Hernâni Faustino, 21 de Abril de 2020

Realismo e inquietação

texto António Branco

Hernâni Faustino nasceu em Lamego no ano de 1964. Por volta dos 15 anos começou a tocar baixo elétrico de forma autodidata. Depois de rumar à capital, fez parte como baixista dos K4 Quadrado Azul, formação lendária no fervilhante circuito do rock alternativo de então, com a qual venceu a 2.ª edição do Concurso Novos Valores da Cultura, promovido pelo Instituto Português da Juventude. Em 1988, começou a sua atividade profissional na Valentim de Carvalho, tendo em 1991 passado a trabalhar exclusivamente na secção de jazz. Deve-se-lhe a distribuição em Portugal de editoras como Black Lion, CIMP, Delmark, FMP, New World e Silkheart, bem como de outros fundos de catálogo que então não estavam disponíveis no mercado nacional.

No início dos anos 1990, centrou-se, enquanto músico, no jazz de vanguarda e na música livremente improvisada, trocando o baixo elétrico pelo contrabaixo, sempre com a aprendizagem por sua conta e risco. Entretanto, leva já mais de duas décadas de intensa atividade, desdobrando-se por diferentes projetos em territórios musicais que vão do noise ao reducionismo, passando pelo pós-bop, pelo free jazz e por diversas outras vertentes da improvisação. Entre as figuras internacionais com as quais já colaborou ganham destaque as de Alexander Von Schlippenbach, John Butcher, Rob Mazurek, Taylor Ho Bynum, Mats Gustafsson, Chris Corsano, Peter Evans, Nate Wooley, Agustí Fernández, Paal Nilssen-Love, Jon Irabagon e Dennis González, só para citar alguns. No plano nacional tem trabalhado com a nata da improvisação: Carlos “Zíngaro”, Vítor Rua, Sei Miguel, Rafael Toral, Nuno Rebelo, Pedro Sousa, Manuel Mota, Luís Lopes... a série tende para o infinito.

Em 2003, Hernâni tornou-se sócio da Trem Azul/Clean Feed – considerada por diversas publicações e críticos como uma das mais relevantes editoras a nível global na área do jazz mais aventuroso – e também um dos responsáveis pela Trem Azul Jazz Store, saudosa meca ao Cais do Sodré, que era ao mesmo tempo loja de discos, bar, sala de concertos, espaço de ensaios, local de muitos encontros e tertúlias jazzísticas.

Das várias formações que integra, avulta o RED Trio – ao lado do pianista Rodrigo Pinheiro e do baterista Gabriel Ferrandini –, atualmente em fase de hibernação. O álbum de estreia foi editado em 2010, tendo-se seguido outros sete títulos, o mais recente dos quais, “Summer Skyshift” (com John Butcher), datado de 2016. Em particular, Hernâni tem desenvolvido uma relação musical muito especial com o baterista Gabriel Ferrandini (para além do RED Trio, no trio e no quinteto do saxofonista japonês Nobuyasu Furuya, no Wire Quartet de Rodrigo Amado, no projeto Volúpias), formando um tandem rítmico poderoso. Fez parte também do Staub Quartet, formação que em 2017 lançou o ótimo “House Full of Colors”, integra o Nau Quartet do saxofonista José Lencastre e, mais recentemente, o projeto TextuAlive, da escritora Margarida Azevedo, com o violoncelista Miguel Mira. Tem também composto música para várias peças de teatro.

Entre as últimas gravações em que participou estão “The Book of Spirals” (com Ernesto Rodrigues, Guilherme Rodrigues, Rodrigo Pinheiro e Pedro Carneiro) e “Pentahdron” (com Carlos “Zíngaro”, Ernesto Rodrigues, Guilherme Rodrigues e José Oliveira), ambas com chancela da Creative Sources. Mas a mais recente é mesmo “ākāśa” (Partícula Records), com João Sousa, José Lencastre e Jorge Nuno. Quase escrevi “ao lado de”, mas isto seria errado, dado que, em tempos de confinamento, os quatro músicos trocaram entre si ficheiros de som com os respetivos contributos.

