César Cardoso, 27 de Março de 2018

Som, improvisação, criatividade e ritmo

texto Nuno Catarino fotografia Márcia Lessa

Com “Interchange” a receber geral aplauso e os estudantes de jazz portugueses a agradecerem-lhe a publicação do manual em Português que faltava sobre a teoria do jazz, César Cardoso é também responsável por outro empreendimento de grande fôlego, a Orquestra Jazz de Leiria. A jazz.pt conversou com ele sobre tudo isso e mais…

 

Como começou a tocar? E porque escolheu o saxofone?

Comecei a tocar com 7 anos de idade na Banda Recreativa Portomosense e na altura o saxofone foi-me “imposto”, no sentido em que não havia muitos saxofonistas na banda e por isso entregaram-me um saxofone alto. Mais tarde fui para o conservatório do Orfeão de Leiria, onde fiz o 8º grau com o prof. Alberto Roque. Só quando comecei a participar em “workshops” de jazz é que mudei para o saxofone tenor, por me identificar mais com a sonoridade e com o registo.

 

Quais foram os discos mais importantes na sua aproximação ao jazz?

A minha aproximação ao jazz começou pelo dixieland, através da minha banda Desbundixie, e naturalmente ouvia mais esse estilo. Mas o meu primeiro disco de jazz foi o “Soul Station” de Hank Mobley, que me marcou muito – transcrevi todos os solos – e que acabou por influenciar a minha maneira de tocar.

 

Estudou na Escola de Jazz do Hot Clube de Portugal entre 2004 e 2008, particularmente com os saxofonistas Jorge Reis e Pedro Moreira. Esta aprendizagem foi importante? Que outros momentos formativos foram determinantes?

Quando ingressei na escola do Hot Clube de Portugal tive, nos primeiros anos, aulas com Jorge Reis e só mais tarde com Pedro Moreira. Foram dois saxofonistas que me ajudaram muito e que contribuíram para o que sou hoje. O Jorge, além de ser um excelente músico e ter uma visão da música muito profunda, era muito amigo dos alunos, sempre com um lado de incentivo e apoio, mesmo depois enquanto colega e sempre que tocávamos juntos. O Pedro é um saxofonista que sempre admirei pelo seu conhecimento em todas as áreas e em especial no saxofone, e foi alguém que sempre me exigiu que trabalhasse para a perfeição. Quer na escola do Hot Clube como na Escola Superior de Música de Lisboa, onde trabalhei com os mesmos professores, ambos desempenharam um papel fulcral na minha formação como músico e são pessoas que sempre admirei e continuo a admirar. Outros momentos importantes na minha formação foram as aulas particulares que fui tendo, em especial com Chris Cheek e com John Ellis, as quais me permitiram ver o saxofone noutra perspectiva, nomeadamente em questões relacionadas com som, improvisação, criatividade e ritmo.

 

Em 2010 editou o seu primeiro disco, “Half Step”. Qual a importância deste disco para o seu percurso?

O meu primeiro disco talvez tenha sido um pouco prematuro, tendo em conta o percurso ainda jovem que tinha no jazz, mas a verdade é que surgiu numa fase importante da minha vida profissional –  estava a ter aulas com Pedro Moreira na ESML e ele sempre me incentivou a gravar, a deixar um registo dessa época. E, de facto, é curioso olhar para trás e ver como eu era na altura, como pensava na música, como compunha e como evolui desde aí. Como primeiro disco, foi sem dúvida importante para que as pessoas pudessem começar a conhecer-me enquanto saxofonista e compositor.

Não é fácil conciliar

 

“Bottom Shelf” foi publicado em 2015. O que representou este segundo disco?

Vejo os discos como fases da vida de um músico, não só a nível profissional como também a nível pessoal, pelo que, se não fossem gravados, não existiriam registos dessas diferentes fases. Este segundo disco foi gravado depois de já ter terminado os estudos na ESML, numa fase em que andava muito influenciado pela música de Mark Turner e pela formação em quarteto dele, só com um instrumento harmónico (a guitarra), o que dava mais espaço à música e era um pouco isso que eu procurava na altura. Além da parte de interpretação, este segundo disco marcou-me muito a nível de composição, pois tentei ter uma abordagem mais moderna e fresca sem perder os elementos que considero mais importantes na música: a melodia, a harmonia e o ritmo.

 

É diretor artístico e mentor da Orquestra Jazz de Leiria. Como concilia este trabalho de direcção?

Sempre adorei tocar em “big band” e felizmente toco na orquestra do Hot Clube de Portugal. Quando decidi avançar com a OJL e iniciar esta aventura, sentia que havia alguma matéria-prima em Leiria para fundar uma “big band” (não profissional, obviamente). Foi também uma maneira de juntar a comunidade jazzística da cidade, que na altura era (e ainda continua a ser) muito reduzida. Hoje em dia, em Leiria, já encontramos muitos mais músicos, e muito embora a “cena jazz” ainda não exista verdadeiramente na cidade, os concertos são raros, ainda que haja mais oferta do que há alguns anos. A OJL é um projecto que evoluiu bastante e temos conseguido manter uma temporada de concertos com diversos artistas de outras áreas, como David Fonseca, Áurea, Luísa Sobral, Camané, Pedro Abrunhosa, Ana Bacalhau, Sara Tavares. Estes concertos com convidados obrigam-me a fazer uma série de arranjos originais para cada um deles, mas é algo que gosto de fazer. Sempre gostei de compor e de fazer arranjos e aqui tenho a oportunidade e o privilégio de ouvir aquilo que escrevo. Não é fácil conciliar todo o trabalho de diretor, compositor, arranjador e “manager”, mas quando se gosta do que se faz, arranja-se sempre maneira e tempo para o fazer.

