Jam sessions, 18 de Agosto de 2022

Jam sessions

New York Minute: Jam sessions em Nova Iorque a partir de uma abordagem etnomusicológica (1.ª parte)

texto: Ricardo Pinheiro

Em artigo para a jazz.pt, o guitarrista e musicólogo Ricardo Pinheiro parte da análise de cinco espaços de performance de jazz em Manhattan, Nova Iorque, para defender a importância da participação em jam sessions no percurso profissional dos músicos de jazz, examinando a sua relação com esta ocasião performativa. A segunda parte deste artigo será publicada na próxima semana.

Introdução

A investigação desenvolvida no âmbito do meu doutoramento em Ciências Musicais - Etnomusicologia (2008) aborda, a partir de uma perspectiva etnomusicológica, o papel das jam sessions em Manhattan enquanto contexto privilegiado para a aprendizagem dos estilos performativos do jazz, o desenvolvimento do processo criativo, a construção de redes profissionais, e o estabelecimento do estatuto dos músicos. Partindo da análise de cinco espaços de performance de jazz em Manhattan, Nova Iorque, o mais importante contexto para a performance do jazz no mundo, defendo a importância da participação em jam sessions no percurso profissional dos músicos de jazz, examinando a sua relação com esta ocasião performativa.

A minha experiência enquanto músico, professor de jazz e investigador determinou a escolha da jam session enquanto objecto de estudo, assim como também as perspectivas analíticas adoptadas na investigação. Enquanto estudante de jazz em Portugal e nos E.U.A., participei em inúmeras jam sessions. Inicialmente aconselhado por professores e colegas mais experientes, pretendia desenvolver as minhas capacidades performativas e contactar directamente com a realidade profissional do jazz. Estes eventos constituíam um ponto de contacto privilegiado entre o meio académico e o profissional e completavam e enriqueciam as experiências adquiridas em salas de aula. Alguns dos processos musicais e sociais que decorriam em jam sessions, tais como a escolha do repertório e a demonstração de capacidades de relacionamento social no e fora do palco, eram-me desconhecidos. Mais tarde, vim a conhecer em jam sessions inúmeros músicos com os quais ainda me relaciono. Alguns deles, após a graduação pela Berklee College of Music, dirigiram-se para Nova Iorque, com o intuito de continuar a participar em jam sessions, conhecer outros músicos, e procurar oportunidades de trabalho.

Enquanto investigador, verifiquei que a jam session, apesar da sua importância na configuração histórica e actual do universo do jazz, ainda não tinha sido alvo de estudo detalhado. A maioria dos estudiosos de jazz tinha prestado especial atenção à análise de diferentes estilos de jazz, às biografias e estilos interpretativos de músicos consagrados, negligenciando o estudo do processo criativo, a interacção, o significado musical, e os processos de socialização dos músicos, que constituem factores fundamentais para uma compreensão da jam session. Não é de estranhar, pois, que o tímido interesse que a jam session despertou na academia tenha tido alguma visibilidade apenas no campo da sociologia.

Jam session, “blues aesthetic” e  jazz scene

A jam session é uma ocasião performativa idealmente aberta à participação de músicos, que se realiza semanalmente, à noite, em espaços de performance de jazz como bares e clubes, e que se pode prolongar por várias horas até de madrugada. Partindo de um repertório de "jazz standards”, os músicos improvisam, interagindo colectivamente. O diálogo musical conjunto que os músicos desenvolvem em jam sessions é predominantemente fundamentado numa linguagem e estética musicais partilhadas no meio do jazz, a “blues aesthetic” (Baraka 1971, Jackson 1998 e Murray 1970, 1976). Tal como Travis Jackson aponta, a “blues aesthetic”, alicerçada na tradição cultural afro-americana, pressupõe características musicais e critérios avaliativos e normativos comuns aos músicos e audiências. Baseia-se, não só em particularidades do “blues” enquanto idioma musical (ou seja, na utilização de fraseado em forma de pergunta e resposta, da escala de “blues”, etc.), mas também em especificidades estéticas presentes em outras formas culturais afro-americanas, tais como a criatividade (Baker 1984, Feld 1994, Powell 1989 e 1994). Resulta da aprendizagem de práticas derivadas e continuamente informadas pelas músicas e cultura afro-americana. Ao contrário do conceito de “black aesthetic” utilizado por alguns autores (Baraka 1991, Gayle Jr. 1972, Fuller 1971, Welburn 1971), que tem subjacente a ideia de que as particularidades atrás apontadas resultam de um código genético comum a todos os indivíduos “negros”, a “blues aesthetic”, segundo Jackson, pressupõe que estas são adquiridas, resultando da aprendizagem e envolvimento dos indivíduos com as músicas e cultura afro-americanas. Através da comunicação verbal e performativa, e da audição de fonogramas, os músicos contactam com os vários aspectos da “blues aesthetic”, aprendendo a interpretar, produzir, e interagir com os sons e outros estímulos que enformam uma performance. É importante referir ainda que esta estética não se encontra fechada sobre si, podendo co-existir com outras provenientes da tradição “erudita” ocidental, da música electrónica, etc.

