Seamus Blake, 19 de Fevereiro de 2020

Ator de sons

texto António Branco

Seamus Blake tem vindo a cimentar a sua posição no panorama internacional como uma voz interessante dentro de um certo “mainstream”, sem abdicar da liberdade de trazer a linguagem do género para a contemporaneidade, misturando-a com elementos provenientes de outros territórios musicais. Senhor de um saxofonismo elegante e maduro, Blake, que ostenta uma carreira já com cerca de um quarto de século, continua a desenvolver a sua música em diferentes ambientes, dos pequenos “ensembles” às grandes orquestras, em projetos por si liderados ou como requisitado “sideman”. Como líder e co-líder já lançou mais de dezena e meia de títulos. Como “sideman” são já largas dezenas.

O seu disco mais recente na condição de líder é “Guardians of the Heart Machine”, lançado vai para um ano na Whirlwind Recordings com uma formação criada em 2017, que apelidou de French Connection, e que se completa com o pianista Tony Tixier, o contrabaixista Florent Nisse e o baterista Gautier Garrigue. No registo anterior, “Superconductor”, de 2015, o saxofonista levara mais além a incorporação de elementos eletrónicos na sua música, em especial através da utilização do EWI (“electronic wind instrument”), movimentando-se naquilo a que gosta de chamar «o melhor de dois mundos».

Em fevereiro de 2018, decidiu fixar-se na Europa, concretamente em Paris. Hoje vive no Porto. Tem vindo a ser convidado para tocar com diversas orquestras, como a Latvian Radio Jazz Band, a Trondheim Big Band e a Sibis Alumni Big Band (do Instituto Sibelius, em Helsínquia). Integra também a Mingus Big Band, tendo participado na gravação de vários dos seus registos mais reconhecidos.

Seamus Blake nasceu em Londres em dezembro de 1970 e passou boa parte da sua infância e juventude em Vancouver, Canadá. Com 21 anos, ainda enquanto estudante do prestigiado Berklee College of Music, em Boston, deu nas vistas e foi convidado para tocar com o baterista Victor Lewis. Terminados os estudos, mudou-se para Nova Iorque onde rapidamente se estabeleceu na sempre vibrante e multifacetada cena local. Em fevereiro de 2002, Seamus venceu a Thelonious Monk International Jazz Saxophone Competition em Washington, tendo tido a oportunidade de tocar com Wayne Shorter e Herbie Hancock, dois dos seus maiores ídolos. Foi membro da Quiet Band de John Scofield, tocou e gravou com Michael Brecker, Dave Douglas, Kurt Rosenwinkel, Gonzalo Rubalcaba, Antonio Sanchez, Eric Reed, Ethan Iverson, Chris Cheek e Matt Penman, só para nomear alguns.

Motivos de sobra para uma conversa com a jazz.pt.

 

O que poderemos esperar do seu concerto com a Orquestra de Jazz de Espinho?

O concerto irá ter composições minhas, que vão desde o princípio da minha carreira até ao dia de hoje. Tocarei saxofone e cantarei, e estarei acompanhando numa canção por uma cantora convidada, a Mila Dores.

 

Como cruzou os seus caminhos com esta orquestra?

Tenho estado a viver no Porto e toquei num concerto na ESMAE no verão. Talvez se tenha espalhado a palavra de que estou a viver aqui. Eles enviaram-me um e-mail a perguntar se queria tocar com eles.

 

Serão de esperar algumas surpresas?

O repertório será constituído por várias composições minhas. O estilo vai desde o jazz até um pouco da escrita de canções. Algumas das canções são do meu primeiro disco e outras são tão novas que ainda nem sequer foram gravadas.

 

Já se apresentou com muitas orquestras. Do que mais gosta quando toca no contexto de uma orquestra?

Fico empolgado por escutar as minhas canções orquestradas para tantas vozes. Uma grande banda tem mais poder e mais impacto e acordes cheios de trombones e trompetes são ricos e excitantes. É cansativo tocar tantos solos e cantar e ser o ponto focal em cada canção, mas é divertido.

 

Antes, já tinha vindo a Portugal em muitas ocasiões. Como é a sua relação com o nosso país? Está familiarizado com o que se passa no panorama do jazz português hoje em dia?

