Gonçalo Marques, 10 de Setembro de 2019

Eterno insatisfeito

texto António Branco

À frente de um superlativo quarteto em que oficiam o pianista Jacob Sacks, o contrabaixista Masa Kamaguchi e o baterista Jeff Williams, o trompetista e compositor lisboeta Gonçalo Marques (n. 1972) acaba de lançar “Linhas” (Carimbo Porta-Jazz), o seu quarto disco na condição de líder. Nele volta a exibir não apenas os predicados já plenamente atestados enquanto instrumentista dotado e de registo amplo, mas também, e porventura sobretudo, a excelência da sua pena como compositor e organizador de ideias.

Até aqui chegar, o seu percurso não se fez com pressa. Lá atrás, iniciou os estudos de trompete com João Moreira na Escola de Jazz Luiz Villas-Boas, do Hot Clube de Portugal. Enquanto estudante foi escolhido, em 2001, para representar a instituição no encontro da Associação Internacional de Escolas de Jazz (IASJ, no acrónimo em inglês), que teve lugar no Berklee College of Music, em Boston. Essa participação valeu-lhe uma bolsa de estudo para a prestigiada universidade, onde teve oportunidade de estudar com Hal Crook, Dave Santoro, Bill Pierce e Ed Tomassi. Nesta cidade norte-americana trabalhou também, e de forma especial, com John McNeill, do New England Conservatory. Após completar a licenciatura com 19 valores, regressou a Portugal no final de 2005.

As raízes que então voltaram a crescer em solo luso viriam a propiciar, em 2010, a estreia discográfica como líder, com “Da Vida e da Morte dos Animais” (Tone of a Pitch), em robusto trio com Demian Cabaud (contrabaixo) e Bruno Pedroso (bateria), a que se juntou o saxofonista norte-americano Bill McHenry como convidado especial. A espera durou meia década até chegar o segundo tomo, o notável “Cabeça de Nuvem só tem Coração”, que conta também com os préstimos do saxofonista José Pedro Coelho e do guitarrista André Santos. “Canção do Homem Simples” (2017), o disco anterior da formação, antecipou em dois anos a presença de Sacks neste novo registo.

Das formações mais pequenas, destacam-se, para além do seu quarteto atual, o duo ¡GOLPE! (com o baterista João Lopes Pereira) e o quinteto Baltazar, com os saxofonistas José Pedro Coelho e João Guimarães, o mesmo Cabaud e o baterista Marcos Cavaleiro. Entre 2007 e 2017, tocou intensamente com o seu trio (mais uma vez com o contrabaixista argentino radicado em Portugal e o baterista Bruno Pedroso), integrou o grupo de Jeff Williams (2017-2018) e foi o diretor musical do Septeto do Hot Clube em 2013 e 2014. Para além dos seus próprios projetos, Marques tem colaborado com diversas formações, como a Big Band do Hot Clube de Portugal, a Reunion Big Jazz Band e o sexteto Living Thing. Gravou também com o decateto do guitarrista Bruno Santos (2013) e “Xabregas 10”, o segundo disco do Lisbon Underground Music Ensemble (LUME) de Marco Barroso, registado ao vivo na edição de 2014 do festival Jazz em Agosto.

O músico tem igualmente vindo a desenvolver uma intensa atividade docente em várias frentes, nacional e internacionalmente, e para vários públicos-alvo, nomeadamente na Escola Superior de Música de Lisboa (desde 2008) e na Escola do Hot Clube, sendo responsável pela organização dos “workshops” de verão e os ateliês dedicados a jovens entre os dez e os 15 anos. Foi também professor na JB Jazz e na Escola de Jazz do Barreiro, entre outras instituições de ensino, e responsável pelo programa “Jam” da Gulbenkian, levando o jazz às escolas. É diretor pedagógico do “Férias com Jazz” promovido pelo Centro Cultural de Belém.

Juntamente com Demian Cabaud fundou, em 2016, a editora discográfica Robalo Music, que também organiza o seu próprio festival. Foi programador das quartas-feiras de jazz e responsável pelas “jam sessions” de domingo no Café Tati, espaço ao Cais do Sodré que fechou portas no final de 2018. Integra produções de teatro e dança contemporânea. Motivos mais do que suficientes para uma longa conversa sobre o ontem, o hoje e o amanhã de um músico com muito para dizer.

 

À frente do seu quarteto, voltou aos discos com “Linhas”. Como o posiciona em relação à sua discografia anterior?

Penso que é um disco diferente dos outros, mas que continua uma certa linha de exploração iniciada no primeiro disco. Sinto que cada disco que fiz desenvolve um qualquer elemento musical relativamente ao anterior. Este talvez seja o álbum em que a fronteira que separa a improvisação da escrita é mais ténue.

