Enrico Rava, 30 de Janeiro de 2019

Inoxidável trompetista

texto António Branco

Figura-chave no jazz europeu e global do último meio século, Enrico Rava (Trieste, 1939) tem sabido reinventar-se a cada passo, sustentando o seu trompetismo de filigrana em ideias permanentemente renovadas. Filho de uma pianista clássica, começou pelo trombone e pelo dixieland, mas, depois de ouvir Miles Davis, adotou o trompete como instrumento para a vida. O arranque do seu percurso profissional deu-se como membro do quinteto italiano de Gato Barbieri no início da década de 1960. Integrou formações lideradas por Steve Lacy, com quem gravou, em 1966, “Sortie” e, ao lado dos expatriados sul-africanos Louis Moholo e John Dyani, “The Forest and the Zoo”. No ano seguinte viajou para Nova Iorque, envolvendo-se na cena free e tocando com Cecil Taylor, Charlie Haden, Roswell Rudd, Bill Dixon e Rashied Ali, entre outros. Num breve regresso à Europa gravou com Lee Konitz e, com Manfred Schoof, o seminal “European Echoes”. 

De volta aos Estados Unidos integrou a formação que criou outro disco para a ilha deserta: “Escalator Over the Hill” com a Jazz Composers Orchestra de Carla Bley e Michael Mantler. Registou também o mítico primeiro álbum do grupo de jazz-rock Gas Mask, em 1970, com produção de Teo Macero. No princípio dessa década dividiu-se entre Nova Iorque, Itália e Buenos Aires, onde residia a sua mulher Graciela, realizadora de cinema. Nos decénios seguintes deixou a sua marca em colaborações com nomes tão relevantes como Gil Evans, Paul Bley, Pat Metheny, Joe Henderson, John Abercrombie, Paul Motian, Tony Oxley, Jean-François Jenny-Clark, Richard Galliano, Aldo Romano e Miroslav Vitous, para nomear apenas alguns.

Gravou vários álbuns inspirados em nomes fundamentais do trompete: Bix Beiderbecke e Louis Armstrong (com Franco D´Andrea), Chet Baker e Miles Davis (com o igualmente trompetista Paolo Fresu e o pianista Stefano Bollani). Reinventou árias e aberturas de ópera nos discos “Rava, L'Opera Va” (1993) e “Carmen” (1995). É um apaixonado do cinema, da literatura e das artes visuais. Dando mostras de um surpreendente ecletismo lançou, em 2012, “On the Dance Floor”, uma inusitada coleção de releituras de canções de Michael Jackson, desaparecido três anos antes e de cuja música se havia aproximado. 

Os seus grupos têm-se constituído como montras para talentos emergentes que viriam a empreender carreiras fulgurantes em nome próprio. Em 2001, fundou um celebrado quinteto que incluía o então jovem trombonista Gianluca Petrella, músico com quem desenvolveu uma particular cumplicidade. Em 2015, lançou, pela ECM, o álbum “Wild Dance”, que dá continuidade a uma série de discos notáveis na editora de Manfred Eicher: “Easy Living” (2003), “Tati” (2004), “The Words and the Days” (2007), “The Third Man” (2007), “New York Days” (2009) e “Tribe” (2010). A longa carreira do trompetista transalpino cruzou-se, até à data, com dois músicos portugueses: o violinista Carlos “Zíngaro”, na Mitteleuropa Orchestra de Andrea Centazzo, e o baterista João Lobo, que fez parte dos seus New Generation.

Para comemorar o seu 80.º aniversário, que se assinala este ano, está a preparar o disco “Special Edition”, que juntará elementos do seu quarteto atual e do grupo Tribe (Petrella e o pianista Giovanni Guidi). Mas antes disso, Rava está de regresso a Portugal e com ele, integrando o Rava New 4tet, estarão Francesco Diodati (guitarra), Gabriele Evangelista (contrabaixo) e Enrico Morello (bateria). Razões de sobra para uma conversa com a jazz.pt, na qual não falta um olhar sobre a atual situação política na Itália e na Europa.

 

Comecemos por uma questão importante. Qual é a sua opinião sobre o atual panorama político italiano? Influencia a arte em geral e a sua, em especial?

Penso que é um desastre, mas não me impacta como artista.

 

Para onde acha que a Europa se está a dirigir?

Quem me dera saber.

 

Sendo uma referência absoluta, como vê o jazz italiano hoje em dia?

Penso que está em muito boa forma, quer em qualidade quer em quantidade. Um dos melhores da Europa.

 

Consegue recordar-se de onde e em que circunstâncias foi apanhado pelo jazz? Lembra-se dos primeiros músicos de jazz que escutou?

Antes de eu nascer a minha mãe era pianista clássica. Quando eu tinha 7 ou 8 anos comecei a ouvir os discos do meu irmão mais velho. O músico que mais me marcou foi (e ainda é) Bix Beiderbecke.

 

Começou por tocar trombone e mais tarde mudou para o trompete, diz-se que depois de escutar Miles Davis... Sente uma relação especial com trombonistas? Revele-nos as suas preferências neste instrumento…

Sim, sinto que o som produzido conjuntamente por trompete e trombone é fantástico. Basta pensar em Clark Terry com Bob Brookmeyer. Trombonistas favoritos? Bill Rank, Jack Teagarden, J. J. Johnson, Roswell Rudd, Gianluca Petrella.

