Editoras com história(s), 13 de Dezembro de 2022

Editoras com história(s)

On a Blue Note

texto: Sofia Alexandra Carvalho

Estreando a nova rubrica “Editoras com história(s)”, Sofia Alexandra Carvalho escreve sobre uma das mais emblemáticas labels da história do jazz, a Blue Note Records.

Blue Note Records é sinónimo de um desvio musical prodigioso e singular: uma “plataforma de expressão musical”, como defendido por Herbie Hancock no documentário “Blue Note Records: Beyond the Notes” (2018). Fundada em 1939, a editora resultou de uma paixão de dois não-instrumentistas pelo “hard bop” jazz (mistura híbrida de jazz, bebop, soul, blues, gospel, avant-garde e “free style” que, quebrando todas as regras, traz consigo uma revolução, uma nova semântica musical): Alfred Lion (1908-1987) e Francis Wolff (1907-1971).

Este projeto editorial, que vinga até ao presente, não só marcou e catapultou diferentes gerações de músicos (Thelonious Monk, Fats Navarro, Sidney Bechet, Bud Powell, Howard McGhee, Wynton Kelly, Clifford Brown, John Coltrane, Milt Jackson, Miles Davis, Wayne Shorter, Herbie Hancock, Freddie Hubbard, mencionando apenas as figuras mais sonantes), como também teve uma equipa notável, que funcionava à sua maneira: o único modo de deixar uma marca indelével no mundo. Alfred Lion admite ter sido a sua mãe a influenciá-lo, ainda que involuntariamente, ao trazer para casa, em Berlim de 1926, um disco que o impressionou, sem saber ainda que era jazz ou o que era jazz. Francis, por sua vez, confessa o gosto pelo estilo musical, mas sem o compreender. Uma das notas do seu carácter, transmitida por diferentes músicos, era dançar ao som do “take” certo, se não dançasse, o take não era o final. Foi assim que, nos anos 30, estes dois amigos de infância, Alfred Lion e Francis Wolff, fugindo da perseguição aos judeus na Alemanha nazi, se tornaram os fundadores da Blue Note Records em Nova Iorque. O que os moveu foi a impressão tremenda que este estilo musical lhes gravava no espírito: a editora nasce da necessidade íntima destes dois amigos de ouvir músicas, que ainda não existiam. Sem nunca terem gravado discos, e movidos pela mesma paixão, decidiram iniciar uma das belas aventuras musicais do século XX: as sessões de gravação eram descontraídas, sem pressões editoriais de sucesso ou vendas (basta recuperar a resistência de outras editoras às edições de Monk, com a sua prodigiosa “Round Midnight”, tendo sido defendido por Alfred Lion durante cinco anos, sem sucesso), e a confiança depositada nos músicos era absoluta. As discussões artísticas entre os dois fundadores eram intensas e profícuas. As decisões editoriais saíam dessa interação de debate e confronto, contribuindo para a alta qualidade das suas edições. Interessava-lhes, sobretudo, a criação de formas particulares, saída diretamente da liberdade criativa de cada artista.

Inovadora e revolucionária, esta aventura editorial contou ainda com duas colaborações axiais: a de Reid Miles (1927-1993), o designer ímpar que marcou a imagem da editora nas décadas de 1950 e 1960, contribuindo para o impacto visual dos álbuns através de uma criação distinta em cada álbum, quer fosse através da criação tipográfica, quer do corte e colagem das fotografias de Francis Wolff, sem nunca deixar de fortalecer a atmosfera estética dos discos da Blue Note Records (vide bluenote.com/timeline); e a de Rudy Van Gelder (1924-2016), engenheiro de som, que estimava a liberdade, a improvisação e o reconhecimento de músicos individuais. Aliás, de 1953 a 1959, a Blue Note gravou na sala de estar da casa dos pais de Van Gelder, em Nova Jersey, e só em 1959 foi criado um estúdio, em Englewood Cliffs, Nova Jersey: local de gravação de mais de 400 álbuns, com a chancela da Blue Note. Este estúdio ou templo, inspirado no estilo de Frank Lloyd Wright, foi aliás encomendado a um dos seus alunos.

Contrariando, no entanto, o aspeto comercial do fracasso, Blue Note obteve dois grandes êxitos nos anos 60: “The Sidewinder” de Lee Morgan (1964) e “Song For My Father” de Horace Silver (1965). Os editores ficariam sem estes discos num prazo surpreendente de 48 horas. Estes êxitos culminaram com a compra da editora pela Liberty Records, muito direcionada para planos de vendas, o que contribuiu para a saída de Alfred Lion no Verão de 1967, tendo Francis Wolff ficado responsável administrativo até 1971, ano da sua morte. A atividade editorial parou entre 1979 e 1984, tendo sido relançada pela EMI / Capitol Group, sob a égide de Bruce Lundvall (1935-2015), presidente da Blue Note Records de 1984 até 2011. Uma nova era despontava, distinta da inicial, mas tendo sempre na mira o padrão de qualidade dos seus iniciadores e as lições dos seus mentores.

Tinha sido criada uma comunidade de músicos, sem perder a força individual que movia cada um deles. Blue Note Records torna-se o emblema audaz, reverencial e referencial da arte e do artista deste estilo musical. Colaboração e liberdade criativas são o ex-libris deste emblema.

 

Artigo publicado originalmente na revista Minerva Universitária (revisão de João N. S. Almeida).

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