 

Em que ambiente se desenrolou a composição deste material e, depois, a gravação do disco?

Metade dos temas foram escritos uma ou duas semanas antes da sessão de gravação, outra metade são temas que tenho andado a escrever desde o meu último disco. Tivemos alguns concertos antes da sessão, por isso foi possível experimentar uma boa parte dos temas ao vivo. A gravação correu muito bem, foi no auditório da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, uma sala grande com um som muito favorável para trompetistas (mas menos simpática para bateristas...). O Sérgio Valmont fez um ótimo trabalho de captação e gravação.

 

Muitos músicos, com o avançar da carreira, tendem a refugiar-se numa bolha de conforto. O Gonçalo, ao invés, parece disposto a assumir cada vez mais riscos. É assim?

Não é uma atitude premeditada. Acho que tudo isto só faz sentido se houver uma exploração e uma procura. Cheguei tarde à música e ao trompete e isto significa que preciso de trabalhar constantemente o instrumento para manter aquilo que tenho, e eventualmente melhorar. Por outro lado, desde muito novo fui motivado para questionar e ir mais fundo, sempre li muito e tive a sorte de viajar com alguma regularidade. Penso, pois, que esta ideia de exploração é-me muito natural. Para o bem e para o mal, pertenço ao grupo dos eternos insatisfeitos.

 

Nos seus grupos parece ter preferência por formatos de pequena dimensão, trios e quartetos. Por causa da intimidade musical que estes permitem?

Tem que ver com as tais possibilidades de exploração de que falei. Um desafio que vou colocar a mim próprio num futuro próximo é o de experimentar grupos maiores, com mais escrita, mas ainda mantendo este espírito de abertura.

 

O novo disco volta a evidenciar as estruturas abertas, bem como um travo melancólico, tão característicos da sua música…

É natural procurar estruturas abertas: são as que permitem à partida possibilidades que vão numa direção que me interessa. No entanto, algo que quero continuar a investigar é precisamente até que ponto se consegue ter a mesma atitude na presença de mais material escrito. Isto é algo que quero trabalhar mais no futuro. Em relação ao travo melancólico: talvez seja o que me sai mais naturalmente. Para ter mais variedade, e também como exercício, se calhar deveria tentar escrever temas mais alegres. Mas, de facto, não há assim muitas razões para grandes felicidades, estando o mundo como está...

 

Como é trabalhar com Jacob Sacks, Masa Kamaguchi e Jeff Williams? Criou-se uma química especial entre os quatro, sabendo que são músicos com identidades próprias e distintas? O resultado teria sido muito diferente se os músicos fossem outros?

É muito bom trabalhar com o Jacob, o Masa e o Jeff. São músicos que estão prontos para tudo, aceitam qualquer desafio sem questionar. Têm personalidades musicais muito fortes e nunca sei o que vai acontecer. Gosto mesmo muito de estar nessa posição. Nunca sei como me vão acompanhar, e todos os três são acompanhadores incríveis. Penso que sim, que se foi criando uma química. Esta música deixa muita coisa em aberto, por isso, se não houver uma relação especial entre os músicos, uma certa confiança, é muito difícil de conseguir um som coeso. O resultado seria certamente diferente com outros músicos e isso é algo de que gosto muito naquilo que faço: é extremamente sensível às personalidades de cada um.

O Masa é um contrabaixista incrível, tem uma intenção e uma confiança naquilo que faz que levam tudo à frente. Já tocou com muita gente e está muito dentro desta estética musical (o que quer que ela seja...). O Jeff é o mais velho do grupo, tem uma longa carreira e já tocou com quase toda a gente. Todos os trompetistas (todos os músicos, claro!) precisam de um baterista que os ajude. A bateria é um dos poucos instrumentos que conseguem ter a dinâmica que um trompete tem. O Jeff nisso é irrepreensível, está sempre comigo nos meus solos, e respondendo sempre de modo muito criativo. E depois faz o mesmo com o resto do grupo, sempre com uma visão muito original daquilo que um baterista pode fazer (e sem nunca deixar de trabalhar para a música).

 

Com Jacob Sacks retomou uma ligação que vem de trás, em especial do disco anterior, “Canção do Homem Simples”. O que o atrai no pianismo dele?

Tudo. Tem um “touch” incrível, gosto muito da maneira como acompanha e da imprevisibilidade dos seus solos. É um tipo impecável, e apesar de ter uma técnica irrepreensível (ou talvez precisamente por causa disso...), trabalha sempre para o grupo. É um estudioso do jazz e da música, conhece muita coisa e tem sempre histórias interessantes para contar. Gosto muito de estar com ele, aprendo sempre imenso.

 

Há possibilidade de voltarem a trabalhar em conjunto ou esta foi uma colaboração pontual?