No campo da divulgação e da crítica musical fundou o site New Jazz Improv, realizou programas de rádio (“Luna Jazz” e “All That Jazz”, com Pedro Costa, na Rádio Luna) e colaborou com publicações dedicadas ao jazz, como as revistas All Jazz e O Papel do Jazz. Planos para o futuro não lhe faltam. Motivos de sobra para uma longa conversa com a jazz.pt...

 

Estamos habituados a ver o Hernâni sempre a desdobrar-se em várias frentes, com um entusiasmo e uma entrega incríveis. Como te defines enquanto pessoa e artista polifacetado?

Tive a sorte de poder colaborar com boas pessoas em vários projetos, embora não goste muito desta palavra para definir as minhas incursões profissionais. Não sou capaz de estar nas coisas sem entusiasmo, tem de existir sempre a inquietação, pois de outra forma não seria possível. Sou realista, talvez demasiado… mas tento sempre sonhar e pensar no trabalho e nas coisas em que estou envolvido e de que forma posso contribuir da melhor maneira para aquilo em que estou empenhado.

 

Na música assumes-te sobretudo como improvisador. Qual é o teu conceito base de improvisação?

Para mim, a improvisação é a característica essencial do jazz. Não tenho nenhum conceito base, apesar de tudo o que eu toco ter sempre uma forma e uma estrutura, mas sempre o mais livre possível. É difícil de descrever, porque a ideia também passa por não teres limites… por tocares o que sentes a cada momento e as pessoas com quem tocas proporcionam as cores e a luz que te definem.

 

Muito do teu trabalho centra-se na chamada improvisação livre. A noção de efémero e irrepetível é um estímulo para ti enquanto músico? Albert Ayler disse que «quando ouves música, depois que esta acaba, desaparece no ar, nunca mais podes capturá-la»…

É um facto! O lugar desta música é no palco e a verdadeira essência da improvisação é a conjugação das individualidades e o valor da concentração e da audição são fulcrais. É por isso que me identifico com a improvisação inglesa que teve início nos anos 60 do século passado, nomeadamente o trabalho experimental de John Stevens com o Spontaneous Music Ensemble. Confesso que gosto do efémero e do irrepetível, são tão fundamentais para a improvisação… é como respirares! Eu gosto da pica e da adrenalina de tocar com alguém pela primeira vez.

 

A atividade musicalmente abrangente que desenvolves vai do pós-bop ao noise, passando pelo free jazz e pelo reducionismo, entre outras vertentes porventura inclassificáveis. Ainda assim, existe algum nicho sónico que consideres particularmente estimulante?

Para mim todas elas são estimulantes! No entanto, o que achei mais desafiante e enriquecedor foi ter trabalhado com Sei Miguel. Como improvisador foi para mim importante trabalhar a música com uma direção mais estruturada e vincada com a matéria jazz. Temos também algo que nos une, que é a audição e a discussão constante de discos de jazz. Também a música da banda liderada pelo Vítor Rua – Vítor Rua & Metaphysical Angels – toca temas compostos por ele, assim como o trio Volúpias de Gabriel Ferrandini, no qual exploramos ambientes e temas desenvolvidos pelo Gabriel. Achei todos estes processos estimulantes e adquiri novas valências como contrabaixista. Tenho interesse em trabalhar no futuro com uma formação eletroacústica, depois de uma experiência em quarteto espero poder voltar a ela nos próximos tempos e explorar mais os timbres dos instrumentos e das eletrónicas, sempre no contexto da “free music”. Os últimos discos que gravei para a Creative Sources, a convite de Ernesto Rodrigues, são dois quintetos distintos e desafiantes, uma espécie de música de câmara improvisada com alguma sofisticação, diria.

 

Com o pianista Rodrigo Pinheiro e o baterista Gabriel Ferrandini formas o RED Trio, uma das mais relevantes formações nacionais dos últimos anos, que tem alargado o perímetro do trio “clássico” piano / contrabaixo / bateria. Que balanço fazes da atividade do trio?

