André Carvalho, 14 de Maio de 2019

Delícias terrenas

texto António Branco fotografia Clara Pereira

Depois de dois discos que inscreveram o seu nome entre os mais promissores do jazz nacional, “Hajime” (2011) e “Memória de Amiba” (2013), o contrabaixista e compositor André Carvalho (Lisboa, 1981) está, seis anos volvidos, a lançar o terceiro: “The Garden of Earthly Delights”, editado pela Outside in Music, é inspirado numa das mais famosas obras de Hieronymus Bosch – de seu verdadeiro nome Jheronimus (ou Jeroen) Anthonissen van Aken – e que pertence ao acervo do Museu do Prado, em Madrid.

Ao longo dos séculos, o tríptico de Bosch – um óleo sobre madeira, pintado em data incerta, de que nem sequer se conhece o título original – tem exercido um enorme fascínio e despertado a imaginação de todos quantos a contemplam, motivando inúmeras tentativas de explicação, nenhuma delas considerada completamente satisfatória. Historiadores de arte, antropólogos, filósofos e académicos de outras áreas têm tentado encontrar uma chave que permita decifrar a obra, tomando-a como uma espécie de mensagem escondida.

A visão de Bosch sobre a história do mundo desde a “criação”, que já não é medieval mas ainda não é moderna, parece evidenciar uma relação no mínimo ambivalente com aquela que era a posição oficial da Igreja Católica. O surrealista André Breton, no seu “L’ Art Magique”, encarou-a como «um estranho casamento entre fideísmo e revolta». John Zorn e o seu grupo Simulacrum também se debruçaram recentemente sobre o universo único do mestre holandês.

Fascinado com a obra e o autor, Carvalho encontrou neles a base temática para o seu projeto mais ambicioso até à data. Há cinco anos a residir em Nova Iorque, para fazer o mestrado em “Jazz Performance”, como bolseiro Fulbright, na prestigiada Manhattan School of Music, é acompanhado no novo disco por um conjunto multinacional de músicos que fazem da cidade que nunca dorme a sua base de operações: o compatriota e guitarrista André Matos, os saxofonistas Jeremy Powell (norte-americano) e Eitan Gofman (israelita), o trompetista sueco Oskar Stenmark e o baterista chileno Rodrigo Recabarren.

Fomos ao encontro do contrabaixista para saber mais não apenas sobre o novo disco, mas também acerca de um preenchido percurso e conhecer quais serão os seus próximos passos.

 

“The Garden of Earthly Delights” é o teu terceiro disco na condição de líder. Considera-lo mais uma etapa na sequência lógica dos registos anteriores ou é algo disruptivo no trabalho que tens vindo a desenvolver?

Acho que é bastante diferente dos discos anteriores, sendo que há sempre o meu cunho pessoal. É normal que seja diferente, passou bastante tempo desde que gravei o “Memória de Amiba”, muitas coisas mudaram na minha vida e isso, sem dúvida, reflete-se na minha música. Obviamente que queria que o novo trabalho fosse diferente dos anteriores, caso contrário não fazia sentido gravar. Mas as mudanças nestes últimos anos foram tantas que seria inevitável que o novo álbum fosse diferente. Acho mesmo que este novo álbum segue uma direção diferente dos anteriores e isso deixa-me feliz. Espero que o disco seguinte seja diferente deste e assim sucessivamente.

 

Falaste de “Memória de Amiba”, editado em 2013, há seis anos, portanto. Porquê este tempo até entenderes que havia chegado o momento para te lançares na preparação de um novo disco?

Estes anos que passaram foram anos de muitas mudanças, que não só artísticas. Mudei-me para Nova Iorque, fiz o mestrado, comecei a minha vida como músico numa cidade nova onde tive de estabelecer contactos e ir aos poucos conhecendo músicos e pessoas que me inspiram e influenciam. Senti que o meu terceiro disco teria de refletir um pouco estas mudanças todas e, obviamente, as coisas nunca acontecem do dia para a noite. Por isso, preferi o silêncio e dedicar-me a explorar outras coisas. Sinto que ao longo deste tempo passei por várias fases e achei que esta seria a altura certa para gravar novo disco.