Espero que sim, gostava de continuar a trabalhar com estes músicos. Na verdade, não é assim tão difícil: o Masa vive em Espanha, o Jeff vive metade do ano em Londres (e outra metade em Nova Iorque). O Jacob é que é um pouco mais difícil de trazer porque vive o ano todo em Nova Iorque... É preciso festivais que se interessem por esta música (e foi isso que aconteceu da última vez: tocámos no festival de jazz de Leiria e no festival da Porta-Jazz).

 

Como surgiu a oportunidade de editar pela portuense Carimbo Porta-Jazz, selo com relevância crescente e abrangência cada vez mais nacional?

Foi algo que aconteceu de forma natural, acho eu. Toco muito com Demian Cabaud desde que ele se mudou para o Porto e comecei também a tocar um pouco mais com alguns músicos do Porto. Tenho um grupo com gente nortenha, os Baltazar (com João Guimarães, Zé Pedro Coelho, Demian Cabaud e Marcos Cavaleiro). Enfim, tenho nos últimos anos tocado com diversos grupos na Porta-Jazz. Há, pois, uma relação com a Porta-Jazz que já dura há algum tempo. Para o festival de 2018 propus este quarteto e eles aceitaram, propus depois fazer a gravação na tarde do concerto no mesmo espaço e eles não só aceitaram como ajudaram a concretizar. Foi, portanto, natural para mim sugerir a inclusão deste disco no seu catálogo e fiquei muito contente por terem dito que sim. A Porta-Jazz é, de facto, uma associação incontornável no jazz nacional, tem feito imenso pela cena portuense e não só. Tudo se deve à força de vontade de um conjunto de músicos (muito em especial de João Pedro Brandão) e o modo como eles se organizaram e conseguiram chegar a este ponto constitui um exemplo para todos nós. Tive também a sorte de ter o apoio da GDA para este disco. Foram extremamente simpáticos comigo e este tipo de apoios faz uma grande diferença.

 

Como descreveria o seu processo criativo? Compõe especificamente para um dado projeto ou vai acumulado material?

Faço tudo isso e outras coisas. Não sou um compositor a sério, não componho todos os dias nem faço exercícios de composição diários. Sou aquilo a que se poderia chamar “compositor-performer”, componho música para eu tocar, destinada aos músicos com quem toco. Muitas vezes componho já a pensar no formato e nas pessoas com quem vou tocar. Mas também me acontece aparecer uma ideia “pura”, sem contexto, e depois experimentar em diversas formações. Vou gravando ou escrevendo pequenas ideias que tenho, às vezes melódicas, outras vezes rítmicas, outras vezes texturais, outras vezes mais conceptuais... Quando chega o momento (porque tenho um concerto ou vou gravar um disco, ou porque pura e simplesmente tenho algum tempo livre) vou a estas ideias e desenvolvo.

 

Que espaço há na sua música para a exploração da componente improvisacional? Estimula-o a chamada “improvisação livre”?

Há muito espaço. Os próprios temas muitas vezes só funcionam com músicos que percebam que a partitura é um esboço, que há que “puxar” pela música. A improvisação livre é difícil, é preciso ter muitas ideias, muitas vezes “a partir do nada”, ter variedade e saber interagir de modo criativo com os outros músicos do grupo (obviamente tudo qualidades que são necessárias ter na improvisação sobre estruturas – o que se passa é que na improvisação livre estas qualidades estão ainda mais em evidência). É algo que só gosto de fazer com músicos mesmo fortes (apesar de ser divertido experimentar com todo o tipo de músicos, só que com músicos menos experimentados muitas vezes as ideias esgotam-se mais depressa).

Algo que aprendi nos últimos anos (e que é totalmente óbvio...) foi a tocar a “partir do som”, a partir do timbre dos instrumentos e do som de um grupo. É, pois, muito bom fazer isso com músicos com esse tipo de sensibilidade. Cada comunidade tem uma maneira particular de fazer improvisação livre. Felizmente, penso que neste momento está a aparecer um grupo de músicos em Lisboa com quem se pode fazer este tipo de improvisação livre sem barreiras: podem-se explorar sons, técnicas estendidas (e isto não é a minha especialidade) e tal, mas também se pode ir parar a temas, a melodias mais abstratas ou não, “grooves”, texturas, etc. Este é o tipo de improvisação livre que gosto de fazer, que sinto que não tem mesmo barreiras (à parte das minhas capacidades...). Nem de propósito gravei recentemente um disco de música totalmente improvisada em que tocamos com este espírito. Chama-se “Tundra” e é com João Lopes Pereira (um baterista com quem toco muito e com quem tenho o grupo ¡GOLPE!) e com André Matos (um guitarrista amigo de longa data). Vai sair em breve na editora Robalo. 

