Melhores do ano, 28 de Dezembro de 2022

Melhores do ano

Melhores de 2022: Reedições / Históricos

António Branco, Eray Aytimur, Gonçalo Falcão, Nuno Catarino, Inês Laginha e Rui Tentúgal

Aqui estão as nossas seleções dos favoritos do ano. Estas listas resultam de uma votação coletiva e este ano participaram nas votações os críticos António Branco, Eray Aytimur, Gonçalo Falcão e Nuno Catarino e dois convidados: Inês Laginha (pianista, diretora artística da Casa Bernardo Sassetti) e Rui Tentúgal (jornalista, Expresso). Aqui está a lista das melhores reedições – ou discos históricos – de 2022.

 

ORNETTE COLEMAN: “Round Trip: Ornette Coleman on Blue Note” (Blue Note) 

Há o jazz antes de Ornette e o jazz depois do que se passou no Five Spot Café em Nova York em 1959 quando ele apareceu e começou a gravar uma série de álbuns seminais na Atlantic. Depois de um período de desilusão de dois anos durante o qual se retira, Coleman ressurge: ensina-se a tocar trompete e violino, monta trio novo (com David Izenzon e Charles Moffett) e vem tocar para a Europa em 1965. É aqui que inicia o contrato com a Blue Note (com os dois volumes de “Golden Circle” gravados ao vivo na Suécia). Temos o ponto de partida para esta caixa de seis LPs que reeditam o corpus deste período na Blue Note (1965-1967). Nestes discos ouvimos as suas inovações rítmicas (Moffett é um dos bateristas que melhor percebeu as suas ideias) e, pela primeira vez, o trompete e o violino, dois instrumentos que o saxofonista claramente não domina, mas que lhe interessam precisamente por isso, para lhe acrescentarem dificuldades e surpresas que o saxofone – que controla em absoluto – já não é capaz de pôr. Pelas mesmas razões em “The Empty Foxhole” senta o seu filho Denardo com dez anos no banco da bateria. A seguir a esta fase muitas outras se seguirão e, sabemos hoje, que o final da história é tão bom e surpreendente como o início e o meio. Ornette corporizou uma das grandes revoluções no jazz e abriu portas para a maior parte da música que hoje ouvimos. Este trabalho de reedição na Blue Note, na Tone Poet Series foi feito com o cuidado histórico que estas peças merecem, devolvendo à audição nas melhores condições possíveis uma música que ainda é capaz de surpreender. 
(Gonçalo Falcão)

 

BERNARDO SASSETTI TRIO: “Culturgest 2007” (Clean Feed) 

Em 2007 o trio de Bernardo Sassetti, com Alexandre Frazão na bateria e Carlos Barretto no contrabaixo, estava no seu auge. Infelizmente o trio gravou pouco (apenas “Motion” em 2010, “Ascent” de 2005 e “Nocturno” de 2002). Nesta gravação ouvimos este trio com 12 anos de música em conjunto e a tocar muito coeso e telepático. O pianista já tinha criado um léxico próprio de canções, uma música natural, que sempre existiu e que só aguardava que alguém a encontrasse. “Quis o destino” que esta gravação estivesse 14 anos escondida num backup. Mas apareceu, impecavelmente feita e mostra-nos a música e os músicos com todos os detalhes, como se estivéssemos no concerto, na Culturgest, em Lisboa. Felizmente foi editada, pois é um dos melhores discos da curta discografia de Sassetti e deste trio. Música brilhante e genial.                                                   (Gonçalo Falcão)

 

CHARLES MINGUS: “The Lost Album from Ronnie Scott's” (Resonance) 