As jam sessions em Manhattan enquadram-se no âmbito da jazz scene, um contexto construído socialmente, no âmbito do qual um conjunto de actores e instituições se relacionam. Os músicos, audiências, e outros agentes do meio, como por exemplo críticos, interagem musical e socialmente nos locais de performance, em universidades e em outras instituições relacionadas com o jazz. Optei por utilizar o conceito de “jazz scene”, não só pelo facto de ser utilizado pelos músicos de jazz para designar o seu universo, como também por sugerir, ao contrário de “jazz community” (Becker 1951, Cameron 1954, Esman 1951, Merriam e Mack 1960), um universo de estudo dinâmico, no qual se desenvolve um conjunto de interacções entre actores e instituições, não só a nível local, como também a nível nacional e internacional (Straw 1997).

 

Jam session enquanto ritual

Analisei a jam session enquanto ritual na medida em que, como em qualquer outra actividade ritualizada, e segundo Christopher Small (1987), ocorre em dias, horas e espaços performativos específicos, configurados de modo a destacar o papel dos músicos. Existem convenções em relação ao comportamento dos intervenientes, e um repertório padrão que enforma a performance em jam sessions, constituindo um ponto de partida para a improvisação dos músicos. Estes comunicam através de padrões e acções simbólicas (Turner 1977, Douglas 1973) determinadas pela tradição do jazz.

Na verdade, as jam sessions ocorrem geralmente no início da semana, devido à disponibilidade dos músicos para participar. Muitos actuam nos restantes dias da semana em clubes, teatros da Broadway, e noutros espaços performativos. Têm início por volta das 21.30h, podendo estender-se até de madrugada. Decorrem em espaços específicos denominados de clubes e bares de jazz, que constituem importantes locais para a performance do jazz em Manhattan, e que desempenham um papel fulcral no processo de construção da reputação profissional dos músicos. Estes espaços são fundamentais no seu desenvolvimento artístico, permitindo-lhes obter visibilidade no contexto da “jazz scene”. Encontram-se geralmente configurados de modo a evidenciar o papel central dos músicos na jam session. Por exemplo, o bar do Lenox Lounge encontrava-se numa sala distinta daquela reservada à performance musical. No caso do Small’s, o palco assumia um papel central na configuração do espaço. O bar localiza-se lateralmente, e à frente do palco encontram-se cadeiras sem mesas de apoio. Esta configuração assemelhava-se à de uma pequena sala de concertos.

No meu estudo, a análise dos espaços performativos foi determinada pela sua importância, não só enquanto realidade material, mas também enquanto representação (Lévi-Strauss 1953, 1955, 1956; Pocious 1991; Shields 1991). Os clubes e bares de jazz onde realizei observações constituem importantes locais para a fixação de características dos grupos (Halbwacks 1950: 146), sustentando uma memória colectiva que configura e é configurada pela tradição do jazz. Este facto reflecte-se na decoração dos espaços, por exemplo nos quadros de músicos exibidos nas paredes. Esta memória colectiva relaciona-se com o que Feld e Basso designam de "Senses of Place", um conjunto de significados e ligações a lugares que os indivíduos ou grupos partilham (Feld e Basso 1996: 3-11).

A análise de jam sessions enquanto ritual permitiu igualmente observar as convenções que regem o comportamento dos intervenientes e o seu papel na configuração do evento. O líder da “banda da casa” desempenha um papel fundamental na estruturação do evento. Com base no seu poder de decisão, configura a jam session através das relações directas que estabelece com todos os intervenientes (“banda da casa”, outros músicos, audiência, e gerente ou dono do espaço), contratando os músicos que constituem a “banda da casa”, decidindo o repertório do primeiro set, e gerindo a participação dos músicos no segundo e restantes sets. Os músicos que integram a “banda da casa” actuam no primeiro set, induzindo a participação de outros músicos. No contexto da sua participação, os elementos da “banda da casa” trabalham regularmente e conhecem novos músicos. Os músicos que não integram a “banda da casa” participam no segundo e restantes sets da jam session com o intuito de obter algum destaque no meio profissional da performance do jazz em Manhattan. Na sua grande maioria jovens estudantes ou recém-licenciados em estudos de jazz, estes podem ser também músicos amadores, ou até mesmo, em ocasiões mais isoladas, músicos consagrados que aproveitam para actuar ao vivo, encontrar novos talentos e autopromover-se.