O balanço é positivo. O trio trabalhou imenso com ensaios regulares até criarmos o nosso som, a nossa narrativa e também a definição da música que queríamos tocar e isso foi a chave para tudo bater certo. O primeiro disco teve um grande impacto junto da massa crítica, foi nesse ano considerado o melhor “debut” para a publicação All About Jazz New York e de repente começaram a chegar convites para tocar fora de Portugal. Quando convidámos John Butcher para tocar connosco a música foi para outro nível, assim como os discos que fizemos com Nate Wooley e Mattias Ståhl. Fizemos digressões na Europa e também tocámos nos Estados Unidos. Espero que possamos voltar a tocar num futuro próximo.

 

A dinâmica de trabalho do RED Trio passa por trabalho regular ou apenas se juntam para preparar concertos e gravar?

Ultimamente estamos parados, não tocamos em trio faz tempo. Aconteceu de forma espontânea, ninguém disse que queria fazer uma pausa, mas na verdade as vidas de cada um seguiram por outros caminhos, também devido aos nossos projetos pessoais. De qualquer forma, e para te responder à pergunta, tudo depende do trabalho, mas numa situação normal o RED Trio não faz ensaios. Claro que existem exceções, como o nosso concerto dos 10 anos no Maria Matos, para o qual cada um de nós apresentou uma peça para ser tocada por vários músicos convidados e, neste caso, tivemos ensaios. A gravação desse concerto vai ser editada este ano na NoBusiness Records.

 

Estendes a tua colaboração musical próxima com o Ferrandini no mais recente projeto deste, Volúpias, para mim o melhor disco nacional de 2019. Como foi esta experiência, terá continuidade?

Foi um “working in progress”. Graças à residência do trio durante um ano na ZDB foi possível desenvolver trabalho que era um desafio para nós os três. Claro que com mais responsabilidade para o Gabriel, já que foi dele que nasceu isto tudo. O trio foi evoluindo, atingindo o depuramento e a luz essencial nas sessões de gravação do disco. O trio é para continuar, aliás tínhamos uma sessão de gravação e um concerto no Gnration em Braga com Alexander Von Schlippenbach que, infelizmente, tiveram de ser adiados por impedimento do Alexander. Espero que possamos voltar a esta ideia de continuidade.

 

Integraste também o Staub Quartet, com o violinista Carlos “Zíngaro”, formação que em 2017 lançou o ótimo “House Full of Colors”. Em que pé está este quarteto?

Boas memórias desse quarteto! Infelizmente, nunca mais tocámos juntos e com muita pena minha. Este é um quarteto de cordofones de características particulares.

 

Também fizeste parte do Wire Quartet, do saxofonista Rodrigo Amado. Continuam a trabalhar juntos?

Não! Admiro imenso Manuel Mota como guitarrista, adoro tocar com ele… o som daquele quarteto era fantástico. Talvez um dia volte a acontecer. De vez em quando toco com Rodrigo Amado num trio com João Lencastre e temos tido um excelente “feedback” dos concertos que temos feito.

 

Outra formação que integras é o Nau Quartet, do saxofonista José Lencastre, projeto de que gosto bastante e que lançou um conjunto de ótimos álbuns, como “Fragments of Always” (2017), “Eudaimonia” (2018) e “Live in Moscow” (2019). Como é trabalhar com este grupo?

Este é, sem dúvida, o grupo mais fácil em termos de trabalho. Já fizemos alguma estrada juntos e damo-nos todos muito bem e sempre com boa disposição. Em termos de trabalho também não fazemos muitos ensaios, o nosso entendimento é excelente e todos sabemos bem qual o papel a desempenhar na música do quarteto. É um quarteto de jazz livre muito catalisador que explora ideias melódicas e com ordem… Como dizia Cecil Taylor, não existe música sem ordem. Os concertos do quarteto têm sido sempre surpreendentes e tudo isso vem da generosidade musical do José, do João e do Rodrigo… um prazer imenso tocar com eles.

