John Zorn, 4 de Dezembro de 2020

John Zorn

Masadas demais, Zorn demenos

Gonçalo Falcão

Reflexões de Gonçalo Falcão sobre a musicofagia de uma mente criativa, utilizando uma metodologia quantitativa de leitura do seu percurso…

Raramente uma análise quantitativa é apropriada para falar de música ou de um músico. Neste caso, pode ser útil para nos mostrar um dos grandes problemas da obra de John Zorn. O saxofonista nova-iorquino é um dos músicos mais interessantes do jazz contemporâneo. Começou a sua carreira discográfica no final dos anos 1970 (mais concretamente em 1978, com “School”, em duo com Eugene Chadbourne). Se fizermos uma linha de corte em 1995, quando lança os primeiros discos dos Masada, obtemos provavelmente o melhor período de todo o seu trabalho, com quase 20 anos de invenções geniais.

Nesta fase encontramos Cobra, Spillane, Naked City, Painkiller, News For Lulu, Spy Vs Spy, Masada; formas de composição inovadoras como as de “Pool”, “Redbird” ou “Archery”, música para filmes com “Big Gundown”, vários Filmworks, duos e outras formações para improvisação total com Chadbourne, Derek Bailey e tantos outros. São 17 anos e 35 discos, a maior parte deles excepcionais (uma média de dois por ano; vamos começar a introduzir a questão quantitativa). Novidade e inovação constantes, alguma dela tendo marcado profundamente o jazz, como, por exemplo, o primeiro disco dos Naked City ou o sistema de composição de “Cobra”, a compressão de “Spy Vs. Spy”, a releitura do hard bop em “News For Lulu”, a descoberta de retirar o bocal e improvisar só com ele, a substituição do cantor por um “shouter”, a integração do hardcore. Zorn tem ainda um som único no saxofone, áspero, agudo, rápido como um disparo. É imediatamente reconhecível.

Foi em 1993 que o saxofonista começou a compor músicas a partir dos modos klezmer para um quarteto à Ornette, com dois sopros na frente, bateria e contrabaixo: os Masada. A ideia é atraente: usar a tradição musical dos judeus Ashkenazi como estrutura harmónica e melódica do jazz. Passados 25 anos, o músico fechou o terceiro livro de canções com esta fórmula. De 1994 (data do primeiro disco, “Beit”) até hoje, assistimos a muita repetição, com Masada a absorver grande parte da energia criativa do músico: o primeiro livro são 205 canções gravadas em 40 discos, o segundo – “The Book of Angels” –, começado em 2003, tem 316 canções gravadas em 32 discos (+ quatro satélites) e o terceiro livro – “The Book Beri'ah” –, iniciado em 2014 e fechado em 2018, é constituído por 92 canções gravadas em 11 discos, com dois orbitais. São 613 melodias em 25 anos... Ao longo da toda a sua vida, Cole Porter terá escrito à volta de 480, Rodgers e Hammerstein à volta de 900, Gershwin pouco mais de 500.

O uso deste método quantitativo revela alguns dos problemas: o primeiro é que o modo harmónico usado é limitado. Quem teve oportunidade de assistir aos concertos do Jazz em Agosto de 2018 verificou isso mesmo: as músicas parecem todas iguais e a diferenciação é – inteligentemente criada – variar os grupos e as instrumentações. O segundo problema está no facto de que fazer 83 discos do mesmo tipo de música em 25 anos (o que dá uma média de três por ano) não permite uma exploração criativa profunda. Estas duas questões não seriam graves se não fossem apenas a ponta de um gordo icebergue. O terceiro dos ditos problemas é – voltemos à contabilidade – o chamado “custo de oportunidade”: enquanto Zorn investe tempo e esforço nesta tarefa hercúlea, desinveste noutras áreas. Para além do grupo Masada temos mais nove dedicados a interpretar estas peças. Zorn não toca neles, mas lidera/dirige: Abraxas, Alhambra Trio, Bar Kokbah, The Dreamers, The Gnostic Trio, Masada String Trio, MoonChild, Nova Express e Simulacrum.

No total, até 2020, a sua carreira ouve-se em 275 discos. Admitindo que cada CD tem 10 faixas, são 27 500 músicas. A contabilidade é fastidiosa, mas tem de se fazer: 226 edições em nome próprio, 18 com Masada, dois com Electric Masada, um com o Masada Quintet, sete com Naked City, sete com Painkiller, um com o John Zorn Ensemble, um com o John Zorn Quartet, um com Hemophiliac, um com Yankees, um com Buck Jam Tonic, quatro em duo com Fred Frith, um com a Mystic Fugu Orchestra, dois com a banda de Eugene Chadbourne, um com The Frank Lowe Orchestra, um com Weird Little Boy. E a isto some-se a música para filmes, as peças orquestrais ou de outras formações mais pequenas, e todo o tipo de gravações.

O excesso produtivo é um problema recente: como já dissemos, nos primeiros 17 anos editou 35 discos. Nos 25 anos seguintes editou sete vezes mais: 240, uma média de quase dez por ano, grosso modo um por mês. Quer isso dizer que trabalhar demais é mau? Não, de todo. Mas todos reconhecemos que a quantidade é normalmente inimiga da qualidade. E como o trabalho é tão insistentes vezes repetitivo, é difícil seguir esta carreira e separar os fardos de joio das espigas de trigo que continuam a surgir. Especialmente depois do ano 2000. Facilmente concedemos que nas 613 pautas do mundo Masada haverá certamente umas dezenas muito boas. Mas como fazer para saber quais são? E o que fazer com o resto?

Zorn tem um cérebro inquieto, inventivo, trabalhador. Tudo isto são características muito positivas. É um músico singular e com um apurado sentido comercial, dispondo de um exército de fiéis seguidores e defensores. Mas parece hoje uma sombra difusa do génio que foi, quando parecia ser a figura seguinte a impor-se depois de Ornette Coleman. Eu, seu admirador confesso desde “School”, perdi o interesse em segui-lo. Arrisco de vez em quando num ou outro disco e saio frequentemente desiludido; por vezes irritado. Mas continuo a tentar. Só neste ano de paralisia pandémica, ao tentar fazer um “update” ao músico, encontrei em Novembro três novas edições: John Zorn / Jesse Harris: “Songs For Petra”; John Zorn: “The Turner Studies”; John Zorn: “Gnosis: The Inner Light”.

Continua a ser um dos grandes “jazzmen” da atualidade, mas parece ter-se transformado numa marca “Bland” (com conceito e tudo) de quem se espera uma determinada pose e uma determinada música e que continua a alimentar essa imagem antissistema e “bad boy”. Só o tempo dirá qual foi o verdadeiro impacto da mente e do saxofone de Zorn na história do jazz e permitirá fazer todas as gradações entre o excelente do medíocre na sua obra. Em 2020, submersos em discos da Tzadik, ficamos com a sensação de que um génio sucumbiu à autofagia.