Como estou a viver cá, estou a conhecer mais grandes músicos. Irei tocar com o quarteto de Ricardo Toscano em Lisboa, no final de abril.

 

Gravou “Guardians of the Heart Machine”, o seu mais recente disco, editado no ano passado, com o seu quarteto. Como se relaciona este disco com a sua anterior discografia?

Foi o primeiro disco com canções minhas gravado com um grupo europeu. Tentei escrever canções memoráveis que possam ser escutadas muitas vezes.

 

Gosta de fundir a linguagem do jazz com a eletrónica, utilizando, por exemplo, o EWI nos seus discos mais recentes. O que o atrai nesta combinação e o que traz ela de novo para a sua música?

A eletrónica traz uma maior variedade tonal e outras dimensões. Gosto de tocar com muitas cores e ambientes. Sinto que a minha paleta fica maior e com uma maior abrangência sonora.

 

Nasceu em Londres, foi criado em Vancouver, Canadá, aperfeiçoou a sua arte jazzística nos Estados Unidos (Boston e Nova Iorque), mudou-se para Paris em fevereiro de 2018 e atualmente vive no Porto. Tem uma personalidade cosmopolita? De que forma isso se reflete na sua música?

Penso que sou influenciado por aquilo que me rodeia, assim como pela música que ouço. Sei que tenho influências canadianas, americanas, britânicas, francesas, brasileiras e africanas na minha música. Tenho a certeza de que haverá alguma influência portuguesa em breve.

 

Como se descreve a si próprio enquanto músico? Que tipo de emoções tenta passar a quem o escuta?

Gosto de arriscar. Por vezes, caio de cara no chão e outras vezes encontro algo que pode ser belo. Gosto de pensar em mim como sendo um ator. Às vezes, quando estou a tocar apresentando uma cena, dou contexto emocional às notas. Pode ser uma canção alegre, pode ser uma canção triste, pode ser uma canção de desespero, pode ser uma canção de coragem, pode ser uma canção empolgante. Tento ter um largo espetro de estados de espírito.

 

É um excelente compositor, assim como um dotado improvisador. Como gere este equilíbrio entre composição e improvisação? Interessa-lhe a “improvisação livre”, sem base pré-determinada?

Gosto de começar do nada e de estar livre nas minhas improvisações e nas minhas composições. É bom saber como tocar sem regras. Compor é como improvisar, mas com uma borracha para talvez aperfeiçoar mais as ideias. Para mim, escrever uma boa canção é o melhor sentimento. Penso que coloco mais valor nisso do que em tocar solos. 

Mente aberta

 

Recuemos um pouco no tempo. Lembra-se de como o jazz entrou na sua vida? Li algures que a sua mãe teve um papel crucial em todo o processo…

Os meus pais apoiaram a minha música desde tenra idade. Eles compraram-me um violino e encorajaram o meu interesse pelo jazz. Digo muitas vezes que a minha mãe me trouxe as primeiras cassetes, mas estou certo de que o meu pai estava lá e que fosse ele quem pagava (risos). Essas cassetes eram “Live in San Francisco” de Cannonball Adderley, “King of the Tenors” de Ben Webster e “Straight Ahead” de Stanley Turrentine.

 

Cresceu e estudou muito jazz tradicional e “mainstream”. Qual é a sua relação, hoje em dia, com a tradição do jazz? Continua a estudá-la e a descobrir coisas novas?

Nunca acaba. Estou sempre a tentar improvisar, sempre a tentar aprender coisas novas, novas canções e a ser inspirado por grandes músicos. Ouço todos os tipos de música e não apenas jazz. Gosto de música clássica, rock, eletrónica, “world music”, blues, funk, soul, Motown… É uma longa lista…

 

Tem alguma espécie de “zona de conforto”? Admiro a forma como ilumina velhos elementos jazz com uma luz contemporânea, sem se desligar, de todo, da história do género…

Gosto de ter um pé no passado e outro no futuro. Construir a partir da tradição dá-te a força, mas tocares demasiado perto da tradição é demasiado conservador. Na minha opinião, temos de trazer elementos de hoje para o som, para arejar a música e dar-lhe vida aqui e agora.

 

Quais são as suas gravações de jazz favoritas? Pode dar exemplos de gravações menos conhecidas que tenham contribuído para definir a sua direção artística?