 

E como recordas a tua colaboração com o saxofonista japonês Nobuyasu Furuya? Mantêm contacto?

Foram tempos interessantes! Nunca tinha tocado com um saxofonista com tantas referências diretas da “fire music”. O Nobuyasu tinha um som muito forte e depois tinha aquelas particularidades nipónicas que o distinguiam. Era um excelente chefe de cozinha e são inesquecíveis os encontros na casa que ele tinha em Lisboa. Mantemos contacto e sei que largou a música para se dedicar à cozinha, e mais recentemente começou a publicar livros sobre gastronomia, penso que já tem três livros editados no Japão. Ele tem planos para voltar e fazer uma viagem gastronómica por Portugal.

 

Mais recente é o projeto TextuAlive, da escritora Margarida Azevedo, com o violoncelista Miguel Mira. Que projeto é este?

Foi uma ideia da Margarida! Ela faz escrita criativa e quis criar uma sinergia entre a música e as palavras, onde tudo é improvisado. Fizemos uma residência no Osso Colectivo que foi bastante proveitosa e novas ideias tomaram forma para o desenvolvimento deste trio, principalmente em termos visuais, de interação do texto com o público.

 

Em que outros projetos estás envolvido por estes dias?

A criação de uma editora em modelo cooperativista, juntamente com outros músicos, é o próximo passo. Eu e os meus colegas achamos que é fundamental e pertinente termos uma via própria para poder editar discos em suporte físico e disponibilizar gravações também no formato digital. Tenho uma gravação a solo e também um novo grupo, No Nation Trio, com Jorge Nuno na guitarra acústica e João Valinho na bateria e na percussão, e estamos no processo de escolha de material para um disco. Quero também dar continuidade à banda eletroacústica com Carla Santana nas eletrónicas, Nuno Torres no saxofone alto e João Valinho na bateria e na percussão. 

Vem de dentro

 

Voltemos uns anos atrás no tempo. Como te começaste a relacionar com o mundo da música?

Bastante cedo! Tudo começou com o meu avô: ele tocava viola e cantava fado nas reuniões familiares e comecei a aprender com ele alguns acordes e mais tarde, na escola e no liceu, a tocar com colegas, o que originou o meu início nos grupos de rock.

 

O baixo elétrico foi o teu primeiro instrumento?

O meu primeiro instrumento foi a guitarra acústica (viola com cordas de nylon). O baixo elétrico veio depois, por volta dos 15 anos, e aconteceu aquela situação clássica: não existia ninguém para tocar baixo… e ainda bem! 

 

És um músico autodidata. Fala-nos um pouco do teu processo de aquisição de conhecimentos e de como o mesmo foi evoluindo ao longo dos anos. Alguma vez sentiste falta de uma aprendizagem, digamos, mais formal?

Fui adquirindo e aprendendo com os músicos com quem toquei e tenho a sorte de continuar a tocar ao longo destes anos. A ver muitos concertos, a ouvir imensa música e, claro, a conversar com os músicos e a ler sobre aqueles que admiro neste meio. Já estive em algumas situações mais complicadas, com partituras, e o que acontece é que tenho de passar tudo para cifra, com alguma ajuda, uma vez que não sei ler pautas. Mas decidi que o que eu quero tocar é música improvisada, ser um executante nunca foi opção, tenho imenso respeito pelos colegas que o fazem. Parece um pouco bacoco dizer isto, mas acredito que a música que eu toco vem de dentro, o instrumento é apenas o meio para me exprimir.

 

Começaste pelo rock mais alternativo. Integraste os K4 Quadrado Azul, banda que ainda hoje é considerada lendária nos circuitos alternativos. Que memórias guardas desses tempos?

