Pedro Neves, 16 de Julho de 2019

Tocando horizontes

texto António Branco fotografia Pedro Ferreira e Miguel Estima

Depois de “Ausente” (2013) e “05:21” (2016), o pianista e compositor portuense Pedro Neves (n. 1978) acaba de regressar aos discos na condição de líder com o seu trio de piano. “Murmuration”, à semelhança dos anteriores, tem selo da Carimbo Porta-Jazz – braço editorial da Associação Porta-Jazz, entidade cujo trabalho de divulgação do novo jazz da Invicta é de sublinhar a traço grosso –, e vem confirmar, se necessário fosse, o que já sabíamos: estamos perante um músico com os pés bem assentes na tradição, mas que gosta de lhe lançar desafios, construindo novas possibilidades e alargando horizontes. Com o pianista estão novamente o contrabaixista Miguel Ângelo – também ele já com distinta discografia em nome próprio – e o baterista Leandro Leonet, músicos que completam uma formação sólida em que a empatia e a cumplicidade pessoais, ao invés de criar rotinas, antes potencia a criatividade e o desejo de evolução.

Pedro Neves iniciou os seus estudos de música e piano clássico aos sete anos, criando laços importantes com o Instituto Orff do Porto e a sua Orquestra. Estudou Economia e, em 2007, concluiu a licenciatura em Piano Jazz na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE). No mesmo ano decidiu partir para Barcelona e estudar na L’Aula do Conservatório do Liceu, onde frequentou as disciplinas de piano, combo, improvisação e orquestra do curso superior, tendo como professores Mariano Diaz e Iñaki Sandoval, entre outros.

Mantém uma colaboração regular com a baterista e compositora galega Lucía Martínez, com quem, em 2007, gravou o disco de estreia e, em 2014, o segundo, “De Viento y de Sal”. Também nesse ano registou “Two Pencils and a Dream”, álbum de estreia dos Sketch, e “8mm” do guitarrista Bruno Macedo. No ano seguinte gravou o disco de estreia da cantora Mariana Vergueiro, “Morning Rain”. Trabalha regularmente como músico de estúdio, sendo convidado em vários projetos, e desenvolve atividade docente. Motivos de sobra para uma conversa com a jazz.pt, na qual se fala do novo disco, mas também do seu itinerário pessoal e musical e do que pensa fazer daqui para a frente.

 

“Murmuration” é o seu terceiro disco na qualidade de líder. Vê nele uma continuidade face aos anteriores ou antes o início de uma nova fase?

Um pouco das duas coisas. Apesar de não haver um corte estético com os anteriores, houve uma vontade de trazer coisas novas para este disco.

 

Como o descreve?

Continua a ser um disco de canções, com um papel muito presente das melodias e estruturas. Desde que gravou o seu disco a solo “I Think I'm Going to Eat Desert”, o Miguel tem explorado novas sonoridades com uso de pedais e efeitos no contrabaixo e eu quis trazer parte dessa boa experiência para o trio. Acho que essa foi umas das inspirações do disco. A composição dos temas procurou encontrar mais espaço para texturas e ambientes que os anteriores, e diferentes estruturas para a improvisação. Penso que o disco pode ser descrito como variações sonoras do ambiente da composição, e daí o nome “Murmuration”.

 

Em que ambiente decorreu a sua gestação?

Num ambiente mais atribulado que os anteriores, isso sem dúvida. Estamos os três com vários projetos e trabalhos, o Leandro foi morar para Barcelona... Foi um disco menos rodado que os anteriores, mas ao mesmo tempo acho que conseguimos trazer alguma frescura e até algum risco à gravação.

 

Como é o vosso trabalho em conjunto? A cumplicidade pessoal tem reflexos ao nível da produção artística?

A cumplicidade pessoal tem muita influência. Tenho alguma dificuldade em conceber projetos artísticos com pessoas com quem não haja alguma empatia. No caso do Miguel e do Leandro, é muito mais que empatia. Somos muito amigos! E é uma sorte poder trabalhar com excelentes músicos de quem gosto muito. Podemos discutir abertamente várias opções musicais e estéticas. Componho para o trio a pensar neles como músicos e pessoas e eles conseguem sempre fazer da folha de papel que levo para os ensaios uma música muito mais rica. Crescemos juntos musicalmente, estudamos juntos, ouvimos música juntos. Tocamos em outros projetos juntos, em diferentes estéticas. Tudo isso torna o trabalho em conjunto muito fácil e intuitivo.

