Outras músicas, 12 de Setembro de 2022

Outras músicas

Kendrick Lamar e a nova era do rap

texto: Martim Paulouro

A obra-prima “To Pimp a Butterfly” – que contou com a colaboração de músicos de jazz, como Kamasi Washington e Ambrose Akinmusire – consagrou Kendrick Lamar como uma das figuras de proa do hip-hop do século XXI. Sete anos depois, Lamar volta a dar cartas. Na secção Outras músicas, Martim Paulouro escreve sobre a evolução do incontornável rapper de Compton.

“To Pimp a Butterfly” saiu em 2015. Um álbum de elevada densidade, que aborda temas atuais e importantes e que teve, para acompanhar as brilhantes letras de Kendrick, vários músicos de jazz como Kamasi Washington, Ambrose Akinmusire e Terrace Martin. Estes não só deram ao álbum uma enorme originalidade instrumental, como também permitiram que Kendrick adotasse diversos estilos de rap, diferentes do esquema habitual de rima. Finalmente, por causa também dos elementos funk incluídos no álbum, o jazz foi essencial para associar o projeto à cultura negra americana e satisfazer o desejo de voltar às raízes que o rapper sentia.

To Pimp a Butterfly


Mais tarde, a 14 de abril de 2017, o rapper lançou “DAMN.”, um álbum que destoava do resto da sua discografia, por se ter aproximado ao trap e à música pop. Meia década depois, no dia 18 de abril de 2022, nas redes sociais, Lamar anunciou que iria lançar um duplo LP intitulado de “Mr. Morale & The Big Steppers”. Muito aconteceu à indústria da música entre 2017 e 2022 – o hip-hop cimentou-se como o género de música mais popular e o TikTok explodiu. Com este, tornou-se ainda mais difícil ter-se sucesso com projetos pensados e longos. A procura era por música rápida, curta, viciante e que desse para dançar. A probabilidade do novo álbum de Kendrick ser feito para agradar o TikTok não era alta, mas, tendo em conta o seu prévio, também não era baixa. Mas não.

DAMN.

A 13 de maio de 2022, “Mr. Morale & The Big Steppers” foi lançado – um álbum pensado. Kendrick tinha tido liberdade criativa total e usou-a para se expressar. Para se curar. 

Começa com um coro, elevado, como se vindo do céu (como se vindo de anjos e do paraíso) dirigindo-se ao rapper: “I hope you find some peace of mind in this lifetime” e “I hope you find some Paradise”. Esta mensagem, seguida da voz da sua mulher a exortá-lo a dizer a verdade são os primeiros pontos da linha que Kendrick segue neste álbum. São o diapasão do projeto – tudo o que Lamar vai dizer será parte do processo dele se curar e será a verdade. Isto porque é um dever que ele não pode quebrar. É um dever dele para consigo mesmo, para com a religião e para com a sua mulher. 

No resto da primeira música Kendrick reflete sobre os mesmos temas que muito explorou em “To Pimp a Butterfly (o gasto descontrolado e desnecessário), mas com um intuito diferente desta vez – Lamar não pretende criticar o american dream e a cultura de consumismo. O gasto descontrolado, repara o rapper, é apenas um produto da sua maneira errada de lidar com o sofrimento («I grief different»). Ele achava que se libertaria com o dinheiro, mas acabou por ficar ainda mais só, afastado da sua comunidade de Compton e de si mesmo («What is a house with a better view? A family broken in variables»). Há mais temas de outros álbuns dele que são reaproveitados neste projeto. O conceito de se ser uma boa pessoa que acaba por ser corrompida pela violência e pobreza de Compton, explorado em “Good Kid, M.A.A.D City”, continua a ser bastante sentido neste álbum, mas mais relacionado com os seus problemas familiares. Para além disso, a produção nesta música relembra também certos aspetos de jazz – algo que Kendrick usa não só para espelhar os seus sentimentos de reflexão e descontrolo, como também porque o jazz é das poucas coisas que ainda o permite conectar-se com as suas raízes e com a sua comunidade. 

Na segunda música percebe-se que o “curar” dele não é só por causa de traumas de infância e de problemas familiares, no entanto. Este “curar” engloba também a sua busca por uma identidade. Por autenticidade. Talvez seja isso mesmo o grande problema de Kendrick Lamar – quer fugir aos problemas de Compton e quer continuar a fazer parte da sua comunidade e ser autêntico. É um paradoxo. Um paradoxo aparentemente insolúvel.

No final do álbum, contudo, ficamos com a ideia de que ele se liberta deste antagonismo. Consegue isto ao esclarecer que ele não devia ser o modelo de ninguém e ao direcionar-nos para o seu (Cristo). É como se ele ao reconhecer que não tem de ser perfeito e que pode ser simplesmente ele, conseguisse finalmente encontrar a sua autenticidade e encontrar-se a si. 

Este álbum, porém, não é somente uma grande sessão de terapia: há várias importantes críticas à sua comunidade e até (algo que eu não esperava dele) à Igreja. Lamar expõe o abuso que as mulheres negras são forçadas a suportar («A conversation not bein' addressed in Black families / The devastation, hauntin' generations and humanity / They raped our mothers, then they raped our sisters / Then they made us watch, then made us rape each other»). Critica também a atitude que pais de Compton têm com os seus filhos, não mostrando amor nem apoio («Daddy issues made me lеarn losses, I don't take those well / Momma said, «That boy is exhausted» he said, «Go fuck yourself / If he give up now, that's gon' cost him, life's a bitch / You could be a bitch or step out the margin»). Condena a Igreja por não aceitar a comunidade transsexual (a qual o seu primo Demetrious fazia parte) («the pastor didn't see him the same / He said my cousin was going through some things / He promised the world we living in was an act of abomination / And Demetrius was to blame»). E fez uma série de outras condenações como por exemplo à cancel culture, a políticos e como lidaram com a pandemia, e à busca pela fama a todo o custo. Na sua tournée criticou também a revogação do Roe v. Wade. 

Mr. Morale & The Big Steppers


Todos estes temas são abordados com inúmeras mudanças de flows e vozes, fora do usual no mundo do hip-hop – algo que se pode ligar à influência que o jazz e a incessante vontade de desobedecer aos padrões musicais tiveram no artista.

É um álbum bem estruturado, onde Lamar recupera o uso de metáforas e alegorias como por exemplo no sapateado que se ouve por todo o álbum, que representa o sentimento do rapper de estar a ser usado como uma figura de circo (estar a ser forçado a ser um modelo) e de não poder ser ele. É uma enorme melhoria relativamente ao seu projeto anterior e é talvez um final feliz para a sua discografia, pois ele próprio tinha dito que escreveria até se encontrar a si mesmo. Em termos instrumentais, Kendrick voltou a optar por um álbum coerente (o constante uso de cordas e piano) e diferente ao que se está acostumado no rap (não contém samples). No fundo, foi um projeto com propósito artístico e não com propósito lucrativo.

E como nos últimos anos o rap tem visto álbuns mais introspetivos e pessoais a serem lançados, a junção de um grande nome como o de Kendrick Lamar à lista abrirá decerto uma porta e contribuirá para a evolução do rap para um género de música mais pensado, tal como a fusão com o jazz o permitiu ser um género mais livre.

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