Igualdade de género e “jazz studies”, 20 de Setembro de 2022

Igualdade de género e “jazz studies”

“Victims No More”: justiça de género no jazz

texto: Beatriz Nunes / fotografia: Enid Farber

Beatriz Nunes e Leonor Arnaut, investigadoras e cantoras portuguesas, participam no novo livro “The Routledge Companion to Jazz and Gender” contribuindo com a autoria de um capítulo. Em exclusivo, apresentamos na jazz.pt uma versão resumida do artigo.


Saiu este verão um livro que reúne as mais recentes perspetivas académicas sobre questões de género e jazz studies. O livro “The Routledge Companion to Jazz and Gender”, organizado com a supervisão editorial de James Reddan, Monika Herzig e Michael Kahr, é neste momento a mais completa obra sobre o assunto.

Prova do interesse e curiosidade sobre o que significa afinal este cruzamento entre género e jazz tem sido a receção do capítulo que escrevi juntamente com a Leonor Arnaut para este livro. É surpreendente, mas um bom termómetro, quando assuntos académicos parecem ressoar tanto em muitas pessoas: há mulheres que querem ler porque se identificam com experiências de discriminação na música, há homens que querem ler porque querem “reaprender” (cito a palavra de um utilizador do Instagram) as relações entre masculino/feminino e música, assim como várias pessoas que terão um interesse mais académico ou apenas curiosidade sobre o assunto. Serve então este artigo como uma partilha de um pouco do conteúdo do capítulo 32. “Victims No More: How Women and Non-Binary Musicians Are Collaborating for Gender Justice in Jazz”.

Contar a história do ativismo feminista no jazz

Na última década, ativistas da cena musical americana e europeia têm vindo a colaborar para dar resposta às disparidades de género no jazz. Mais do que implementar estratégias para superar a falta de representação de músicos não-masculinos no jazz, estes coletivos têm sobretudo criticado dinâmicas de poder desequilibradas que continuam a vulnerabilizar particularmente mulheres em contextos performativos.

Embora a literatura académica concorde desde os anos 90 que o jazz é historicamente um contexto dominantemente masculino e heteronormativo e apesar de várias desigualdades de representatividade entre homens e mulheres no jazz estarem bem diagnosticadas e documentadas, mantém-se a pergunta: que estratégias precisam ser aplicadas para alcançar igualdade de género num futuro próximo? Este capítulo defende que observar atentamente as ações implementadas por grupos feministas no jazz pode contribuir para responder a essa questão. Para isso entrevistámos a ativista e trompetista Ellen Seeling, fundadora do Jazzwomen and Girls Advocates (JAGA); a ativista, vocalista e compositora Sara Serpa, co-fundadora do colectivo We Have Voice (WHV); e Roxy Coss, saxofonista, compositora e ativista que foi uma das fundadoras do Women in Jazz Organization (WIJO).

Com a consciência de que o ativismo feminista é uma história por contar no contexto dos movimentos sociais e políticos no jazz, este capítulo quis resumir algumas das primeiras iniciativas da luta de mulheres do jazz pela igualdade. 

A consciência sobre as desigualdades entre homens e mulheres produzida pela 2.ª vaga feminista nos anos 70 teve um impacto profundo na transformação das sociedades, à qual o jazz não ficou indiferente. Nesta época começam a surgir os primeiros festivais de jazz de mulheres em várias regiões dos EUA, que consistiam sobretudo na luta por igualdade de condições e oportunidades de trabalho. Destaca-se o Kansas City Women's Jazz Festival, o primeiro festival de jazz com foco na questão da representação feminina, criado em março de 1978 por Carol Comer e Dianne Gregg. No mesmo período, surgem orquestras e grupos de jazz exclusivamente femininos como o grupo Straight Ahead formado em 1987; o quinteto Alive!, ativo entre 1975 e 1985; a orquestra Maiden Voyage de Ann Patterson que existiu até os anos 2000; a orquestra Kit McLure’s Band formada em 1982; ou a orquestra DIVA, liderada pela baterista Sherrie Maricle e ativa até ao presente. As all-women bands não foram uma invenção da década de 70, sabendo-se da existência de orquestras de jazz exclusivamente femininas desde os anos 20, aliás, com particular sucesso nos EUA durante a Segunda Guerra Mundial. No entanto, as orquestras compostas apenas por mulheres não foram consideradas pelas narrativas históricas como sendo tão autênticas quanto as suas contemporâneas all men bands, o que dificultou o reconhecimento, a visibilidade e a documentação histórica das mulheres no jazz (Tucker, 2000). A maior diferença da vaga de all-women bands a partir dos anos 80 é que estas surgem de um gesto inequivocamente ativista pela igualdade entre mulheres e homens, pretendendo quebrar estereótipos sobre o papel das mulheres no jazz e criando os seus próprios contextos e oportunidades de trabalho. 

