Miguel Rodrigues, 23 de Julho de 2019

Big bang

texto António Branco fotografia Luís Belo

O baterista e compositor Miguel Rodrigues, que acaba de completar 25 anos de idade, é uma das mais sólidas promessas do jazz nacional. Ou será já uma certeza? O músico, natural de Viseu, ganhou o primeiro concurso da Cena Jovem Jazz.pt, iniciativa que se destina a dar resposta à falta de oportunidades de desenvolvimento de projetos artísticos por parte de jovens músicos saídos dos cursos profissionais e das escolas superiores, trabalhando aspetos que vão do apoio à criação à internacionalização, passando pela circulação nacional.

O músico já tinha sido distinguido na primeira edição do certame promovido pelo Jazz ao Centro Clube (entidade proprietária da revista “online” jazz.pt) – ainda em formato curatorial – como membro do quinteto do contrabaixista e compositor João Fragoso, ao lado do saxofonista tenor Albert Cirera, do trompetista João Almeida e do guitarrista João Carreiro.

Apesar da sua juventude, Miguel Rodrigues, que concluiu em 2014 o curso profissional de Instrumentista Jazz no Conservatório de Música da Jobra, coleciona galardões. Em 2013, integrou o combo vencedor do concurso de escolas não superiores da 11.ª Festa do Jazz do São Luiz. No ano seguinte, foi a vez de vencer o concurso Brass d’Ferro como membro da Fanfarra Fárróbódó, projeto com o qual deu apenas alguns concertos e de que se veio a afastar. Integrando o quarteto do saxofonista Sócrates Bôrras ficou em segundo lugar na categoria de Jazz Combo na edição de 2016 do Prémio Jovens Músicos da RTP/Antena 2.

Para além destas formações, Miguel Rodrigues faz também parte do Joaquim Rodrigues Trio, do Coletivo Zarafat, dos Moto Moto, dos Tranglomango, para só nomear alguns projetos. Como músico “freelancer”, já tocou, em diferentes contextos, com Carlos Bica, Demian Cabaud, Bruno Macedo, Paulo Perfeito, Gileno Santana, entre muitos outros. As suas colaborações extravasam os domínios do jazz, tendo já tido oportunidade de tocar com Jorge Palma, António Zambujo e Miguel Araújo.

Numa altura em que o seu nome começa a ganhar justificada projeção e a sua atividade a desdobrar-se em várias direções, impõe-se saber mais sobre o percurso e o que vai na mente do jovem músico. Quisemos conhecê-lo melhor.

 

Venceu com o seu trio o primeiro concurso Cena Jovem Jazz.pt. Como encara esta distinção?

Sem dúvida, com muita alegria! Tinha o sonho de poder gravar um disco em nome próprio e com este concurso consegui concretizá-lo.

 

O que o motivou a apresentar candidatura? Qual a importância que atribui a este tipo de concursos e, em especial, à Cena Jovem Jazz.pt?

Como qualquer músico, sempre ambicionei gravar um disco e poder fazê-lo, nestes moldes, é uma oportunidade incrível. Cada dia aparecem mais músicos e as oportunidades, infelizmente, não dão para todos… Este tipo de concursos é fundamental para dar a conhecer novas cores e novos artistas.

 

As gravações com que concorreu foram feitas num ensaio do trio para um concerto na Casa da Música, no Porto, em maio de 2018. É acompanhado por dois excelentes jovens músicos, o pianista José Diogo Martins e o contrabaixista João Fragoso. Quando se formou este trio e como é a sua dinâmica de trabalho?

Conhecemo-nos em 2016, quando Sócrates Bôrras nos convidou para tocar no seu quarteto. Depois de tocarmos juntos várias vezes, percebemos que temos estéticas musicais comuns. Desde então, temos uma ligação pessoal e profissional muito forte, estamos sempre em contacto, a partilhar discos, música nova, a marcar sessões e a agendar concertos.

 

A música que escutei do trio parece apontar em várias direções estéticas, mas há uma dimensão melancólica que me impressionou. Será a via preferencial a explorar?

Todos os momentos da nossa vida servem de inspiração para a música que fazemos. O mais importante é passar a mensagem, uma vez mais melancólica e outra mais jovial, dependendo do momento.

 

A vitória neste concurso permite-vos editar na JACC Records o disco de estreia do trio. Já está gravado? Pode levantar a ponta do véu sobre como vai ser?

Já está gravado. Acima de tudo, podem esperar uma música em constante ebulição e o prazer da liberdade da criação em tempo real, como celebração da própria vida.