 

Depois de “Ausente” e de “05:21” continua a apostar no formato de trio clássico piano-contrabaixo-bateria. O que o atrai nesta combinação instrumental tão importante para a história do jazz?

Acima de tudo, uma questão de gosto pessoal. Cresci como músico a ouvir e admirar os trios de piano, e penso que por isso foi uma escolha natural. Além disso, atrai-me a cumplicidade constante que um trio adquire e o desafio de fazer um concerto ou um disco com três instrumentos, e por conseguinte menor variedade tímbrica, procurando manter sempre a música dinâmica e interessante de ouvir e tocar!

 

Estando esse dinamismo presente, sobressai também uma escrita elegante e rigorosa, que parece decorrer de uma formação clássica. De que forma os universos clássico e do jazz confluem para definir a sua identidade enquanto músico?

Diversas vezes se tem mencionado que a minha escrita tem forte influência da dita música clássica. Percebo a ligação, mas nunca estudei piano clássico de forma muito metódica e contínua, do típico aluno de piano que leva os seus estudos até ao 8.º grau do Conservatório. Longe disso até... Por diversas razões, os meus estudos clássicos foram várias vezes interrompidos ou sobrepostos com outros estudos e interesses. Só comecei a pensar que poderia ser pianista de profissão quando entrei para a ESMAE e comecei a estudar mais a sério. Foi através do jazz que descobri a minha identidade musical, ou melhor, foi através do jazz que consegui arranjar uma forma de fazer música original sem necessidade de etiquetas. Mas mesmo com tantos anos absorvido pela música afro-americana do século XX, não posso negar o peso da tradição e a influência das músicas europeia e portuguesa na minha formação e no meu desenvolvimento como músico e compositor.

 

Fixemo-nos nessa filiação na tradição do jazz. Quais são as suas principais referências neste domínio?

Como apaixonado por trios de piano, vou salientar alguns que me marcaram... Os trios de Bill Evans, Keith Jarrett, Brad Mehldau. Os trios acústicos de Robert Glasper e Gerald Clayton. O grande músico Miles Davis, o grande compositor e saxofonista Wayne Shorter. São muitas...

 

Este formato tem sido desconstruído e reconstruído, em diferentes contextos, ao longo das décadas. Há muito ainda por explorar?

Acho que o formato tem tanto para explorar como a própria música em si. O jazz já se inventou e reinventou tantas vezes… A busca de novos caminhos parte da música e é a evolução da mesma que se reflete na evolução do formato.

 

Bill Evans dizia que queria que os seus trios de piano “cantassem”...

Bill Evans é por muitos considerado o pai do piano jazz moderno. E eu concordo! Não só pelo que ele trouxe ao jazz como pianista, mas também pela abordagem com que montou os seus trios. O trio com Scott LaFaro e Paul Motian marcou uma nova época. E cantavam sim. Muito e bem.

 

Considero existir na sua música um lado introspetivo de matriz vincadamente europeia, que de alguma forma remete para o chamado “som ECM” (vêm-me à memória Bobo Stenson e Tord Gustavsen). Concorda?

Concordo. Ambos são fortemente influenciados pelas melodias populares dos seus países do norte da Europa, tal como eu. Dou muita importância ao som da música e da gravação e o som ECM atrai-me particularmente.

 

Muitas das suas composições evidenciam um poder imagético que as aproximam de bandas sonoras. É deliberado?

Sim e não. Sim, porque o tema “Presente” (do disco “Ausente”) nasceu do desafio que um amigo me propôs para musicar uma curta metragem e o tema “Sonâmbulo” (de “Murmuration”) foi adaptado de uma melodia que compus para musicar um filme mudo de Robert Wiene, “The Cabinet of Dr. Caligari”. Não, porque todas as outras composições nunca tiveram esse propósito, apesar de eu muitas vezes associar imagens à sonoridade dos temas. Mas raramente esse é o ponto de partida.

 

Há momentos em que descortino também um travo português, sobretudo ao nível de certas construções melódicas. É assim? Será algo inevitável?

Penso que sim. Sem nenhuma intenção, há sempre alguma nostalgia típica de um povo que se materializa musicalmente no fado, que não sendo um género musical que consumo muito, faz parte da nossa identidade. Uma mistura de música celta, árabe e do período romântico. Será?

