Luís Lopes, 30 de Março de 2020

Mandar para a frente

texto Rui Eduardo Paes

O lançamento do novo álbum do Humanization 4tet era para ter sido acompanhado pela primeira digressão do grupo luso-americano pela Europa, com concertos que se estenderiam geograficamente desde Portugal à Rússia. A pandemia do Covid-19 impediu que tal acontecesse, o que, para já, preserva e circunscreve a identidade “norte-americana” deste projecto que Luís Lopes partilha com Rodrigo Amado e os irmãos texanos Aaron e Stefan Gonzalez e que foi sendo desenvolvida em várias “tours” pelos Estados Unidos. Disso e de tudo o mais que singulariza a banda de “Believe Believe” fala nesta página da jazz.pt o guitarrista e “enfant terrible” da cena jazzística (e não só) de Lisboa…

 

O que podemos esperar do novo Believe Believe, tendo em conta que ao longo da discografia do Humanization 4tet os vossos equacionamentos entre a tradição do free jazz e o jazzcore foram gradualmente pendendo para o segundo factor? Por vezes, em tempos mais recentes, pareciam ser uma banda de jazz que toca rock. Verdade?

Parafraseando o António Júlio Duarte, que acompanhou sempre a banda nas “tours” americanas: «O que os faz poderosos é que são espíritos livres, não estão preocupados com aquilo que as pessoas dirão deles, como os definem. Eles fazem a música e são muito sinceros no que fazem. Têm todos origens diversas e isso é espelhado na música, não se preocupam se lhes chamam de jazz ou de punk.» E é isto! Temos uma enorme paixão, e por montes de coisas diferentes. Queremos ser livres nas nossas “viagens” e escolhas, e acima de tudo: construir uma conformidade entre quatro personalidades, com admiração, respeito e, acima de tudo, interesse e orgulho em estar juntos. Como alguém disse em tempos: «Os Humanizariam são uma máquina aglutinadora.»

Acontece que somos conotados com o universo do jazz. Fará sentido? Para nós todo o sentido. O músico de jazz tem plena consciência de TODO o património que está para trás. Estuda constantemente e toma todos os riscos, ou não será um músico de jazz! Então não se correspondeu, o jazz, com a bossa nova, com o calipso, o Caribe, a música contemporânea, a clássica / erudita, a improvisada de raiz europeia, etc? Ignorar esta história é uma hipocrisia. E depois, partilhar generosamente tudo, também coisas dos mais profundos “eus” que se vão descobrindo, coisas de “nós”. Os músicos de jazz são o próprio jazz… O jazz aponta para a valorização do indivíduo, do que é particular e único, é música para descobrir individualidades… Individualidades interessantes, com estilo, um estilo próprio, sempre em relação com os “outros”, o meio, a vida. Nada vem do nada… O jazz é mundano e extremamente rico, pois procura a elevação, a inovação constante… E muitas vezes é viscera! Quando nos juntamos há tanta informação e energia a circular que a paixão e a empatia se instalam naturalmente. Deixo aqui as palavras de Guy Peters escritas para as “liner notes” deste novo “Believe, Believe”, que espelham bem o que são os Humanization e o que procuram: «O quarteto tem um som sensual, e sensual porque elaborado de diferentes maneiras […] são bandidos livres, funk, rock e noise, uns contra os outros, o que fazer sobre isso? […] estrutura e liberdade num equilíbrio magistral, realizado por uma aliança luso-americana que coloca o primeiro elemento à prova máxima e o segundo executa com um foco agudo. Em suma, “this is the shit that you wanna see in live concert”.» O jazz dos Humanization é mundano e libertino.

 

Como entendes a relação do Humanization 4tet em disco com a banda de estrada que sobretudo é, tendo em conta que este novo CD foi gravado ao vivoem estúdio? Achas que o álbum capta bem a dimensão live do grupo?

