Inquiet Ensemble, 4 de Agosto de 2022

Inquiet Ensemble

Que essa coisa é que é linda

texto: António Branco / fotografia: Manuel Roberto

A Associação Cultural e Recreativa Convívio, sediada em Guimarães, acaba de editar um disco do Inquiet Ensemble que presta tributo ao cantor, compositor, poeta, arranjador, produtor e agitador cultural José Mário Branco. A este propósito, a jazz.pt conversou com César Machado, ex-Presidente e atual dirigente do Convívio, coordenador do projeto.

O Inquiet Ensemble (na foto abaixo), quinteto formado por  Miguel Calhaz (voz e contrabaixo), Ricardo Formoso (trompete), João Mortágua (saxofone alto), Mauro Ribeiro (guitarra) e Alexandre Coelho (bateria), acaba de editar um disco que presta tributo ao cantor, compositor, poeta, arranjador, produtor e agitador cultural José Mário Branco (1942-2019), pela mão da Associação Cultural e Recreativa Convívio, sediada em Guimarães. “Que dia é hoje? Homenagem a José Mário Branco” resulta da gravação do concerto realizado a 30 de abril de 2021, Dia Internacional do Jazz, no CAE São Mamede, em Guimarães. Entre as peças escolhidas para estas releituras estão “Travessia do deserto”, “Inquietação”, “As canseiras desta vida”, “Eu vi este povo a lutar (A Confederação)”, “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” e “Ser solidário”.

Na cidade-berço, as celebrações do Dia Internacional do Jazz são enquadradas nas comemorações do 25 de Abril, Dia da Liberdade, pela Câmara Municipal de Guimarães, em articulação com diversas associação culturais, no âmbito do programa “Abril com Cantigas do Maio”.

A obra de José Mário Branco é singularmente propensa a tratamento jazzístico, tão caro ao compositor. «Acreditamos que o jazz é uma música de e da liberdade. O abraço a José Mário Branco é, provavelmente, um dos melhores exemplos de como esses dois universos, o jazz e a liberdade, se cruzam naturalmente», refere César Machado, ex-Presidente e atual dirigente do Convívio.

Entrevistado em novembro de 1980 para o jornal Se7e, José Mário Branco afirmou pretender estreitar laços criativos com o jazz: «Sinto grandes virtualidades no encontro da canção portuguesa com o jazz e com o teatro e é nesse sentido que quero trabalhar.» Relativamente ao jazz, admitiu não o fazer com a assiduidade desejada, tendo referido na ocasião os encontros com Rui Cardoso, José Duarte, Manuel Jorge Veloso, Raul Calado, e com os músicos Steve Lacy e Steve Potts. Anos mais tarde, ao jornal Público, diria: «Eu fui influenciado por muitas coisas, desde a música clássica, pois aprendi em pequeno a tocar violino, e, mais tarde, pela música étnica, pela música brasileira, pelo jazz…»

Esta homenagem a José Mário Branco, que resultou no álbum agora editado, nasce em 2019 e coube a César Machado a responsabilidade pela direção do projeto, preparação do concerto e edição do CD, enquanto Presidente do Convívio. Machado continuou a assumir aquela direção para a obra de Adriano Correia de Oliveira, preparado a partir de 2021, com concerto e gravação em 2022. «Daqui para a frente é bem provável que continue ligado a esta iniciativa a julgar pelo que vem sucedendo», diz-nos o próprio.

Toda esta história remonta aos alvores do Guimarães Jazz, que nasce em 1992 por desafio apresentado pelo Convívio ao Município de Guimarães, que foi aceite, dando origem a uma parceria que se mantem ininterrupta desde os primeiros momentos. O espaço sede do Convívio – o Café Concerto – tornou-se um local especial para inúmeros músicos, portugueses, europeus, americanos, com numerosas e históricas jam sessions. «Sobretudo para os nossos jovens e promissores músicos que todos os anos passam por cá. Todos referem o quanto são tocados pelo local», salienta César Machado. É dessa energia que nasce do Guimarães Jazz e que irradia para o Convívio, que fez nascer a Escola de Jazz do Convívio, na esteira de Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012. No ano seguinte, o Convívio realiza a primeira edição do Festival O Verão É Jazz. A partir de 2016 o Convívio coloca Guimarães na rota do Dia Internacional do Jazz.

Entretanto, o município vimaranense adota um modelo de comemorações do 25 de Abril que conta com propostas apresentados e criadas por várias associações culturais. É neste contexto que o Convívio vem cruzando o Dia Internacional do Jazz com as comemorações do 25 de Abril. «Isto anda tudo ligado», diria o escritor e jornalista Eduardo Guerra Carneiro.

