(des)encontros com o jazz (e música improvisada) em Portugal #03, 30 de Junho de 2022

(des)encontros com o jazz (e música improvisada) em Portugal #03

A tradição não chega, a inovação não basta; é preciso circular “fora de portas”

texto: Pedro Cravinho

No terceiro texto da sua rubrica “(des)encontros com o jazz (e música improvisada) em Portugal”, o investigador Pedro Cravinho reflete sobre a circulação internacional de músicos e projetos portugueses e revisita o (curto) catálogo da Up Beat Records, editora pioneira fundada e gerida no final dos anos 1990 pelo trompetista Eduardo Santos, precocemente desaparecido.

Ao contrário do que se passou em diversos países europeus ao longo do primeiro século desta música, nos quais as principais multinacionais da indústria fonográfica favoreceram e promoveram mú[email protected] e formações de jazz (e música improvisada) nacionais. As filiais dessas mesmas labels sediadas em território nacional nunca mostraram interesse pelo jazz “made in Portugal”. Pelo menos, assim, os seus catálogos registaram. Talvez seja por isso que os poucos músicos portugueses que tocavam jazz de forma excepcional antes de 1974, como foi o caso de Carlos Menezes, nunca viram os seus “sons” circular “fora de portas.” Relembro as palavras do compositor, pianista e crítico de jazz inglês, Steve Race para a revista britânica Melody Maker, sobre o seu encontro ocasional com o guitarrista madeirense:

«It was the sound of an electric guitar being superbly played. It wouldn’t have surprised me to learn that Tal Farlow was in town. Never since Barney Kessel at the Gaumont State have I heard anyone so completely at home on the instrument and there can be few guitarists in Europe with such a command of exciting and entirely original phrases... Wherever Carlos de Menezes may be playing now ... I hope he will accept my thanks for 16 minutes of really superb modern music. I also hope that he will one day find himself in a band which is even remotely worthy of his own great talent.» (tradução: «Era o som de uma guitarra elétrica tocada de forma soberba. Não me surpreenderia saber que Tal Farlow estava na cidade. Nunca, desde Barney Kessel, no Gaumont State, ouvi alguém tão completamente à vontade no instrumento e devem haver poucos guitarristas na Europa com tanto domínio de frases emocionantes e inteiramente originais... Onde quer que o Carlos Menezes esteja a tocar agora... Espero que ele aceite os meus agradecimentos pelos 16 minutos de música moderna realmente soberba. Espero também que ele um dia encontre em uma banda que seja digna de seu grande talento.») Apesar dos elogios que colheu do crítico internacional, Menezes ficou por conhecer “lá fora”.

Dantes (segundo Zé Duarte, “plural de Dante”), isto é, antes do 25 de Abril de 1974, a culpa era do regime vigente, «da censura, enfim da ditadura.» Mesmo assim, a Secretaria de Estado de Informação, Turismo e Cultura Popular do regime do Estado Novo apoiava pontualmente a realização de alguns eventos ligados ao jazz anunciados sob o lema “Jazz é Cultura.” Depois da Revolução do Cravos ao longo das primeiras décadas em democracia a culpa passou a ser do sistema. Timidamente as primeiras produções discográficas lideradas por mú[email protected] portugueses editadas por labels multinacionais sediadas em Portugal surgem duas décadas após o derrube do regime de Caetano. Desse período, destacavam-se os trabalhos de Bernardo Sassetti, “Mundos” (1996), Carlos Bica, “Azul” (1996), ambos para EmArcy-Polygram/Universal Music Portugal. E de Carlos Martins, “Passagem” (Enja/Dargil, 1996), conforme no Público, António Curvelo (in)formava os seus leitores sobre a importância dessa produção conjunta (o que lhe abre as portas do mercado internacional, ou não fosse o catalogo alemão, o mesmo que apadrinhou a carreira internacional de Maria João).