 

Continua a estar envolvido com os Desbundixie, uma banda de dixieland tradicional. Para si é importante poder tocar músicas diferentes em projectos paralelos?

Os Desbundixie foram o primeiro projecto de que fiz parte enquanto músico de jazz e, apesar de ser um estilo de música tão antigo e diferente da música que escrevo, é um projecto que me dá um grande prazer. O dixieland transmite uma energia tão própria que contagia não só quem toca como quem ouve. Tocar em diferentes projectos obriga-me constantemente a tentar adaptar-me a circunstâncias e linguagens diferentes, o que a meu ver é um aspecto positivo.

 

Além destes, em que outros projectos musicais se encontra envolvido ou colabora?

Colaboro com a Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal há cerca de 10 anos e, no último disco que a orquestra gravou, contribuí com três arranjos da música de António Pinho Vargas. Além deste, há outros projectos mais pontuais nos quais tenho participado como “sideman”. 

Um ano e meio

 

Publicou o livro “Teoria do Jazz”, numa edição da Chiado Books. Porque decidiu fazer e publicar este trabalho?

Decidi escrever este livro por achar que havia uma lacuna no ensino do jazz em Portugal, no sentido em que não existia um único livro ou manual em Português que servisse de apoio a quem quisesse começar a compreender a parte teórica no jazz. Muitas vezes os meus alunos perguntavam-me se existia algum manual e isso fez-me concluir que realmente nunca ninguém tinha tido esta ideia, ou pelo menos concretizado. Depois de o finalizar, percebi porquê – foi um projecto que me deu muito trabalho durante cerca de um ano e meio. Sinto um grande orgulho por ter contribuído para colmatar esta lacuna e, sobretudo, por ver que muitos dos meus alunos e outros estudantes e músicos de quem recebo “feedback” sentem que o livro os está a ajudar e que é um manual importante no esclarecimento das dúvidas que têm. Como achava que faltava algo para completar este manual, decidi escrever um segundo volume, que irá sair em meados de Abril, e que consiste num livro de exercícios práticos relacionados com os tópicos e capítulos de “Teoria do Jazz”.

 

Acaba de lançar “Interchange”. O que representa este novo disco?

Este disco é muito especial para mim. Foi pensado e trabalhado de modo a tentar deixar a minha marca no jazz português. Quis fazer algo diferente, arriscar mais com composições mais complexas, balanços e compassos diferentes e ter um convidado que se juntasse ao quarteto para contribuir com uma energia especial. Sinto que consegui isso e que é um dos melhores momentos da minha curta carreira. Representa uma mudança substancial a vários níveis, na maneira como olho para a música e na minha relação com o saxofone.

 

Que elementos são mais importantes no seu processo pessoal de composição de temas originais?

No meu processo de composição tento sempre ter em conta três aspectos que, a meu ver, são importantes: melodia, ritmo e harmonia. Para mim é fundamental que os temas tenham uma boa melodia, que se consiga memorizar e cantar. Sempre foi um dos principais pontos que quis que caracterizassem a minha música. Gosto muito de criar ritmos e compassos diferentes sem que percam a sua orgânica, aumentando um pouco o grau de dificuldade, mas mantendo a sonoridade natural e aparentemente simples. E claro que a harmonia para mim é também fundamental. Na maioria das vezes componho ao piano e tento sempre arranjar soluções harmónicas que façam sentido (quanto a saber de onde vêm e para onde vão). Sou um bocado perfeccionista e por vezes isso dificulta o processo de composição, mas não me importo que tal aconteça.

 

Dos músicos com quem gravou os seus dois primeiros discos, voltou a tocar com Bruno Santos e Demian Cabaud. Porque escolheu trabalhar com eles?

Quando gravei o “Bottom Shelf”, mantive Bruno Santos e Demian Cabaud e chamei André Sousa Machado (baterista). Foi com estes três músicos que gravei também o último disco. Como referi anteriormente, gosto muito de uma boa melodia e, consequentemente, de músicos melódicos. Identifico-me muito com o bom gosto do Bruno, com a criatividade e o balanço do Demian e com a orgânica natural de André Sousa Machado. Para além disso, qualquer um deles interpreta a minha música como eu a vejo e sem dúvida que são músicos que ajudaram a elevar as minhas composições.

 

Este novo disco conta com um convidado de peso, o saxofonista Miguel Zenón. Como chegou até ele e como decorreu o processo de gravação?

Foi um processo natural. Apesar de nunca antes ter falado com ele pessoalmente, é um saxofonista que apreciava muito e que tem elementos que gosto de sentir na música. Enviei-lhe apenas um e-mail a perguntar se seria possível ele participar no meu disco e algumas gravações e ele respondeu positivamente. Veio de propósito a Portugal para gravar o disco e voltou no mesmo dia. Apesar de os temas serem difíceis, a gravação correu muito bem e conseguimos gravar tudo em menos de um dia. O Miguel foi directo ao estúdio e em duas horas já tínhamos os quatro temas gravados, sem ensaios. Ele é um músico incrível e foi impecável, sempre a contribuir para melhorar o resultado final. Miguel Zenón trouxe uma energia muito forte para o grupo e para o disco.

 

Quais são os seus planos para os próximos tempos?

Gosto muito de produzir coisas, sejam elas quais forem. É assim que penso: um músico deve criar e deixar a sua marca e isso só acontece estando sempre muito ativo. Vou continuar a compor música, a escrever para a Orquestra Jazz de Leiria e tenho em vista já outros projectos, mas mais a longo prazo. Vamos ver o que acontece…

 

Para saber mais

https://cesarcardoso.com/