Susana Santos Silva, 10 de Abril de 2018

As coisas não vêm ter connosco

texto Nuno Catarino fotografia Márcia Lessa

Natural do Porto, a trompetista Susana Santos Silva tem sido uma das grandes forças criativas do jazz português contemporâneo. Integrou a Orquestra Jazz de Matosinhos durante duas décadas, actuando e gravando com figuras como Lee Konitz, Carla Bley, Maria Schneider,  John Hollenbeck, Kurt Rosenwinkel e Joshua Redman, entre outros. Em 2011 editou o seu disco de estreia como líder, “Devil’s Dress”, e desde então vem alimentando uma discografia rica, na qual se avolumam parcerias com músicos internacionais. Em simultâneo, foi também fundadora e dinamizadora da Porta-Jazz, a associação responsável pela actual vitalidade do jazz no Porto. Mudou-se recentemente para a Suécia e vem tocando por toda a Europa, explorando a sua música aberta, entre o jazz e a improvisação.

 

Como começaste a tocar?

O meu avô, Joaquim Ferreira dos Santos, tocava trompete na Banda Filarmónica da Foz do Douro, que foi fundada pelo meu trisavô. Ele ensinou cada um dos netos a tocar um instrumento e cedo começámos todos a tocar na filarmónica. Eu tinha 7 anos quando comecei a aprender com ele e com 10 fui para o Conservatório de Música do Porto.

 

Fizeste a tua formação e chegaste à Orquestra Jazz de Matosinhos, colaborando com muitos músicos de renome mundial. O que aprendeste com essas experiências na orquestra?

Como costumo dizer, a orquestra foi a minha verdadeira escola, mais do que ter estudado jazz na ESMAE ou feito o mestrado na Codarts, em Roterdão. Primeiro, porque toquei todo um repertório de música que foi escrita para “big band” durante o último século, depois por ter tido a oportunidade de tocar com todos os músicos fantásticos que trabalharam com a orquestra. Por exemplo, ter tocado com Carla Bley e Steve Swallow foi uma das experiências mais fantásticas que tive durante esses anos. Na altura até me convidaram para uma “tour” europeia com a Carla Bley Big Band, mas acabou por ser cancelada e nunca mais aconteceu. Foi a última tentativa que fizeram de tocar com a “big band”. Aprendi muita coisa. A experiência foi fantástica e estou muito contente por ter feito esse percurso.

 

Como é que aconteceu a saída da Orquestra Jazz de Matosinhos?

Saí da orquestra desde que me mudei definitivamente para a Suécia, não era compatível. Havia uma certa ligação emocional, porque fiz parte da orquestra durante 20 anos, mais de metade da minha vida! Mas tinha de acontecer mais cedo ou mais tarde. Estava na hora de seguir o meu próprio caminho, de dedicar todo o meu tempo aos meus projectos pessoais.

 

Mudaste-te para Estocolmo. Como tem sido essa nova vida?

Tem sido fantástica. Está a correr muito bem, é muito inspirador estar num ambiente com tantos músicos com quem me identifico musicalmente. No Porto, as coisas ainda estão bastante separadas, existe por exemplo a Porta-Jazz e a Sonoscopia, que são duas associações de músicos a fazer um trabalho incrível, mas, a meu ver, existe ainda um espaço artístico vazio entre as diferentes abordagens musicais. Em Estocolmo não sinto tanto isso, há mais cruzamentos, há muitos músicos com quem toco e com quem me sinto muito à vontade para ser quem sou, mesmo quando as estéticas musicais diferem. Tem sido muito gratificante. E depois existem os apoios culturais, que são muitos e tornam possível que muitos músicos vivam só de fazer música, dos seus próprios projectos, sem precisarem de ser professores ou ter outros empregos. 

Como se tudo fosse um sonho

 

Um dos teus projectos mais pessoais é o quinteto que gravou o disco “Impermanence”, que apresenta as tuas composições originais. Como surgiu este projecto?