Necessidade de abstração

Foto por Joaquim Mendes 

Foto por Jorge Carmona

Voltemos uns anos atrás... Como foi o seu primeiro encontro com o trompete? Amor à primeira nota?

Mais ou menos... Comecei por tocar guitarra, fui-me interessando um pouco mais pelo instrumento e iniciei estudos de guitarra clássica. Depois resolvi inscrever-me na escola do Hot Clube e tive a sensação de que o jazz era mais divertido para quem tocava um instrumento de sopro. Assisti a um concerto do trompetista Eddie Henderson e pensei para mim próprio: «É isto!». Felizmente, tinha um amigo de um amigo com um trompete para experimentar e comecei. Desde o princípio senti uma afinidade maior com o trompete do que com a guitarra.

 

Como se deu a sua ligação ao jazz? Foi um processo gradual ou uma epifania?

Tinha um grupo de amigos com quem tocava de vez em quando, fazíamos uma espécie de “jam sessions” em casa de um deles, onde havia muitos discos de jazz. Fomos começando a ouvir, gravámos alguns desses discos em cassetes e começámos a ir a concertos. Um dos primeiros que me lembro de ver foi com Archie Shepp e outro com Abdullah Ibrahim. Depois vimos Stéphane Grapelli. Tínhamos 15 anos, eramos muito ecléticos...

 

Iniciou os estudos formais de jazz na Escola do Hot Clube de Portugal, com João Moreira e mais tarde com Pedro Moreira. Que memória guarda desses tempos?

Guardo boas memórias. O João é um músico muito bom e um extraordinário improvisador. Colocou a fasquia muito alta deste o primeiro momento. Tive duas fases no Hot e nessa primeira fase a escola ainda funcionava na Praça da Alegria. As aulas de combo eram no clube, o que era ótimo. Estava muito no princípio, mas ia com muita regularidade ao Hot ver concertos, via todo o tipo de coisas e isso foi importante para mim. Numa segunda fase tive aulas com Pedro Moreira e isso também me abriu muito a cabeça (e os ouvidos), nomeadamente para algumas questões de contraponto e de harmonia clássica. Ambos me deram a conhecer muita música e isso também foi importante.

 

Estudou também no prestigiado Berklee College of Music, em Boston. O que buscou do outro lado do Atlântico que não encontrou deste?

A partir de certa altura comecei a sentir-me a estagnar no desenvolvimento técnico no instrumento, comecei a ter uma forte sensação de que havia alguns fundamentos na minha maneira de tocar que eu tinha de alterar. Não estando a conseguir fazer esse trabalho em Portugal, concorri a uma bolsa para o Berklee e foi-me oferecida uma bastante razoável, pelo que resolvi partir para Boston. Curiosamente, a pessoa que me acabou por ajudar mais não era professor no Berklee, mas sim no New England Conservatory, uma outra escola de Boston com um departamento de jazz muito bom. Foi John MacNeill, estudei com ele enquanto estive nos Estados Unidos e mudou a minha vida. Entretanto, claro que aproveitei a minha estadia em Boston para ver muitos concertos. Ia muitas vezes a Nova Iorque e toquei o máximo que pude na escola.

Berklee é uma escola muito grande e na altura tinha cerca de 3500 alunos (ainda que a grande maioria não estudasse jazz...) e, portanto, havia muita coisa a acontecer. Havia miúdos extremamente talentosos: Esperanza Spalding era minha colega, tal como Christian Scott, para dar dois exemplos mais conhecidos. Via tocar Walter Smith quase todas as semanas no Wally's, um bar de Boston, muitas vezes com Kendrick Scott. Mais tarde foi Jason Palmer que passou a tocar lá – foi ele quem me aconselhou John McNeill. Ter estado três anos em Boston mudou a minha perspetiva sobre a música e sobre aquilo que queria fazer dentro do jazz, apesar de só me ter apercebido de algumas destas influências mais recentemente...

 

É também licenciado em física. Para além de a música ser um fenómeno físico, o que trouxe do universo das ciências exatas (física, matemática) para a sua música?

Apesar de ser licenciado em física, quando acabei o curso estava mais perto da matemática. Há um comentário clássico que se faz a pessoas ligadas à matemática e à música, no sentido em que as duas estão muito ligadas, mas não sinto as coisas dessa maneira e não estou sozinho: o matemático e pianista clássico Christian Krattenthaler fala disso num artigo interessante. Mas claro que há ligações históricas e esse seria um tópico de conversa interminável. No meu caso há um certo apelo por estruturas abstratas e talvez algumas questões mais conceptuais da música tenham que ver com o meu gosto pela matemática. Por outro lado, e de modo contraditório, como tenho a matemática para satisfazer essas minhas necessidades de abstração, muitas vezes procuro na música algo completamente diferente, uma ordem talvez, sim, mas fortemente ancorada no sujeito, no momento, no intangível.