Gravação ao vivo inédita de Charles Mingus no famoso clube de jazz londrino Ronnie Scott’s, registada a 14 e 15 de agosto de 1972. Consigo em palco estava um sexteto no qual pontificavam o saxofonista alto Charles McPherson, o saxofonista tenor Bobby Jones, o trompetista Jon Faddis, o pianista John Foster e o baterista Roy Brooks. Esta reedição de 3 CD – mais uma para o catálogo indispensável da Resonance – inclui um extenso livreto com fotos raras de Jan Persson, Christian Rose, Jean-Pierre Leloir e Hans Harzheim, e um notável ensaio de Brian Priestley, que acompanhou a formação nesse período e conduziu entrevistas com Mingus e McPherson. O crítico britânico encontrou o contrabaixista num tom filosófico: «A vida tem muitas mudanças. Amanhã pode chover. E deveria estar sol porque é verão, mas Deus tem uma alma engraçada. Ele toca como Charlie Parker.» E um Mingus mais sombrio: «A música é a minha vida. Sem ela eu estaria morto. Tudo o que preciso é papel de partitura e um piano.» Há também para ler novas entrevistas a Charles McPherson, a Fran Lebowitz, amiga de Mingus, escritora e atriz, e aos contrabaixistas Eddie Gómez e Christian McBride.
(António Branco)

 

DEREK BAILEY: “Domestic Jungle” (Scatter) 

Derek Bailey morreu no dia 25 de dezembro de 2005. Já lá vão quase duas décadas, como o tempo passa… Figura fundamental da música improvisada europeia, o guitarrista inglês criou um som e uma forma de tocar únicos, afirmando-se como um músico absolutamente original. Se a discografia é canónica (de “Topography of the Lungs” de 1970 até “Ballads” de 2002), a arqueologia ao seu redor nunca pára e desta vez foi a label escocesa Scatter a revelar ao mundo gravações perdidas. Estas gravações caseiras mostram a guitarra de Bailey em sobreposição com sons vindos da rádio, de música jungle, uma música eletrónica de ritmo muito acelerado (geralmente à volta de 170 bpm). Este era um estranho exercício que Bailey praticava, como o próprio confessou em entrevista, um exercício que o desafiava. E se ao início o confronto soa abstrato, à medida que as gravações avançam vamos sentindo a ligação e conexões que a guitarra (esdrúxula) de Bailey vai entrelaçando com o jungle de som roufenho (e a autoria das várias músicas não é identificada, nos créditos a fonte é apenas indicada como “rádio”). Inevitavelmente, evoca o disco de 1997, “Guitar, Drums ’n’ Bass” (Avant), uma aproximação mais formal à eletrónica através de uma colaboração com DJ Ninj.
(Nuno Catarino) 

 

RÃO KYAO: “Malpertuis” (Valentim de Carvalho)

Apesar do equívoco alimentado por alguns sobre os dois singles de Domingos Vilaça, parece-me ser hoje pouco discutível que “Malpertuis” é o primeiro disco de jazz português. E é um começo em grande. Mas a importância de “Malpertuis” vai muito para além do facto de ser fundador. É que é um excelente disco, ainda hoje. Rão Kyao monta um grupo com a elite do seu tempo, tocando alto e tenor (e flautas): Zé Eduardo (na altura José “Boots” Eduardo) no contrabaixo e baixo elétrico, António Pinho Vargas (na altura Tony Pinho Da Silva) no piano e piano elétrico, Joãozinho “Oiã” na bateria e percussão e Fernando Girão na voz (e que excelente trabalho faz aqui!; na altura assinava “Very Nice”). É importante ainda referir o papel de Paulo Gil, que consegue convencer a Valentim de Carvalho a gravar (nos dias 17, 18 e 19 de maio de 1976) e editar este disco. Um excelente disco de jazz onde o rock também aflui, bem como músicas de outras paragens (que assumirão mais claramente nos dois LPs seguintes “Bambu” e “Goa”). Depois do LP original ter atingido preços para banqueiro, é bem-vinda e necessária esta reedição que nos devolve um grande disco de jazz português.
(Gonçalo Falcão)

 

