Maria da Rocha, 6 de Fevereiro de 2018

Falar música

texto Nuno Catarino fotografia Pedro Sadio e Philippe Rives

Nascida em 1984, Maria da Rocha é uma violinista e violetista com sólida formação clássica. Colaborou com várias orquestras e ensembles, incluindo a Orquestra Gulbenkian, a Orquestra das Beiras e a Orquestra XXI, entre várias apresentações nacionais e internacionais. Em simultâneo, tem-se aproximado das músicas exploratórias, nas áreas da electroacústica e da improvisação, e em 2015 publicou o álbum “Pink”, em duo com Maria W. Horn, editado pela Creative Sources. Agora, apresenta o disco de estreia a solo, “Beetroot and Other Stories”, editado pela Shhpuma Records, onde revela uma outra faceta, com o violino acompanhado por electrónica. Antecipando a sua apresentação no Festival Rescaldo (16 de Fevereiro próximo, na Culturgest), Maria da Rocha apresenta-se.

 

Como começaste a tocar?

Comecei a tocar com 7 anos. Desde que me conheço que canto e toco, porque não gostava de me sentir sozinha e a música trazia-me muita companhia. Costumava passar todo o tempo a cantar e a dançar. Os meus brinquedos preferidos eram um acordeão Chicco, um piano-xilofone e uma guitarra portuguesa de plástico que me acompanhava nas cantorias. A minha mãe ofereceu-me mais tarde um gravador de cassetes para gravar as músicas, pois o que mais gostava de fazer era cantar para ela enquanto dormia. Por isso, sugeriu que gravasse as músicas e lhe mostrasse mais tarde (para poder descansar um pouco, suponho!). Eu punha as bonecas a ouvir, gravava e depois mostrava as novas composições quando a minha mãe acordava. Outra razão pela qual gostava de fazer música e dançar era que, assim, não teria de arrumar brinquedos e tocava durante muitas horas, tendo de arrumar um só objecto de volta. Assim que foi possível, fui estudar música. Queria harpa, não havia. Queria piano, não havia vaga. Deram-me a escolher entre violino, viola e flauta. Flauta estava fora de questão, não gostava do som. Não me decidia entre a viola e o violino, mas disseram-me para escolher violino pois sempre poderia tocar viola mais tarde. E assim foi. Estudei violino desde os 7 e mais tarde também me formei em viola de arco.

 

Quais foram os momentos e professores mais marcantes no teu percurso e evolução?

A professora mais marcante em violino foi, sem dúvida, Leonor de Souza Prado, porque foi graças a ela que segui a minha carreira musical em violino. Barbara Friedhoff em viola, porque foi muito humana e deu-me muita força e incentivo. Em Berlim tive um professor de composição interdisciplinar (música-teatro experimental) que também me marcou muito, Daniel Ott, porque me mostrou que o meu sonho de compor em diversas artes era possível e me deu ferramentas para o fazer, através de “workshops” com diversos artistas e possibilidades de apresentação. O violetista Friedemann Weigle, do Quarteto Artemis, também​ foi importante para mim, porque me demonstrou que era possível fazer uma carreira fora da orquestra, investindo na criatividade e na identidade com qualidade musical intensa unidas à tradição e à narrativa musical. 

Como pode ser linda a improvisação

 

Quais foram discos que mais te marcaram? Poderias dizer quais são os três discos da tua vida?

Um deles será “Stéphane Grappelli Plays Cole Porter”. Foi um disco que me mostrou como é possível o violino transcender-se em outras linguagens musicais fora do clássico, com um som, uma verdade, um timbre e uma linguagem muito genuínos. Mostrou-me como pode ser linda a improvisação no violino. Outro disco importante foi “O Melhor de Carlos Paredes”. Mostrou-me quão genuína pode ser a composição num instrumento com um timbre tão bonito, com tanta tradição, mas que pode transcender o fado a uma linguagem instrumental que "te fala". E “Matteis: False Consonances of Melancholy” de Amandine Beyer. Mostrou-me quão intensa pode ser a improvisação no violino, ligada a uma tradição interpretativa e a uma qualidade tímbrica historicamente informada, com conhecimento da harmonia e uma narrativa subjacente muito forte.