 

O seu percurso é longo, mas o disco de estreia, “Da Vida e da Morte dos Animais”, só foi lançado em 2010, na saudosa TOAP de André Fernandes. Em que circunstâncias se formou este trio?

Formei este trio quando voltei a Portugal. Queria um grupo pequeno com o qual pudesse trabalhar regularmente e experimentar coisas. Já conhecia o Demian do Berklee e gostava muito de tocar com ele. Conheci o Bruno e gostei da química que o grupo tinha com ele e fomos em frente. Tocámos muito e passámos por muitas aventuras.

 

O sucessor, “Cabeça de Nuvem Só Tem Coração”, de que gosto particularmente, surgiu cinco anos depois, com o saxofonista José Pedro Coelho e o guitarrista André Santos a juntarem-se ao trio... O que pretendia que trouxessem?

Senti que, para esse disco, dado o tipo de música que tinha escrito, precisava de novas cores, novos timbres e foi isso que eles trouxeram. Convidei o Zé Pedro e o André porque gostava da maneira como eles tocavam e sabia que iam soar bem no universo do trio e contribuir de forma positiva para a música. Foi o que aconteceu!

 

“Canção do Homem Simples”, o seu registo anterior, parece-me ter traços de música portuguesa. É assim? É importante para si incorporar esta componente? Quem são as suas referências primordiais neste domínio?

Pois talvez haja vestígios. Há referências de que ainda nem sequer me apercebi. A verdade é que penso algumas vezes nisso. Alguns dos músicos que mais gosto têm uma ligação ao folclore do seu país (penso, por exemplo, em Guillermo Klein, David Virelles e mesmo Paul Motian). Confesso que não sinto essa ligação em mim, mas talvez ela esteja cá sem eu o saber e um dia vou descobri-la.

 

Em que pé está o trio? Há ideias para novas gravações?

Neste momento está um pouco parado, porque tenho estado a tocar com outros grupos. Toco com alguma regularidade com o Demian em duo ou em grupos de amigos comuns, mas com o Bruno já há algum tempo que não me cruzo...

 

Tem tocado também muito em orquestra: Hot Clube, Lisbon Underground Music Ensemble (LUME), Reunion Big Jazz Band. O que é para si mais relevante nestas participações?

Para mim está claro que gosto mais de tocar em grupos pequenos e que o faço melhor. Mas tocar em orquestra é uma ótima experiência, não só porque se aprende sempre muito, mas também porque, quando se toca boa música com as pessoas certas, pode ser uma experiência muito poderosa e inspiradora. A Reunion era um projeto um bocadinho louco de músicos não profissionais que se reuniram para fazer uma orquestra de jazz, um daqueles projetos que apetece apoiar. O LUME é um grupo de Marco Barroso que toca a música dele, música complexa e desafiante de tocar. Dessas orquestras aquela com que toquei mais nos últimos tempos foi a do Hot. A nível artístico, este ano foi um dos nossos melhores anos: tocámos com nomes como Joe Lovano, Perico Sambeat e Julian Argüelles. Tocámos a música de John Hollenbeck com o próprio Hollenbeck a dirigir e a tocar nalguns temas. Tocámos com Miguel Zenón a sua música muito bonita, mas exigente. E a cereja no topo do bolo foi tocar com Guillermo Klein, com ele a dirigir. Estamos em fase de planeamento das próximas temporadas.

 

Como entende o contínuo do jazz e as suas inflexões, avanços e recuos, evoluções e revoluções? Em que medida a tradição contribui para moldar o seu trajeto enquanto músico e compositor?

A mim parece-me que o jazz é como as outras artes, tem algumas particularidades é certo, mas também segue modas, há cortes, há revivalismos, releituras do passado, etc. Há uns tempos li um artigo de Giorgio Agamben em que ele dizia “grosso modo” que, para ser contemporâneo, é preciso conhecer a tradição, se não nem se consegue perceber o que é contemporâneo no contemporâneo. Isto para mim faz muito sentido. Estou muito interessado em interpelar de forma criativa o mundo atual nas suas várias facetas, isso é o que faz sentido para mim. Por outro lado, interessa-me também perceber como se chegou aqui, não só para satisfazer uma curiosidade natural, mas também precisamente para garantir que esta interpelação é válida (do meu ponto de vista, claro...).

 

Interessa-lhe, portanto, interpelar criativamente essa tradição. Há “linhas vermelhas” no jazz?