Este novo “Believe, Believe” foi gravado durante a nossa última “tour” americana numa sessão ao vivo no Marigny Studios em New Orleans, estúdio com audiência, bar e tudo, modalidade muito usada nos Estados Unidos, fundamental para dar à música um ambiente mais orgânico e uma ajuda para pagar as despesas de gravação. É um pouco mais arriscado, mas essa situação transporta-nos para uma posição mais no limite e, consequentemente, mais autêntica, que é o que faz sentido para nós. O nosso anterior “Live in Madison” foi gravado no mesmo sistema, na digressão americana de 2011, dessa vez em Madison, Wisconsin, arredores de Chicago, onde terminámos. A nossa estratégia é sempre essa: juntamos as ideias, o material, começamos por ensaiar dois dias, só para fixar e ver como “soamos” nessa altura. Tempos diferentes, mentes diferentes, músicos diferentes, banda diferente, enfim…

Depois vem o mais importante, que é a construção constante, no sentido da elevação ao máximo das capacidades do grupo, sempre em forte relação com tudo o que acontece à nossa volta, que é tremendo, e isso fazêmo-lo de concerto em concerto, até à sessão de gravação, duas vezes em estúdio, outras duas em sessão ao vivo. Logo a seguir à actuação no Jazz em Agosto, quinze dias depois da “tour” americana de 2011, fizemos uma sessão de estúdio de dois dias no Namouche, em Lisboa, mas a música não estava lá! E, paciência, nunca a usámos para um disco. Estávamos drenados, não aconteceu, e quando não está lá, não está lá. Felizmente, havia a sessão de Madison, que foi o que ficou.

“Believe, Believe” é o título de um poema da autoria de Bob Kaufman, poeta nascido em New Orleans, conotado com o movimento Beatnik, admirado por Allen Ginsberg e outros, embora racializado e marginalizado por isso mesmo. Existencialista e mundano, a caminho do enlouquecimento, assim é o Humanization 4tet. Estávamos agora bem embalados para a nossa “tour” de apresentação do disco numa digressão pela Europa e pela Rússia, com concertos também aqui em Portugal, mas infelizmente foi tudo cancelado, todos os 12 concertos, devido a esta desgraça do coronavírus. Espero que possamos mandar isto mais para a frente, para voltar a viver o nosso “show”.

 

Tem passado a ideia de que, se os temas do Humanization 4tet são da tua autoria, a forma como eles surgem depois depende muito do que fazem os músicos na sua interpretação. Pelo que oiço, dão primazia à improvisação colectiva e as composições acabam por ser desfeitas ou viradas do avesso. Confirmas?

Os Humanization seguem uma fórmula muito simples, que, de resto, aponta para as ramificações do jazz como música popular: uma “song”, um grupo de motivos, um tema clássico de que gostamos, proveniente da história do jazz, ou simplesmente um conceito de improvisação / composição em tempo real que é apresentado, sugerido. Depois, liberdade para descobrir o quer que seja que vá dar. Tudo isto “embrulhado” de certa maneira, com muita improvisação. Podemos cortar os temas pelo meio, repeti-los várias vezes, etc., tudo o que quisermos. Somos livres e responsáveis! Cedo se instalaram a confiança, o respeito e a admiração entre os elementos do grupo, o que nos aproximou mais do colectivo, em detrimento de um líder, que continua apenas por ser mais funcional assim em termos produtivos, pragmáticos. No teatro de operações ou na prática da música esse líder desapareceu.

O primeiro disco, “Humanization 4tet” (Clean Feed, 2008), serviu como um arranque, uma declaração de  intenções, e daí ter, na íntegra, composições minhas, que já tinha escrito antes, mas o tal método instalou-se com naturalidade. No outro dia, estava eu e Rodrigo Amado já a preparar e a ensaiar para esta digressão por Portugal, Europa e Rússia que foi cancelada, ouvindo as músicas dos nossos discos antigos, que íamos voltar a tocar agora, e notámos, divertidos, a maneira como por vezes distorcemos os temas, alteramos notas e tudo, mas feito de forma verdadeira e respeitosa em relação ao motivo. O motivo está lá, mas representado de outra maneira, como se pintássemos uma figura e logo a borrássemos, passando-lhe a mão por cima. E mesmo que não sejam os nossos temas, aquilo começa de uma maneira e de repente já está num estado que nós nem acreditamos… Foi hilariante. Mas soa-nos tão bem assim.