 

O disco é inspirado numa das mais famosas obras de Hieronymus Bosch, pintor holandês da segunda metade do século XV e da viragem para o XVI – “The Garden of Earthly Delights”/“O Jardim das Delícias Terrenas” –, tríptico enigmático e perturbante, pontuado por figuras bizarras e atmosferas apocalípticas. O que te interessa mais na obra de Bosch que te levou a compor tendo-a como referencial?

Muitas coisas me interessam na obra de Bosch! Primeiro, é um artista absolutamente enigmático, pouco se sabe sobre ele, poucas são as obras que sobrevivem e cada quadro é uma obra-prima. Cada detalhe dos seus quadros tem um significado que, mesmo hoje, não conseguimos decifrar. Daí haver tanta controvérsia em relação à sua obra. Além disso, é um artista muito à frente do seu tempo, pois o seu trabalho não se enquadra no estilo da época e veio influenciar muitos outros artistas posteriores. Para além disso, este quadro tocou-me especialmente, porque conta uma história desde o momento em que está fechado até chegarmos ao painel da direita. Para mim, apesar de não ser perito sobre a sua obra, sinto que há um eterno retorno. No quadro com os primórdios da Terra há toda uma energia quando aberto, passando por muitas cenas distintas, chegando ao painel da direita, onde tudo parece apocalíptico e catastrófico. Mas o quadro também se fecha e volta a abrir e as coisas acabam por se repetir. Numa perspetiva atual, quero acreditar que tudo o que acontece de mal terminará, e que nós, seres humanos, teremos a capacidade de agir bem e tomar a decisão certa.

 

Num dos painéis, Bosch retrata o terceiro dia da criação da Terra, de acordo com o Antigo Testamento. No canto superior esquerdo, há uma representação de Deus e uma inscrição em latim onde se pode ler: «Pois Ele falou, e tudo foi criado; Ele ordenou, e tudo surgiu». No teu caso, como descreves o processo de composição e gravação do disco?

O processo criativo deste trabalho foi bastante diferente do dos meus trabalhos anteriores (editados e não editados), e por várias razões. Primeiro, a obra em si é longa, muito mais do que qualquer outra que escrevi, o que exigiu algum planeamento. Depois, partiu de algo de visual, o que é bastante diferente do que estava habituado a fazer. Por isso, comecei por selecionar partes do quadro que me inspiraram particularmente e, ao observá-las, comecei a escrever. Quis utilizar ao máximo as capacidades de todos os músicos que fazem parte do projeto, pelo que tentei explorar as diferentes sonoridades que cada um é capaz de fazer. Isto pode notar-se na utilização dos instrumentos de sopro diferentes ou na particularidade de a guitarra do André Matos não ser, muitas vezes, usada como guitarra, pois ele explora ambientes diferentes através de pedais, etc. O facto de conhecer bem os músicos ajudou imenso e ainda mais o facto de já tocarmos juntos há algum tempo. Antes de irmos para estúdio tivemos vários concertos e pudemos experimentar alguma desta música ao vivo. O processo de gravação tornou-se bastante simples, diria eu. Gravámos tudo num dia e ficámos com algum tempo em metade do dia seguinte para fazer uns “takes” extra e alguns “overdubs”. A mistura foi mais complicada, por haver muitos “layers” na música, como vários sopros a tocarem ao mesmo tempo. Nisto, Pete Rende [responsável pela gravação e pela mistura do disco] foi espetacular, porque é realmente um engenheiro de som (para além de pianista) incrível, muito sensível e atento ao detalhe.

 

Podemos dizer que estamos perante uma composição única, em formato “clássicode suite, dividida em várias partes/andamentos com motivos que recorrentemente são recuperados e que conferem uma unidade conceptual ao conjunto da obra...