É óbvio que o passado e os grandes mestres são uma fonte inesgotável de ideias e de inspiração. Mais uma vez penso que isto se passa em todas as artes, não me parece que o jazz seja exceção. Como se lida com este passado, que consequências retiramos, esta é um pouco a questão à qual cada um de nós tem de responder e que molda aquilo que vamos fazer. Há muitos músicos e compositores que quero estudar, mas infelizmente não há tempo para tudo... Sinto que cada vez que estudo uma pequena coisa que seja, de um desses mestres, aprendo algo, uma maneira diferente de pensar numa harmonia, uma ideia rítmica especial ou um detalhe de articulação em que ainda não tinha reparado. A questão das “linhas vermelhas” é interessante, e é mais uma vez uma daquelas perguntas cuja resposta define o tipo de músico que se é. Acho que as únicas “linhas vermelhas” são o bom gosto e a honestidade. E mesmo assim posso imaginar razões artísticas para ter (pequenos!) momentos de mau gosto.

 

Clifford Brown dizia que é sempre uma questão de fraseio e gosto...

Clifford Brown era um trompetista incrível e foi muito influente, apesar de ter morrido com 25 anos. Nas suas últimas gravações está numa forma assustadora: o que estaria ele a tocar se não tivesse morrido? A questão do fraseio é muito subtil. Aprendi muito (e continuo a aprender) com os discos e, de facto, a questão dos detalhes do fraseio, da articulação e das dinâmicas da frase pode mudar completamente a maneira como se apreende a frase. Falo muitas vezes disso aos meus alunos, é algo bastante difícil de aprender.

 

Sente-se devedor de algum músico ou corrente em especial?

Influenciaram-me e continuam a influenciar-me muitos músicos. Influenciam-me muito os músicos com quem toco e que ouço com mais regularidade. Daqui destacaria os meus amigos André Matos e Demian Cabaud: temos todos uma maneira própria de escrever e de tocar, mas penso que existe muita coisa em comum. Enfim, todos os clássicos: Charlie Parker, Miles Davis, Thelonious Monk, John Coltrane, Wayne Shorter, Ornette Coleman, isto para nomear só alguns. Dos mais recentes destaco Paul Motian e Masabumi Kikuchi. Oiço bastante música clássica, nomeadamente música para piano (por exemplo, Ravel, Debussy, Chopin, Messiaen, Ligeti). Tenho fases em que oiço mais música pop e outros estilos, mas ultimamente não tenho ouvido tanto. Neste momento ando a ouvir muito o Coltrane dos últimos anos. É uma música muito poderosa e inspiradora, parece-me uma fonte inesgotável de ideias.

 

Gosta de tocar “standards” Elege alguns em especial?

Gosto de tocar e gosto de aprender mais quando tenho tempo. Gosto muito de tocar o “When You're Smiling”, o “You're My Everything” e o “You've Changed”, por exemplo. Gosto também de tocar blues: neste momento gosto do “Blues Conotation” de Ornette e do “Blues Legacy” de Coltrane, uma melodia muito simples. Há muita música para aprender, quer os chamados “showtunes”, os temas ligados a musicais da Broadway, quer os “standards”, temas escritos por músicos e compositores de jazz. Uma das coisas bonitas do jazz é ser possível vários músicos que nunca tocaram juntos reunirem-se e decidirem temas no momento para tocar. Seria bom manter essa tradição. Por outro lado, também é muito bom ir entrando um pouco no mundo de cada um dos compositores de jazz, como por exemplo Monk ou Shorter. É algo que tento passar aos meus alunos, esta ideia de ir sempre aprendendo temas. Há tantos bons “standards” para se tocar, porque é que têm de ser sempre os mesmos dez ou 20 temas? 

Ponto de vista

Foto por Joaquim Mendes 

Foto por Miguel Estima

Em que outros projetos está atualmente envolvido?

Tenho tocado muito com João Lopes Pereira. Temos muitas ideias para o grupo ¡GOLPE! e queremos convidar mais músicos e gravar. O próximo será, provavelmente, Masa Kamaguchi, com quem já tocámos algumas vezes. Tenho também um grupo com gente do Porto, Baltazar. Tem estado um bocado parado, mas estou a pensar retomar as atividades e, eventualmente, juntar mais alguns músicos. Também toco com alguma regularidade com malta mais nova, por exemplo com os Old Mountain, a banda de Pedro Branco e João Sousa. Editámos recentemente um disco e espero que se gravem mais coisas. Há mais algumas coisas em perspetiva, vamos a ver. Este verão tenho estado a tocar com o grupo do meu amigo André Carvalho e tem sido uma ótima experiência.

 

Ostenta um sólido percurso enquanto docente, formador e pedagogo, em cursos e “workshops” de natureza diversa. O que considera essencial veicular aos seus alunos? Qual deve ser o papel de uma escola de música, concretamente de jazz, na era do Youtube? Munir os alunos das necessárias competências técnicas de domínio do instrumento ou deverá ser algo mais?