Começamos a tocar determinados elementos e chegamos ao modo de como tocaríamos se esta música fosse toda improvisada. Ao longo dos anos, se tocas a mesma canção com a mesma estrutura, ela ganha outra energia no decurso das diferentes actuações. No início da digressão tocas uma coisa e no fim já tocas algo de diferente. É uma viagem de um ponto para outro: o que está para trás, está para trás. Por isso é que gravamos os discos no fim das digressões: no final, é uma súmula. De qualquer forma, a partir do segundo disco começámos a partilhar a composição por todos e até a juntar temas de outros músicos que admiramos, como é o caso do “Bush Baby” de Arthur Blythe. Até que chegámos a este “Believe, Believe”, no qual tocamos “Eddie Harris”, tema de um disco de Clifford Jordan composto por Bill Lee, no qual só há uma composição minha.

 

Vocês parecem encarar o Humanization 4tet sobretudo como um projecto performativo, e daí o convite habitual ao fotógrafo António Júlio Duarte para captar (e fixar em imagem, em ambiente) essa vertente. É assim?

O palco é onde abrimos o NOSSO espaço, onde assentamos praça com as nossas “bagagens”, onde tudo o que somos, vivemos e construímos é evocado, e não apenas o que acontece na “tour”. Depois, por vezes, vem a porta para a transcendência, para o infinito, a elevação, rumo à NOSSA profunda liberdade. Esse “lugar” é o que perseguimos e procuramos alcançar, onde tudo faz sentido. O nosso “show”! Assim como uma peça que é criada, uma escultura que ocupa um determinado espaço e é observada, é vivida por “todos”. Temos consciência dessa inevitabilidade. Aí pode entrar tudo, como a partilha, a generosidade, a fruição de ideias e emoções e/ou a provocação,  a irreverência, que facilmente identificamos como um elemento pertencente ao punk-hardcore (universo vivido também pelos Gonzalez). Erradamente, pois tudo isso pode existir também no jazz… o jazz também é irreverente, provocador e até subversivo.

O António é um caso totalmente à parte. Está algures entre o grupo, ao qual pertence como uma espécie de quinto elemento, uma peça fundamental na engrenagem, e as suas visões. Ele constrói o seu “show” e ajuda a construir o nosso, que é o seu também… uma coisa deste género. É do maior privilégio ter connosco uma personalidade colossal como António Júlio Duarte. Um hino à humanidade! Cimentámos uma relação de grupo muito forte. Os Humanization tornaram-se parte das nossas vidas. Temos sempre muita vontade e saudades de estar juntos para viver novas e intensas aventuras, potencializando, e concretizando, ideias criativas que possamos depois partilhar com os outros. Por isso é tão especial. Continuamos sempre juntos, como uma família, como uma família de amigos, com património e potencial criativo. 

On the road

 

Dado esse factor de experienciação, no palco e relativamente a tudo o que acontece à volta durante as digressões que já fizeram, sei que têm vivido muitas histórias singulares que acabaram por alimentar o vosso universo musical. Recordo que, numa das “tours” pelos Estados Unidos, foram agredidos por um “gang” e ficaste com um tímpano rebentado. Podes contar algumas dessas aventuras e desventuras?

