aliás, toda essa digressão foi muito importante para mim e sinto que aprendi muito nesses dias de viagem e música com o Nate e o Chris. Adoro a capa desse disco, mas há muito tempo que não o ouço, não o sinto como meu.

 

No projeto Malus, com Wooley e Corsano, optaram pela via da improvisação integral, mas com uma ligação à linguagem matricial do jazz, da forma como a mesma é entendida pelos três. A chamada “tradição” do jazz é importante para ti ou já descolaste desse plano?

“Malus” é um disco especial porque, apesar de não ser jazz tradicional, soa-me à ideia que tenho de como o jazz deverá soar. É-me difícil explicar ou enumerar as razões – porque não tenho o dom da palavra –, mas há qualquer coisa de muito especial nele. Seja uma certa cor característica, uma certa melancolia, um misticismo que envolve a música e solta espíritos ancestrais que é transversal aos discos de jazz que mais admiro. Espero ter descolado, sim.

 

O projeto Corda Bamba – com John Dikeman, Alexander Hawkins, Roger Turner e Luís Vicente – frutificou num disco excelente. O propósito foi pegar na tradição original da “new thing”, que brotou no final dos anos 1950 e explodiu na década seguinte, transportando-a para a realidade atual?

Fora essa a intenção e seria um erro de “casting” convidar o Roger para o fazer. No entanto, esse foi o resultado obtido naturalmente ao conjugar os restantes membros com um Roger que não poderia negar nem contrariar uma enorme avalanche energética que marchava na sua direção. É uma celebração da vida, esse disco. Como o Roger diria, um disco de “happy campers”.

 

Em que pé está o projeto Cornettada, com Giovanni Di Domenico e João Lobo?

Sinceramente não sei em que ponto se encontra a Cornettada, mas com o meu regresso a Bruxelas pensei em reanimar o trio.  O JACC há dois ou três anos desafiou-nos a fazer uma residência no Salão Brazil e a tocar um par de concertos. Antes disso tínhamos estado imenso tempo sem tocar juntos. Foi muito bonito o reencontro. Senti que a magia continuava lá. Aproveitámos para gravar algum repertório de Ornette Coleman que vínhamos a explorar desde o início e também algumas improvisações livres. Não sei em que parte do processo se encontra esse disco, mas recordo-me que o concerto último na Amadora foi estrondoso.

 

O rol dos nomes com quem tens colaborado impressiona. Haverá alguém com quem queiras tocar e ainda não o tenhas feito?

Gostaria de poder consolidar o trio Perspectrum com concertos e eventualmente voltar a gravá-lo com o Butcher em quarteto. Gostaria de poder ter a oportunidade de tocar com o trio que tenho com o Seppe [Gebruers]e o Paul [Lovens] para que pudesse partilhar com o público o que esse trio desenvolve. Não sei se conseguirei avançar desta forma, temendo que uma vez mais não consiga dar continuidade a eventuais novos projetos por falta de oportunidades para tocar ao vivo.

 

Para além do jazz e da música improvisada, também te envolveste em projetos relacionados com “performance” e dança improvisada. Interessam-te os cruzamentos artísticos? O que buscas neles?

Gosto muito da transversalidade da música na arte. Gosto muito e invisto muito para trabalhar com bailarinos, pintores, videastas, gosto de fazer paisagem sonora e instalação, ilustrar musicalmente vídeo e cinema, compor bandas sonoras. Em suma, a transversalidade na arte. O artista e “performer” com quem mais trabalhei foi Nástio Mosquito. Fizemos muita coisa juntos e em cerca de 12 anos com ele estive exposto a muita arte. Fomos a tanto sítio criar, Espanha, França, Trienal de São Paulo, ao ICA em Londres, Documenta em Kassel, à Bienal de Veneza... Há pouco tempo conheci Carlos Nogueira. Um artista fantástico, um pilar artístico nacional. Fez-me sentir inquietude. Sinto que o meu gosto pela transversalidade, pela arte, me está a conduzir a algum lado desconhecido. Que mais poderá querer um improvisador? Gosto de cruzamentos porque me colocam num espaço mental e criativo desafiante, fora da zona de conforto onde normalmente me movo. Artistas de coutras áreas tendem a pensar diferente, a ter processos criativos distintos daqueles que um músico tem. Isso também me fascina e é muito inspirador.

 

Sei que gostas de duos de contrabaixo. E um disco a solo, está nas tuas cogitações?

Não sei. Gostaria de poder responder que não está, mas... estaria a mentir.

 

Também dás aulas e “workshops”. O que consideras fundamental transmitir a quem os frequenta?

Gosto muito de partilhar conhecimento. Acho das coisas mais importantes para a arte e para a cultura, porque para mim “Cultura” é a memória de um povo. Preparo-me muito bem para dar as aulas que dou e os “workshops” que monto ou em que participo. É essencial munir os alunos ou participantes de ferramentas. Sejam crianças, adolescentes ou adultos, de todas as idades. Inspirá-los para se desenvolverem. Fomentar um sentido crítico. Motivá-los para criarem algo único e pessoal. Gosto de acompanhar os alunos individualmente, mas também adoro dar aulas de ensemble, dar “coaching” e produzir. Ao longo dos anos, grande parte dos meus alunos mantém-se em contacto comigo...

 

Tens ouvido muita música? A consultar uma lista de discos preferidos que há uns anos indicaste à jazz.pt, mencionaste “Irresistible Bliss”, dos Soul Coughing, uma preferência pessoal também...

Tenho ouvido muita música. Tanta coisa tão variada... Kate Tempest, “Archipelago” de Luís Tinoco, HER, QOTSA, Rumah Sakit, Beethoven pelo aniversário, Keith Tippett porque morreu há pouco tempo, enfim... Também há clássicos que revisito muitas vezes e Soul Coughing é um desses dos tempos do Barreiro.

 

O que tens na manga para os tempos mais próximos?

Estou a preparar um solo, mas é segredo.

 

Para saber mais

https://hugoantunes.bandcamp.com/