John Coltrane, “Afro Blue”, “Impressions”; Miles Davis, “Jazz at the Plaza”; Stan Getz e o trio de Oscar Peterson. Sonny Rollins, “Saxophone Colossus”.

 

A sua música é feita de elementos oriundos de diferentes domínios musicais. Podemos ouvir jazz “mainstream”, claro, mas também influências indie-rock aqui, alguma música brasileira ali… Considera ter uma mente criativa eclética?

Sim, gosto de misturar sons e ideias. Acredito que uma mente aberta é o melhor tipo de mente.

 

Assumi que fosse... Também gostei muito da sua contribuição para o disco “Jazz Side of the Moon”, do pianista e organista Sam Yahel, dedicado a revisitar o clássico dos Pink Floyd.[Nota pessoal: os Pink Floyd são o grupo de rock favorito de todos os tempos deste escriba]. Como foi esta experiência?

Foi uma grande experiência. Gravámos o disco numa igreja em Greenwich Village (Nova Iorque), apenas com um microfone. Era um microfone omnidirecional muito caro e tivemos de escolher o nosso posicionamento de forma muito cuidadosa. O disco foi gravado muito rapidamente e não tivemos muito tempo para preparação. Alguns dos arranjos foram feitos no momento, apesar de o Sam ter sido o líder e nos ter guiado.

 

Outro dos discos seus de que gosto particularmente é “Stranger Things Have Happened”, de 1999, na Fresh Sound, com Kurt Rosenwinkel, Larry Grenadier eJorge Rossy. Representa um ponto de viragem na sua carreira como líder. Concorda?

Penso que tenha sido o primeiro disco em que comecei a misturar géneros um pouco mais. Mostra uma maior abrangência da minha personalidade.

 

John Scofield chamou-lhe um «saxofonista total». Quão importante foi e é este guitarrista e compositor para a sua evolução como músico?

John Scofield é uma grande inspiração para mim e tem sido sempre um dos meus heróis, pelo que ter tido a oportunidade de tocar no grupo dele foi um sonho tornado realidade. É um dos maiores escritores de canções no jazz e é incrível na forma como lidera os seus grupos. Tem-lo feito ao longo de muito tempo e está, para mim, na linha da frente do jazz.

 

Afinal, qual é o ambiente musical que prefere? O poder de uma “big band” ou a intimidade de um pequeno grupo (apesar de um pequeno grupo poder ser muito energético!)?

Gosto de ambos pelas razões que apontou.

 

Tem uma ideia clara de para onde o jazz está a avançar? Alguém terá?

Não tenho a certeza de para onde o jazz está a ir, mas penso que continuará como uma árvore com ramos crescendo continuamente, expandindo-se e alterando-se. Haverá pessoas que o preservarão de um ponto de vista tradicional e pessoas que irão aniquilar as suas convenções, tentando novas coisas com ele. Os músicos de jazz contemporâneos parecem estar a tentar incorporar uma abordagem eletrónica e a misturar influências de diferentes géneros. Parece haver menos jazz tradicional por estes dias. Estou muito grato por tocar e aprender a tradição do jazz porque acredito que me deu uma boa fundação para crescer sobre.

 

Que tipo de conselho pode dar aos músicos mais jovens de forma a ajudá-los a desenvolver o seu próprio som?

Tentar escrever música com influências diversas, mas permanecer fiel às coisas que amam. Tentar não apressar, mas entender que o estilo próprio se está desenvolver interior e lentamente como uma árvore. Por vezes, quando se copiam os nossos ídolos, é preciso passar à frente e não tocar as coisas que aprendemos e que achamos tão fixes. Para encontrar o caminho é preciso deixar de imitar.

 

No próximo mês de dezembro irá completar 50 anos. Pode dar-nos algumas ideias acerca do que pensa fazer num futuro próximo?

Não me lembre da minha idade! (risos). Estou atualmente a tentar escrever música nova e a desenvolver novos sons um pouco mais na veia eletrónica, apesar de continuar a adorar instrumentos acústicos. Em algum momento, adoraria gravar a música para “big band” que irão escutar [em Espinho], assim como fazer mais alguns projetos eletrónicos...

 

Para saber mais

https://seamusblake.com