Jazz em Agosto – John Zorn Special Edition, 1 de Agosto de 2018

Jazz em Agosto – John Zorn Special Edition

Judaísmo, Israel e jazz

texto Gonçalo Falcão

Texto de reflexão em que se questiona o que é, realmente, a “radical jewish culture” promovida pelo saxofonista a quem o Jazz em Agosto dedica este ano toda uma edição especial. Algo que diz respeito, em conjunto, a uma fé, a um povo e a um Estado ou só a alguns desses aspectos? O músico nunca foi claro quanto a isso, e daí a pertinência de uma pergunta: quando pagamos o bilhete de um concerto de Zorn algum desse dinheiro poderá ser usado para tirar a vida a um palestiniano?

O regresso de John Zorn a Lisboa cria a oportunidade para uma reflexão sobre as misturas entre jazz e religião e concretamente entre o jazz e o judaísmo. O saxofonista nova-iorquino embarcou num projecto hercúleo em 1993 de promoção da cultura (de uma cultura) judaica e de uma música judaica para o século XXI. Introduziu no jazz os modos usados pela música klezmer, a música de dança tradicional dos judeus Ashkenazi (uma das diásporas que se estabeleceram no Norte da Europa a partir da Idade Média) que mistura os modos musicais das orações judaicas, com melodias dos folclores ucraniano, romeno, o “zest” cigano e outras influências das culturas locais onde as comunidades se foram estabelecendo. Criou uma extensa biblioteca desta “nova música judaica” dividida em três livros: “Masada”, “Book of Angels” e “Bagatelles”. O “Book of Masada” é um livro com 200 canções, o “Book of Angels” tem 300 e o “Bagatelles” outras 300.

As religiões são narrativas de paz e de encontro e o jazz sempre foi uma música de paz, de encontro entre diferenças, de criação de diálogos e entendimentos. Judaízar o jazz, em teoria, não afecta este devir, apesar de uma espiritualidade fechada num determinado círculo ficar mais pobre, porque é no mandato do encontro emitido pelas palavras dos diversos profetas que as religiões se realizam de modo mais profundo e completo. A música de Zorn parece estar interessada em promover um ponto de vista muito específico, expondo claramente esta intenção, o que levanta algumas questões que, como é óbvio, não dizem respeito directamente ao judaísmo, mas à associação directa e ostensiva com um povo e uma religião (desde as associações históricas dos nomes dos projectos e dos títulos hebraicos das composições à imagem judaica nas capas dos discos).

O "anti-judaismo" floresceu da ideia de que foram judeus que mataram Jesus. Apontados como deicidas, foram perseguidos por praticarem a religião que cometeu o crime, numa excomunhão melindrosa e magoada que justificou (ou serviu de pretexto para) a violência contra todo o povo que, por descendência, se manteria culpado. O “anti-judaísmo” é hoje uma palavra usada com frequência (e erradamente) para referir a noção de "anti-israelismo", que é a mais apropriada para exercer um julgamento sobre o Estado de Israel, dispensando conotações religiosas ou com a ideia (cientificamente incorrecta) de “raça”, focando-se a antipatia a Israel no seu desrespeito pela definição das fronteiras e resoluções da ONU, na opressão e no trucidamento dos seus vizinhos, na desobediência às normas internacionais relativas à partilha de água, etc.

Ser anti-israelita não implica necessariamente ter uma posição anti-semita, anti-sionista ou anti-judaista, dado que estas expressões dizem respeito a uma ideia de raça ou de povo (semitas) ou de restabelecimento de uma pátria judaica no espaço da antiga Israel, promovendo o regresso à Palestina (sionismo; isto apesar da ideia de sionismo ou de “pátria judaica” implicar, para muitos, um domínio de toda a região - e não apenas do território adjudicado no pós-guerra - abrangendo os domínios dos impérios de David e Salomão).

Só que a questão não é assim tão simples e transparente. Promover a causa judaica não é um sinónimo de apenas promover os valores da religião, como seria em Portugal ou nos EUA promover a causa cristã. Isto porque a ideia de Estado está misturada com a de religião. Israel é um Estado judaico e centralizador; não é apenas só mais um país onde se pratica a religião. Numa comparação exagerada para fins retóricos é como o Estado do Vaticano para os católicos. Os judeus de todo o mundo que se solidarizam com a nação assumem, por arrasto, um compromisso com o judaísmo, a religião imposta pelo Estado. Segundo Netanyahu, Israel é o «Estado do povo judeu».

