Lua Cheia, 12 de Julho de 2022

Lua Cheia

Um mago chamado Mazurek

texto e fotografia: Rodrigo Brandão

Rodrigo Brandão é performer de spoken word e nesta colaboração com a jazz.pt faz uma ponte com a música brasileira e outras referências pessoais do jazz. Depois de artigos dedicados a Naná Vasconcelos, Brian Jackson e Guilherme Granado, nesta quarta edição da série “Lua Cheia” Rodrigo Brandão escreve sobre o seu “Sun Ra pessoal”: Rob Mazurek.

Lembro de ter lido lendas & mais lendas sobre um dos (muitos) superpoderes do mítico Sun Ra, quando ouvi a confirmação da boca do próprio Marshall Allen, seu braço direito por quase quarenta anos: como um exímio jogador de sinuca canta qual a caçapa que determinada bola vai cair antes mesmo de dada a tacada, o cidadão chamado Sol sabia ler sua aura e indicar o caminho. Quase sempre quando a própria pessoa nem fazia ideia do trajeto a tomar.

Pois bem, nesse sentido meu Sun Ra pessoal se chama Rob Mazurek.

Quando a gente se conheceu, eu flagrava o cornetista & compositor & músico eletrônico & artista visual & muito mais... Já tinha ouvido alguma coisa do Isotope 217, assistido a estreia do Chicago Underground no Sesc Pompeia, e o encontro inicial com Hurtmold, em 2004.

No ano seguinte, o Rob meio que passou a morar na Zona Oeste da capital paulista, terreiro em que fui feito. Aí calhou uma sintonia de padoca, ninguém nem combinava, e quase todo dia passava a tarde tomando café espresso em profusão e sorvete sem parar (separados e / ou tudo misturado), trocando ideia num fluxo loko, tão intenso quanto espontâneo. 

Durante o decorrer dos dias daquela década, tive o prazer e a honra de conviver e colaborar com esse artista talentoso, generoso, de criatividade transbordante, em um punhado de ocasiões, via de regra com a companhia dos irmãos de música mútuos, Guilherme Granado (entrevistado da Lua passada) e M. Takara; ambos do já mencionado Hurtmold, que pouco à frente formariam com Mazurek o notório trio São Paulo Underground.

Um projeto em especial marcou, pra mim, o período: mais conhecido como Ekundayo, vide o LP lançado pela nova-iorquina Ropeadope, se trata do encontro entre o próprio SPU com meu antigo grupo de rap, Mamelo Sound System, e Mike Ladd, wordsmith e beatmaker fundamental da cena underground na alvorada do século XXI. Começou como Colaboratório, em 2008, e deu tão certo que gerou uma segunda temporada, aí já com a presença multicor de Naná Vasconcelos (tema da Lua inicial). Foi então que essa formação, com espírito Bitches Brew Inna B-boy Stance, entrou no estúdio e saiu com o citado disco, que rendeu ainda um EP 7’ com remixes assinados por Preservation (produtor de Yasin Bey, Ka, Billy Woods) e HPrizm (do seminal art rap combo Anti Pop Consortium).

Mas a grande virada veio depois disso. Mazurek mudou minha vida mesmo em agosto / 2010.

A semana se anunciava especial: no próximo sábado e domingo, ele comandaria uma banda formada pelos suspeitos usuais Maurício e Guilherme, junto aos trutas de Isotope (o baixista Matt Luxx) e Chicago Underground (o baterista Chad Taylor), para acompanhar ninguém menos que Pharoah Sanders, em sua primeira aparição no país em mais de uma década. Prolífico por natureza, Rob realizou tipo três sessões de gravação com essa turma antes da chegada do faraó. E me pediu que escrevesse um ensaio centrado na cidade de São Paulo enquanto meca de criatividade no novo milênio. 

Dois dias depois, de novo no estúdio, quando mostrei o resultado, respondeu, apontando pra cabine do microfone: «entra lá e lê, do jeito que você disse aqui fora agora». Foi nesse instante que eu tomei a estrada pra me tornar o artista de spoken word que posso hoje dizer que sou. Soul. Só que nem sonhava isso naquele instante. Entendi tudo ao olhar, já distante, em retrospectiva. Porque na hora apenas fiz, como ele falou, naturalmente. E esse é o ponto! O que a pessoa faz de melhor é o que ela realiza assim, sem pensar, sabe? Rob sabe.

Foi por isso, e por isso, é que pôs no palco um performer a princípio despreparado, pra pisar em palco quando está em curso uma gira de calibre Coltrane. Mediante prévia permissão do Sr. Tauhid em si, subi e interpretei o tal texto, tête-a-tête com o totem. Recebi uma ovação maravilhosa, que muito me surpreendeu, por ser digna de profissional experiente nessa arte, jamais do turista acidental que eu julgava ser naquela altura. E fluiu tudo tão formoso, em tudo quanté sentido, que a seguir esse grupo, depois denominado The Underground, viajou mundo afora com Pharoah. Existe inclusive um álbum lançado pela Clean Feed que registra a aparição no Jazz em Agosto. E até eu tive outra oportunidade de participar com eles todos, em 2013, numa praça central de SP.

Juntando tudo isso, tenho tristeza por estar fora da cidade quando passar por aqui com sua Exploding Star Orchestra, em 31/07 próximo. No entanto recomendo a quem me lê, que caso esteja em LX, siga rumo Gulbenkian no dito dia. Garanto que vais presenciar um concerto e tanto! O disco de 2020, "Dimensional Stardust", é dinamite dum jeito que foi parar perante os melhores do ano no New York Times até. O mesmo vale para o sensacional Black Monument Ensemble, comandado por Damon Locks, outro super-herói, parceiro constante de Rob Mazurek e presença garantida nas flutuações de elenco da ESO ao longo dos anos.

E, por favor, se você por acaso encontrar com algum deles, diga que deixei um abraço saudoso e cheio de AXÉ.

Agenda

16 Agosto

Marta Rodrigues Quinteto

Centro Cultural de Lagos - Lagos

16 Agosto

Ricardo Toscano e Bruno Santos

Tasca Bela - Lisboa

16 Agosto

Jam Session c/ João Pedro Coelho

Hot Clube de Portugal - Lisboa

17 Agosto

Long ago and far away

Hot Clube de Portugal - Lisboa

18 Agosto

Paulo Santo Quarteto

Hot Clube de Portugal - Lisboa

19 Agosto

Lacerda / Dionísio / Tristão Trio

Praça Central WOW - Vila Nova de Gaia

19 Agosto

Paulo Santo Quarteto

Hot Clube de Portugal - Lisboa

19 Agosto

Vasco Pimentel Trio

Escadas do Quebra-Costas - Coimbra

20 Agosto

Ladrões de Limões

Praça Central WOW - Vila Nova de Gaia

20 Agosto

Filipe Raposo e Orquestra Clássica do Sul

Cine-Teatro Louletano - Loulé

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