Sim, há algumas ideias que se repetem, não só melódicas como também harmónicas e rítmicas. Tentei ser económico e reutilizar algumas ideias que gostava e que eram fortes, de forma a dar unidade à composição. Talvez não seja o formato mais “clássico” de uma suíte, pois esta forma surgiu como um conjunto de danças. Desenvolveu-se muito ao longo dos séculos, seguindo direções diferentes. No meu caso, não pensei que cada movimento seria uma dança, mas parte de uma obra longa e que faz sentido no todo.

 

Cumpres assim um desejo antigo de apresentar uma obra de maior fôlego...

Sem dúvida! Sempre gostei muito de música clássica, para além de todos os géneros musicais que oiço. Tenho um grande fascínio por composição e, no caso da música clássica, muitas vezes as obras são longas, ou pelo menos mais longas do que noutros estilos musicais como o jazz ou a pop. Julgo que, quando se escreve algo de maior duração, é necessário planear e ter um conceito forte e aí surgiu o quadro “The Garden of Earthly Delights”. Gosto da forma como uma obra de maior duração, proveniente de outro idioma, pode ser adaptada a um contexto de improvisação, e por vezes de improvisação completamente livre. Este é, e foi, aliás, um dos maiores desafios, ou seja, como dar espaço aos músicos para tocarem e estarem à vontade, mesmo havendo alguma música escrita que tem proporção e duração mais longa do que o habitual.

 

Neste disco, onde voltas a assinar todas as composições, a base jazzística é contaminada por elementos de outras proveniências, como a música contemporânea e o rock, alargando a paleta sonora e as possibilidades de criação. Haverá menos jazz neste disco do que nos anteriores?

Acho que o que hoje em dia chamamos jazz engloba muitas coisas, há muitas influências de outros géneros musicais. Isso é natural, somos todos influenciados pelo que nos rodeia e o mundo está cada vez mais globalizado. Em Lisboa podemos almoçar tibetano, lanchar pastelaria com influência francesa e jantar peruano. No dia seguinte, vamos para casa cozinhar algo de que gostámos no dia anterior. O jazz está em constante evolução. Oiço e estudo os gigantes do jazz, mas não me fecho ao que se faz e ao que me inspira. Por isso, há influências de vários estilos musicais. No entanto, a base é jazz, os músicos vieram do jazz, conhecem a tradição e interpretam-na à sua maneira.

 

Como se equilibram as vertentes de composição e de improvisação na música que fazes? Há alguma espécie de subordinação? Interessa-te a chamada “improvisação livre”?

Nem sempre é fácil chegar a esse equilíbrio e julgo que isto é uma questão pessoal. Gosto muito de escrever e por isso tenho uma grande tendência a escrever muito, mas acho que nos últimos anos tenho aprendido a confiar nos músicos, escrevendo e sugerindo um determinado cenário, mas dando cada vez mais liberdade para tocarem o que quiserem. No caso deste novo álbum, quis que estas duas forças (composição e improvisação) estivessem presentes e que o disco fosse o mais diversificado possível. Por isso, podemos encontrar movimentos onde não há praticamente nada escrito, onde há muitas coisas escritas ou um misto. Acho que desta diversidade é que se encontra o equilíbrio.

 

Também julgo descortinar, aqui e ali, alguns aspetos que denunciam uma certa “portugalidade” (é conhecido, por exemplo, o teu apreço pelo fado). Estou certo?

Sim, gosto de fado, mas infelizmente não conheço o suficiente. Talvez haja, sim, alguma “portugalidade”, o que é inevitável. No entanto, julgo que a “portugalidade” que referes está mais presente nos meus outros álbuns.

 

O grupo que contigo gravou “The Garden of Earthly Delights” é uma verdadeira “joint-venture” internacional. Como surgiu esta teia de cumplicidades?