Obviamente que foram produzidas outras edições discográficas ligados ao jazz (e música improvisada) em Portugal. A cantora Maria João. Um primeiro dedicado aos standards, “Quinteto de Maria João” (Orfeu-Rádio Triunfo, 1983), seguido de “Cem Caminhos” (1985). Com originais, destacou-se o quarteto do pianista António Pinho Vargas, “Outros Lugares” (Polygram, 1983), “Cores e Aromas” (1985), “As Folhas Novas Mudam de Cor” (1987), juntamente com outros títulos, editados pela EMI-Valentim de Carvalho, tal com o Sexteto de Jazz de Lisboa, “Ao Encontro” (Polygram, 1988), gravado no verão do ano anterior por José Fortes no AngelStudio2 e produzido por Paulo Gil (aqui artigo dedicada à sua memória). Seria imprudente não destacar igualmente e o contributo de outros artistas e editoras. Mundo da Canção, com Telectu e Jean Sarbib, “Encounter II”/“Labirintho 7.8” (1990), El Tatu, com o Septeto de Tomás Pimentel, “Descolagem” (1994). A Farol, com Mário Laginha, “Hoje” (1994), a Groove, com Conrad Herwig + Trio de Bernardo Sassetti, “Ao vivo no Festival de Jazz de Guimarães” (1993), e a Numérica, com Carlos “Zíngaro” e Jorge Lima Barreto, “Kits” (1992), André Sarbib, “Coisas da Noite” (1993), e Emílio Robalo, “Oitos Segredos” (1994), assim como Maria Anadon, “Why Jazz?” (1995), e Carlos Barreto, “Impressões” (1996), na Groove-Movieplay, entre muitos, muitos [email protected] artistas.

Mas o objectivo desta rubrica não é indicar todos os trabalhos discográficos ao nível do jazz (e música improvisada) produzidos em Portugal após Abril de 1974 até ao fim do século. Consciente que qualquer processo de seleção é simultaneamente um processo de exclusão. Pretendeu-se apenas contextualizar os parágrafos seguintes desta rubrica (des)encontros com o jazz (música improvisada) em Portugal dedicada à curta, mas intensa, vida (infelizmente, tal como a do seu fundador) da editora de jazz independente, a Up Beat Records. Simultaneamente, dar a conhecer a alguns leitores, noutros casos, talvez, só relembrar, trabalhos discográficos que documentam parte da história desta(s) música(s) em Portugal.

Fundada em Fevereiro de 1998, pelo trompetista português, Eduardo Santos (1968-2000) (na foto), a Up Beat Records foi «feita a pensar nos inúmeros grandes valores do jazz em Portugal que pretendem ver os seus trabalhos editados, mas aos quais as grandes editoras fecham as portas sobre o pretexto que o “jazz não vende.”» Assim como dedicar-se «à promoção de eventos relacionados com o jazz: concertos, workshops, intercâmbios.»

Tratou-se de uma label nacional DIY (Do It Yourself), com sede na cidade Invicta, responsável pela produção de cinco trabalhos discográficos liderado por mú[email protected] nacionais, cuja masterização e edição esteve a cargo de Luís Carlos, nos Estúdios Pinguim do Porto. Quando questionado pela revista ProMúsica «Não tem apoios nenhuns?» Eduardo Santos retorquia: «O apoio é a minha carolice e o meu amor pelo jazz. Propus-me fazer mais qualquer coisa pelo jazz português. Apesar de estar cada vez com mais saúde, faltava uma editora privada que se empenhasse... Em França existem cerca de 28 independentes.»

Devido ao desaparecimento precoce do seu fundador – vítima de acidente de viação – a editora cessou actividade. Mas ao longo do período de actividade da Up Beat (1998-1999) ao nível do jazz (e música improvisada) em Portugal, registou-se também o desaparecimento do violoncelista e contrabaixista, Celso de Carvalho (1950-1998), que para além do trabalho que desenvolveu na “clássica” e outras músicas (Banda do Casaco e Amélia Muge), colaborou com Rão Kyao, António Pinho Vargas, Steve Potts, entre outros. Foi também pioneiro em Portugal da electrificação do violoncelo. Mas a cena jazzística nacional foi igualmente abalada pelo desaparecimento – após doença prolongada – do “pai” do jazz em Portugal, Luís Villas-Boas (1924-1999), conforme na Capital, anunciavam aos seus leitores, Jorge Pinho e Cláudia Silva Santos. Notícia que circulou nos meios de comunicação nacionais.