BILL EVANS: "Morning Glory: The 1973 Concert at the Teatro Gran Rex, Buenos Aires" (Resonance) 

O brilhante pianista Bill Evans é destacado neste artigo em dose dupla. Neste “Morning Glory” encontrámo-lo numa gravação inédita, registo de um memorável concerto no Teatro Gran Rex, Buenos Aires, em 1973 (para referência da distância temporal: à época a Argentina ainda não detinha nenhum dos atuais três títulos de campeã do mundo de futebol). Editado num CD duplo, este disco junta treze temas e ao lado do genial pianista estão dois músicos que o acompanharam por longos períodos: Eddie Gomez no contrabaixo (esteve com Evans durante onze anos) e Marty Morell na bateria (sete anos de parceria). Com o apoio da secção rítmica, e em ótima forma, o pianista trata de interpretar com rigor temas que se foram tornando a sua assinatura, como “Re: Person I Knew”, “What Are You Doing the Rest of Your Life?”, “My Foolish Heart” e “Waltz For Debby” (e haverá alguém que não se derreta a ouvir este pedaço de poesia?). Bill Evans puro, um daqueles onde vale sempre a pena voltar.
(Nuno Catarino)

 

BILL EVANS: “Trio ’65” (Verve) 

Título histórico gravado pelo trio do pianista Bill Evans – com o contrabaixista Chuck Israels e o baterista Larry Bunker, músicos que o acompanharam no período 1963-1965 – nos lendários estúdios de Rudy Van Gelder, em Englewood Cliffs, Nova Jérsia, em fevereiro de 1965 e com produção de Creed Taylor. Bunker fora o escolhido para substituir Paul Motian, que tocava com Evans desde “Portrait in Jazz”, de 1959. (Já os havíamos ouvido juntos em “The Bill Evans Trio Live”, gravado ao vivo no ano anterior no Trident Club, Sausalito, e só lançado em 1971.) Mas é este “Trio ’65” que constitui porventura a melhor ocasião para contrastar as abordagens antagónicas de Motian, mais relaxada e espaçosa, e de Bunker, que por mais enérgica e incisiva tinha o condão de acelerar o pianismo de Evans, puxando-o para a frente e explorando uma veia rítmica que este nem sempre exibia. As oito peças do disco, que Evans gravou noutras ocasiões, conhecem aqui leituras muito especiais. Escutem-se, por exemplo, preciosidades como "Israel", de John Carisi, "If You Could See Me Now", "How My Heart Sings" ou "Who Can I Turn To (When Nobody Needs Me)". 
(António Branco)

 

PETER BRÖTZMANN / HAN BENNINK: “Schwarzwaldfahrt” (Trost) 

Comecei a colaborar na jazz.pt em 2006, convidado por Pedro Costa, que era na altura o editor da revista, e a minha primeira colaboração foi um texto sobre uma reedição deste disco (publicado no número 6 da revista, edição de maio/junho de 2006). Como esse texto inaugural se mantém atual, tomo a liberdade e ousadia de o revisitar: «No fim do Inverno, dois músicos resolvem passar alguns uns dias na Floresta Negra, numa zona perto de Donaueschingen, na Alemanha. Carregados com pão, bacon da região, truta fumada e algumas garrafas de vinho, instalam-se numa velha casa de madeira. Durante o dia vão para a floresta fazer música, música que surge no meio do arvoredo, música livre, improvisada. Com eles levam saxofones, clarinetes e pouco mais – e utilizam tudo o que encontram pelo caminho como instrumento musical. A história aconteceu em 1977 e teve como personagens dois fundadores da livre improvisação europeia: Peter Brötzmann e Han Bennink. Editado originalmente pela FMP, “Schwarzwaldfahrt” reuniu uma seleção dos melhores momentos que o duo gravou durante aqueles dias. Se à partida a ideia que esteve por trás da aventura já gerava curiosidade, o duo tratou de não defraudar as expectativas. Conhecido pelo teor incendiário do seu sopro, Brötzmann tem aqui uma prestação relativamente calma, distante do tom abrasivo que lhe é habitual. Han Bennink aproveita todos os objetos para fazer percussão e arranca sonoridades surpreendentes. Quase sempre em concordância, utilizando uma panóplia de instrumentos por vezes impossíveis de identificar, os dois músicos constroem fragmentos de ritmos e melodias que se sustentam em diálogo permanente. Uma celebração da música e da natureza, da música que nasce na floresta, nas árvores, na água.» Esta reedição, com selo Trost, tem o formato de livro+CD, com fotografias da autoria dos músicos e texto de David Keenan. 
(Nuno Catarino)