Eram outra Lisboa e outro Portugal. Depois do chamado “boom” do rock português emergiram muitas bandas, na maioria muito criativas e algumas assumidamente na corrente contracultural. Foi uma época de desbravamento em que os ensaios não eram apenas para tocarmos, mas para nos desafiarmos uns aos outros, por vezes com muita loucura à mistura. A banda passou por várias mutações, o psicadelismo inicial deu lugar a um som mais poderoso e com composições de cariz mais surrealista. Foram tempos que me marcaram e também me definiram como pessoa e como músico.

 

Consegues precisar em que momento e circunstância te cruzaste com o jazz?

Tenho bem presente esse momento! Estava em casa de um amigo, onde por vezes fazíamos noitadas a ouvir música com copos e fumarada e depois, de madrugada, comprávamos pão quente… O primeiro disco foi um LP de Charlie Parker com Dizzy Gillespie… Fiquei siderado com o poder daquela música, nunca tinha ouvido nada assim, o som, o tempo, as melodias, aquilo deixou marcas.

 

És um apaixonado por música, no sentido mais amplo da expressão. Queres falar-nos um pouco das tuas referências de sempre?

Tive a sorte de trabalhar sempre em lojas de discos e isso fez com que tivesse contacto com imensa música e ter também o privilégio de poder ouvir inúmeros discos. As minhas referências são variadas: John Coltrane, Billie Holiday, Cecil Taylor, Lightnin’ Hopkins, John Stevens ou os Stooges, passando por Morton Feldman ou Sun Ra… sei lá, tanta coisa!

 

E quanto a contrabaixistas / baixistas?

Dos mais antigos, gosto imenso de Wilbur Ware, Charles Mingus, Jimmy Garrison e Charlie Haden. Depois, existe outra categoria para mim, que são aqueles que acrescentaram outras possibilidades ao instrumento, como nos casos de Barre Phillips, Peter Kowald, Barry Guy, John Edwards e, mais recentemente, John Eckhardt. Claro que é impossível não incluir aqui Fernando Grillo e Stefano Scodanibbio, que deu um concerto inesquecível na Gulbenkian e ao qual eu tive a felicidade de ter assistido.

 

O teu conhecimento da história do jazz é enciclopédico. Até que ponto é importante, para ti, conhecer o passado?

Quase que podemos dizer que o passado no jazz não tem fim! O que me surpreende mais é a quantidade e a qualidade da música, por exemplo nas décadas de 1950 e 1960 existe um legado imenso, já não se toca daquela forma e se calhar nem faz sentido tocar assim nos dias de hoje, porque o contexto social daquelas épocas era duro. Para mim, conhecer o passado é uma forma de entender o processo, a evolução e a atitude. Músicos como Duke Ellington, Thelonious Monk ou Sun Ra trabalharam arduamente na sua evolução musical em algo que depois foi seguido e aproveitado por novas gerações. Se pegares nos discos de Ellington e fizeres uma audição cronológica, é espantoso verificar a complexidade do trabalho. Claro que isto tudo tem que ver com individualismo. Acho fascinante!

 

Integraste como sócio, durante muitos anos, a estrutura da Trem Azul/Clean Feed, considerada hoje uma das mais relevantes editoras a nível global. Saíste, ao que julgo saber, para te concentrares na tua atividade enquanto músico. Foi assim?

Saí porque já não me identificava com a direção que a empresa estava a tomar na altura, mas sem dúvida que a minha atividade como músico teve grande influência na minha decisão de abandonar. Deixei tudo e todos a bem e sem qualquer trauma e tenho admiração pelo trabalho que Pedro Costa continua a desenvolver na Clean Feed.

 

De tudo o que viveste durante esse longo período, o que mais destacas?

São imensas coisas: a abertura da loja, os concertos na loja, as várias viagens a Nova Iorque, os festivais da Clean Feed, os contactos com os músicos, os incríveis almoços em casa de Ken Filiano. Lembro-me de ter estado várias horas, juntamente com Pedro Costa, à conversa com Charles Gayle e a assistir a várias sessões de gravação. Lembro-me de estar em Chicago com o RED Trio, Luís Lopes e mais amigos portugueses e de, numa noite em particular, uma ida a um bar onde estivemos com Ken Vandermark dar origem a uma desbunda musical na moradia onde estávamos… De tal maneira que na manhã seguinte tínhamos o senhorio à porta. Outra boa lembrança foram as viagens de carro que fiz com Sirone e outra com Roy Campbell, Wilber Morris e Lou Grassi, com Pedro Costa. Claro que houve momentos menos bons, mas só importa aquilo que nos lembramos com mais satisfação. Foi muita vida e da boa.