Tudo perguntas importantes e com respostas difíceis. Dou aulas a alunos com idades muito diferentes e com níveis diferentes, desde os alunos do ateliê de jazz do Hot Clube (que podem ter dez anos, por exemplo) até alunos de nível universitário. Claro que as abordagens serão muito diferentes. Uma coisa importante e que é transversal é o exemplo que o professor dá, enquanto professor, músico, ser humano. Abertura em relação a vários tipos de jazz (e de música em geral), seriedade no trabalho, espírito autocrítico, curiosidade, boa disposição, sobriedade no uso das redes sociais, enfim, uma certa maneira de estar que eu penso que os alunos captam mesmo sem saberem. Falando agora mais dos alunos avançados, claro que a questão das competências técnicas é básica: no mínimo, o que uma escola pode fazer é tentar tornar os alunos em músicos de jazz relativamente competentes (mas é óbvio que a escola só ajuda, uma grande parte do trabalho está do lado do aluno). Penso, no entanto, que é preciso mais do que isto: pretende-se que uma escola também ajude o aluno a descobrir-se e a perceber o seu lugar dentro da música. Enfim, uma escola também é um espaço onde os alunos podem tocar uns com os outros, fazer experiências e concertos, é muito bom fomentar isto. Não há horas passadas a ver vídeos do Youtube que substituam isto.

 

Tem igualmente desenvolvido atividade como programador de “jam sessions” e concertos, o que aconteceu, por exemplo, no Café Tati. Gosta de o fazer?

Gosto muito, apesar de dar algum trabalho e de não conseguir responder a todos os pedidos. Se em cada dez músicos de jazz houvesse um a fazer também este tipo de programação de pequenos espaços, toda a comunidade sairia a ganhar. Esta música precisa de locais onde os músicos possam experimentar coisas sem compromisso. Infelizmente, as leis parecem estar feitas de modo a que seja muito difícil fazer música ao vivo em espaços pequenos. A quantidade de licenças que estes espaços precisam de ter e o seu custo não é, em geral, comensurável com aquilo que podem depois pagar aos músicos. Enfim, é uma longa conversa... O Tati era um caso especial, não só pelo tipo de espaço físico que era, mas também pelas pessoas que lá trabalhavam. Fechou portas há mais de seis meses: acabou-se com um pequeno ecossistema e não se percebe muito bem porquê. Outra longa conversa... Neste momento, programo para um pequeno espaço que é o Café Alô Alô e tenho feito alguns concertos avulso num bar chamado Resistência. Tenho também feito “jam sessions” no Mercado de Campo de Ourique. Penso que tudo isto vai continuar…

 

Em 2016, fundou a editora Robalo com Demian Cabaud. Qual é o principal propósito? Como se sente neste papel de editor?

O objetivo foi criar um espaço em que se pudesse fazer um certo tipo de jazz, que se relaciona com a tradição de forma geral, mas por outro lado também não é “mainstream”. Ser editor é algo que faço um bocado por obrigação, alguém tem de o fazer. Custa dizer que não a alguns projetos que até são bons, e até podem ser de amigos, mas que não se enquadram nesta estética. Para nós estava claro desde o início que queríamos que a editora tivesse um certo ponto de vista, e estamos a tentar manter esta ideia, mesmo que isso signifique editar pouco. Uma consequência positiva foi termos criado um festival com o apoio da Antena 2. Por sorte existem pessoas como João Almeida, da Antena 2, que têm ainda uma ideia de serviço público. Começámos por organizar nove concertos no auditório do Liceu Camões e este ano já tivemos 24 concertos, não só no auditório mas também em outros espaços de Lisboa. Tivemos um apoio da GDA e ainda conseguimos fazer seis destes concertos no Porto, em parceria com a Porta-Jazz. É muito bom ver jovens músicos a assistirem e a tocar nestes concertos. Tenho esperanças de que este processo continue por algum tempo e já sei que para o ano também irá acontecer o festival.

 

Também lhe interessam as áreas do teatro e da dança contemporânea. O que retira de mais significativo destes cruzamentos artísticos?

Tanta coisa. Tenho tido a sorte de trabalhar com encenadores, atores e coreógrafos muito inspiradores. No teatro destaco o “Ricardo III”, com encenação de Tonan Quito. Foi uma experiência muito boa: estava em palco o tempo todo a tocar e tinha um pequeno papel. Nos últimos três anos tenho estado a fazer “As Bacantes”, com a coreógrafa Marlene Monteiro Freitas. É a minha primeira experiência na dança contemporânea e também estou a gostar muito. Estou em palco a peça inteira e a relação entre a música e o movimento é desafiante. Esta peça tem rodado muito (pela Europa e não só): o próximo espetáculo será em Prato, em Itália, no final de setembro e será a centésima apresentação da peça. Depois vamos para o BAM, em Nova Iorque.