Bom, são “tours” na estrada, que é coisa que os músicos de jazz faziam e agora é coisa rara, residual. As bandas de rock continuam a fazê-lo. O“on the road” na América profunda.  Uma enormidade.  Viver as mais espontâneas e incríveis experiências, a acontecer ao segundo. Não podemos ser os mesmos depois de andarmos juntos desta maneira intensa na estrada, de cidade em cidade, durante quase um mês a viver com toda a intensidade os momentos mais maravilhosos, surreais e inesperados que se podem imaginar. Uma carrinha (ou duas) com cinco pessoas carregada de material, sacos de discos e emoções ao rubro. Cada paragem, cada cidade, é uma nova aventura. E ainda por cima na aglutinadora e intensa América real. Só visto e vivido. E com isso ir construindo música e laços de amizade e intimidade fortíssimos. Pelo meio vão acontecendo montes de peripécias como aqui ou em todo o lado, o costume quando estás em digressão. Fazer milhares de quilómetros, dormir em casa de amigos, por vezes todos ao molho no chão, em motéis, raramente em hotéis. Furos e avarias na carrinha, sempre com as horas contadas, etc. Tudo acontece. Uma vez, nesta última “tour” de 2018, fomos encontrar o Aaron preso a uma mesa de snooker, quando estava a tentar sacar a chave da carrinha de um dos buracos das bolas. Disse que tinha caído para lá, mas nunca a encontrámos. Por sorte foi em Austin, a cinco horas de Dallas, onde ele e o Stefan moram, e por mais sorte ainda o dia a seguir era o único que tínhamos livre na “tour”. Andar na estrada com estas quatro cabeças não é pêra doce, é preciso criar músculos, física e psicologicamente. E lá foi ele a Dallas buscar outra chave. Para ele foi como se nada fosse, o dia todo a viajar e a ouvir música, e nós a beber uns copos descontraidamente.

A América é, de facto, muito diferente e em muitos aspectos, nomeadamente, como não poderia deixar de ser, a questão das armas, que as probabilidades, talvez o destino, fizeram cruzar com o nosso percurso. Uma vez, penso que em Houston, depois de um concerto numa Casa de Artes e Cultura, ficámos a dormir em casa do promotor, o Al, um tipo com uns 60 anos. Uma casa com muita pinta, de dois pisos, cheia de história do jazz, num bairro de pessoas com algumas posses. Deixou-nos em casa e foi dormir com a namorada para outro sítio, a fim de ficarmos completamente à vontade. Estávamos ainda na divisão da entrada, encantados, quando de repente tocam à campainha. Eu estava mais próximo da porta, espreitei e vi um homem do lado de fora, os outros disseram para abrir, abri, e num fragmento de segundo estava com uma caçadeira de canos serrados literalmente encostada à barriga, empunhada por um homem enorme à minha frente, que mais parecia a morte que me vinha buscar. Gelo e silêncio total! Nunca poderei explicar o que senti naquele momento, mas uma coisa é certa para mim: se o tempo é totalmente relativo, aquele foi uma eternidade. Depois finalmente falou… e perguntou: «Who are you guys?». Dissemos que éramos amigos do Al e músicos de jazz, tentámos tudo o que podíamos e eu sempre com a caçadeira encostada à barriga. E ele mais uma vez falou: «I saw some white guys around the house», que éramos nós, portanto. Era simplesmente o vizinho. Afro-americano, tal como o dono da casa. Depois ele lá acabou por baixar a arma e tudo ficou bem com ele a pedir-me para afinar as cordas da guitarra do filho, que estava sempre desafinada. Mudou totalmente de estado de espírito, como se não se tivesse passado nada. A displicência, a facilidade com que isto acontece! É que eles, no Texas, podem matar quem entre em casa deles.