Esta teia de cumplicidade foi-se criando nos últimos anos, após ter vindo para Nova Iorque. No caso do André Matos, já o conhecia antes de me mudar, mas só desenvolvemos uma relação mais forte quando vim para Nova Iorque. Sempre gostei muito da sua abordagem, por isso não hesitei em querer tê-lo na minha equipa mal surgisse a oportunidade de formar um grupo em Nova Iorque. O Eitan tornou-se num dos meus melhores amigos quando comecei o mestrado na Manhattan School of Music. É um músico completo e extremamente inteligente. Tocámos muito quando estávamos juntos no mestrado e cheguei a levá-lo a Portugal há uns três anos, quando organizei uma “tour” nacional com o meu grupo. Conheci o Oskar há uns quantos anos, quando participei num concurso de jazz em Bucareste, ele a tocar com um grupo dele e eu com o meu. Quando vim para Nova Iorque soube que iríamos ser colegas de mestrado e isto foi uma feliz coincidência. Gosto imenso do seu som. Foi mais tarde que conheci Jeremy Powell e Rodrigo Recabarren, em sessões nas quais tocávamos “standards” e originais. São dois supermúsicos muito experientes. Antes de gravar, tocámos todos juntos várias vezes, grande parte das vezes em quinteto.

 

Já tinhas trabalhado com André Matos anteriormente?

Começámos a tocar juntos desde que me mudei para Nova Iorque, ou seja, há quase cinco anos. Já o fizemos em contextos diferentes e é sempre bom tocar com ele! Para além da música, é um grande amigo com quem posso contar para tudo. 

Andar para a frente

 

Resides em Nova Iorque desde 2014. Foste mais um dos que se viram obrigados a deixar o País descontentes com a falta de oportunidades ou tomarias esta decisão em qualquer circunstância?

Vim para Nova Iorque porque queria estar exposto a esta realidade e tive a oportunidade e a sorte de poder vir para cá estudar e mais tarde ficar a viver. Se tivesse a mesma possibilidade, voltava a tomar a mesma decisão. Acho que tem sido uma experiência enriquecedora e adoro esta cidade. Não foi a primeira vez que vivi no estrangeiro e isso ajudou a adaptar-me a mais um novo meio. Como é óbvio, há sempre vantagens e desvantagens e há sempre saudades dos que estão longe!

 

Já fixaste raízes na “Big Apple”? Que projetos tens desenvolvido?

Está a correr bem, adoro cá estar e cada vez mais me vou envolvendo com a cidade. Tenho tocado cada vez mais, tanto como “sideman” como com o meu projeto. Paralelamente, dou aulas.

 

Voltemos atrás na fita do tempo. Nasceste em Lisboa, em 1981. Tens antecedentes musicais na família? Como foram os teus primeiros contactos com o mundo dos sons?

Não tenho músicos na família. O meu pai diz que o meu avô tocava banjo, mas nunca o vi tocar. Sempre gostei muito de música e lembro-me de a ouvir em casa dos meus pais, um pouco de tudo. Em adolescente comecei a ficar mais curioso e a ir ver os CDs do meu pai. Mais tarde, através do meu grande amigo Tiago Sousa, comecei a ouvir jazz, a ter algumas aulas de baixo elétrico e a ir ao antigo Hot Clube.

 

E porque não a guitarra ou um instrumento de sopro, opções mais frequentes para um jovem músico?

Porque, quando comecei a ouvir música com mais atenção, o baixo era o instrumento que mais me atraía. Lembro-me de, mesmo sem saber nada de música, conseguir cantar as linhas de baixo de várias bandas que gostava de ouvir.

 

E o salto para o contrabaixo? Quais são as tuas principais referências neste instrumento?