O projecto surgiu de um convite da Porta-Jazz em parceria com o Guimarães Jazz. A ideia era apresentar no festival um projecto inédito, com músicos ligados à Porta-Jazz e um estrangeiro como convidado, de forma a expandir as ligações a músicos e comunidades de músicos fora de Portugal, e ainda incorporar uma outra expressão artística para além da musical. Escolhi os músicos e artistas multimédia e escrevi música específica para essa banda. As composições são bastante estruturadas, há muita música escrita, mas existem também momentos mais abertos onde cada um tem liberdade total para criar. E embora as composições sejam muito estruturadas, por vezes há momentos em que a composição se confunde com a improvisação, onde a confusão e a falta de clareza são elementos chave para ilustrar um pouco a ideia que está por detrás deste projecto, a da impermanência da vida e das coisas. Talvez num futuro próximo escreva música um pouco menos estruturada e mais aberta a diferentes interpretações para o Impermanence. Tenho essa vontade de explorar formas de criar um mundo sonoro onde a composição e a improvisação se tornam tão unas que quem ouve não sabe onde uma começa e a outra acaba... como se tudo fosse um sonho, e mundos paralelos existissem como parte de uma realidade impermanente, como se estivéssemos a viver num estado anestesiado, mas com momentos de consciência apurada, cristalina.

 

Um outro projecto muito especial é o duo que tens com Kaja Draksler, duo de trompete e piano. Como chegaram a esta formação?

Conheci a Kaja na European Movement Jazz Orchestra, em 2007. Desde então mantivemos o contacto e continuámos a tocar em diferentes constelações e projectos. O duo aconteceu de forma natural e a partir de determinada altura quase que nos foi pedido que o disco existisse, e acabámos por gravar. Na verdade, nunca trabalhámos muito no sentido de arranjar concertos ou de promover o projecto, mas temos tocado bastante ao longo destes últimos anos. Agora já começam a perguntar por um segundo disco... Talvez aconteça mais cedo ou mais tarde. Começámos por tocar só composições nossas, mas fomos cada vez mais incorporando improvisações livres nos nossos concertos. Hoje em dia, o que mais acontece em concerto é escolhermos três ou quatro composições e tudo pode acontecer a partir daí, inclusive até nem tocarmos essas composições. Acontece ligarmos as improvisações com uma composição, que pode ser só uma melodia ou um motivo simples, isto se as improvisações nos levarem para determinados sítios onde faça sentido tocarmos as nossas composições. É muito livre.

 

Um dos teus parceiros musicais mais próximos é o contrabaixista Torbjörn Zetterberg, com quem tens trabalhado em diferentes projectos desde há vários anos. Como tem sido essa relação musical?

Tem corrido muito bem, nós entendemo-nos bem musicalmente. É um dos músicos com quem me identifico completamente em termos musicais. Eu toco nas bandas dele, ele toca nas minhas e temos sempre projectos em comum.  E às vezes temos também convites para ambos integrarmos outros projectos. Existe o duo, o trio com Hampus Lindwall e temos um projecto novo, em trio com o saxofonista Chris Pitsiokos. Disco para breve! Há uns tempos fizemos uma residência artística em Bruxelas, durante um mês, em que estivemos a tocar em interacção com o meio envolvente, em locais específicos na cidade, acompanhados por um artista multimédia. Foram feitos oito vídeos, que estão agora no nosso site, e que gostaríamos muito de poder exibir, talvez em galerias de arte ou festivais.

 

Tens uma parceria com o trio belga De Beren Gieren, um encontro que nasceu quando eles vieram tocar ao festival 12 Points na Casa da Música… Podes contar como surgiu essa parceria?

Conhecemo-nos durante o festival 12 Points e numa das noites fomos jantar todos juntos. Wim Wabbes, na altura o programador do centro cultural Vooruit em Gent, onde os De Beren Gieren estavam em residência por um ano, contou que existia um moinho de água em França, na região de Auvergne, onde costumava ir, num sítio fantástico no meio de uma reserva natural. Eu disse-lhe que era um sítio perfeito para gravar um disco e ele disse prontamente que poderíamos ir, para um projecto colaborativo com os De Beren Gieren. Achei que era uma excelente ideia. Ao jantar, comemos peixe grelhado e o Wim disse que perto do moinho tinham feito uma espécie de degraus para ajudar as trutas a subir o rio na altura de desovar. Ele voltou para a Bélgica e escreveu-me pouco tempo depois com a ideia de criarmos um projecto em que compuséssemos música inspirados no “The Trout Quintet” de Schubert. O resultado da residência artística seria apresentado mais tarde num concerto em que a primeira parte seria um grupo a tocar o quinteto original de Schubert e a segunda parte seria a apresentação da música inspirada nessa mesma obra. E assim foi, estivemos em residência no moinho durante uma semana, eu escrevi alguns temas e o pianista escreveu outros tantos. Todos os dias saíamos para uma pequena aventura, a fim de nos inspirarmos na natureza em redor, desde explorar o rio dentro de água, a pé e a nado, fazermos caminhadas nas montanhas, subirmos ao topo de uma montanha para fazermos um piquenique e esperar pela noite para ver as estrelas... A Via Láctea nunca foi tão grande e visível! Foi muito inspirador, fizemos esse tal concerto de apresentação alguns meses depois e tocámos no Festival de Ljubljana, onde gravámos o “The Detour Fish”, editado depois pela Clean Feed em 2014. 