Em Atlanta, no caminho do concerto para o hotel, uma avenida bem grande, penso que da “downtown”, fizemos uma caminhada dolorosa, abordados de metro a metro por mendigos que apareciam por todos os lados a pedir dinheiro. Pareciam fantasmas, sempre com uma “stress” doentio. Os Gonzalez davam-lhes dinheiro, sempre com uma cara de tensão que nos preocupava.  Outra vez, essa de que falas, foi em Detroit, cidade em total colapso, devido à decadência da indústria automóvel. Tínhamos acabado o concerto e surgiu a ideia de assistirmos a um festival de punk-hardcore. E lá fomos todos, um grupo de sensivelmente 12 pessoas, amigos dos Gonzalez, tipos grandes e fortes, género dois metros, cabelos enormes e cheios de “tattoos”, com apenas uma rapariga. Fomos a pé. Ninguém na rua, silêncio total. Eu estava mais para trás com o Aaron, éramos os últimos. De repente, sinto uma pancada gigante na cabeça. Parecia um tijolo. Tu nem imaginas. Mais um daqueles momentos que duram uma eternidade e que não há palavras que expliquem o que se sente. Tempo suficiente, entre a pancada e a queda, para pensar que tinha sido de lado, portanto, fui agredido e com uma violência que só eu sei! Como tal, o medo instalou-se com a mesma velocidade de um instinto de sobrevivência vindo não se sabe de onde, pois tudo passa pela cabeça, nomeadamente a pergunta: quem é que vem atacar / picar um grupo de 12 pessoas, algumas delas bem corpulentas e de aspecto tudo menos sonso? Ao mesmo tempo que poiso a mão no chão, olho para trás e vejo um “gang” enorme, com cada vez mais pessoal a chegar, todos negros e cheios de armas. Surreal. Tal cenário só dá para tentar fugir. E ao fugir fui passando pelos outros com as suas caras de pânico e medo. Um dizia: «Ok guys, prepare yourselves to fight». Pela tua própria vida, percebes? A rapariga estava em estado de choque e só gritava com o telefone na mão: «Police, police…».

Muita confusão, caos, um inferno, não sei bem o que aconteceu. Só sei que, no meio da fuga, eles desistiram e desapareceram, talvez o seu território acabasse ali. Penso que a ideia seria deixar-me K.O. no meio do chão e ninguém poder sair dali e haver luta. Ainda bem que consegui fugir. Não sei como! Depois, quando chegámos a casa desses amigos, onde ficámos a dormir, numa rua meio abandonada, de casas enormes, vicentinas, decrépitas (eram talvez “ocupas”), continuou o filme: eles armaram-se e estavam a organizar-se à espera que os outros atacassem, pois tinham ouvido os outros a dizer: «These Texas guys.» Tinham visto a matrícula da nossa carrinha estacionada à porta, portanto sabiam onde estávamos. E nós a dormir todos na sala, que tinha uma vitrine enorme virada para a rua, rés-do-chão. Foi um inferno, aquilo. Depois ainda fomos para Chicago e Madison, onde gravámos um disco. Sempre a perder o equilíbrio, senti que estava doente. Quando cheguei fui direitinho às urgências. Tinha um tímpano literalmente perfurado, rasgado. Estive em tratamento durante dois meses. Fiquei bom, penso eu. Mas levei muito tempo a tentar compreender de que forma este episódio me traumatizou, pois que traumatizou, traumatizou! Depois, como se não bastasse, em Chicago outro episódio. Eu, o Rodrigo e o António ficámos a dormir em casa de uma amiga dos Gonzalez. Eles foram para outro lado. Era a casa da mãe, que não estava, uma cantora mais ou menos conhecida de jazz, também em “tour” na altura. Uma casa grande e muito bonita. Tudo a correr bem, mesa redonda, alguns copos, etc. Até que chega um amigo dela e se junta a nós, ficou ao meu lado. Começou a falar comigo, enquanto os outros, Rodrigo, António e ela, falavam entre eles. Às tantas ele começou a endurecer o discurso e a dizer, entre outras coisas, que era um tipo muito perigoso, preparado para tudo e, lá vem outra vez, estava armado! Caiu-me tudo. A tentar ter calma, percebi que talvez ela o tivesse chamado, por ter medo que a atacássemos. Ela era afro-americana e nós os três brancos, é isso? Não sei, só sei que lhe disse que éramos pessoas de bem, não violentos. Enfim, acabou tudo em bem.

