, 29 de Novembro de 2019

O ano de José Dias

Quando a revista norte-americana Downbeat, por muitos considerada a “bíblia do jazz”, dá destaque a um português, o que não acontece frequentemente (leia-se: muito pouco), é porque os motivos são mesmo muito fortes. Acontece na edição de Dezembro desta velha publicação e o português em causa é José Dias, guitarrista, compositor, investigador e “senior lecturer”, presentemente a desenvolver trabalho na Manchester Metropolitan University. Pois o ano que agora está a terminar foi cheio para o músico e académico, com dois discos editados de especial qualidade e relevância, o solo “After Silence, Vol. 1” (Clean Feed) e “Live at SMUP” (Escanifobético), à frente do grupo Awareness, e um livro de leitura imprescindível, “Jazz in Europe – Networking and Negotiating Identities” (Bloomsbury).

O ensaio referido é imprescindível porque o autor teve como objecto de estudo a forma como, na Europa, as gentes do jazz agem em rede, estabelecendo conexões e parcerias, formais ou informais, para a realização dos seus objectivos, o que acontece em vários planos, do criativo, no que especificamente aos músicos respeita, ao organizativo, muitas vezes seguindo as premissas Do It Yourself, e do educacional ou de investigação ao modo como se utilizam os diferentes media. No livro em causa, Dias vai mais longe e analisa questões como a identidade, a estrutura social, a mobilidade e a democracia em contexto europeu, observando-as aos níveis global e local.

No artigo da Downbeat refere-se como a presença de José Dias em Manchester, no Reino Unido, é ela própria uma celebração da unidade europeia e uma refutação do Brexit, «tendo em conta que se trata de um nativo de Portugal a viver na cidade do Norte inglês onde nasceu a Revolução Industrial». E dá-nos duas notícias: a de que estão para ser publicados brevemente outro livro, sobre os festivais de jazz europeus, e o segundo volume de “After Silence”, este em trio e com música concebida para acompanhar os filmes de Fritz Lang. Ou seja, em 2020 e mais à frente o músico vai continuar a dar que falar…