Editoras com história(s), 16 de Janeiro de 2023

Editoras com história(s)

Sobre o espírito das cores e um ponto de exclamação supremo (I)

texto: Sofia Alexandra Carvalho

Depois de ter estreado a rubrica “Editoras com história(s)” com um artigo sobre a Blue Note, Sofia Alexandra Carvalho aponta agora o foco a outra label imprescindível da história do jazz, a Impulse! Records. Nesta primeira parte olhamos para as origens, fundação e sucesso inicial da editora, com atenção ao trabalho de Creed Taylor. 


“De la musique encore et toujours!”
Verlaine
 

O que acontece quando se combinam as forças magnéticas de um escultor de formas, o título acidental de um filme para adultos[1] ou quiçá de um film noir[2], duas cores (laranja e preto) retratadas a sons, sons percorrendo uma paleta de cores puras, um telefone vermelho e uma visão de estilo inconfundível? Impulse! ou o salto para o inevitável. 

A história pulsátil da editora inicia-se com um visionário, nascido em 1929, na “Commonwealth of Virginia”: Creed Taylor (1929-2022). Encantado com as ressonâncias de um trompete antigo que lhe fora oferecido e o efeito reverberante desse som nas montanhas circundantes, o sonho começa a desenhar-se nessa atmosfera, confessa o produtor em “Creed Taylor: The  Music came first”.

A mãe, naturalmente, não acreditara no sonho do filho, mas cabe ao filho retificar os pais: Virginia será rapidamente substituído por Nova Iorque, lugar que lhe oferece as mais recentes e vibrantes cenas musicais do bebop, não sem antes passar por North Carolina, mais especificamente, pela Duke University. Aqui, Taylor dedica-se não apenas ao estudo da pré-medicina e da psicologia, com altas classificações a psicocinese, aspeto saliente de um temperamento direcionado para as faculdades mentais superiores, como lembra Jonathan Bewley, mas também à sua íntima vocação: a música e, neste caso, o jazz.

A par das aulas, as académicas e as musicais (vide “Five Dukes”, 1949), Taylor compulsa fervorosa e obsessivamente os discos do dia, adquirindo a série inteira de Norman Granz, “Jazz at the Philharmonic”. Mas oiça-se o que diz o produtor a esse respeito:

«I listened to those records that just went on and on—the tenor battles and the drum battles and da-da-da-da. I loved jazz but I said, ‘Who needs this?’ So I decided I’d like to get involved with that sort of thing and put together some carefully planned sessions and allocate free blowing space, but not interminable solos.» (Kahn, 2006: 14) 

O sonho, não perdendo amplitude, adquire contornos e contextos concretos. A Impulse! será o espaço de eleição para sessões de gravação ímpares, cujas força e distinção assentarão na reprodução dos verdadeiros sons musicais, distantes dos “sounds for sounds sake”, tal como fixado em nota final no álbum “The Sound of New York” (1958). Aliás, será justamente este álbum, um music-sound portrait de Kenyon Hopkins interpretado pela Creed Taylor Orchestra, que marcará a concepção da Impulse!: “high concept, high quality, and in no sense low budget.” (Kahn, 2006: 26)

Impulse! nasceu inteira, e por inteiro, da cabeça prodigiosa de Taylor. Mas antes de dar a última e exquisite forma ao seu sonho, Creed Taylor passa pela Bethlehem Records (1954), fundada por Gus Wildi, espaço onde se cruza pela primeira vez com Rudy Van Gelder, o exímio engenheiro que mixava o som de maneira distinta e inovadora. A marca histórica da passagem de Taylor nesta editora pode ser recordada com a referência ao LP-hit “Chris Connor Sings Lullabys of Birdland”, que vendeu inesperadamente vinte mil unidades.

Em seguida, o produtor transita para a ABC-Paramount (1955), dando fôlego à sua primeira produção: “Blues and Other Shades of Green” do trombonista Urbie Green. Aqui, Taylor assegura um terço das primeiras cem produções da editora, produzindo uma série de álbuns intitulados “World War Songs” e deixando uma marca indelével na ABC-Paramount, resultado direto dos sucessos comerciais: “Kenny Dorham and The Jazz Prophets” (1956) e “Sing a Song of Basie” (1958), o álbum que abriu a fissura para a criação da Impulse!. Doravante, grafa cada produção com a sua assinatura, como um escultor no mármore que trabalha. 