Quando as normas que regem o comportamento dos músicos são quebradas, por exemplo, quando um músico tenta afirmar a sua mestria instrumental, negligenciando a interacção colectiva, o grupo poderá aplicar disposições de natureza normativa, com o intuito de regular o funcionamento da ocasião performativa, estabelecendo e reconfigurando valores musicais. As críticas são emitidas geralmente de forma verbal e em privado, ou através de comportamentos mais subtis de comunicação não verbal.

Analisar jam sessions enquanto ritual permitiu igualmente verificar a existência de um repertório padrão, que constitui outro elemento estruturante da ocasião performativa. Este repertório representa uma “língua franca” para a comunicação musical entre os músicos. A partir do conhecimento comum de um conjunto de composições, estes interagem através da improvisação colectiva, utilizando o repertório enquanto matriz melódica e harmónica que informa o processo criativo. Abordei três principais tipos de standards, segundo a sua origem e natureza formal, melódica e harmónica: “blues”, composições que integram o “American Songbook”, e outras composições originais de músicos de jazz. O primeiro tipo engloba composições que, além de comportarem determinadas características estéticas, são constituídos por doze compassos organizados em grupos de quatro. A complexidade da estrutura harmónica de um “blues” varia consoante o compositor e a interpretação dos músicos.

As composições que integram o “American Songbook” são, na sua grande maioria, obras de grande divulgação da primeira metade do século XX, caracterizadas por melodias simples e formas A-A-B-A e A-B-A-C (ou A-B-A-B’), e popularizadas através do teatro musical da Broadway e do cinema de Hollywood. Na sua maioria, são da autoria de europeus-americanos, tendo sido adoptadas pelos músicos de jazz enquanto constituintes do seu repertório. O terceiro tipo de composições abordadas na investigação são da autoria de músicos de jazz, sendo caracterizadas por maior complexidade melódica, harmónica e formal. Do repertório da jam session, evidencia-se um grupo de composições que designei por “repertório central”. Estas composições representam os “standards” mais célebres na “jazz scene”, e têm uma função pedagógica determinante no desenvolvimento musical dos jovens.

O repertório das jam sessions é mais diverso quando comparado com o de concertos formalmente organizados. Contudo, esta diversidade pode variar de acordo com o conhecimento e domínio do repertório por parte dos músicos. O repertório remete os músicos para a história do jazz, nomeadamente para fonogramas e performances de grande divulgação, facilitando a transmissão de padrões estéticos que enquadram o seu desempenho.

(continua na próxima semana)

 

O autor segue a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

Sobre o autor:

Ricardo Pinheiro é guitarrista de jazz, compositor e musicólogo. Licenciou-se em Música pela Berklee College of Music e em Ciências da Psicologia pela Universidade de Lisboa. Doutorou-se em Musicologia/Etnomusicologia pela Universidade Nova de Lisboa. Ao longo do seu percurso académico, estudou, entre outros, com George Garzone, Ed Tomassi, Mick Goodrick, Jerry Bergonzi, Bill Pierce e Salwa Castelo-Branco. Foi colocado na Dean's List do Berklee College of Music, como resultado do seu sucesso académico e musical, tendo sido ainda bolseiro da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, da Fundação para a Ciência e Tecnologia e do Centro Nacional de Cultura. Foi galardoado com o prémio de investigação em Jazz Studies, Morroe Berger – Benny Carter Jazz Research Fund, atribuído pela Rutgers University e o Institute of Jazz Studies, nos Estados Unidos. Leciona atualmente na Escola Superior de Música de Lisboa, sendo o diretor do curso de mestrado em Música. Anteriormente coordenou o mestrado em Ensino da Música e a licenciatura em Jazz e Música Moderna da Universidade Lusíada de Lisboa. No plano académico, tem apresentado inúmeras comunicações, workshops e artigos, em Portugal e no estrangeiro, sobre jazz, cruzando perspetivas musicológicas e históricas. Já publicou em revistas científicas internacionais da especialidade, como a Acta Musicologica da International Musicological Society, o Jazz Research Journal e a International Review for the Aesthetics and Sociology of Music. É autor dos livros "Jazz Fora de Horas: Jam Sessions em Nova Iorque” (2012) e “Perpetuating the Music: Entrevistas e Reflexões Sobre Jam Sessions” (2013), obras que ajudam a iluminar a importância dessa prática tão característica do jazz.

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