Está a acontecer

 

Tocaste no Jazz em Agosto 2017 com o quinteto Life and Other Transient Storms. O pianista original do grupo, Sten Sandell, não pôde vir e foi substituído por Rodrigo Pinheiro. O que achaste desse concerto?

No final comentámos logo que tinha sido um dos nossos melhores concertos. O espaço é fantástico, o som de palco estava muito bom e estávamos todos muito confortáveis. Acho que a música aconteceu muito naturalmente, com muita fluidez. E o ambiente do anfiteatro é muito bom. Fiquei muito contente que o Rodrigo tivesse aceite o convite e acho que resultou muito bem, encaixou como uma luva. Sten Sandell é Sten Sandell, e Rodrigo Pinheiro é Rodrigo Pinheiro, são completamente diferentes, mas a energia estava lá e correu muito bem. O “feedback” foi muito bom e nós ficámos muito contentes.

 

Em que outros projectos tens estado envolvida?

Tenho tocado com a Fire! Orchestra, o Nu Ensemble de Mats Gustafsson, a Per-Åke  Holmlander’s Carliot Orchestra, tenho uns concertos no Verão com Fred Frith e Chris Cutler. Mantenho o duo com Kaja Draksler e o duo com Torbjörn Zetterberg, assim como o duo com Jorge Queijo - editámos um disco no ano passado com Carlos Guedes na electrónica, pela Wasser Bassin. No ano passado também foi editado pela Clean Feed o novo disco dos Lama com Joachim Badenhorst, “Metamorphosis”, assim como “Bali Tapes”, do trio Basement Sessions (Espen Aalberg, Torbjörn Zetterberg e Jonas Kullhammar), que me convidou a gravar este novo álbUm na Indonésia, há dois anos. O ano passado toquei em duo com Mette Rasmussen em Zagreb, num espaço muito particular, parte do festival Izlog. O concerto foi gravado e ficámos muito contentes com o resultado, que poderá ser editado em disco. O meu disco a solo “All the Rivers”, registado ao vivo no Panteão Nacional há um ano, parte do Festival Rescaldo, acabou de sair na Clean Feed. Há uns meses eu e o Torbjörn gravámos com Chris Pitsiokos e esse disco vai ser editado pela Clean Feed durante este ano de 2018. Também já está gravado o novo disco do trio com o Torbjörn e Hampus Lindwall, que será editado em breve. O novo projecto Hearth, com Kaja Draksler, Mette Rasmussen e Ada Rave, está a acontecer e estamos a planear gravar para a Clean Feed em breve.

 

Há alguns anos, numa entrevista por altura do teu primeiro disco, perguntei-te como te sentias sendo uma mulher num mundo habitualmente só de homens, e na altura respondeste que sentias que eras apenas “one of the guys”. Nos últimos anos tens parcerias com mulheres e tens agora este novo grupo Hearth, só com mulheres. A tua perspectiva mudou?

