Mn’JAM experiment, 25 de Junho de 2019

Marginalmente revolucionários

texto Nuno Catarino

O M vem da cantora Melissa Oliveira e o JAM identifica João Artur Moreira, artista visual (os vídeos projectados nos concertos do grupo são dele) e manipulador de dispositivos digitais: o núcleo do grupo Mn’AM experiment é português, a ele se acrescentando o guitarrista galego Virxilio da Silva, o contrabaixista norte-americano, mas radicado em Amesterdão, Matt Adomeit e o baterista polaco Péter Somos. Como convidado têm Casey Benjamin, saxofonista e teclista dos EUA com percurso feito nos Robert Glasper Experiment ou em associação com figuras como os “rappers” Mos Def e Q-Tip e com o vibrafonista Stefon Harris. A música que praticam, um misto de jazz, música electrónica, pop “indie” e improvisação experimental, vai ser apresentada no nosso país em três concertos: no MAAT, em Lisboa, a 8 de Julho, no Museu Cargaleiro, em Castelo Branco, a 12, e no Centro Cultural e de Congressos de Caldas da Rainha a 13. A jazz.pt quis saber mais e conversou com M e JAM, que respondem a uma só voz…

 

Como nasceu o projecto Mn'JAM experiment?

O projeto Mn'JAM experiment nasceu na Holanda, pela mão da M (cantora) e do JAM (compositor), ou seja, Mn'JAM experiment. Apesar de ser um nome esquisito (até para muitos anglófonos não é intuitivo), nada mais quer dizer que «a experiência da M e do JAM». No meio tem um n' que é a contracção de um "and" tal como Mn'Ms ou Dn'B, o que muitas vezes ainda faz com que a tentativa de leitura do nosso nome aconteça de forma titubeante. Ainda assim, esteticamente achamos que esse n’ é muito mais "estiloso" que um corriqueiro "and" - os Xutos (& Pontapés) também fizeram questão que o X figurasse no nome.

 

A vossa música integra diferentes referências estéticas. Como chegaram ao vosso som?

Chegar ao nosso som foi um processo muito natural, que começou por termos nascido no último quarto do século XX. Temos a felicidade de poder contar com imensos estilos de música, não só documentados como também estudados “ad nauseam” (aliás, cada vez que encontramos um novo livro de jazz sobre a substituição harmónica existente em Coltrane ou a escolha de "notas de passagem" na música de Charlie Parker ficamos com insónias e comichão nos pescoços). A única coisa que fazemos é tentar não ter preconceitos (apesar de os termos) em relação a outras estéticas. Sabemos, no entanto, que para os músicos de jazz é muito difícil não sentir uma vontade incontrolável de exorcizar tudo o que seja ou pareça pimba, a não ser quando o dinheiro é pouco e é preciso fazer alguma coisa rentável em Agosto (risos).

Desta maneira, é com muita naturalidade que em 2019 misturamos sons acústicos, tal como o do contrabaixo tocado com arco, com guitarra usando distorção, com sons puramente electrónicos ou eletroacústicos e com elementos da pop, do rock, do hip-hop, da clássica e da música electrónica. Os sons são, no entanto, só uma parte, em condições ideais metade, da nossa "música". Tal como o “smartphone” veio revolucionar um meio de comunicação que era até então puramente acústico, tornando-o numa panóplia de possibilidades multissensoriais, ao integrar a parte visual com a mesma liberdade que a musical também a nossa “música” proporciona uma transformação quer na performance, quer na concepção dos nossos elementos sonoros. Um dos temas que tocamos contém "visualmente" um duplo pêndulo em movimento que dá origem à parte melódica e harmónica do tema, ou seja, a imagem dita como será o som.

 

Como preferem classificar a vossa música? 

Parte de fazer o que fazemos (estudar música durante anos a fio, estarmos inseridos num meio em que a remuneração é diminuta, etc.) assenta no facto de conseguirmos convencer-nos a nós próprios de que o que fazemos é não "extremamente revolucionário", mas marginalmente revolucionário, e a nossa esperança é a de que essa margem seja suficiente para nos afastar de um rótulo. Afinal, quem faz música que foge do “mainstream” foge de rótulos de modo a sentir-se especial. Ou pelo menos de um rótulo com uma ou duas palavras. A partir do momento que seja preciso explicar que algo de diferente está a acontecer, ficamos contentes e dizemos a nós próprios que vale a pena o esforço. Temos tido muito bons resultados a fugir a rótulos, e normalmente as pessoas sabem o que nós somos (ou pensam que sabem) até virem a um dos nossos “workshops”. Então, e principalmente pela circunstância de a nossa parte visual partir de um conceito novo - o da existência de um músico visual, no nosso caso um músico de jazz visual, com solos, "comping", melodias e uníssonos visuais muito ao jeito de um músico convencional, mudando apenas o facto de que o principal sentido a ser estimulado é a visão -, nunca tivemos ninguém que nos tivesse conseguido classificar com uma ou duas palavras.

