, 10 de Julho de 2018

Álbum perdido de Coltrane já está disponível

É, sem dúvida, o acontecimento do ano, mesmo que desta data até ao final de 2018 alguma coisa mais de outra figura histórica do jazz seja descoberta numa cave ou num sótão: já está a circular (o lançamento oficial nos Estados Unidos foi a 29 de Junho passado, anunciado com pompa e circunstância pela Impulse!) o álbum com as gravações de 1963 que a família da primeira mulher de John Coltrane, Juanita Naima, encontrou nos arrumos da sua casa. O título que lhe foi dado, “Both Directions at Once – The Lost Album”, parece anunciar que as ditas incluem as abordagens “clássicas” do quarteto de Coltrane com McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones e algo do que viria depois, mas a não ser pelo tema “Slow Blues”, isso não é verdade. O mote terá sido dado por uma conversa que o saxofonista teve com Wayne Shorter e em que disse que improvisar é como começar uma frase pelo meio, indo para trás e para diante em simultâneo.

O registo destes temas foi feito por Rudy Van Gelder no seu estúdio e duvida-se que a intenção fosse reuni-las no mesmo disco. Na altura, as edições de John Coltrane eram realizadas com materiais captados em várias sessões, por vezes combinando fitas de estúdio com outras realizadas ao vivo. O certo é que as gravações foram esquecidas pelo músico, pelo produtor e pela editora. O facto de a descoberta não ter sido feita nos arquivos da Impulse! dever-se-á ao facto de as “masters” se terem perdido quando esta mudou as suas instalações de Nova Iorque para Los Angeles – por sorte, Coltrane tinha levado consigo as cópias. A música é, como não podia deixar de ser, excelente, mas em rigor nada acrescenta ao espólio que foi deixado pelo John Coltrane Quartet. Tem, no entanto, a vantagem de nos fazer perceber como se fez o caminho até chegar a “A Love Supreme”, gravado no final do ano seguinte.

Para um completista tem, é claro, outras mais-valias. Estão, por exemplo, reunidos no “Lost Album” aqueles que serão os primeiros “takes” de estúdio de uma composição que já há algum tempo Coltrane apresentava nos palcos, “Impressions” – o disco com esse mesmo título saído em 1963 inclui um registo “live” feito um ano e meio antes. São quatro os “takes” de “Impressions” que constam na edição dupla de “Both Directions at Once”, outra tendo saído sem as versões alternativas de algumas das peças. Importante, para os fãs mais fiéis, será igualmente conhecer os dois estudos centrados no saxofone soprano, “Untitled Original 11383” e “Untitled Original 11386”, o primeiro modal e o segundo com uma melodia pentatónica. Não têm o carácter revolucionário de outros surgidos mais tarde, mas demonstram que o músico já estava então à procura de algo.

No alinhamento surgem também alguns temas da música popular, como era habitual com Coltrane. Um deles é “Nature Boy”, canção de Eden Ahbez interpretada habitualmente, na altura, por Nat King Cole. Outro é “Vilia”, ária de uma opereta de Franz Lehár, “The Merry Widow”, e outro ainda “One Down, One Up” (com uma inversão de termos no título, “One Up, One Down”), que o saxofonista tocava desde a sua colaboração com Thelonious Monk nos anos 1950. Os dois primeiros estão em linha com o que por essa altura John Coltrane fez com o cantor Johnny Hartmann e o terceiro religa-o ao seu passado no bebop. “Slow Blues” é bastante diferente, e diferente até do free jazz que se seguiria. Como já se escreveu a propósito: «Há a ideia de “novo” e há algo como isto que transcende o peso da novidade.»