As suas produções na ABC-Paramount continuam a proliferar com a edição de álbuns temáticos (e.g.: “College Drinking Songs”), que refletem o gosto de Taylor pela audição e por técnicas de gravação e edição inovadoras (e.g.: overdubbing, multitracking, splicing, entre outras) que, à data, eram apenas utilizadas na música pop. Neste espaço editorial, Taylor partilha o seu escritório com a fotógrafa Fran Attaway, a quem atribui a criação do design da Impulse!, nestes termos: «I believe the colors – the orange and black – and the exclamation point was Fran. That wasn’t me. ‘The New Wave of Jazz is on Impulse,’ that was mine.»  (Kahn, 2006: 30).

Porém, Fran Attaway, uma intensa admiradora de jazz, parte com o marido, o clarinetista Tony Scott, para uma tour na Ásia, sendo substituída por Margo Guryan, que recorda o dealbar da Impulse! e o modo engenhoso e criativo com que Taylor fixa o nome da editora:

«I remember he was getting a logo together. Originally it was ‘Pulse!’ with an exclamation point. Then they found that there was another label called Pulse. We were all terribly disappointed because the artwork was absolutely terrific. (...) Creed took that logo home and came up with what I thought was an absolutely ingenious idea. He took Pulse, put I-M in front of it and dotted the “I” so it reflected the exclamation point, an exact design reversal at the end of it.» (Kahn, 2006: 30)

Em 1959, a ABC-Paramount procura expandir o seu mercado, apostando nos blues, com o fito de promover um catálogo musical intemporal e de alta qualidade. Em 1960, Taylor, produtor interno da ABC-Paramount e criador da Impulse!, é o primeiro a assinar contrato com John Coltrane, partindo para a Verve Records meses depois (cf. Kahn, 2006: 51).

A linha editorial Impulse!, separada da ABC-Paramount, destacar-se-á não apenas pelos seus avolumados orçamentos, aspecto contrastante se comparado com as editoras Blue Note Records e Riverside, mas sobretudo pelo foco vanguardista e experimental do som, do design e da exímia e devota promoção dos seus artistas, com foco na comunidade afro-americana, aspecto revolucionário à época.

A visão da Impulse! entrava, assim, em alta ignição: «It all started to come into focus – I had the first four albums in mind and I just talked to Harry about it: “Hey, look, I think that a gatefold with laminated packages would be the way to introduce the Impulse line in a dynamic way.» (Kahn, 2006:  31) Os quatro álbuns, ostentando os números de catálogo A-1 a A-4, com a adição da letra “S” para edições stereo, saíram a lume: “The Great Kai & J.J.” de J.J. Johnson e Kai Winding; “Genius + Soul = Jazz” de Ray Charles; “The Incredible Kai Winding Trombones” e “Out of the Cool” de Gil Evans.

A profundidade impactante de Taylor, cuja força discreta e detalhista cativara, desde cedo, quer o mercado musical quer os artistas, concedeu um novo look e uma atmosfera vibrante aos álbuns de jazz: a atenção ao detalhe unida a uma visão de conjunto (design, som e produção) traduziu-se numa receita infalível para o sucesso, com a designação Impulse!. Uma editora de jazz produzida com excelência, rigor e a força inevitável conferida por um catálogo de artistas de alta qualidade. Tudo isto entregue num pacote final de brilho e gosto supremo, o último gesto ou statement editorial.

Nada disto teria sido possível sem a intervenção de Rudy Van Gelder, responsável pelo refinamento técnico da visão sonora e acústica de Creed Taylor. Na verdade, um dos traços robustos do perfil de Taylor foi a capacidade de reunir em seu redor equipas de excelência e secções de ritmo perfeitas. A par disto, possuía um cuidado singular no tratamento final dos álbuns, bem como o modo como aqueles seriam recepcionados pelos auditores. Exemplo concreto deste cuidado é o schema sonoro, disposto pelo produtor no álbum de Gil Evans, para que os auditores tivessem acesso ao local físico de cada instrumento da orquestra no momento da fruição do álbum.