 

É interessante notar que bisou o triunfo na Cena Jovem Jazz.pt, uma vez que faz parte também do quinteto do contrabaixista e compositor conimbricense João Fragoso – juntamente com Albert Cirera, João Almeida e João Carreiro –, formação escolhida em 2018, em regime curatorial, para ser a primeira a gravar para o catálogo desta iniciativa do JACC...

É uma feliz coincidência: o Fragoso juntou este quinteto para tocar a música dele. As coisas começaram a correr bem e surgiu a oportunidade de gravar. Fiquei a conhecer o concurso e decidi candidatar-me com o meu trio com Demian Cabaud e José Diogo Martins, dois músicos que admiro. Felizmente, cá estou de novo!

 

Já que estamos a falar de prémios – e são alguns no seu percurso –, integrou igualmente o combo vencedor do concurso de escolas não superiores da 11.ª Festa do Jazz do São Luiz, em 2013. Como foi essa experiência?

Foi um momento muito marcante na minha vida. Foi a primeira vez que fui à Festa do Jazz. Vi muitos concertos, estive pessoalmente com muitos músicos que são uma influência para mim e isso serviu de inspiração para o resto da minha vida. Queria voltar a tocar naquele festival e voltar a estar naquele ambiente de festa a partilhar música. Obviamente que isto não teria sido possível sem o apoio dos professores e do Conservatório de Música da Jobra.

 

Integra ainda o quarteto do saxofonista Sócrates Bôrras, que foi segundo classificado na edição de 2016 do Prémios Jovens Músicos, organizado pela RTP/Antena 2, na categoria de “Jazz Combo” (apenas atrás dos Home do acordeonista João Barradas). De que forma viveu a participação neste certame?

O Prémio Jovens Músicos é um concurso muito prestigiado. Na altura, o Sócrates decidiu concorrer com o objetivo de partilhar e, em caso de vitória, gravar a música que tínhamos vindo a fazer com o quarteto. Foi muito divertido, porque a nossa música era totalmente diferente das dos Home e do quarteto de Rogério Francisco e conseguimos não só tocar emocionalmente as pessoas que estavam a ouvir como também ganhar o segundo prémio.

 

Sente-se parte de uma geração emergente de talentosos jovens músicos de jazz que aborda a música de forma abrangente? Considera-se, essencialmente, um músico de jazz ou esta definição é, de alguma forma, redutora, tendo em conta a amplitude do trabalho que desenvolve?

Há muita música, muitos músicos e todos querem inovar e acho que isso não acontece só no jazz. Considero-me um músico de jazz, mas não um músico que só toca jazz, até porque o jazz não é apenas um género e não pode funcionar como um rótulo. Desde que estudei jazz, nunca mais ouvi música da mesma forma, seja ela de que género for, portanto acho que o jazz me fez ouvir outro tipo de pormenores que, se calhar, os músicos de outros géneros não ouvem e isso influencia a minha abordagem noutros géneros. Há vários exemplos: Mário Barreiros, Mário Costa, André Fernandes, Mário Delgado e Alexandre Frazão são músicos que tocam outros géneros e, provavelmente, se não fosse a escola do jazz não os tocariam daquela forma.

 

Em suma: como olha para o facto de ser um músico jovem e já tão premiado? É um estímulo, uma responsabilidade acrescida?

É sempre gratificante quando atribuem mérito ao nosso trabalho, mas o mais importante é tocar e partilhar a música com as pessoas. É esse o verdadeiro estímulo. 

Longe da confusão

 

Nasceu no interior do país, em Viseu, longe dos grandes centros de decisão e de onde residem as oportunidades. Acha que esse facto foi, ou é, de alguma forma uma desvantagem para o seu desenvolvimento enquanto músico? Não obstante o panorama do jazz em Viseu ter vindo a crescer bastante nos últimos anos, com valorosos jovens músicos a despontar...

Hoje em dia, com a internet, estamos em todo o lado. Conheço muitos músicos no Porto e em Lisboa, portanto vou regularmente a essas cidades tocar. Não vejo que o facto de ser de Viseu me tenha prejudicado, pelo contrário, estou longe da confusão e, na verdade, Viseu é uma cidade com uma grande movimentação cultural. A Associação Gira Sol Azul, que é o principal motor do jazz aqui, já vai na sétima edição do festival de jazz e programa, durante o ano, alguns concertos em parceria com o Carmo 81, o bar Faces, o Lugar do Capitão, o Teatro Viriato, entre outros. Há muitos músicos aqui e isso também faz com que aconteçam muitas coisas.