Já José Mário Branco cantava em “Inquietação: «Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer / Qualquer coisa que eu devia resolver / Porquê, não sei / Mas sei / Que essa coisa é que é linda.»

Sobre tudo isto, a jazz.pt conversou com César Machado.

Em que circunstâncias surgiu esta oportunidade de homenagear José Mário Branco?

Pela mão do Convívio, Associação Cultural, a partir de 2016 Guimarães passou a integrar a conjunto de cidades de todo o mundo que celebram o Dia Internacional do Jazz. A 30 de Abril o DIJ passa por cá e vai daqui para o mundo via streaming, através dos canais do evento patrocinado pela UNESCO. Entretanto, o Município de Guimarães adotou um modelo de organização das comemorações do 25 de Abril que conta com a participação de várias associações culturais do concelho. Nas propostas apresentadas para esse ciclo comemorativo, que se estende até ao dia 1 de maio, o Convívio tem procurado cruzar a celebração da Liberdade e do Jazz num mesmo momento, a 30 de abril. Recorde-se que o Convívio está ligado ao Jazz desde há muito tempo – é entidade parceira do Guimarães Jazz, festival que nasceu de um desafio apresentado à Câmara pelo Convívio, justamente. A parceria com o município na organização do festival mantem-se desde antes da primeira hora. No cruzamento da celebração do jaz e da liberdade foi possível passar-se pela obra de José Afonso, (com Marco Figueiredo e Pedro Emanuel Pereira abordando a sua música, pelo lado do piano jazz e do piano clássico), ouviu-se Charlie Haden (“The Ballad of The Fallen”) com o North Camels Jazz Ensemble, entre outros. O falecimento de José Mário Branco tornou “obrigatória” a abordagem da sua obra no concerto que deveria ter acontecido em 2020. A pandemia, porém, obrigaria a adiar para 2021. O resultado está neste CD, gravado ao vivo pelo Inquiet Ensemble “Que dia é hoje?”. Um trabalho que é filho desse casamento entre as celebrações do jazz e da liberdade.

A formação que se apresentou no concerto que deu origem ao disco já existia ou foi expressamente constituída para a ocasião?

A formação dirigida pelo Miguel Calhaz (voz, contrabaixo e direção musical) foi especialmente constituída para este projeto. Aliás, o nome da formação Inquiet Ensemble diz ao que vem; e vem do nome da icónica e enorme canção “Inquietação”. Os músicos Ricardo Formoso, no trompete, João Mortágua, nos saxofones, Mauro Ribeiro, na guitarra, e Alexandre Coelho, na bateria, foram escolhidos tendo em conta as suas qualidades e sensibilidades artísticas, como a sua identificação com este tipo de projeto, que não é neutro, é bom dizê-lo. É José Mário Branco e é o 25 de Abril, abraçados no jazz a 30 de abril.

José Mário Branco era um apreciador de jazz e dos seus mestres, sobretudo do pós be-bop. A sua música, de tão rica, presta-se, de facto, a abordagens jazzísticas...

Na área dos nossos grandes tocantores, José Mário Branco será, porventura, o músico mais próximo e mais influenciado pelo jazz. O disco “Ser Solidário” é, apenas, uma boa prova. “Maiden Voyage”, de Herbie Hancock, e o grande blues em que se transforma a “Travessia do deserto”, não surgem ali por acaso. É bom recordar que teve quase sempre bons músicos de jazz nas suas formações. Há arranjos e harmonizações que JMB traz consigo há imenso tempo, para a sua obra e para a de outros. Cantigas do Maio, de José Afonso tem lá essa marca, na direção musical singular que lhe traz JMB. Zé Mário era, reconhecidamente, um caso à parte, um músico enciclopédico que assumia claramente ser a sua música devedora de impressionistas, como Debussy, ou próximos, como Ravel, e muitos outros; então do jazz são muitas as influências vindas de muitos dos seus maiores nomes. Mas estão lá os Beatles ou Frank Zappa & Mothers of Invention ou The Chicago Transit Authority. Curiosamente, nunca vi ninguém citar o nome dos Chicago com este rigor. Era um músico atento a tudo o que se fazia nas diversas áreas. O modo como salienta a importância dos “companheiros” Paul Simon, Peter Gabriel e Sting no resgate da música pop quando andou “muito de negro” é sintomático. José Mário Branco afirmava claramente que não seria possível compor o que compunha sem ter ouvido todos estes nomes e muitos mais. Sim, era um claro devoto do jazz. Ora, não existe a figura de alguém que ama o jazz que não ame igualmente muitas outras músicas, é uma não existência. Como José Mário Branco, músico enciclopédico assim, disso é difícil encontrar. Junta muita informação, conhecimento e sabedoria. É obra!