 

Qual é o peso da “tradição do jazz” na sua música? Essa tradição atrai ou repele novos ouvintes?

Tem um peso enorme. Não sei se atrai novos ouvintes e não me interessa.

 

Teve um papel importante na cena do free jazz nas décadas de 1960 e 1970. Qual é o seu conceito de “liberdade” em música? O que é ser “livre” no jazz hoje em dia?

Ser livre significa não ter qualquer autocensura ou fronteiras. É o que significa para mim hoje e era o que significava há 50 anos. 

Universo infinito

 

O seu primeiro trabalho como profissional foi como membro do quinteto italiano de Gato Barbieri, no início dos anos 1960. Isto influenciou a forma como desenvolveu a sua própria abordagem como músico e compositor?

Penso que isso tenha acontecido durante um tempo. De qualquer forma, aprendi muito nessa experiência com o Gato.

 

Considera que composição e improvisação são duas faces da mesma moeda? Como as equilibra na sua música?

Para mim, a composição é uma base para a improvisação.

 

Continua interessado no que se passa no jazz de hoje? O que anda a ouvir por estes dias?

Eu estou, mas a maior parte da música de hoje não me toca emocionalmente, embora admire muito os novos músicos pela sua técnica. Ouço, no entanto, muito pouca poesia.

 

O que pensa que ainda há por inventar e explorar no jazz?

O universo é infinito.

 

É um entusiasta da ópera. Relaciona-a com o jazz por aproximação ou contraste?

Adoro ópera tanto quanto adoro música clássica, música contemporânea, música brasileira, tango, música indiana, funk, rock and roll, hip-hop etc.

 

E está interessado em explorar as eletrónicas? Trabalhou, por exemplo, com Matthew Herbert…

Penso que a música eletrónica pode fazer parte do futuro do jazz. Adoro trabalhar com Matthew Herbert, que é um músico incrível.

 

Assumiu-se como um fã de Michael Jackson, dedicando “On the Dance Floor” à sua música. Para si, a música é compartimentável?

Para mim a música não tem fronteiras e penso que Michael Jackson é um dos maiores artistas do último século, como compositor, cantor, dançarino, etc. E ele inventou uma nova forma de fazer vídeos. 

Comida, vinho, Pessoa

 

O seu novo quarteto integra o guitarrista Francesco Diodati, o contrabaixista Gabriele Evangelista e o baterista Enrico Morello. Como é tocar com eles? A sua música depende da empatia pessoal, de uma certa “química” humana?

Não posso tocar com alguém de quem não goste como ser humano. Adoro tocar com estes tipos e acho que eles gostam de tocar comigo. Compreendemo-nos mutuamente e temos confiança musical uns nos outros.

 

Haverá mais discos com este quarteto, depois do excelente “Wild Dance”?

Estamos a planear com Manfred Eicher gravar um grupo chamado Special Edition: será uma mistura deste quarteto com o meu outro grupo, Tribe.

 

Presumo que Manfred Eicher seja alguém que conhece bem. Qual é a importância da ECM para o seu trabalho?

Manfred Eicher é um músico e isso faz a diferença. Com ele eu sei que o resultado de uma gravação será excelente. Penso que a ECM trouxe um maior nível de qualidade na gravação do jazz.

 

Os seus grupos têm sido rampas de lançamento para jovens talentos. É uma vontade de combinar experiência com nova energia?

Talvez. Mas mais do que isso, procuro músicos que partilhem comigo a mesma visão da música. A sua idade não interessa.

 

Os seus últimos quartetos e quintetos tiveram sempre piano (Stefano Bollani, Giovanni Guidi, Andrea Pozza). Neste seu novo quarteto voltou a optar por uma guitarra. Por alguma razão particular?

Quis mudar o som. Mas a guitarra esteve em muitos dos meus grupos anteriores: Abercrombie, Mancinelli, Lena. Tive mesmo um grupo com duas guitarras, chamado Electric Five. Pat Metheny foi convidado do meu grupo em vários festivais e eu fui convidado do seu trio no Canadá. E há que não esquecer Marc Ducret, Gerard Pansanel, John Schroeder, etc.

 

Parece preferir trabalhar com grupos de pequena dimensão. É mesmo assim?

Com grupos pequenos existe mais espaço para toda a gente, não há necessidade de arranjos complicados e há mais improvisação.

 

Visita Portugal regularmente. Lembro-me de concertos excelentes que deu por cá. O que pode esperar o público português deste concerto em Espinho?

Infelizmente, não sou uma visita assim tão regular. Gostava de vir mais frequentemente ao vosso belo país. Adoro Portugal, adoro a comida, o vinho. Adoro Pessoa. Para mim, vir a Portugal é pura alegria. Espero dar um bom concerto em Espinho, é tudo o que posso dizer. Tentarei dar o meu melhor.

 

Quase a completar 80 anos, e conhecendo a extraordinária carreira que construiu, o que ainda procura com a sua música?

Apenas tento melhorar e isto é o que me faz estar em forma e vivo.

 

Para saber mais

http://www.enricorava.com/