 

Têm colaborado com diferentes músicos de diferentes origens. Esta política de colaborações faz parte da filosofia do grupo?

Não só faz parte da filosofia do grupo como faz parte da vida. Quando tocámos e fizemos um “workshop” em Filadélfia, no Kimmel Center, tivemos Greg Osby como convidado especial - se essa colaboração não nos tivesse sido proposta, tenho muitas dúvidas que a mesma alguma vez ocorresse. Mas as coisas acontecem assim mesmo: estudámos nos Estados Unidos e tivemos o prazer de aprender e interagir com imensos músicos americanos. Agora estamos a fazê-lo com Casey Benjamin.

 

Em 2016 editaram o CD/DVD "Live with a Boom". O que representou essa edição? Consideram que é um retrato fiel do vosso universo?

Essa edição representa uma vitória muito grande. Conseguirmos "enfiar" 20 e tal televisões nos Boom Studios, em Gaia, e gravar o disco em apenas oito horas (seguidas) foi, sem dúvida, um retrato muito fiel do nosso universo em 2016. Entretanto, esse mesmo universo, e muito ao jeito da teoria da inflação cosmológica dos anos 1980, tem vindo a expandir-se muito rapidamente. Por exemplo, em 2016 não tínhamos luzes, mas neste momento parte das escolhas interpretativas do nosso músico visual (o JAM) passa pelo controlo das luzes em palco, que por sua vez podem (caso assim seja combinado) controlar os próprios músicos. É uma espécie de Uber musical, ou seja, o JAM controla as luzes e as luzes controlam os músicos, tal como o usuário controla a App e a App controla o motorista do Uber. Há mais passos internos e também mais possibilidades de informação gerada / controlada.

 

Vão dar três concertos em Portugal. O que podemos esperar deles?

Uma simbiose entre tradição, tecnologia e, provavelmente, poucas horas de sono (temos dois concertos antes em Itália e depois vimos a correr para Portugal). Em relação a Casey Benjamin, poderão esperar que ele use o vocoder nas suas improvisações fantásticas, muito à base de pedais de efeitos. M irá demonstrar até que ponto se consegue utilizar uma “loopstation” de maneira a que se obtenham polirritmos complexos e o JAM terá o seu lugar em palco como músico visual, pressionando botões, improvisando e acompanhando em tempo real com imagem, luzes e, ocasionalmente, também com sons electrónicos. Apesar de 100% acústica, a bateria irá, sobretudo, acompanhar e improvisar sobre ritmos drum n' bass, enquanto a guitarra eléctrica se concentrará em elementos de rock e blues. O contrabaixista utilizará, por sua vez, todas as possibilidades acústicas do seu instrumento tanto com solos em “pizzicato”, muito ao estilo do jazz, como outros com arco, mais na tradição clássica contemporânea. 

 

Como surgiu a oportunidade de colaborarem com Casey Benjamin?

Através do Facebook. Ele tem Facebook e nós também: mandámos-lhe uma mensagem a dizer que iríamos estar por Nova Iorque e que ele seria a pessoa ideal para colaborar connosco, tanto pela parte estética (ninguém na banda usa um chapéu como o dele; o Virxilio usa um boné, mas é careca e por isso não conta muito) como pela parte técnica e estilística, isto é, pelo tipo de material que usa, como o vocoder, o keytar, os pedais de efeitos no saxofone, a forma como sola e o “swagger” que tem. Ele viu e ouviu o nosso projecto, gostou e pediu-nos para vir a Portugal. O Casey nunca esteve em Portugal, vai ser a primeira vez. Não terá grandes surpresas, pois já ouviu falar muito bem do clima, da comida e da bebida. Apesar de andar aí a circular um vídeo na Internet em que fala mal de nós (risos).

 

Temos assistido ao despontar de uma nova geração de músicos portugueses, da música pop ao jazz. Tencionam colaborar com músicos portugueses?

No DVD, por exemplo, colaborámos com Miguel Amaral, que toca guitarra portuguesa e também já trabalhou com Mário Laginha. Se os festivais de jazz em Portugal (tal como em toda a Europa, salvo raras excepções) não fossem tão obcecados com os "norte-americanos" e se se predispusessem a apostar em colaborações e "cabeças-de-cartaz" lusitanos, talvez essas mesmas parcerias pudessem acontecer sem ser com saldos negativos.

 

Quais são os planos para os próximos tempos? Pretendem lançar um novo disco? Que outras colaborações têm previstas?

Temos, sem dúvida, a intenção de editar um trabalho novo, mas não sabemos se vamos fazê-lo em CD ou DVD físico. O nosso público é tendencialmente jovem e já há muito tempo que nos dizem que não têm onde ler CDs / DVDs. Muito provavelmente iremos utilizar “USB drives” ou códigos de descarga “online”, porque queremos que as pessoas consigam ter acesso facilmente ao nosso material. 

 

Para saber mais

http://www.mnjamexperiment.com/#about