A ideia de fazer a banda Hearth não foi formar um grupo só de mulheres, juntámo-nos porque queríamos simplesmente tocar juntas. Há uns anos era uma ideia impensável para mim, mas se agora eu pensar “com quem quero tocar?” vêm-me logo à cabeça muitas mulheres. E isto agrada-me bastante. Quando naquela altura eu te dizia que era “one of the guys” era mesmo aquilo que sentia. Mas agora que penso nessa altura, percebo que existia realmente alguma discriminação e certos preconceitos, que se manifestam muitas vezes de formas subtis, dissimuladas e até imperceptíveis. É, claro está, cultural e isso sente-se particularmente em sociedades assentes em valores católicos e tradicionalistas, como Portugal. Ainda temos muito que evoluir no sentido de nos libertarmos desse legado, que é no fundo um legado da civilização humana numa perspectiva global. Países como os escandinavos evoluíram muito mais rapidamente e nota-se uma diferença abismal na forma de pensar a sociedade e a existência de cada ser humano em geral.

 

No ano passado trabalhaste num outro grupo exclusivamente feminino, liderado pela Joëlle Léandre, juntamente com mais quatro improvisadoras portuguesas (Maria Radich, Maria do Mar, Joana Guerra e Angelica V. Salvi). Estiveram numa residência artística e depois actuaram no Jazz no Parque. Como foi essa experiência?

Nesse caso a ideia de juntar só mulheres foi uma proposta de Rui Eduardo Paes, programador do Jazz no Parque de Serralves. A Joëlle tem uma personalidade muito forte e a tendência para “tomar conta de tudo”. É muito apaixonada pela música, por aquilo que faz e pelos projectos em que se envolve. Ela veio com essa pica toda e acho que gostou muito da experiência... No final, disse que gostava de continuar e gravar. Acho que correu muito bem, correu melhor do que esperava. Eu não conhecia os músicos de Lisboa, nunca tinha tocado com elas, e acho que resultou bem desde o início. O concerto em Serralves correu muito bem. A Joëlle é uma personagem muito interessante e foi muito bom trabalhar com ela.

Trabalho honesto

 

Acabas de editar o disco “All the Rivers”. Como surgiu esta ideia de gravar no Panteão?

Tenho a tendência de fazer as coisas muito espontaneamente, quando as oportunidades aparecem. Gosto de sentir que as coisas acontecem porque tinham de acontecer. Vou continuando a trabalhar, a tocar a minha música, a ser quem sou e as coisas acontecem por si só. Se ficarmos parados, as coisas não vêm ter connosco, mas se continuarmos a andar, a seguir o nosso caminho, vamo-nos deparando sempre com mais desafios para ultrapassar e sobretudo mais convites que a vida nos propõe, que podemos aceitar ou não, claro está. O quinteto Life and Other Transient Storms apareceu assim, surgiu de um convite do Tampere Jazz Happening para apresentar uma banda escandinava no festival. Juntei os músicos e a primeira vez que tocámos juntos foi em palco. O espectáculo foi gravado pela rádio finlandesa e foi editado pela Clean Feed. Aproveitei esta oportunidade de tocar no Panteão, um convite do festival Rescaldo para tocar a solo, e gravei o concerto. O espaço é incrível, tem uma reverberação enorme e foi fantástico tocar lá. Estou contente com a música e para mim é importante, porque é o meu primeiro disco a solo. Nesse sentido, o meu trabalho é muito honesto, não é pretensioso e quase que uma documentação em tempo real do meu processo criativo.

 

Foste uma das fundadoras da Porta-Jazz. Agora que estás fora, como vês a actividade da associação?

Continuo ligada à associação, não muito activa por estar longe, mas acompanho de perto a sua actividade. Continuo a tocar com o Coreto e é muito bom manter o contacto com o Porto, com os músicos e amigos que lá tenho. A Porta-Jazz continua a fazer um trabalho fenomenal, que outras entidades oficiais deveriam fazer e não fazem. A associação continua a organizar concertos e o festival anual, continua a editar discos através da Carimbo e a sua actividade é muito importante para a cidade, para os músicos de jazz e para o meio artístico em geral.

 

Agora na qualidade de espectadora de fora, como vês o actual momento da cena jazz nacional?

Acho que não mudou muita coisa, os espaços são mais ou menos os mesmos, o dinheiro é sempre muito pouco e cada vez há mais músicos a saírem das escolas, muita malta nova a tocar bastante bem. Sinceramente, não sei para onde caminhamos. Mas talvez seja um problema global, até na Suécia a situação dos músicos já foi bem melhor do que é hoje, embora ainda seja muito boa, principalmente aos olhos de alguém que está habituada a ter pouco.

 

Para saber mais

https://susanasantossilva.com/