Nau Quartet, 9 de Dezembro de 2019

Uma experiência antropológica

texto Nuno Catarino

Com um terceiro álbum, agora saído com carimbo Clean Feed, gravado ao vivo em Moscovo, o Nau Quartet soma e segue num percurso que tem de tão curto quanto de assinalável, tendo chamado a atenção da crítica internacional e do público amante da música improvisada e do jazz criativo que se espalha pelo mundo. A jazz.pt falou com José Lencastre, o líder saxofonista, para saber mais sobre este projecto…

 

Como nasceu o Nau Quartet? E porquê este nome?
Este grupo surgiu em Dezembro de 2015. Na altura morava no Brasil e vim a Lisboa passar o Natal e o Ano Novo. Tinha saudades de tocar música improvisada e marquei um concerto no Desterro com o Hernâni, o Rodrigo e o meu irmão. Não tinha ainda o nome. Gostámos os quatro da forma como esse concerto correu e quando voltei para Portugal no Verão de 2016 começámos a fazer umas sessões no estúdio Timbuktu, onde os dois primeiros discos foram depois gravados. O nome surgiu como forma de tentar verbalizar aquilo que procuramos fazer na música improvisada: o descobrimento do agora, a intuição de encontrar a cada momento o que tocar. Pensei em Now (agora ) e Nau (embarcação utilizada pelos portugueses na época em que se aventuravam mar adentro ao encontro de outras culturas – período geralmente designado como Descobrimentos ) e assim nasceu o Nau Quartet.

 

Porque decidiste formar um quarteto com estes músicos?

São pessoas de quem muito gosto e admiro a nível musical e também humano. Para mim é fundamental ter uma boa relação pessoal com os músicos com quem partilho o palco.

 

Tens um passado ligado a músicas muito diversas (funk, rock, jazz), o João tem estado ligado ao jazz, o Rodrigo e o Hernâni têm trabalhado exclusivamente na improvisação livre. Consideraste alguma vez que esta
combinação de elementos poderia ser arriscada?

Na verdade tinha o “feeling” de que iria ser uma boa experiência. Embora o risco esteja sempre presente neste género de música, e ainda bem que assim é, pressentia que, quando nos juntássemos para tocar, algo iria fluir de forma natural. Felizmente, continuamos a evoluir na forma como o quarteto soa enquanto grupo. Sinto que temos um som característico quando nos juntamos para tocar, mas sou regularmente surpreendido com os novos caminhos que se nos apresentam de cada vez que fazemos um concerto ou sessão.

 

O Nau Quartet trabalha uma música de improvisação livre, sem composições. Que características definiram desde o primeiro momento para este grupo?

As características deste grupo têm-se vindo a definir desde o primeiro momento e não porque as tivéssemos falado entre nós. Nunca temos qualquer intenção predefinida em relação ao que vamos tocar. Tentamos reagir ao que se vai desenrolando musicalmente. Uma característica partilhada por todos é ouvir sempre o que está acontecer e o que os outros estão a tocar, ou não, e a partir daí contribuirmos de forma pessoal, sempre na tentativa de dar aquilo que a música pede no próprio momento.

"Live in Moscow" é o terceiro disco do grupo, depois de "Fragments of Always" (2017) e "Eudaimonia” (2018). Sentem que houve uma evolução da vossa música? Como analisas o percurso?

Sem dúvida que sim. A música, tal como a vida, está em constante evolução e mutação. Desde o primeiro disco, cada um de nós teve diferentes vivências e experiências pessoais que se vão reflectir na forma como tocamos de cada vez que nos juntamos. Tem sido um percurso muito estimulante e interessante para mim e espero que possamos continuar, por bastante mais tempo, a evoluir na forma como fazemos música nesta formação.

 

Este disco é o registo ao vivo de um concerto que vocês deram na Rússia. Como correu esse concerto?

Correu muitíssimo bem. Assim que o concerto acabou, olhámos uns para os outros com aquela sensação de que algo muito especial tinha acontecido naquela noite. Havia uma energia incrível no DOM, uma sala onde estávamos bastante entusiasmados por poder tocar. O público foi muito caloroso e receptivo. Foi o terceiro de uma série de quatro concertos que fizemos na Rússia, e para sorte nossa logo neste havia condições técnicas para registar o nosso som. Foi todo gravado por pistas e o que agora aparece em disco é uma edição de parte da música que tocámos nos dois “sets”.

 

É raro um grupo português actuar no Leste da Europa, particularmente na Rússia. Tens alguma história engraçada dessa “tour” que possas partilhar?

Sim. No dia seguinte ao DOM tínhamos de fazer uma viagem de cerca de seis horas de comboio para Yaroslavl, onde íamos tocar. Este comboio era gigante, parecia ter kms de comprimento com dezenas de carruagens e desde Moscovo até ao destino final seriam mais de 24 horas de caminho. Às tantas quisemos ir ao vagão bar/restaurante e fazer este percurso foi como entrar num filme antigo da Europa de Leste: as pessoas iam preparadas para dormir, para comer e para passar o tempo; então era um cheiro fortíssimo a suor e chulé, a refeições. Havia carruagens onde estava tudo de pijama. Contado não
tem o mesmo efeito: só visto mesmo! Foi uma verdadeira experiência antropológica.

 

Depois de teres lançado os dois primeiros discos pela FMR Records, este novo foi agora editado pela Clean Feed. Porquê esta escolha?

A Clean Feed sempre esteve na minha lista preferida de editoras para os discos do quarteto, pois além de ser portuguesa é também muito bem conceituada. Depois de gravarmos o "Fragments of Always" cheguei a enviar o resultado para Pedro Costa e ele mostrou interesse e gosto pela nossa música, mas a data para a edição ainda demoraria. Como era o primeiro disco estava com uma vontade muito grande de o apresentar ao mundo o mais depressa possível. Já conhecia a FMR Records de nome e tinha amigos com discos editados por lá, daí ter sido uma escolha natural. Quando encontrava o Pedro falávamos na possibilidade de fazermos algo em conjunto, o que aconteceu agora com este terceiro disco. Estou muito feliz por pertencer ao catálogo da Clean Feed.

 

Que próximos passos estão previstos para este grupo?

Espero que 2020 nos traga mais possibilidades de nos apresentarmos em festivais e salas de espectáculos em Portugal e também lá fora. Há uma ou outra proposta já falada, mas ainda sem confirmação definitiva. Gostaria também de gravar um novo disco. O "Live in Moscow" tem mais de um ano, e já estamos a tocar de forma diferente dessa altura. Não sei o que o futuro nos reserva para este grupo, está tudo em aberto. Ainda agora começámos, gostaria que tivéssemos um longo percurso pela frente.