Houve outros episódios de loucura. Um deles mais descontraído e empolgante, em Houston. No fim do concerto, o promotor e contrabaixista Damon Smith quis levar-nos a um sítio que chamou de «the real shit», para bebermos uns copos. Fomos parar a um clube de blues, daqueles afastados, no meio do nada, simplesmente brutal. Com banda a tocar ao vivo e pista para dançar, músicos vestidos a preceito, o vocalista de fato branco muito bem engomado e gravata. Mesas para copos e para jantar. Éramos os únicos brancos num clube cheio. Fomos atendidos por uma senhora desdentada, linda, sempre em jogo de tensão connosco, mas boa onda. Comemos bem e bebemos ainda melhor. Depois, as mulheres “afro-power” começaram a vir-nos buscar para dançar, o primeiro foi o Rodrigo, na boa, com felicidade total, e os outros seguiram-lhe. Foi incrível, embora sempre com tensão no ar, em que tudo pode mudar em segundos. E é isto, na América é assim! Também houve aventuras maravilhosas, com situações e pessoas incríveis que se foram cruzando connosco. Tudo fica expresso na música que fazemos, disso não há dúvida.

 

O que levou a que tu e o saxofonista Rodrigo Amado se associassem neste grupo aos irmãos Aaron e Stefan González, músicos do Texas que estão tão ligados ao jazz como ao punk e ao metal?

Algures em 2007 fui ver os Yells at Eels, grupo dos Gonzalez com o Dennis (Pai), que estavam a tocar duas noites aqui em Lisboa. Levava comigo a guitarra porque tinha ido tocar com o saxofonista grego Floros Floridis, grupo em que se incluía também o Rodrigo, que era, sempre foi, tal como eu, admirador de Dennis Gonzalez. Gentilmente, o Dennis convidou-nos para tocar um pouco com eles, e depois, no fim da noite, convidou-me para voltar no dia seguinte.  Houve química, boa vibração e uma energia muito positiva. Adorei os irmãos Gonzalez, a sua forma criativa e orgânica de tocar, sem preconceitos nem academismos pindéricos despropositados, altamente talentosos e sempre com as emoções todas no máximo. Dois génios. Gerou-se entre nós, por variados motivos, uma enorme e intensa comunicação emotiva. Em relação ao Rodrigo, já tínhamos tocado bastantes vezes juntos e fazíamo-lo com alguma regularidade. Fazemos parte do mesmo circuito lisboeta. Eu até já tinha tocado alguns temas do primeiro disco com ele e andávamos à procura de uma secção rítmica apropriada. E assim foi, o destino.

Sendo filhos de Dennis Gonzalez, um trompetista lendário, o Aaron e o Stefan cresceram numa casa onde circulavam todos os grandes músicos que tocavam com o pai, de dentro e fora da comunidade de Dallas, como Alvin Fielder, Charles Brackeen, Malachi Favors, Louis Moholo, Olu Dara, etc. Ao mesmo tempo, mergulhavam no mundo do punk-hardcore e metal. O Dennis e a Carol, sua esposa, sempre alimentaram tudo isto com toda a intensidade e energia que têm: é uma casa cheia de humanidade, muito rica de informação, e isso transparece. É lá a base onde iniciamos as digressões, ensaiando no meio da sala. Depois vem as grandes refeições, sempre com muita alegria. O Dennis é como se fosse irmão deles, somos todos irmãos! É uma espécie de um deus e estará sempre presente nas nossas vidas.  

 

A utilização de elementos das referidas tendências musicais são recorrentes na música que vais fazendo, a exemplo do Lisbon-Berlin Trio, dos Guillotine ou do teu Noise Solo. Algo de particular nas suas adopções surge com o Humanization 4tet. Podes definir como e porquê, tendo em conta que é o teu projecto mais antigo, talvez o principal?

Não penso em nenhum projecto como o principal ou sendo mais ou menos importante do que os outros. Nem tão pouco em termos cronológicos. Todos têm o propósito de servirem como canais para visões e reflexões. Embora alguns tenham surgido antes e outros depois, existem por tempo indeterminado, e mais tarde farão parte de um “todo”. O que eu respeito, isso sim, é a direcção textural e estética que cada um representa dentro das várias ramificações que imergem do profundo mistério que constitui o meu “eu”, a minha consciência, ou subconsciência, como queiras. Penso sempre muito, seja nos projectos que crio, seja, noutra dimensão, nos que sou chamado a participar. Defino territórios e viajo neles, antes de iniciar trabalhos. Isso tem necessariamente que ver com as características dos músicos que fazem parte de cada projecto e que possibilidades oferecem, como podemos trabalhar, quanto tempo e que condições conseguimos para nos preparar, que possibilidades financeiras, logísticas, etc. Nada fica de fora, tudo faz parte, tudo influencia! Os Humanization advêm de tudo o que já falámos, que posso resumir como tudo o que a América tem de bom, ou pelo menos de interessante para mim, e representa a fonte onde nasceu este universo que é o jazz.