Para mim, é muito difícil escolher três discos da minha vida, porque sempre mudam consoante a época, o local e a fase da vida em que me encontro. No entanto, o que estes três discos têm em comum é o perfeito domínio de uma linguagem musical que permite “falar música”, cada um com o seu estilo musical. Não sei se encontrei nas músicas experimental, contemporânea ou electrónica um exemplo de disco em que tenha sentido isso tão intensamente. “Sonata for Solo Viola” de György Ligeti, “Chaconne” de Bach, assim como várias obras de Morton Feldman, marcaram-me também bastante.

 

Como te interessaste pela música exploratória, particularmente pela electrónica?

Sempre me interessei pela criação musical e pela música contemporânea e em experimentar peças de compositores com técnicas extensivas. Depois de tocar vários anos música contemporânea com novas harmonias e técnicas extensivas no instrumento, ganhei um vocabulário musical. Digamos que desde que comecei a estudar música, aos 4 anos, achei estranho não nos ensinarem nem a compor nem a improvisar, que era exactamente aquilo que fazia sozinha em casa todo o tempo. Aos 14 anos comecei a explorar a improvisação noutras linguagens musicais e a minha primeira experiência foi com um grupo que se chamava Selenite Lights. Tocámos no Teatro da Comuna. Encontrava-me regularmente com Pedro Gomes na guitarra com efeitos e improvisávamos durante imenso tempo. Fui violinista de uma banda de música do mundo (Dazkarieh, chegámos a gravar um disco), com a qual criava as minhas melodias em conjunto com outros elementos, informada de diversos estilos musicais para além do clássico. A música electrónica foi-me apresentada através de obras de João Pedro Oliveira, que toquei em orquestra e gostei muito. Nos Dias da Música Electroacústica conheci obras puramente electroacústicas de João Pedro Oliveira que me sensibilizaram. Quis explorar mais essa linguagem e fui à procura dela em Berlim. Tive vários professores e fui a muitos concertos ao vivo. Colaborei com diversos músicos electrónicos até, por fim, gravar um disco com Maria W. Horn, com quem senti uma especial empatia.

 

Vais agora editar "Beetroot & Other Stories". Como chegaste a esta música e o que representa este disco?

Comecei a compor este disco em 2009, quando cheguei a Berlim. Começou por partituras gráficas e improvisações em violino solo e algumas gravações. Seguiu-se uma residência artística em Estocolmo, na qual vim a conhecer sintetizadores analógicos pelos quais me apaixonei loucamente e cujos sons conseguia ouvir com um fascínio incansável. É um disco que se afasta um pouco de toda a música contemporânea que estava a interpretar na altura e parte à descoberta de uma linguagem mais improvisada e até mais tonal, explorando muito a qualidade de diversos tipos de ruído, devido ao facto de os sintetizadores terem tantos harmónicos, formantes e outros parâmetros que me levaram nessa direcção. Foi algo que me surpreendeu, pois tive de romper com vários tabus que tinha enquanto estudante de música clássica e contemporânea.

Este disco é muito narrativo. “Beetroot” é uma obra interdisciplinar em progresso, com várias versões de apresentação, que conta a história de uma beterraba e de uma feiticeira, uma história que explora intensamente o universo feminino. “Peixe Horizonte” é a história de um peixe que se perde numa tempestade em pleno oceano e desperta enquanto serpente de pássaro em céu aberto. Estas duas histórias foram contadas ao libretista com quem costumo trabalhar, Rui Lorga, e estão disponíveis para leitura em edição de autor. “Melancholia” e “Schaulust” foram duas obras feitas para a “land artist” Rotraud von der Heide, que edificou a vista da torre Teufelsberg em Berlim como algo de transcendente. Montou uma exposição no sexto andar e pediu-me para criar a música. “Lumen” foi encomendado para um “website”. “Wave” surgiu em colaboração com a artista visual Mareike Lee, para uma exposição chamada “Waves:frommetoyou”. “Liq_machina” foi elaborado para Ben Mergelsberg. De facto, a maior parte das peças surgiu de encomendas ou de colaborações com outros artistas.