Nos anos 2010, novos festivais e associações de mulheres surgem nos Estados Unidos, como o Washington Women in Jazz Festival em 2011, o We Create Jazz Festival em 2019, o Seattle Women in Jazz Festival em 2013, o Knoxville Women in Jazz Festival em 2016, Alabama Women in Jazz Festival em 2014, entre outros. Estas iniciativas partilham uma estratégia comum de criar oportunidades performativas para mulheres no jazz, focando a importância de modelos de referência (role models) para as novas gerações de mulheres no jazz.

 

As contribuições do We Have Voice e Women in Jazz Organization 

Em 2017, o impacto mediático do movimento #MeToo desencadeou uma maior consciencialização sobre assédio sexual em contextos profissionais.  A partir desta discussão sobre consentimento, dinâmicas de poder desequilibradas e violência contra mulheres, em 2017 é criado o coletivo We Have Voice liderado por 14 ativistas e musicistas de “diferentes gerações, raças, etnias, culturas, identidades de género, origens económicas, religião crenças e afiliações”. O grupo foifundado por Fay Victor, Ganavya Doraiswamy, Imani Uzuri, Jen Shyu, Kavita Shah, Linda May Han Oh, María Grand, Nicole Mitchell, Okkyung Lee, Rajna Swaminathan, Sara Serpa, Tamar Sella, Terri Lyne Carrington e Tia Fuller, e distingue-se por definir um posicionamento interseccional que considera diversos aspectos identitários na construção de dinâmicas de poder e privilégio para além do género.

O coletivo apresentou duas iniciativas principais, uma Carta Aberta e um Código de Conduta, que surgiram após a publicação de vários artigos sobre abusos sexuais, em particular o artigo publicado no Boston Globe intitulado “Berklee deixe os professores sair discretamente após alegado abuso sexual e pressiona as alunas para o silêncio”. Vários artigos denunciavam um padrão de má conduta sexual, aceite por uma cultura generalizada de tolerância pelas instituições e pares. Para Sara Serpa, a criação da Carta Aberta e do Código de Conduta representaram a criação de ferramentas para que as mulheres se pudessem afastar da posição de vítima.

Serpa considerou que levará muito tempo para se conseguir uma mudança estrutural. Às vezes, aliados masculinos exibirão o que Serpa chama de “aliança performativa”, que não resulta em mudanças efetivas e consistentes das suas práticas. Por sua vez, aliados performativos envolvem-se na conversa sobre o equilíbrio de género a partir de uma posição de poder estabelecida e não consideram as experiências das mulheres como diferentes. Sobre o quão desafiador é mudar os sistemas de normatividade masculina, Serpa considera importante que as mulheres assumam suas próprias narrativas, espaços e criem as suas comunidades. 

Roxy Coss, co-fundadora do Women in Jazz organization (WIJO), partilha da mesma perspetiva sobre a importância da criação de comunidades seguras para mulheres no jazz. A WIJO apresenta três objetivos principais: capacitar os indivíduos na organização; promover a inclusão e solidariedade, e fortalecer uma comunidade interseccional de mulheres e pessoas não-binárias no jazz. Paralelamente ao programa de mentoria desenvolvido pela WIJO, a organização lidera reuniões mensais, concertos, encontros e jam sessions.

Observar as dinâmicas de colaboração, ativismo e sororidade de mulheres no jazz é particularmente interessante para desafiar perceções mitificadas sobre mulheres como antagonistas e viabilizar novas possibilidades de sociabilidades entre mulheres no jazz como formas de resistência a um sistema patriarcal. É necessário ainda reconhecer que ativistas investem o seu tempo pessoal, por vezes os seus recursos financeiros, que poderiam ser utilizados no investimento da sua própria carreira, com o objetivo de criar uma comunidade jazzística mais equilibrada. Através das suas iniciativas, estes coletivos têm provocado uma necessária discussão sobre dinâmicas de poder na música, criando os seus próprios espaços e modelos para as gerações futuras.

Agenda

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Cossoul - Lisboa

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