Aprendo muito com esta experiência, faço muitas vezes paralelos entre o mundo do teatro e da dança e o mundo da música. Gosto muito da entrega dos atores e dos bailarinos em cada espetáculo, acho que é um tipo de entrega que às vezes nos faz falta. Também aprendo com a maneira como estruturam todo o espetáculo. Sendo peças bastante grandes, é muito interessante perceber como são as dinâmicas, onde são os momentos mais intensos, os mais calmos, onde há evolução na continuidade, onde há cortes, etc. Há aqui também coisas a aprender. É muito bom interagir com outras comunidades artísticas, com outros códigos e outras maneiras de olhar para o mundo. Também é algo que me põe à prova, que me permite conhecer melhor os meus limites e aquilo de que gosto e não gosto de fazer. Na verdade, quando era mais novo, até aos 13, 14 anos, fiz bastante teatro na escola. Tem sido interessante voltar a conectar-me com esse meu lado adormecido.

 

Como vê o atual panorama do jazz no nosso país? Ainda subsistem “muros” por derrubar?

Uma das coisas boas da vida é ver jovens músicos a desenvolverem-se e a transformarem-se em músicos com voz própria e com quem podemos contar para os nossos grupos. Nos últimos tempos tem havido boas fornadas de jovens músicos, e nesse aspeto acho que o panorama está bastante bom. Acho que neste momento não é tanto uma questão de muros por derrubar, é as pessoas fazerem o seu trabalho. No mundo ideal os músicos tocam e escrevem música, estudam e aprofundam a sua arte, desenvolvem projetos interessantes e consistentes. Os programadores estão atentos ao que se passa, fazem programas coerentes, programam aquilo que acham interessante ser mostrado, para lá da moda do momento. Os críticos criticam com conhecimento e de forma isenta, contribuindo também para dar visibilidade a propostas que consideram válidas. No mundo real as coisas não são bem assim, acho que parte da solução passa pelos músicos se juntarem e chamarem a si uma parte das responsabilidades. É um pouco o que fez a Porta-Jazz e se calhar é também o que queremos fazer na Robalo, à nossa maneira, não para todos os músicos (são muitos!), mas para aqueles que têm uma maneira de estar na música que nos é congenial.

 

Por tudo o dito atrás não lhe devem faltar planos…

Temos uma série de ideias para os ¡GOLPE!. Vamos a ver o que conseguimos concretizar. Também quero continuar a tocar com o meu quarteto e eventualmente voltar a gravar: sinto que conheço melhor o Jeff, o Jacob e o Masa, talvez consiga escrever de modo mais personalizado agora. Tenho outros grupos que quero reativar, nomeadamente os Baltazar e outros com malta mais jovem. Quero também experimentar alguns duos com músicos que admiro. Espero conseguir desenvolver um pouco mais a Robalo: seria muito bom se conseguíssemos um espaço físico onde pudéssemos fazer concertos durante o ano, “masterclasses”, etc. Espero também que o festival continue a crescer e a contribuir para o desenvolvimento do jazz nacional, mostrando música que tem menos visibilidade, misturando músicos estrangeiros com nacionais, músicos mais experientes com jovens músicos.

Da minha atividade docente destaco o meu trabalho no Hot Clube com o ateliê de jazz, um programa dedicado ao ensino do jazz a crianças. Temos jovens muito talentosos, estou curioso para ver como evoluem. É preciso continuar a desenvolver o programa, pensar em novos modos de motivar as crianças, de modo a que tenham prazer a tocar e vontade de melhorar. Se conseguirmos que se juntem a tocar com a mesma naturalidade com que se juntam para brincar, teremos a tarefa muito facilitada. Não acredito num método de ensino do jazz universal, num sistema que funcione para todos os jovens, mas penso que é bom aproveitar o conhecimento acumulado nos últimos anos (séculos?) sobre o ensino da música a crianças. Este é um processo em curso.

Relativamente ao Hot estamos também numa fase importante do ponto de vista do planeamento das próximas temporadas da orquestra. Gerir um grupo com esta dimensão não é fácil, requer muitos meios e uma boa planificação. Vamos a ver que coelhos conseguimos tirar desta cartola. “As Bacantes”, apesar de irem abrandar um pouco nos próximos tempos. vão continuar mais uns anos. Gostaria de continuar com um pé no mundo do teatro/dança/movimento, é algo que me dá muito prazer e que se tornou importante para o meu equilíbrio. Para o meu equilíbrio é também fundamental ter espaço para a família e os amigos: isso às vezes é o mais difícil e tenho de ser criterioso na gestão do meu tempo. Enfim, há muito para estudar, para ler, para ouvir. Não há falta de coisas para fazer, não.

 

Para saber mais

https://goncalosmarques.bandcamp.com/