 

Que memórias guarda dos seus primeiros contactos com a música? Influência familiar? Havia discos lá em casa? Lembra-se de alguns que gostasse de pôr a tocar mais vezes do que outros?

Sou de uma aldeia onde existe uma banda filarmónica e é tradição ir para lá aprender música e começar a tocar um instrumento aos cinco, seis anos de idade. Tive o primeiro contacto com a música lá, foi muito importante para mim. Para além disso, o meu avô tocava saxofone, o meu pai tocava bateria, o meu irmão toca trompete, sempre houve muita música em casa. O meu pai ouvia Pink Floyd, Beatles, Dire Straits, o meu irmão Beethoven, Mahler, portanto, desde novo, que ouço uma “mixórdia” de géneros.

 

Quando e em que circunstâncias surgiu o interesse pelo jazz? Quer nomear algumas das suas referências iniciais neste campo?

O interesse pelo jazz surgiu no momento em que decidi ir estudar bateria profissionalmente para a Jobra. Como não conhecia praticamente nada, as minhas primeiras referências foram os meus professores: Marcos Cavaleiro, Mário Costa, Luís Figueiredo, Demian Cabaud. Através deles conheci as lendas que passaram a ser referências, como Elvin Jones, Tony Williams, Paul Motian, John Coltrane, Bill Evans, Miles Davis.

 

Começou por estudar música na já falada escola da Associação Gira Sol Azul, em Viseu, onde foi aluno, entre outros, de Acácio Salero. Como foram esses tempos iniciáticos?

Acácio Salero foi um professor muito importante para mim, porque foi com ele que tive o primeiro contacto com o jazz e com o “swing”. Lembro-me como se fosse hoje!... Na primeira aula, trouxe para casa uma folha A4 com nomes de bateristas e discos para ouvir. No início, não foi fácil aprender uma linguagem completamente nova. Se não fosse o Acácio não tinha tido as bases suficientes para conseguir ingressar no curso profissional de instrumentista de jazz, na Jobra.

 

Começou logo pela bateria? Porquê esta opção?

A minha ligação com a bateria surge do meu pai, que também tocou bateria. Desde miúdo que montava o tradicional “kit” de tachos e panelas nos sofás. Não tenho ideia de querer tocar outro instrumento. No entanto, primeiro toquei saxofone alto na banda filarmónica. Na altura, não podia escolher bateria. Foi uma boa experiência, mas nunca foi uma primeira opção.

 

Mais tarde, já no Conservatório de Música da Jobra, concluiu o curso profissional de Instrumentista Jazz. Como foi esta fase, durante a qual teve oportunidade de estudar com músicos reconhecidos, como André Fernandes, Demian Cabaud, Marcos Cavaleiro, Mário Costa e Paulo Perfeito? Quer destacar alguns momentos que o tenham marcado particularmente?

Os três anos que estive na Jobra foram os mais importantes da minha vida! Existe, claramente, um Miguel antes e um Miguel depois do curso profissional de jazz… Não estou a falar só a nível profissional, a nível pessoal também cresci imenso. Tudo o que sei aprendi lá, os professores foram incríveis, desde o primeiro segundo, na exigência, na motivação, na inspiração, na educação. Foi com eles que percebi que queria mesmo ser músico e que queria mesmo tocar jazz. Em vez de algum momento, prefiro destacar as aulas com Marcos Cavaleiro e com Demian Cabaud, que mudaram a minha vida e tornaram-se nos meus eternos mentores. Também destaco Mário Costa e João Martins, que foram os grandes responsáveis por conseguir concretizar alguns sonhos que nunca pensei que passassem de sonhos.

 

Prosseguiu estudos superiores? É sua intenção fazê-lo?

Não prossegui estudos superiores, embora nunca tenha deixado de estudar e de ter aulas. Pretendo, um dia destes, fazer a licenciatura em bateria jazz, sim.

 

Qual é ou deverá ser, para si, o papel do ensino formal na estruturação de uma identidade musical própria, em especial no domínio do jazz? Considera que a escola sirva para facultar o indispensável domínio técnico do instrumento e das ferramentas de arranjo e composição ou é essencial que prepare o jovem músico para algo mais?

Na minha opinião, em todas as áreas, precisamos de aprender, assimilar, desenvolver e inovar. A escola dá-nos essa possibilidade, uns alunos aproveitam da melhor forma, outros nem tanto e acabam por ser eles próprios a formatar-se e a não alargar horizontes. Todos os meus professores me deixavam com vontade de praticar mais e mais. A escola não é apenas o lugar onde temos aulas, mas também o sítio onde criamos ligações com os professores e os colegas com quem mais tarde vamos trabalhar.