O salto para o contrabaixo deu-se pouco tempo depois, quando comecei a ouvir jazz, a ter aulas com Miguel Amado, a ir ao Hot e a trocar CDs com Tiago Sousa. Fiquei apaixonado pelo jazz, mas os discos que ouvia e os concertos que via raramente tinham baixo elétrico e o gigante de quatro cordas era bonito e chamava por mim! Quis aprender contrabaixo e fui para a Academia de Amadores de Música e para a escola do Hot Clube. Referências tenho mesmo muitas: Ray Brown, Charlie Haden, Ron Carter, Paul Chambers, Wilbur Ware, Sam Jones, Oscar Pettiford, Larry Grenadier, Ben Street, Matt Brewer, Thomas Morgan, Joe Sanders, Demian Cabaud, Carlos Bica, Carlos Barretto, Bernardo Moreira, entre muitos, muitos outros.

 

Na Academia de Amadores de Música, estudaste com figuras importantes como Fernando Flores (mestre de muitos contrabaixistas insignes da nossa praça) e composição com Eurico Carrapatoso. Em que medida esses tempos de formação foram importantes para a génese e a consolidação da tua personalidade musical?

Foram tempos incríveis! Sinto que fui um privilegiado por ter passado tempo com eles. Em relação a Fernando Flores, mantemos uma relação muito próxima, apesar da distância. Sempre que vou a Portugal quero estar com ele. Ele sempre me apoiou imenso, muito lhe devo e cada vez mais valorizo o que me ensinou e mostrou. Eurico Carrapatoso é um compositor e professor fantástico e o curso que ensinava na Academia de Amadores de Música era extremamente interessante. Através dele, cheguei a vários compositores e estilos que desconhecia na altura e aprendi a ouvir música de maneira diferente.

 

Em 2011 venceste a Bucharest International Jazz Competition, na categoria de Melhor Grupo e, no ano seguinte, o Prémio Carlos Paredes. Estes momentos serviram, de alguma forma, como impulsos para o que veio a seguir?

Sim, talvez. Essa foi uma fase inicial da minha carreira e enquanto líder dos meus grupos. Todos esses reconhecimentos ajudaram a valorizar o que fiz e a motivar-me para continuar. Depois de ter vencido esses prémios consegui abrir algumas portas e tocar em alguns outros sítios.

 

Antes de te mudares para Nova Iorque, viveste e estudaste em Viena. Em algum momento cogitaste a possibilidade de vires a enveredar por uma carreira na música erudita? Tocaste em diversas orquestras, como a Orquestra Ibero-Americana (dirigida pelo venezuelano Gustavo Dudamel), a Anton Webern Orchestra ou a Orquestra Metropolitana de Lisboa...

Julgo que a paixão pela improvisação e pelo jazz sempre foi maior e por isso não seria feliz se tivesse seguido a direção da música clássica. No entanto, gosto muito de ouvir e continuo a estudar repertório clássico não só através do contrabaixo, como também do ponto de vista composicional, ouvindo e analisando obras que me interessam. Ter tido a experiência de tocar em orquestras desse género só me fez bem e abriu-me horizontes para outras formas de fazer música, especialmente por haver um rigor e uma disciplina muito grandes.

 

Em que medida a tradição do jazz é importante para a tua abordagem enquanto compositor e instrumentista? No teu entender, o jazz tem fronteiras, balizas estéticas?

É cada vez mais importante. Uma parte grande da minha prática diária é dedicada à transcrição, não só de contrabaixistas como também de outros instrumentistas. Gosto também de aprender repertório de qualquer época da história do jazz. Estas coisas todas influenciam-me enquanto instrumentista e compositor. O jazz, para mim, não tem fronteiras e não estou muito preocupado com isso. Hoje em dia, tem cada vez mais influências de outras músicas e o estilo está, felizmente, em constante mudança. As tais balizas estéticas que referes esbatem-se cada vez mais, possivelmente criando-se novas balizas que serão derrubadas mais tarde ou mais cedo. Isso faz parte da evolução. Acho importante conhecer a história e a tradição desta linguagem a que chamamos jazz, mas é igualmente importante não ter medo de fazer algo diferente, arriscar e não ficar escravo do passado. Eu diria que qualquer grande artista e inovador do jazz conhecia os seus antepassados, mas não tinha medo de fazer a música andar para a frente, sendo verdadeiro e irreverente de alguma forma. 