 

A fotografia é também uma vertente importante da tua atividade. Relaciona-la com a música que fazes ou são dimensões distintas?

A fotografia que eu faço está muito relacionada com a minha música. Faço uma fotografia intuitiva em que o movimento é muitas vezes uma característica fundamental, mas é uma fotografia que considero indisciplinada. Tenho fascínio pelas imagens mais difusas e distorcidas, pela dupla exposição… Basta deixar a luz entrar, é improvisar com a máquina fotográfica ou a câmara do telemóvel. Não tenho qualquer pretensão a ser fotógrafo ou a ser considerado como tal, já que admiro e respeito muito aqueles que fazem arte através da fotografia.

 

Também tens composto música para teatro. Quais são os maiores desafios que esta interação artística te coloca?

No teatro tudo tem de acontecer na altura certa, são marcações, são momentos distintos, é muito trabalho de ensaios até tudo estar pronto para as apresentações. O maior desafio é o processo de criação, tudo tem de estar definido e assertivo. É preciso disciplina.

 

És também cinéfilo. Quais são as tuas principais referências nesta área?

Não sou um cinéfilo! Gosto de cinema, mas tenho imensas lacunas… Gosto dos filmes de Kubrik, Tarkovsky, Bergman, Jarmusch, Wenders, entre outros. 

Polícias do jazz

 

Estando sempre muito atento ao que se passa à tua volta, como vês o atual panorama do jazz e da música improvisada em Portugal?

Atualmente há mais músicos. Aparecem novos e talentosos, maioritariamente no jazz. Na improvisação já não é tanto assim. No entanto, reparo que temos mais jovens músicos interessados em fazer sessões de improvisação e isto é coisa que vejo com muito agrado.

 

Como assistes às cada vez mais frequentes iniciativas de aproximação entre músicos conotados com um certo “mainstream” e músicos oriundos de domínios mais experimentais? Não sendo, de todo, um fenómeno novo, parece ter adquirido nos últimos anos uma outra dinâmica…

É uma situação que já deveria ter acontecido há muito! Penso que é um fenómeno geracional e que mais tarde ou mais cedo acabaria por acontecer. O velho estigma de que os músicos da improvisação não são para levar a sério, ou de que os do jazz não se devem misturar, tem felizmente tendência para acabar. Detesto polícias do jazz.

 

No passado também te dedicaste à música enquanto radialista e crítico em várias publicações. Como vês a atual crítica de música em Portugal?

Gostei muito de fazer rádio, já tinha feito no passado, na época das rádios piratas. A escrita era mais complicada, mas sempre fiz com prazer algumas entrevistas, críticas a concertos e a discos. Deixei de o fazer quando comecei a tocar, não era ético. A atual crítica em Portugal é parca, tendo em conta a quantidade de músicos e de editoras e a quantidade de discos que são editados e de concertos que se realizam. Espero que apareçam mais pessoas interessadas e com opinião para uma missão que não é nada fácil.

 

Sei que estás a explorar os teus arquivos pessoais de gravações e a fazer alguma “arqueologia” sonora. Tens algo em mente, recuperar material, editar alguma coisa?

Talvez! Tenho escutado gravações de alguns concertos. Existe uma gravação do RED Trio com Axel Dörner e Mattias Ståhl que merece muito a pena ser editada.

 

A lista de músicos, nacionais e internacionais, com quem já tocaste é muito extensa e variada. Há alguém em especial que gostarias de acrescentar a essa lista?

Gostava muito de um dia poder tocar com Craig Taborn.

 

Para saber mais

https://www.hernanifaustino.com/