 

Como se define enquanto músico? O que procura transmitir de fundamental àqueles que o escutam?

Para mim, o mais importante é que as pessoas percebam a mensagem que pretendo transmitir com a música.

 

Quando começou a compor? Assume-se sobretudo como instrumentista ou como compositor? São vertentes que se complementam?

Na minha opinião, neste estilo de música, somos todos compositores em tempo real. Enquanto compositor não gosto de impor muitas regras, gosto da música livre. Tenho algumas melodias, alguns pontos de partida, e deixo que os músicos interpretem. Acabo por tocar sempre tudo de maneiras muito diferentes e gosto desta imprevisibilidade.

Sem limites

 

Qual é a sua relação com a chamada “tradição” do jazz? É importante para si conhecê-la? Sente-se devedor de algum músico, grupo ou movimento em especial?

É fundamental conhecer a tradição, tudo vem de lá. Acho que todos os músicos são devedores, todos passamos pela tradição, nem que seja como ponto de partida. É essencial para entender a linguagem e para estar dentro do estilo. Todos os meses preparo uma “playlist” de discos para ouvir e estão lá regularmente discos de Parker, Miles, Coltrane, Monk, Evans, Cannonball, entre outros.

 

Em que medida a improvisação é importante para a forma como entende a música, em geral, e o jazz, em particular?

É extremamente importante, porque nos permite sermos nós próprios, sem limites.

 

Nos últimos anos temos assistido ao surgimento de um conjunto de formações e projetos esteticamente díspares – muitos deles vertidos para disco – liderados por bateristas: Michael Lauren, Paulo Bandeira, José Salgueiro, Jorge Moniz, Marco Franco, João Lencastre, Pedro Melo Alves, Mário Costa, Gabriel Ferrandini, entre outros. Como vê esta situação?

Cada vez mais se tem vindo a desmistificar aquela ideia de que o baterista é apenas um músico acompanhador. Ao longo do tempo, com as escolas, os bateristas foram tendo aulas de harmonia e composição. Muitos deles até começam a tocar outros instrumentos e isso faz com que tenham outros recursos para desenvolver as suas ideias/projetos musicais.

 

Como tem sido tocar com Demian Cabaud em vários contextos?

Estudei com o Demian na Jobra, e desde o início que tive uma ligação musical e pessoal muito forte. Com o passar do tempo, ele mostrou-se disponível para fazer concertos comigo e comecei a chamá-lo para os meus projetos.

 

E com Carlos Bica?

Com Carlos Bica toquei no projeto de Sócrates Bôrras, no festival de Jazz de Viseu.

 

Também já tocou com nomes exteriores ao jazz, como António Zambujo e Miguel Araújo. Considera-se um músico eclético? Os seus ouvidos estão abertos a toda a música? Fale-nos de três ou quatro discos que o tenham marcado ultimamente...

Gosto de tocar vários géneros e toco regularmente em projetos de música tradicional, rock, pop, com Miguel Araújo, Tranglomango e Aurora Brava. Tenho uma “playlist” que atualizo todos os meses, portanto é difícil escolher três ou quatro discos, mas ultimamente tenho andado a ouvir o “Barrage” do Paul Bley Quintet, com Milford Graves na bateria, o “Bro/Knak” de Jakob Bro e Thomas Knak, o “Unit Structures” de Cecil Taylor e o “Miles Smiles” de Miles Davis.

 

Há alguém com quem gostasse especialmente de trabalhar, em Portugal e no plano internacional?

Há um leque de músicos que admiro e com quem gostava de tocar. Em Portugal, gostava de tocar com Gonçalo Marques, André Matos, João Pedro Brandão, André Fernandes e espero fazê-lo com eles brevemente. No plano internacional, há também muitos músicos com quem adoraria tocar: Tony Malaby, Leo Genovese, Peter Evans, Drew Gress, Jakob Bro, entre muitos outros. Fora do jazz, gostava muito de tocar com Cristina Branco, Manel Cruz e Carminho, são cantores que gosto muito de ouvir.

 

No meio de toda esta atividade ainda encontra tempo para dar aulas de bateria. Que ensinamentos procura veicular aos seus alunos?

Tento ser com eles como os meus professores foram comigo, partilhando discos e passando-lhes as ferramentas necessárias para que eles consigam trilhar o caminho que pretendem.

 

Ótima deixa para terminar esta entrevista. Para onde quer ir o Miguel Rodrigues?

Esta pergunta tem várias respostas possíveis, mas vou dizer que o que quero é ir para o palco, tocar, partilhar música com as pessoas!...