Como bem assinala nas notas que acompanham o disco, o jazz é uma música de e da liberdade... Esta homenagem cruza estas duas dimensões?

Se há uma música da liberdade é o jazz, mais do que qualquer outra. É da sua natureza transpor fronteiras, assimilar outras músicas, abordá-las tratando-as na sua linguagem, romper com modelos rígidos pré-estabelecidos.  Dentro de casa, com admirável “sofreguidão”, registaram-se sucessivas revoluções em escassas dezenas de anos. O que permitiu ter num mesmo disco os grandes Thelonious Monk, John Coltrane e Coleman Hawkins, por exemplo. Ou Duke Ellington com Coltrane. O que significariam estes encontros se “transpostos” para a música erudita? Para além disso, o jazz esteve associado e foi voz privilegiada de movimentos cívicos e de lutas pelos direitos humanos que não se confinam apenas às “questões raciais”, embora haja sido a “arte americana”; de maior afirmação da grande comunidade “afro-americana”, inquestionavelmente.

Há planos para que esta homenagem a José Mário Branco possa ter continuidade, prestando tributo a outros autores, por exemplo, nas vésperas das comemorações do 50.º aniversário do 25 de Abril?

Há muito boas expectativas de prosseguir este cruzamento entre o jazz e a liberdade já em 2023. Seria um terceiro tomo, com a apresentação do segundo CD, com a obra de Adriano, já gravado em 2022, e a realização do terceiro concerto gravado ao vivo com obra a definir. Tem sido um trabalho bem preparado, bem cuidado, com ótimas condições técnicas de som e imagem para assegurar a transmissão em streaming para o Dia Internacional do Jazz. A formação Inquiet Ensemble, que gravou o primeiro CD deste projeto, realizou já em 2022 um concerto de homenagem a Adriano Correia de Oliveira, a 30 de abril de 2022, por ocasião do 80.º aniversário do seu nascimento igualmente transmitido para todo o mundo com excelente gravação. Esperamos apresentar o respetivo CD no próximo ano, a 30 de abril, data em que contamos ter em palco um projeto que prossiga os dois iniciais. O Convívio continua empenhado no projeto e há excelentes sinais dos esperados e indispensáveis apoios financeiros e de produção conjunta da parte do município de Guimarães. O balanço do que se fez é muito prometedor, o resultado é muito bem acolhido pelos músicos, pelo Município e, obviamente, pelo Convívio. Tudo aponta para que se continue este trabalho que consideramos de superior importância. Para futuro, seria bom que nos 50 anos do 25 de Abril, em 2024, a celebração da Liberdade pela via do jazz, em Guimarães, fosse uma consequência natural do caminho percorrido. Trabalharemos a favor desse futuro.

Numa altura em que os valores de Abril são vilipendiados por alguns, a cantiga ainda é uma arma?

Sim, a cantiga ainda é uma arma, nunca deixou de ser uma arma. Haja em vista o exemplo de Pedro Abrunhosa num passado recente, tem uns anos, e por estes dias, com o aborrecimento causado a potências estrangeiras por via da adaptação e tradução livres de uma das suas bem conhecidas canções. Recorde-se a importância da canção para os movimentos de luta política no Brasil. “Apesar de Você”, de Chico Buarque ou “Acorda Amor”, explicam tudo. Tenhamos presentes a força de “Acordai”, uma das Heróicas de Lopes Graça/José Gomes Ferreira, nos tempos da troika. Numa época em que alguns dos valores de Abril são postos em causa por novas e velhas forças bem conhecidas de todos, a importância da canção está aí, à nossa frente. Cada geração faz a sua forma de protesto e afirmação também em modo canção, um jeito muito direto de chegar a todos. Há muitas e boas razões para a cantiga continuar a ser uma arma. Tudo depende da bala e da pontaria. Tudo depende da força, e da alegria, como diria o grande José Mário Branco.

Agenda

29 Novembro

Sélène Saint-Aimé

Teatro da Trindade - Lisboa

29 Novembro

Mariana Dionísio e João Pereira “Tracapangã”

Hot Clube de Portugal - Lisboa

30 Novembro

Sul

Museu Nacional Soares dos Reis - Porto

30 Novembro

Miguel Ângelo Quarteto

Teatro Municipal de Bragança - Bragança

30 Novembro

Gonçalo Sousa e Francesca Guatteri

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

30 Novembro

Orquestra Jazz de Matosinhos com Chris Cheek

Casa da Música - Porto

01 Dezembro

Manuel Oliveira, Rodrigo Correia, Alexandre Frazão e Tomás Marques

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

01 Dezembro

Sul

Hot Clube de Portugal - Lisboa

02 Dezembro

João Lencastre Free Celebration

SMUP - Parede

02 Dezembro

Júlio Resende

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

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