Israel, sendo um Estado acossado e fruto do holocausto sofrido na Segunda Guerra Mundial pelos judeus, é também hoje o executor de uma política de violência e de desrespeito pelas resoluções das Nações Unidas. Obviamente que ser a favor da existência do Estado de Israel não impede uma oposição às suas políticas e à sua religião. As religiões, incluindo a judaica, são narrativas sobre o bem. Um religioso deve ter paixão pelas pessoas, pelos seres humanos, sem recear a diferença, e até um certo encanto pelos pontos de vista diferentes, por aqueles que olham o mundo a partir de outro olhar. Porque ganhamos sempre com o encontro. Promover uma religião é - a priori – a construção de um discurso humano e positivo, apesar de, por vezes, se construírem interpretações excessivas. O amor é a grande ortodoxia das religiões.

Assim, no caso judaico, estamos perante uma sobreposição. A religião (uma interpretação da religião) e a nação confundem-se e sobrepõem-se. Promover o judaísmo não exclui necessariamente a promoção do Estado de Israel. E creio não exagerar quando afirmo que hoje em dia existe na Europa um acordo alargado sobre os malefícios da actuação, do discurso e do posicionamento israelita na região e na paz mundial. 

Mais informação, por favor

O discurso artístico pode assumir – e fá-lo regularmente – posições políticas. Mais raramente adopta posições religiosas ou místicas, mas em alguns casos isso acontece. John Zorn é um activista da cultura judaica, logo da espiritualidade que se materializa na religião que também é a base de um Estado. Fundou uma colecção dentro da sua editora, da qual é o principal fornecedor, a que chamou de “Radical Jewish Culture”. A América é propensa a criar palavras para tudo e “radical” é uma palavra frequentemente usada para invocar extremismo ou absolutismo em política. Mas o uso popular revela que os “radicais” contribuíram para a promoção da democracia e da justiça ao longo da história. Foram “radicais” os responsáveis pela criação de dois dos mais importantes movimentos sociais dos Estados Unidos: os direitos dos trabalhadores e a justiça racial.

Foram necessárias confrontações para conquistar o salário mínimo, o dia de trabalho de oito horas, até a possibilidade de formar sindicatos. Antes da guerra civil americana, os “abolicionistas radicais" defendiam o “absurdo” de que as pessoas não deveriam ser propriedade e que a escravatura tinha de acabar. Muitos dos que são agora consensuais eram, a seu tempo, “radicais”, como Martin Luther King ou Cesar Chavez. No texto que o saxofonista publicou no “website” da Tzadik diz que a música, para ser publicada nesta série de discos, deve explicitar o seu conteúdo e a sua contribuição para a cultura judaica e não apenas ser feita por judeus, remetendo o radicalismo para a ideia de promoção de uma nova forma musical judaica. Não dá muitas pistas...

Perante esta tríade (Estado / religião / radicalismo), precisávamos de mais informação por parte de Zorn. Quando compro um CD da Tzadik estou a contribuir exclusivamente para a economia do músico, colaboro também para a da comunidade religiosa onde se insere ou dou dinheiro a Israel (mesmo que indirectamente, através da comunidade religiosa em que se insere)? Não é uma questão irrelevante, porque ao comprar um bilhete para um espectáculo musical não gostava de saber que estou a contribuir para a execução das políticas dos estado sírio, sudanês ou iraniano.

Zorn é um músico excepcional, mas é também um músico que não gosta de jornalistas nem das suas perguntas. Não se dedica a esclarecer estas questões, apesar de lhe dedicar a totalidade do seu tempo e da sua energia criativa. Assim sendo, ouvir, comprar e promover a música de John Zorn é, antes de mais, participar num processo cultural de excelência. Mas é também, de algum modo, compartilhar uma acção de promoção de valores e ideias que não estão totalmente claras. A música é uma arte, mas também é um produto de consumo. Pode ser consumida em discos, em concertos, participa num sistema social e económico que não está exclusivamente ligado ao sistema da arte e à discussão sobre o valor artístico intrínseco de uma obra.

Em 1993 estas questões não se colocavam. Era irrelevante saber se o produtor de um determinado filme gosta de abusar do seu poder para obter favores sexuais das actrizes ou as condições de trabalho infra-humanas dos mineiros da Serra Pelada. A sociedade evoluiu e o comportamento social e económico de um agente cultural interfere no ciclo de consumo da sua produção. Temos hoje uma sociedade mais exigente em todos os sectores, para a qual não é indiferente saber onde é que a Zara fabrica as camisolas, com quem e em que condições; que opta por não viajar na Ryanair, apesar dos melhores preços, por não concordar com as condições laborais que impõe aos seus funcionários; que facilmente boicota um actor, realizador ou um produtor de cinema porque o seu comportamento sexual foi violento.

Será, assim, indiferente saber se o dinheiro que aplicamos na compra de CDs ou o que a Fundação Gulbenkian paga pelo “cachet” de um músico, acaba transformado em morteiros na Faixa de Gaza?