 

Como é o seu processo criativo? Compõe regularmente, recicla material?

Mais do que compor regularmente, tenho períodos regulares em que me dedico a compor. Vou colecionando papéis e gravações... Quando chega o momento de montar o repertório de um disco gosto sempre de compor música nova, mas muitas vezes vou ao baú buscar ideias “antigas”.

 

E qual é o papel da improvisação em todo esse processo?

A improvisação tem o papel mais importante de todos. Isso é facilmente constatável pelo tempo que esta ocupa na duração de um tema. Não sendo originária nem exclusiva do jazz, a improvisação é talvez um dos grandes legados deste género musical. Permite que o músico, de forma espontânea, conte a sua variação ou derivação da história proposta pelo tema sobre o qual ela ocorre. Claro que é sempre uma espontaneidade condicionada pela música sobre a qual estamos a improvisar, pelos músicos com quem tocamos, pela nossa formação e estética musical. Improvisar em grupo tem um duplo aliciante. O de nos deixarmos guiar pelo nosso ouvido e pelo que os outros músicos estão a construir nesse momento. 

Necessidade de evolução

 

Começou a estudar música e piano muito cedo. Tem familiares músicos que o estimularam ou o interesse nasceu consigo?

O meu pai tinha estudado acordeão em criança e de vez em quando, a muito custo, lá o conseguimos convencer a tocar um pouco para nós. O meu irmão mais velho já tocava umas músicas na guitarra e no piano. A minha mãe tinha um grande desgosto por nunca ter aprendido música. Foi mais por iniciativa dela que fui para uma escola ainda criança. O interesse acho que esteve lá desde sempre. Não me lembro de mim sem música ou sem tocar um instrumento.

 

O piano foi uma escolha natural e definitiva ou em algum momento cogitou dedicar-se a outro instrumento?

A partir do momento que me sentaram ao piano nunca tive dúvidas que estava no instrumento certo. Nunca tive vontade de mudar.

 

Em que momento despontou o interesse pelo jazz? Por onde começou?

O meu interesse pelo jazz começou numa necessidade de evolução. Da vontade de procurar novos caminhos. Já tinha tido algumas aulas na Escola de Jazz do Porto durante a adolescência, mas só no início da vida adulta comecei a ter verdadeiro interesse. Nessa altura estudava com Paulo Gomes, e ele teve grande importância na forma como passei a ouvir e tocar. Nos anos 1990 a internet ainda estava a nascer, ouvíamos música da rádio ou em formato físico. O Paulo gravava-me cassetes para eu ouvir e estudar e recomendava-me discos para comprar. Foi nessa altura que conheci Keith Jarrett. E foi a ouvir os três concertos que ele gravou pela Blue Note, uma edição de seis CDs (dois “sets” por noite) que me lembro de pensar que um dia gostaria de ser pianista de jazz. Antes de entrar para a ESMAE fui fazer dois “workshops” a Espanha. Um em Salamanca, com Bruce Barth, Steve Wilson e Uggona Ukego, entre outros. Foi uma semana incrível em que me lembro de ser muito feliz a contactar com músicos que só conhecia da capa dos discos e a tocar todas as noites nas minhas primeiras “jam sessions”. E o outro em Madrid, com um nome incontornável da história do jazz: Barry Harris. Depois dessa semana de aulas e de o ver tocar todas as noites no Café Central nunca mais fui o mesmo.

 

Licenciou-se em Piano Jazz pela ESMAE. Algo ou alguém o marcou especialmente nesta fase? Já tocava “profissionalmente”?

A ESMAE foi uma experiência muito boa. Um curso superior de jazz em Portugal, nessa altura, foi algo em que poucos acreditavam. Eu era estudante de Economia e apesar de já fazer alguns “gigs” e tocar em hotéis nunca teria tomado a decisão de me dedicar só à música se não fosse esse empurrão. Lembro-me de pensar que ia só experimentar e que depois acabava o curso de Economia, mas no final desse primeiro ano tive a certeza de que já não voltaria atrás. Encontrei na ESMAE excelentes músicos e professores. Michael Lauren foi muito importante na consolidação do curso, com a experiência que trouxe dos Estados Unidos, e sempre teve uma palavra amiga e crítica comigo. E tive também a felicidade de reencontrar um dos meus primeiros professores de música e a quem muito devo a minha paixão pela música, Mário Azevedo. A maior parte dos músicos com quem toco foram meus colegas na ESMAE. Foram as inúmeras sessões e noitadas em que tocámos juntos que me fizeram crescer como músico. Aí nasceu o Quarteto da Lucía Martínez, o meu primeiro trio (com Leandro Leonet e Rui Salgado)... Quase todos desse ano em que estudámos juntos conseguimos construir uma carreira. Foram uns belos anos!

