, 22 de Dezembro de 2017

Mulheres do jazz abrem polémica

«Basta», escreveu Joelle Léandre numa carta aberta motivada pelas escolhas, todas elas masculinas, dos melhores músicos do ano pela francesa Les Victoires du Jazz. Ao que parece por mera coincidência de datas, do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, o mesmo fizeram algumas figuras femininas na decorrência do movimento Me Too (este com foco no cinema), entre as quais Nicole Mitchell, Okkyung Lee, Fay Victor, Tia Fuller e a portuguesa, radicada em Nova Iorque, Sara Serpa (foto acima, de Vera Marmelo). Neste caso constituiu-se mesmo um colectivo, o We Have Voice, que tomou posição contra a discriminação e o assédio sexuais vividos no mundo do jazz e o fez por meio de uma outra carta aberta que está presentemente a recolher assinaturas de outros agentes deste circuito musical.

Manifestou-se uma especialmente irritada Léandre, relativamente aos prémios de França: «Não me vou calar e deixar que o que se fez fique feito. Acuso. Acuso e assumo a minha responsabilidade. Já é demais. Isto é uma farsa. (…) Como é possível que não haja uma única mulher, jovem ou menos jovem, na lista de vencedores de 2017? Trata-se de uma provocação? De um jogo? De um “estou-me nas tintas” ou de um “não quero saber”? (…) Como é que é possível que, no século XXI, mais uma vez, nenhuma mulher é nomeada? Isto é uma charada? Uma palhaçada? (…) Acham que uma mulher não pensa, não reflecte, não compõe, não cria projectos, não lidera bandas, não vai para a estrada apresentar a sua música? Vocês são totalmente indiferentes ao mundo. Isso é vergonhoso. (…) Levantem-se das vossas cadeiras e oiçam música feita por mulheres, tenham curiosidade, em vez de ficarem agarrados às vossas visões antigas e de se autocongratularem.»

Na exposição do colectivo We Have Voice lê-se, por sua vez: «Todas as pessoas devem ser tratadas equitativamente e com respeito, independentemente das suas diferentes identidades. (…) Solidarizamo-nos com todos os que foram prejudicados, assediados, assaltados, violados, manipulados, intimidados, ameaçados e discriminados. A violência sexual na indústria da música não é uma surpresa, vinda de pessoas com posições de autoridade, pessoas que programam festivais, dirigem programas universitários, espaços de concerto, editoras e revistas, que são jornalistas, promotores, produtores e apresentadores. Pessoas que, apesar das suas acções negativas, continuam nos seus postos de trabalho e a prosperar. Os perpetradores da discriminação e da violência sexuais são, regra geral, pessoas poderosas que abusam do seu poder. (…) Não podemos ficar silenciosos. Temos uma voz e tolerância zero para o assédio sexual. (…) Esta é a cultura que exclui artistas de géneros, orientações sexuais, etnicidades e crenças religiosas considerados minoritários das salas, dos festivais, das posições de ensino e das redacções de jornais e revistas. (…) As nossas acções individuais e colectivas importam. A mudança é um processo de que fazemos parte e temos de tomar uma atitude. Nós, os subscritores, somos muitos e não nos calamos.»

O jazz como música patriarcal, machista e misógina termina o ano de 2017 com um abanão sem precedentes. A ver o que acontece em 2018…