Lua Cheia #5, 11 de Agosto de 2022

Lua Cheia #5

Mil tons de Nascimento

texto: Rodrigo Brandão / fotografia: Brian Jackson

Natural de São Paulo, Rodrigo Brandão é performer de spoken word e nesta colaboração com a jazz.pt faz uma ponte com a música brasileira e referências pessoais do jazz. Na quinta edição da série “Lua Cheia”, Rodrigo Brandão escreve sobre um dos maiores nomes da canção brasileira, Milton Nascimento.

Transmitindo aos vivos diretamente de Pindorama, mais especificamente da Cidade Maravilhosa, que no fim de semana passado recebeu A Última Sessão De Música. Trata-se da digressão de despedida de Milton Nascimento, um dos maiores nomes da canção brasileira, na verdade mundial, de Todos Os Tempos. Passou por Portugal há pouco, e se estende por muitas cidades, países e continentes, até culminar na sua Belo Horizonte amada, em 13 de novembro próximo.

A previsão é de uma tempestade de emoção no estádio Mineirão, afinal Nascimento nasceu no Rio, mas se moldou em Minas. Tanto que as Geraes geraram dois discos de devoção explícita, em 1975 e 1976. O artista apelidado Bituca torna sua terra de adoção em metáfora formosa para a família adotiva que o criou em solo sagrado, de modo matuto. Isso é muita coisa, porque nunca houve nem haverá alguém mais mineiro do que Milton! Sua música é Minas Gerais. 

E dentro de tal estado, tanto físico quanto de espírito, cabem muitos estilos, uma pororoca de parcerias, várias facetas, um sem fim de sonoridades... tamanho o talento desse totem. Sem falar da sua famosa e consistente generosidade artística, através da qual nomes importantes como o conterrâneo grupo Uakti, e muitos mais, ganharam asas pra voar por si só. Como se não bastasse sua vasta contribuição pessoal, também temos tanto a agradecer pelas pontes que pavimentou. 

Comovente notar todos esses elementos em ação durante sua atuação atual. À beira dos 80 anos, que completa em 26 de outubro, Milton mantém sua essência e sua potência perante as inevitáveis imposições da idade. Apoiado por uma banda onde diferentes gerações, estilos e tons de pele coabitam despojados, ele entrega uma porção significativa do concerto a um crooner convidado: o jovem cantor Zé Ibarra, da banda Bala Desejo, nova sensação do pop carioca, que também pisou em Portugal recentemente.

Palmas para a formação, que se esforça com esmero na árdua tarefa de carregar a tocha da montanha de músicos míticos que adornam a discografia dourada de MN. Papo de dinastia de fato, formada por assinaturas do calibre de Robertinho Silva, Airto Moreira, Nivaldo Ornelas, Luiz Alves, Wagner Tiso, Ivan Conti vulgo Mamão, Pedro Santos vulgo Sorongo, Paulo Braga, Toninho Horta, Raul de Souza, e o nosso Naná Vasconcelos.

Sem falar nos estrangeiros!

Chama atenção em especial uma outra dobradinha de discos do já mencionado, e muito inspirado, período pós-"Clube da Esquina", o mais emblemático de toda sua obra: "Native Dancer" e "Milton". Nesse par de pedradas, ele forja forte parceria com Wayne Shorter e Herbie Hancock, dois dos maiores dentre os monstros sagrados até hoje em atividade, como certamente sabem os leitores dessa Lua e da jazz.pt em seu todo. Mas a lista também inclui Ron Carter, Hubert Laws, Jack DeJohnette, e até a soberana Sarah Vaughan, que gravou "Amor e Paixão" em dueto com nosso herói no último disco de sua carreira, "Brazilian Romance", que destaca na capa a presença do brasileiro.

A verdade é que, além de radiantes, essas alianças foram fundamentais na missão de propagar a palavra. Ajudaram a música de Milton a chegar pra muito mais gente, e seguir relevante, ecoando eternidade afora. O festejado encontro com Björk, lá no longínquo 1998, é um exemplo do alcance da arte dele, e como esse há tantos... Tenho plena convicção de que qualquer pessoa de Três Pontas, sua cidade-referência, no interior do estado de MG, pode contar um caso desse tipo.

Eu mesmo, que nunca estive lá, me lembro de mencionar à cantora / compositora / beatmaker norte-americana Georgia Anne Muldrow que havia lido uma entrevista sua que mencionava o mineiro maior como influência, e ouvir em resposta ela "soltar a voz nas estradas", cantando "Bridges", adaptação para o inglês de "Travessia", primeiro sucesso de Nascimento. Não à toa, foi essa a canção escolhida também pela islandesa para uma regravação arranjada pelo mesmo Eumir Deodato que assina a versão original. 

Todos esses devaneios desfilaram à minha frente no decorrer do concerto, enquanto, emocionado, me dava conta da amplitude de tão gigante jornada. Nem mesmo a acústica complicada e a ausência de mojo da arena que abrigou esse verdadeiro ritual foram páreo para o carisma do cantor, e o carinho do público, que congregou massivamente. A aura no ar era de devoção.

E, se existem tons azuis, de inevitável melancolia pelo canto do cisne, é mais por nós, que vamos perder a possibilidade da performance; pois também tem muita alegria em testemunhar tão retumbante retirada, gritantemente gloriosa, em todas as cores cabíveis na aquarela do Brasil. Bituca merece tudo isso e muito mais!

A quem por ventura me disser que não se abalou com esse show, qualquer um deles, todos eles, respondo que é mentira ou nasceu sem coração. É muito arrebatador assistir, sentir e saber que, nessa e noutras noites tantas, tem um novo Nascimento, mais uma manifestação daquela que a lendária Elis Regina disse ser “a voz de Deus”. Difícil discordar dela... Milton é mesmo um milagre.

Agenda

28 Setembro

Granular Bastards

Oficinas do Convento - Montemor-o-Novo

28 Setembro

Pedro Alves Sousa, Hernâni Faustino e João Lencastre

Cosmos Campolide - Lisboa

28 Setembro

João Pedro Coelho “Crónicas”

Hot Clube de Portugal - Lisboa

29 Setembro

Mariana Dionísio & João Pereira “Tracapangã”

Café Dias - Lisboa

29 Setembro

Granular Bastards

O'culto da Ajuda - Lisboa

29 Setembro

Cícero Lee Trio feat. Desidério Lázaro

Drama Bar Lounge - Cascais

29 Setembro

Helena Espvall, José Lencastre e Maria da Rocha

Cossoul - Lisboa

29 Setembro

Conundrum: Pedro Melo Alves, Ignaz Schick

ZDB - Lisboa

29 Setembro

Quarteto Cabaud / Marques

Hot Clube de Portugal - Lisboa

30 Setembro

Apophenia

Cossoul - Lisboa

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