 

ELLA FIZGERALD: “Ella at the Hollywood Bowl: The Irving Berlin Songbook” (Verve)

Antes de finalmente ver a luz do dia, esta gravação inédita estava na coleção particular de Norman Granz, lendário empresário e produtor, fundador da Verve (e da Clef e Norgran), que entendeu que a Decca, editora de Ella Fitzgerald desde o início dos anos 1950, não fazia jus ao seu talento. Após anos de luta conseguiu libertá-la do contrato e trazê-la para o coração da sua nova editora independente. Em “Ella at the Hollywood Bowl: The Irving Berlin Songbook” escutamos uma das vozes maiores da história do jazz em absoluto estado de graça, num concerto registado a 16 de agosto de 1958 no Hollywood Bowl, em Los Angeles. Orquestra completa, arranjos e direção de Paul Weston, tudo o que a voz de Ella necessitava para pairar. A cantora gravou vários songbooks, mas o de Irving Berlin tem algo de magnético. E ouvi-lo interpretado ao vivo no zénite das suas capacidades é uma experiência arrebatadora. Eis versões magistrais de clássicos como “How Deep Is The Ocean”, “Cheek To Cheek”, “Let's Face The Music And Dance”, “Putting On The Ritz” ou “Russian Lullaby”. Com este documento disponível, o mundo é agora um lugar mais luminoso.
(António Branco)

 

CECIL TAYLOR: "Respiration Live In Warsaw '68" (Fundacja Słuchaj)

A polaca Fundacja Słuchaj tem estado particularmente focada na edição de música livre do nosso tempo (e este ano lançou “Room With No Name” do imparável trompetista português Luís Vicente com Seppe Gebruers e Onno Govaert), mas mostra estar também atenta à história e ao passado e lançou este ano um registo histórico que captou as atenções: “Respiration” documenta uma atuação do lendário pianista norte-americano Cecil Taylor em Varsóvia, em 1968, em plena Cortina de Ferro. Para lá da envolvência social e política, ficamos com a música: o pianismo imprevisível de Taylor, sempre em vertigem, sempre desafiante. Ao longo de dois temas (um primeiro de doze minutos, o segundo de meia hora), ouvimos Taylor a solo, na sua típica exploração radical, que tanto nos provoca como nos cativa.
(Nuno Catarino)

Agenda

01 Fevereiro

Com Calma Jazz Jam

Com Calma - Espaço Cultural - Lisboa

02 Fevereiro

João Lencastre, Pedro Branco e João Hasselberg

Miradouro de Baixo - Carpintarias de São Lázaro - Lisboa

02 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Água Ardente - Lisboa

02 Fevereiro

Ensemble Porta-Jazz / Robalo

Porta-Jazz - Porto

02 Fevereiro

José Menezes Quarteto

Cine Incrível - Alma Danada - Almada

03 Fevereiro

Pedro Neves Trio “Hindrances” / Wabjie

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Percussion

Água Ardente - Lisboa

03 Fevereiro

Gianni Narduzzi “Dharma Bums” / Carlos Azevedo Quarteto “Serpente”

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Salão Brazil - Coimbra

04 Fevereiro

Coletivo Osso/Porta-Jazz “Interferências” / Umbral

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

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