Distanciamento e autocrítica

 

Para além de músico és também licenciado em Engenharia Informática. Chegaste a exercer? Em tempos confessaste-me o teu fascínio precoce pela ciência, em particular pela biologia... Os conhecimentos de matemática, física e de outras disciplinas científicas e tecnológicas foram, ou são, de algum modo importantes para a tua atividade enquanto músico?

Nunca cheguei a exercer. Comecei a estudar contrabaixo quando ainda estava a estudar Informática e mal acabei o curso na Faculdade de Ciências senti que não seria totalmente feliz se seguisse essa direção. Felizmente, tive a hipótese de reformular a minha vida e seguir outra direção completamente diferente. Julgo que o facto de ter tido contacto com o meio científico moldou a minha forma de pensar e ainda hoje gosto de ciências, biologia, física, etc.

 

Nessa altura já tocavas profissionalmente? Queres falar-nos de algumas experiências, formações que integraste e que te tenham marcado?

Sim, julgo que comecei a tocar profissionalmente mais ou menos nessa altura ou pouco tempo depois de estar na Faculdade de Ciências. Na altura tocava com muitas pessoas que estavam no Hot Clube (com algumas delas ainda toco e tornaram-se nomes importantes do jazz nacional) e algumas que já faziam parte do meio. Ter tocado com a European Movement Jazz Orchestra foi, sem dúvida, uma dessas tais experiências que me marcaram, assim como ter ido ao meeting da IASJ [International Association of Schools of Jazz] em Siena.

 

O disco de estreia do teu quinteto, “Hajime”, foi lançado em 2011 e dois anos depois surgiu o mencionado “Memória de Amiba”, ambos na já saudosa Tone of a Pitch, de André Fernandes... Que relação tens atualmente com esses registos?

São dois momentos da minha evolução enquanto músico. São como se fossem duas fotografias de mim em 2011 e em 2013. O novo disco é uma fotografia minha em 2018 (apesar de sair agora em 2019, foi gravado em meados de 2018). Estes dois discos ou melhor, estas duas fases, fizeram-me chegar ao momento presente. Estou certo que o próximo disco (o quarto) será o reflexo do que serei nessa altura e assim sucessivamente. Raramente oiço esses dois discos, não por já não me identificar ou algo do género, mas porque procuro ouvir coisas novas.

 

Fizeste parte também, como disseste, da European Movement Jazz Orchestra, formação que contava com músicos oriundos de Portugal, Alemanha e Eslovénia. Recordo-me da vitalidade e da energia e, em particular, dos concertos em Coimbra que deram origem ao disco na Clean Feed...

Foi uma experiência fantástica. Eu era bastante miúdo musicalmente e por isso aprendi imenso a tocar com os meus parceiros da “big band”. Tive a oportunidade de viajar e tocar em salas incríveis. A música era interessante, não só em termos composicionais, como também de interpretação. Todos os músicos tocavam muito bem e cada um deles tinha uma onda muito especial, havendo pessoas que tocavam muito bem “free”, outras mais moderno e outras mais tradicional e isso foi também extremamente enriquecedor. Tenho pena de a “big band” não ter continuado, mas manter um projeto desta escala, com músicos de vários sítios, é praticamente insuportável sem apoios. No entanto, mantenho contacto com os músicos e já aconteceu por várias vezes tocar com alguns deles noutros contextos.

 

Apesar de tudo, parece que tens preferência por formatos de média dimensão. Considerarias um dia apresentares-te a solo?

Sim, é um projeto que me interessaria, mas ainda não sinto que seja a altura certa para o fazer. Acho que mais tarde ou mais cedo acontecerá.

 

Fala-nos acerca do teu processo de criação. Existem condições especiais que tens de reunir para compor? És metódico?

