, 26 de Maio de 2020

Meio século de London Jazz Composers Orchestra

Estávamos em 1970 e o mundo parecia que podia mudar. Alguns dos músicos de uma nova geração inglesa, centrados em Londres, acreditavam num jazz novo, assente numa ideia social diferente. Evan Parker, Derek Bailey, Keith Rowe, Lou Gare, Eddie Prévost, Paul Lytton, Paul Rutherford, Tony Oxley, Barry Guy lideravam a frente da improvisação inglesa, que também era holandesa, alemã e que chegou até a atravessar a geografia da cortina de ferro com Peter Brötzmann, Tomasz Stańko e Vyacheslav Ganelin, entre outros. Era a resposta europeia ao free jazz americano que trazia diferenças significativas: um profundo acreditar no outro, disponibilidade para ouvir, sentido de comunidade e de partilha e vontade de ver a música contribuir para uma sociedade mais solidária e mais inclusiva, como agora se diz.

A música era também um projecto social. Na Europa a questão não era racial, era essencialmente política (os problemas raciais também estavam presentes e impuseram-se de forma mais determinante quando os músicos sul-africanos se exilaram em Londres - Dollar Brand, Chris McGregor, Louis Moholo, Dudu Pukwana, etc.). A orquestra é concebida como uma sociedade que quer conciliar o que parece irreconciliável.

Começou como um coletivo sem líder, mas com o passar do tempo acabou por ser um projecto movido (a palavra “liderado”, aqui, soaria falsa) por Barry Guy. Foi ele quem conseguiu manter o grupo vivo e ir recrutando novos músicos. A ideia não era nova: o nome “London Jazz Composers Orchestra” pretende adensar uma ideia trazida dos Estados Unidos, onde já tocava a “Jazz Composers Orchestra”, fundada em 1965 por Carla Bley e Michael Mantler e que fez a primeira digressão europeia em 1966. Esta, por seu turno, muito devia à ideia de Bill Dixon, realizada através da Jazz Composers Guild, criada em Nova Iorque em 1964.

Tal como na versão americana, os músicos tocavam e compunham. O primeiro maestro foi Buxton Orr, que tentou manter as irregularidades do grupo: Oxley, Wheeler e Rutherford não eram particularmente focados no cumprimento da pauta, o que impedia o colectivo de ser mais uma orquestra conduzida. Esta identidade acabou por prevalecer quando Barry Guy assumiu a composição e a condução.

O primeiro disco saiu em 1972 na Incus e o segundo na FMP, em 1983. Distam 11 anos entre cada gravação. A partir de 1988 a orquestra acabou por ser acolhida pela suíça Intakt, que lhe deu condições para gravar com regularidade e para manter a sua actividade entusiasmante. De 1988 a 2009 gravaram 10 discos e um DVD (“Harmos”). A London Composers Orchestra é hoje um monumento musical, cumprindo em 2020 uma existência de 50 anos. Continua viva com Guy, Parker e muitos outros músicos com 70 anos de idade que ainda acreditam que o mundo pode vir a mudar e que a música pode dar o exemplo. (Gonçalo Falcão)