 

Também estudou em Barcelona. Que balanço faz hoje dessa experiência?

Barcelona foi outra ótima experiência. Foi um Erasmus curto, mas muito intenso. Tive a sorte de estudar com Iñaki Sandoval, Mariano Diaz e Stefan Carlson! Tínhamos várias “jam sessions” disponíveis por semana (no Porto só havia a da ESMAE), vi concertos incríveis no Jamboree e, quando estamos longe de casa, aproveitamos todo o tempo para estudar e tocar. Pela primeira vez na vida não tinha o meu piano disponível para estudar sempre que quisesse, tinha de marcar sala para estudar e não havia muitas horas disponíveis. Lembro-me de adormecer ao piano a estudar. Cheio de sono, mas tinha de aproveitar aquelas horas preciosas!

 

Quer destacar algum projeto em que tenha estado envolvido ao longo do seu percurso e que o tenha marcado particularmente?

O projeto de Lucía Martínez, por ter sido o primeiro e o que mais cedo teve visibilidade. A Lucía, além de ser uma excelente instrumentista e compositora, teve desde sempre a convicção de construir uma carreira artística e acreditou sempre que com o seu trabalho e empenho ia chegar lá. E eu aprendi muito com a sua determinação. Tocámos por toda a Espanha, gravámos o primeiro disco em Madrid, e percebi que afinal a hipótese de ser músico era real...

 

Continuam a trabalhar juntos?

Sim. Ainda este mês estivemos a tocar em Espanha e Itália. A Lucía está em Berlim, mas muitas vezes vem a Vigo. Tocamos regularmente e estamos prestes a gravar coisas novas.

 

Parece preferir formatos de média dimensão (trios, quartetos...). Qual a razão?

Não diria preferir. Se calhar são mais as circunstâncias da gestão de ensaios e até de concertos. Não é fácil juntar seis, sete, oito músicos com disponibilidades coincidentes. Acho que o natural é os projetos não serem muito grandes. Mas tenho vontade de escrever para formações maiores. Talvez em breve.

 

E considera a possibilidade de gravar a solo? Interessa-lhe o lado mais solitário da prática musical?

Agrada-me muito o desafio, mas neste momento não sinto essa necessidade. Gosto de fazer música em conjunto. Gosto de ter momentos de piano solo, mas um disco completo a solo ainda vai ter de esperar.

 

Integra também o quarteto do guitarrista Bruno Macedo, com o qual gravou o muito recomendável “8mm”. Em que pé está este quarteto?

Infelizmente está parado. O Bruno é um músico muito talentoso, multifacetado, e neste momento está dedicado a outros projetos. Mas estamos muitas vezes em contacto e acho que mais cedo ou mais tarde vamos voltar a fazer coisas juntos.

 

Com a cantora Mariana Vergueiro mostra ser também um notável acompanhador. Sente-se confortável nesta função?

Sim. Sempre gostei muito de acompanhar cantores e quando a Mariana me convidou para gravar fiquei muito feliz. A Mariana é uma excelente cantora e compositora. Gosto muito da música dela e dos momentos que a música que fazemos juntos nos proporciona.

 

Em que outros projetos está envolvido atualmente?

Além dos já referidos, estou a tocar regularmente com Miguel Sampaio e João Paulo Rosado, e já começámos a compor música original. É um trio que se chama Puzzle. Gravei também recentemente um novo projeto com Mariana Vergueiro, que além de Nuno Campos conta com Ricardo Coelho, que além de bateria toca lindamente vibrafone. Há também um quinteto com José Pedro Coelho, Marcos Cavaleiro, Ricardo Formoso e Nuno Campos. Já temos a música escrita, já a tocámos publicamente inclusive, mas a agenda apertada de todos não está a tornar fácil a visita ao estúdio. E estou prestes a lançar um disco de uma grande amiga, Sónia Pinto, um disco de “standards” e não só, que vai ser editado na Alemanha. 

Laços comuns

 

Para além de todos os projetos de que já falámos, desenvolve também atividade docente. Gosta de ensinar? O que procura, de essencial, transmitir aos seus alunos?

