, 2 de Outubro de 2018

Porque é Outubro… Outono em Jazz

Já entrados no Outono, apesar das altas temperaturas que se têm feito sentir nestes dias, vem aí o Outono em Jazz, ciclo de concertos promovido pela Casa da Música, no Porto, com alguns (porque impossível se tornou juntá-los a todos numa mesma mostra) dos vários tipos de jazz que caracterizam a actualidade. O início faz-se já a 7 de Outubro com uma “double bill” que junta o francês Tarkovsky Quartet aos nacionais TGB. O primeiro é um projecto do pianista François Couturier com Anja Lechner no violoncelo, Jean-Marc Larché no saxofone soprano e Jean-Louis Matinier no acordeão, e tal como o próprio nome indica a fonte de inspiração está nos filmes de Tarkovsky. E porque o realizador russo escolhia para as suas bandas-sonoras extractos de peças clássicas, a abordagem do grupo faz-se pelo que podemos designar como “jazz de câmara”, se bem que com as cores tipicamente francesas dadas pelo acordeonista. Bem diferente é o trio de Sérgio Carolino (tuba), Mário Delgado (guitarras) e Alexandre Frazão (bateria), conhecido pela forma como, sobre uma grelha do mais específico jazz, coloca materiais de proveniências tão diversas quanto o rock ou a música popular portuguesa.

Segue-se, a 11, um solo do pianista e cantor russo Oleg Akkuratov, numa mescla de “standards” do cancioneiro norte-americano, temas tradicionais russos e composições do próprio, um antigo membro da Orquestra de Jazz de Moscovo. No dia 13, a noite é novamente a dobrar, com o Bruno Pernadas Quinteto e a parceria entre Mário Laginha, Julian Arguelles e Helge Norbakken que gravou o álbum “Setembro”. O repertório da banda liderada pelo guitarrista e compositor Bruno Pernadas será maioritariamente vinda de outro disco por cá muito celebrado, “Worst Summer Ever”, e nela se apresentarão João Mortágua (saxofones alto e soprano), Sérgio Rodrigues (piano), Francisco Brito (contrabaixo) e Joel Silva (bateria). A combinação entre piano, saxofones e percussão que virá depois do intervalo é de um entrosamento e de uma fluidez bastante particulares, ou não se tratasse de três experimentados improvisadores de enorme sentido poético.

Logo no dia seguinte, tocam o Femi Temowo Quartet e os Lokomotiv do contrabaixista e compositor Carlos Barretto. O grupo do guitarrista e vocalista sediado na Inglaterra reconcilia o jazz com as suas raízes africanas, indo beber à tradição do povo Yoruba e aos espólios de Fela Kuti e King Sunny Adé. Antigo director musical de Amy Whinehouse, Temowo é um cada vez mais aclamado mestre do “groove”, e se Barretto e o seu trio também o são, a proposta deste será bem diferente, num inteligente casamento de jazz e rock de que são especialistas o guitarrista Mário Delgado e o baterista José Salgueiro – tal como ficou mais uma vez certificado no recente “Gnosis”. Já o dia 18 de Outubro pertence exclusivamente ao Duo Finlandia, que apesar do nome é formado por um argentino, Mauricio Candussi (acordeão, teclados, voz) e um brasileiro, Raphael Evangelista (violoncelo, voz). O que nos trazem é um jazz sofisticado com raízes em músicas latino-americanas como o huaino, o sava, o cadomblé, a cumbia e, como não podia deixar de ser, o tango, a milonga e o trevo.

A primeira parte do serão de dia 21 é igualmente brasileira, com o Amaro Freitas Trio, o líder pianista acompanhado por Jean Elton no baixo e Hugo Medeiros na bateria. Alguma coisa do samba-jazz se ouvirá, mas a Freitas interessam mais as referências nordestinas e estilos como o frevo, o baião, o maracatu, a ciranda e o maxixe, reflectindo de algum modo as influências que lhe deixaram Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti. Depois, vem a Polish-Portuguese Improvisers Orchestra, conduzida pelo trompetista Piotr Damasiewicz com os “nossos” Pedro Sousa (saxofone tenor), Angélica V. Salvi (harpa), Miguel Mira (violoncelo), Rodrigo Pinheiro (piano), Hernâni Faustino (contrabaixo) e Gabriel Ferrandini (bateria) a juntarem-se aos membros (polacos) do ensemble Power of Horns, designadamente Maciej Obara (saxofone alto), Adam Pindur (saxofone soprano), Pawel Niwwiadomski (trombone), Dominik Wanja (piano), Ksawery Wójcinski (contrabaixo) e Samuel Hall (bateria), os três constituindo a outra metade de uma dupla secção rítmica. A música estará entre o free jazz e a livre-improvisação.

No dia 23 actuam o quinteto da cantora sul-coreana (ainda que residente em Paris) Youn Sun Nah e o Ambrose Akinmusire Quartet, um dos cabeças-de-cartaz do ciclo. Vai ser uma noite de contrastes, entre o intimismo de um jazz vocal orientalizado com suporte instrumental de Frank Woeste (teclados), Tomek Mierniouski (guitarra), Brad Jones (contrabaixo) e Dan Rieser (bateria), tal como vem documentado em “She Moves On”, e o fulgor que tornou Akinmusire numa das grandes figuras do presente jazz. Possível é que alguma coisa do hip-hop transpareça do que o trompetista fizer com Sam Harris (piano), Harish Raghavan (contrabaixo) e Justin Brown (bateria) – esse é um dos interesses do mesmo, tal como se ouviu na sua colaboração com o “rapper” Kendrick Lamar.

O dia 25 de Outubro cumpre-se com o trio do guitarrista lusitano Ricardo Pinheiro com o contrabaixista italiano (estabelecido em Lisboa) Massimo Cavalli e o baterista holandês Eric Ineke, os mesmos que estiveram com David Liebman e Mário Laginha em “Is Seeing Believing”. O figurino é o do jazz “mainstream”, tocado com primor. O fecho do Outono em Jazz acontece a 28, com o Rudresh Mahanthappa Indo-Pak Coalition Trio (o outro prato forte do ciclo, foto acima) e os Matt Bianco. O primeiro grupo lança inovadoras pontes entre o jazz e a música carnática, na linha do que o saxofonista e compositor que o encabeça vem desenvolvendo, em associação com a guitarra de Rez Abassi e as tablas e a bateria de Dan Weiss. O outro estabeleceu um pop-jazz de sabor latino, com a voz de Mark Reilly suportada pelo sax de Dave O’Higgins, o trompete de Martin Shaw, o piano de Graham Harvey, o contrabaixo de Geoff Gascoyne, a bateria de Sebastiaan De Krom e os “backup vocals” de Elisabeth Troy. Promete…