O Lisbon-Berlin Trio, transformado agora num quarteto com a adição de Rodrigo Pinheiro no Fender Rhodes, tem dois músicos alemães como Christian Lillinger e Robert Landfermann, dois colossos com um grau de profissionalismo e uma eficiência fora do comum. E são alemães! Com toda a sensatez e verticalidade isso não pode passar-me ao lado, muito pelo contrário: fascina-me poder criar à volta deste “material” uma vertente única e totalmente direccionada para um determinado universo cheio de alusões à história recente, que bem conhecemos e que sempre foi e continua a ser de altíssimo interesse, como o romantismo alemão e até bandas de metal, que ouvia e eram das minhas preferidas, como Kreator, Carcass e Sodom. Temos disco novo gravado em Berlim, pronto para sair, espero que ainda este ano, com alusões a Goethe e que se vai chamar “Sinister Hypnotization”, por razões óbvias: como construir uma sociedade inteira para servir um determinado propósito, mesmo que seja a “barbárie”, ou simplesmente como servir o grande capital ou os “castelos” do mundo, sem notar absolutamente nada, ou será que se nota? E ter uma composição que se chama “Vertigo”, que aponta para o Blitz nazi, implacável e arrasadora máquina de guerra que deu no que deu. Interessa-me compreender, ou pelo menos não desistir de o tentar. E isso tem de passar pela música. Há também uma composição que se chama “O Andróide que Sonhou Ser Humano”… Ora, sonhar é já uma qualidade humana… 

Há ainda o trio Guillotine, que lançou o disco homólogo (pela Clean Feed, 2019), alusivo à Revolução Francesa e suas fases, tipo: preparação / conspiração, acto, tentativa de consolidação, excessos, orgia, caos, contra-revolução, retrocesso / normalização, coisa desse género, com dois músicos muito jovens, o violoncelista Valentin Ceccaldi e o baterista norueguês Andreas Wildhagen, duas máquinas infernais. Mais uma vez, com um grau de concentração no trabalho, uma verticalidade e uma força criativa fora do comum… Trabalho é trabalho, conhaque é conhaque! Precisamos de mais tempo, mais um disco para consolidar uma determinada linha de expressão. O que é interessante para mim é receber de braços abertos a influência de músicos de calibre e personalidades tão fortes quanto estes e aproveitá-la para enriquecer a minha música, o contrário de caminhar no sentido da redundância e da mediocridade. Todos estes grupos têm uma fórmula em comum: existem partes escritas que depois se misturam com a improvisação, com o descontrolo. As diferentes vozes estão escritas com o entrosamento certo, mas de modo a poderem moldar-se no sentido do descambe. É assim que eu gosto, do caos, da perda de controlo. Essa vertigem fascina-me! É que ser extremamente competente e altamente eficiente não chega, tens de transcender! É com músicos desta natureza, com mente aberta e objectivos bem definidos e interessantes, que quero trabalhar. O espírito da contradição, no sentido da desvalorização de tudo, o gozo, não me interessa, tentei sempre afastar-me da estupidificação. Cuidado: os estúpidos tendem sempre a (tentar) baixar tudo ao seu nível. 

Os meus solos, Love Song e Noise Solo, são diferentes: estou sozinho! Representam a minha consciência existencial em relação com “este sonho” que sinto, observo e vivo! Está lá tudo, amor, solidão, desgraça, tristeza, a felicidade por vezes, a generosidade, a fraternidade, a barbárie, que nunca morre e teima a aparecer não se sabe vinda de onde, etc. Enfim, questões em permanência do nosso mundo.

 

Para saber mais

http://www.luislopes.pt/?page_id=108