Lusofonia Record Club, 7 de Dezembro de 2022

Lusofonia Record Club

Costurar uma narrativa

texto: Nuno Catarino

O Lusofonia Record Club é o primeiro clube de vinil por assinatura direcionado para a música lusófona. Vai agora reeditar em vinil um disco que é um marco do jazz brasileiro: “Moacir de Todos os Santos”, de Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz, disco inspirado no mestre pernambucano Moacir Santos. Tendo como mote esta edição e o próprio Lusofonia Record Club, estivemos à conversa com Léo Motta, que nos apresenta o projeto. 

O Lusofonia Record Club (LRC) é o primeiro clube de vinil por assinatura direcionado para a música lusófona (Portugal, Brasil e PALOP). É um projeto de Léo Motta, Tomás Pinheiro e Jorge Falcão e neste primeiro ano de existência já editou discos de José Pinhal, David & Miguel, Nomade Orquestra, Luedji Luna e Monte Cara. As edições são bonitas e cuidadas, objetos que são uma delícia para colecionadores. Assim se apresentam: «A cada novo lançamento, um disco da música lusófona em edição exclusiva e conteúdo editorial impresso para reviver a história na ponta da agulha.» O jazz não é o seu principal foco, mas também vai fazer parte do catálogo. 

O LRC vai agora reeditar em vinil um disco que é um marco do jazz brasileiro. “Moacir de Todos os Santos”, de Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz, é um disco inspirado no mestre pernambucano Moacir Santos (1926-2006), conta com as participações de Caetano Veloso e Raul de Souza e inclui ainda um texto da autoria de Gilberto Gil.

A formação foi fundada em 2006 por Letieres Leite (falecido em outubro do ano passado, aos 61 anos de idade) e reúne mais de uma vintena de músicos, negros, mestiços e brancos – todos eles associados às vertentes mais populares ou clássico-eruditas da música que se faz na Baía, estado nordestino do Brasil. Como Moacir, Letieres promoveu uma fusão, abrangente e profunda, das linguagens das músicas africano-americanas, dos Estados Unidos, de Cuba e do Brasil. Como salienta Gilberto Gil no texto da contracapa: «Em torno de alguns conceitos amplos de ancestralidade e modernidade e de elementos rítmico-harmónico-melódicos de grande personalidade, Letieres nos oferece neste disco um pouco, um gosto, um gesto, um beijo do seu imenso legado.» 

Tendo como mote esta edição e o próprio Lusofonia Record Club, estivemos à conversa com Léo Motta, que nos apresenta o projeto.

 

Como surgiu o Lusofonia Record Club? Como funciona e qual o objetivo?  

Tudo começou quando o Tomás, meu amigo e então colega de mestrado (estudámos Inovação e Empreendedorismo Tecnológico na FEUP), sugeriu criarmos uma editora, que funcionaria como clube de vinil, uma ideia já muito bem formatada. Inscrevemos o projeto no StartUp Voucher (IAPMEI, cofinanciado pelo Portugal 2020, Compete 2020 e Fundo Social Europeu) e fomos aprovados, nisto passamos o ano de 2021 a estudar os pormenores para, em 2022, fundar de facto a empresa.

Funciona, no fundo, como uma editora. Licenciamos obras, masterizamos, preparamos artwork, levamos à fábrica, preparamos o conteúdo e colocamos à venda: para venda avulsa, ou por subscrição, ou para os parceiros de distribuição. O nosso objetivo é promover a herança cultural lusófona, aumentar a disponibilidade de obras brasileiras, portuguesas e dos PALOP no mercado, sempre a prezar por edições especiais, exclusivas, bonitas e de alto nível. 

Vão editar um disco de jazz do Brasil, "Moacir de Todos os Santos" de Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz. Porque escolheram este disco? 

Esse é um disco que está no nosso radar há um bom tempo, por tudo o que representa. São composições de um génio da música brasileira, regidas por outro génio, com influências da música africana e participação de dois ícones da Tropicália. Sem contar a sonoridade, que é fenomenal. Precisávamos, então, de uma ocasião especial para lançá-lo — e ela veio agora, no encerramento do nosso primeiro ano, uma forma de fechar com chave de ouro esse período.

O catálogo do Lusofonia Record Club tem sido estilisticamente muito diverso (José Pinhal, David & Miguel, Nomade Orquestra, Luedji Luna e Banda Monte Cara). Qual o critério que guia a seleção das vossas edições/reedições?

É incrível ver a perceção das pessoas sobre isto, porque no fundo há sim muita diversidade, a um nível quase de conflito às vezes. Faço um paralelo, entretanto, com os países lusófonos: a depender do prisma, é tudo muito diferente, poderiam-se escrever livros e mais livros sobre estas diferenças - mas preferimos olhar pelo outro lado, ou seja, do tanto que temos em comum e nos coloca na mesma página. Os timbres que permeiam os sopros de um disco a outro, as rimas e batidas que marcam a portugalidade vista de dentro e de fora, o poder e os desafios da mulher negra no meio musical… A lista é imensa. A curadoria que fazemos passa por diversos pontos, que no fundo ajudam a costurar uma narrativa: disponibilidade da obra, edições passadas, relevância do artista, valor musical e lírico, sonoridade, estética, histórico… Há muito em jogo, e até por isso, essa é a pauta que mais discutimos enquanto editora.

Têm previstas mais edições ligadas ao jazz? 

Temos inúmeras obras no radar e somos grandes fãs de jazz. Existe uma questão de equilíbrio, de diversificar entre uma edição e outra, mas certamente temos o jazz em mente. Até por ser um género de imensa influência, tenho a certeza de que teremos imensos pontos de contacto com ele ao longo da nossa trajetória.

Agenda

01 Fevereiro

Com Calma Jazz Jam

Com Calma - Espaço Cultural - Lisboa

02 Fevereiro

João Lencastre, Pedro Branco e João Hasselberg

Miradouro de Baixo - Carpintarias de São Lázaro - Lisboa

02 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Água Ardente - Lisboa

02 Fevereiro

Ensemble Porta-Jazz / Robalo

Porta-Jazz - Porto

02 Fevereiro

José Menezes Quarteto

Cine Incrível - Alma Danada - Almada

03 Fevereiro

Pedro Neves Trio “Hindrances” / Wabjie

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Percussion

Água Ardente - Lisboa

03 Fevereiro

Gianni Narduzzi “Dharma Bums” / Carlos Azevedo Quarteto “Serpente”

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Salão Brazil - Coimbra

04 Fevereiro

Coletivo Osso/Porta-Jazz “Interferências” / Umbral

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

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