A dinâmica entre Creed Taylor, um perfil forte, discreto e com muito tacto, e Rudy Van Gelder, um artista excêntrico e obsessivo-compulsivo, que colocava luvas para pegar nos microfones e, a título de exemplo, terminara abruptamente uma sessão de gravação por ver o contrabaixista Red Mitchell a tocar com os dedos desprotegidos num certo botão da mesa de mistura do seu estúdio, traduziu-se num cuidado de perfeição pelo produto sonoro perfeito, isto é, acabado.

O poder visionário desta dupla, cujo talento ou inner strength se traduz na criação de uma nova vibração é irrefutável. Desde o design apelativo, passando pelos títulos conceptuais e evocativos de cada álbum, misto de sagacidade poética e lucidez temperada com humor e inteligência (e.g.: “The Blues and the Abstract Truth” [A(S)-5] de Oliver Nelson, 1961, e “Africa/Brass” [A(S)-6], também de 1961, com o quarteto de John Coltrane), até à conceção refinada e elegante do produto final, a Impulse! provoca um salto inevitável na história da música e das linhas telefónicas, bastando para isso recuperar o sonido de um telefone vermelho a emergir da cabine de som do estúdio Rudy Van Gelder (Englewood Cliffs, New Jersey), de onde emergia a voz firme e serena de Taylor, afinando e orquestrando os movimentos dos artistas, com a precisão cirúrgica de um mestre. A Impulse! entra em ebulição com longas, dispendiosas e míticas sessões de gravação, mas não só:

«Taylor’s exit left ABC-Paramount with three significant things. First, there was the label that had just begun to flower, already boasting an established identity. (...) Second, Taylor left ABC with a dire need to find a jazz-savvy producer. And third, as would prove of increasing value, he left behind Impulse’s contract with Coltrane.» (Kahn, 2006: 56)

Mas esta história de pulso tem outros rostos: Bob Thiele e Ed Michel serão os rostos que concederão forma ao segundo andamento desta narrativa editorial. 



[1] Em “The House That Trane Built: The History of Impulse Records“”, da autoria de Ashley Kahn, encontra-se um apontamento sugestivo acerca da descrição do álbum “The Sound of New York”, editado em 1958 pela ABC-Paramount como “The aristocratic series, a High-Fidelity Record”, mas leia-se: “The Sound of New York naturally bore Taylor’s signature and serves as a blueprint for a future formula: high concept, high quality, and in no sense low budget. Coincidentally, tucked away on an inner sleeve is a small black-and-white photograph of a Times Square movie marquee with the name of an adult movie in bold letters: IMPULSE.” (Kahn, 2006: 26)

[2] Procurando o filme supramencionado, encontrei a referência a um film noir britânico, “Impulse”, datado de 1954, realizado por Endfield e com as participações de Arthur Kennedy, Constance Smith and Joy Shelton. Mesmo não sendo este um filme para adultos, fica a nota especulativa. 

Agenda

01 Fevereiro

Com Calma Jazz Jam

Com Calma - Espaço Cultural - Lisboa

02 Fevereiro

João Lencastre, Pedro Branco e João Hasselberg

Miradouro de Baixo - Carpintarias de São Lázaro - Lisboa

02 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Água Ardente - Lisboa

02 Fevereiro

Ensemble Porta-Jazz / Robalo

Porta-Jazz - Porto

02 Fevereiro

José Menezes Quarteto

Cine Incrível - Alma Danada - Almada

03 Fevereiro

Pedro Neves Trio “Hindrances” / Wabjie

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Percussion

Água Ardente - Lisboa

03 Fevereiro

Gianni Narduzzi “Dharma Bums” / Carlos Azevedo Quarteto “Serpente”

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Salão Brazil - Coimbra

04 Fevereiro

Coletivo Osso/Porta-Jazz “Interferências” / Umbral

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

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