"Beetroot & Other Stories" representa uma grande realização para mim. Finalmente, consegui finalizar uma série de composições com uma linguagem muito própria e que irá certamente desenvolver-se em várias direcções. É também o resultado de uma intensa pesquisa musical e instrumental e que irá fazer parte do meu trabalho final de doutoramento em artes musicais (FCSH/Nova).

Um dilema constante

 

Porquê a edição do disco na Shhpuma Records?

Eu amo os artistas da Shhpuma. Revolucionaram a minha forma de ouvir e mostraram-me que aquilo que eu imaginava desde há muito era possível em diversas manifestações musicais e transdisciplinares. Deram-me força para continuar na minha busca de uma linguagem genuína e pessoal. Adoro a selecção musical da Shhpuma e adoro a parte gráfica, a apresentação e a estrutura de distribuição. ​Tinha um profundo desejo de fazer parte desta comunidade artística.​

 

Como tens conseguido conciliar o percurso na música clássica com este trabalho musical exploratório?

É um dilema constante, pois ambos os percursos exigem muita dedicação, muitas vezes em direcções que não se cruzam. O desafio é conseguir encontrar um equilíbrio e uma osmose entre ambas as linguagens, entre a tradição interpretativa, a qualidade tímbrica e estilística, o desafio da criatividade e a singularidade exploratória da composição. Tenho épocas em que me dedico mais à linguagem clássica e outras em que me dedico mais à linguagem experimental. Em concertos e produções anteriores, resolvi juntar as duas linguagens em um único concerto e criei uma osmose que me agradou bastante. Gosto de combinar a tradição da interpretação musical com composições e momentos de improvisação estruturada, reunidos num único conceito ou narrativa.

 

Participaste no filme "Axilas" como actriz. Como foi a experiência?

Incrível. Aprendi imenso. Representei o papel de uma violinista. Também teve uma pitada de surreal, pois cada arte tem as suas idiossincrasias e muitas coisas eram novas para mim. Gostei muito da equipa tão profissional e de trabalhar com o realizador José Fonseca e Costa, que demonstrou tanta confiança em mim, bem como de todo o apoio que recebi de Cucha Carvalheiro e Pedro Lacerda. Admito que tive uma sensação estranha de impotência quando me vi naquele grande ecrã pela primeira vez, eu, que sou artista performativa, não poder ter qualquer influência no momento efectivo do espectáculo, que foi mostrado no grande Auditório da Gulbenkian e que vi pela primeira vez com a sombra da cabeça do primeiro-ministro António Costa à minha frente. Passado um ano, quando passou na RTP, e já com algum distanciamento, consegui apreciar muito mais a obra em si. Reconheço imenso o trabalho que Carlos Mil-Homens teve para terminar o filme, já sem o realizador ao seu lado.

 

O que tens estado a desenvolver e quais são os teus planos para os próximos tempos?

Neste momento estou a desenvolver outras modalidades de apresentação de “Beetroot” em formato de performance-instalação de longa duração. Estou também a desenvolver outras produções na área da música-dança-teatro e reuni material para o meu próximo disco de violino e electrónica. Gosto de trabalhar com outros artistas, pelo que sempre que posso, colaboro com eles. Neste momento, tenho em vista colaborar com um artista sonoro de Berlim, Martin Lutz, e tenho concertos planeados com um compositor-intérprete de Estocolmo, David Granström. Tenho vários planos para os próximos tempos, como terminar o meu doutoramento em artes musicais, preparar o próximo álbum e as próximas colaborações interdisciplinares, especialmente no seguimento de “Beetroot”. Irei apresentar o CD no próximo mês de Março, em Berlim.

 

O que poderemos esperar do concerto no festival Rescaldo?

Esta versão de “Beetroot” foi feita para violino acústico, pedais e electrónica, com uma faixa electroacústica preparada para o efeito e passada por fita na pré-masterização. O som é uma combinação entre o universo acústico do violino e dos ruídos e sons puros dos sintetizadores analógicos, com ambos os instrumentos cheios de harmónicos e um espectro sonoro bastante alargado. As composições têm duração variável, pelo que a palavra “espera” adquire um significado particular a partir do momento em que sabemos que determinado som poderia durar infinitamente, que nos podemos deixar emergir num universo sonoro cheio de pequenos detalhes e requintes tímbricos.

 

Para saber mais

http://cargocollective.com/mariadarocha