Gosto muito de ensinar. E aprendo muito nesse processo. Há cinco anos que estou a trabalhar no curso profissional de jazz do Conservatório de Música da Jobra e é muito recompensador trabalhar com jovens muito talentosos, que dedicam 12 horas por dia à escola e que nos surpreendem a cada passo. A estrutura do curso, a direção pedagógica e o excelente corpo docente ajudam a formar músicos que em breve vão estar a fazer coisas muito interessantes, seguramente. Como professor tento passar parte do meu processo de aprendizagem e estudo. E, apesar da cultura de exigência e compromisso que a escola naturalmente impõe, tento que eles, acima de tudo, sejam felizes a tocar a música de que gostam.

 

Acha que a proliferação de cursos (licenciaturas, mestrados, doutoramentos) e escolas a vários níveis tem correspondência ao nível da qualidade e relevância do que se vai fazendo? Não tanto em termos de proficiência técnica, mas da propensão para acrescentar algo de novo...

Sim, sem dúvida. Temos vários músicos que foram estudar para fora (Inglaterra, EUA, Espanha, Holanda) e quando voltaram trouxeram muito da sua aprendizagem. A abertura dos cursos superiores, o aumento de mestrandos e doutorados nesta área trouxe uma nova credibilidade à carreira de instrumentista de jazz. E essa credibilidade traduz-se em mais alunos, a começarem mais cedo, com o apoio familiar. Além disso, a internet torna global o acesso à música que se faz por todo o mundo. E hoje é cada vez mais frequente em Portugal as “masterclasses” e “workshops” com os mais conceituados músicos de jazz mundial. Com todas estas mais-valias acho que estamos a assistir a esses dois fenómenos: músicos tecnicamente muito evoluídos e uma diversidade musical imensa. Os discos já editados pela Carimbo Porta-Jazz são bem o espelho disso.

 

Como vê atualmente a cena do jazz no Porto? Somos surpreendidos pela manutenção da alta qualidade de nomes e grupos consagrados e o surgimento, cada vez mais frequente, de novos valores em diversos instrumentos...

A ESMAE teve o papel fulcral de juntar músicos e pô-los a trabalhar e estudar juntos. Já tínhamos assistido a um fenómeno parecido com a Escola de Jazz do Porto, nos anos 1980 e 1990, mas a ESMAE trouxe músicos do país inteiro e cada vez mais do estrangeiro. Desse viveiro de experiências surgiram inúmeros novos projetos, com músicos de diferentes locais e gerações, com uma identidade muito própria. A Porta-Jazz veio trazer visibilidade e espaço para a materialização destes.

 

De facto, o trabalho da Associação Porta-Jazz tem sido determinante para esta evolução...

Exatamente. É um projeto incrível e um trabalho ímpar em que músicos se juntaram para dar voz aos seus trabalhos e aos dos outros. Desde a Carimbo, aos concertos regulares na Sala Porta-Jazz, o Festival Porta-Jazz (que ocupou o vazio deixado pela extinção do Festival de Jazz do Porto), às inúmeras parcerias com câmaras municipais e outras entidades. De repente começámos a ter um movimento muito sólido e regular que colocou o jazz presente na cultura do Porto e do norte do país.

 

Como se poderá explicar a persistente imiscibilidade entre as cenas do jazz de Lisboa e do Porto (apesar das episódicas colaborações)? Haverá diferenças assim tão significativas que motivem essa distância?

Penso que não. Ainda somos relativamente poucos. E existem muitos laços comuns. Penso que cada vez mais essa divisão vai desaparecer. Até porque estamos a assistir à internacionalização da música que é feita cá. Os músicos cada vez mais pensam que fazemos parte da Europa e que estamos a uma pequena viagem de avião de distância de todo o lado... Faz mais sentido falar em jazz português do que em jazz do Porto ou de Lisboa.

 

Quer nomear alguém com quem gostasse particularmente de trabalhar e ainda não tenha tido essa oportunidade?

São muitos! E muitos deles portugueses! Espero que em breve consiga estar com alguns deles.

 

O que poderemos esperar de si nos tempos mais próximos?

Estou ainda na fase de promoção do “Murmuration”. Já temos alguns concertos agendados e espero conseguir alguns mais. E dos projetos que integro com certeza muita e boa música vai acontecer brevemente.

 

Para saber mais

http://www.pedro-neves.pt/