Não tenho um método, diria que tenho várias ferramentas que fui aprendendo e que me ajudam a desbloquear quando não sei o que fazer. A composição é como qualquer outra arte e por isso requer tempo e dedicação. Não acredito na inspiração que surge do nada. Claro que isso pode acontecer (o que é raro), mas grande parte das vezes esses momentos de maior absorção e envolvimento com o processo criativo acontecem quando estamos realmente a compor ou estivemos a fazê-lo há pouco e saímos para dar uma volta, mas o nosso cérebro continua agarrado ao piano ou à folha de papel. O processo pode começar de várias maneiras, sempre com algo de que gosto, como uma melodia, uma progressão de acordes, um ritmo, uma textura, etc., e posteriormente colocando várias questões, do género “o que é que eu poderia fazer com isto” ou “para onde é que isto pode ir”. Quanto mais se escreve, mais distanciamento conseguimos criar do que fazemos e conseguimos ser mais críticos. Esse distanciamento é importante e é algo que tenho aprendido cada vez mais.

 

De longe, como observas a cena atual do jazz em Portugal? Acompanha-la?

Acho que há cada vez mais e melhores músicos em Portugal. Sempre que lá vou, acabo por ouvir e tocar com algum novo músico que não conhecia. O nível tem subido bastante e, mais do que isso, há “ondas” diferentes, músicos que tocam mais desta e daquela maneira, que tocam mais tradicional, outros jazz mais dito contemporâneo e outros “free”. Por vezes as barreiras até se esbatem e isso é ótimo.

 

És um melómano atento? O que tens ouvido mais por estes dias?

Tento ouvir coisas novas, que me são referenciadas por amigos ou a que acabo por chegar de uma ou de outra maneira. Ultimamente tenho ouvido alguns compositores do século XX (Charles Ives, Henri Dutilleux e Olivier Messiaen) e alguns álbuns de históricos do jazz (Sonny Rollins, Ray Brown, Miles Davis, etc.), mas também gosto de estar atento aos discos que vão saindo. Gostei particularmente do último disco de Ben Monder e do disco a solo de Larry Grenadier.

 

E retomaste as aulas de karaté?

Infelizmente não, gostava muito e tenho muitas saudades! Às vezes pratico por mim. Hoje em dia, sempre que posso faço ioga.

 

O que tens em carteira para os meses mais próximos?

Nos próximos meses, estarei a apresentar o novo disco. Tenho vários concertos de apresentação marcados aqui nos Estados Unidos e depois em Portugal e Espanha. Iremos passar por várias cidades, por isso o melhor é seguir-me nas minhas redes sociais e ver o meu “site”. Destes concertos todos, destaco alguns que serão, por um ou outro motivo, mais especiais: no The Owl Parlor (19 de maio, Brooklyn), no Blue Note (30 de junho, inserido na European Sound Series, com o apoio do Consulado Geral de Portugal em Nova Iorque) e, em Lisboa, no Museu Nacional de Arte Antiga (onde está a única obra de Hieronymus Bosch em Portugal, concerto com apoio da Antena 2, dia 6 de setembro). Para além destes, tocaremos no Bop Stop (25 de maio, Cleveland), na Neighborhood Church em Greenwich Village (7 de junho, Nova Iorque), no Hot Clube (1, 2 e 3 de agosto, Lisboa), no OutJazz (4 de agosto, Lisboa), no ASSEJAZZ (6 de agosto, Sevilha), no Clarence Jazz Club (9 de agosto, Málaga), no Festival de Jazz de Moaña (13 de agosto, Vigo), no JazzFilloa (14 de agosto, Corunha), na Casa da Música (15 de agosto, Porto), no Quebra-Jazz (22 e 23 de agosto, Coimbra), na Reitoria da Universidade do Minho (5 de setembro, Braga) e no Festival F (7 de setembro, Faro). Há ainda alguns outros sítios que se poderão juntar a esta lista. Estou também já a marcar concertos para o outono/inverno de 2019 e o início de 2020.

 

Para saber mais

http://www.andrecarvalhobass.com