Ao nível da indústria da música durante esse período, Portugal assistiu à realização das duas primeiras edições do Salão Internacional da Música na Exponor, com 15 mil visitantes (e dois mil profissionais) durante quatro dias em 1998, e 18 mil visitantes (e oito mil e seiscentos profissionais) durante cinco dias em 1999. No campo artístico, entre (muitas) actividades, destacava-se a realização de uma Mostra de Música Improvisada por ocasião do quinto aniversário da Fonoteca da Câmara Municipal de Lisboa, que incluiu diversos nomes nacionais e estrangeiros de nesta área, nomeadamente Carlos “Zíngaro”, Hugh Davies, Evan Parker ou Steve Lacy. O mesmo se verificou ao nível da Expo 98, que entre os seus muitos eventos se destacava a “Quadrofonia do Tempo”, «uma interactividade visual e sonora» liderado por trompetista Laurent Filipe, que criou uma «geografia de cores», e que contou com mais três momentos distintos através da colaboração de Carlos Martins (saxofones tenor e soprano) que associou o jazz à poesia de Al Berto e ao rap – pela voz de Pacman, de Bernardo Sassetti (piano) que «pegou no cinema mudo», e de Carlos Barreto (contrabaixo) que «aliou a música à dança». A estes músicos juntaram-se em palco, Mário Delgado (guitarra) e José Salgueiro (percussão). Ao nível de vendas de discos o ano de 1999 foi igualmente importante para o jazz (música improvisada) em Portugal com a atribuição do galardão de Disco de Prata – venda superiores a 10 mil unidades – ao álbum de Maria João e Mário Laginha, “Cor” (Verve-Polygram, 1998), conforme a imprensa anunciou, uma encomenda da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses.

Relativamente à actividade da Up Beat, a editora estreou-se com o CD de estreia da cantora Fátima Serro, “Day By Day” (UB 1001), produzido pela própria e pelo pianista Paulo Gomes. Tratou-se de um álbum de standards no qual, à cantora e ao pianista, se juntaram, Eduardo Santos [trompete e fliscorne (& produtor executivo)], José Lima (contrabaixo), Bruno Pedroso e Mário Teixeira na bateria (em faixas diferentes). Sobre o lançamento de “Day By Day”, Zé Duarte, grafava: «O trabalho de dois quintetos, é individual e colectivamente, merecedor do melhor aplauso. Um grupo de bons músicos a tocar boa música, música das primeiras décadas deste século, que vai durar no próximo, que os meios portugueses de informação ignoram mas com muita aceitação nos países desenvolvidos.» Gravado em Lisboa nos estúdios Xangrilá em Dezembro de 1997, foi editado e masterizado no mês seguinte. Nas liner notes,Zé Duarte rematava, «CD merecido e só possível graças ao esforço de músicos colegas (em particular de Eduardo Santos) perante o desprezo da indústria. Novas vozes, novos instrumentalistas, esperam pela sua vez sem que o poder discriminatório da indústria, que é poder, dê sequer por eles. Inqualificável.»

O segundo CD da Up Beat, “Jazz Me Blues” (UB 1002), foi gravado pela banda Dixie Gang. Uma formação com «paixão pelo Jazz tradicional de New Orleans (dixieland)» bastante activa ao longo da década de 1990, após apresentação regular no Ritz Club (da capital) e passagem pelo Guimarães Jazz, pela Expo 98, e outros palcos nacionais e internacionais. Gravado na Gare Marítima de Alcântara, por João Viana (cornetim e voz) – médico de profissão, viciado no jazz há muitos anos –, o dinamarquês Claus Nymark (trombone), radicado em Portugal desde 1986, Paulo Gaspar (clarinete), solista da Banda da Armada, Jacinto “Fast Tongue” Santos (tuba), igualmente solista da Banda da Armada, o “professor universitário”, David Rodrigues no piano e voz, Silas de Oliveira (banjo, voz), “jornalista de profissão” com as suas raízes nos blues e ainda o baterista Rui Alves. Aos quais se juntaram: Eduardo Santos [trompete (& produtor executivo)] em “I’ve Found a New Baby”, Mário ‘Netinho’ Neto (banjo tenor) em “Since My Best Gal Turned Me Down”, e a colaboração especial de Alan Thomas (piano) em “Ol’ Stack O’ Lee Blues”, que com os seus «35 anos de experiência a tocar este estilo no Reino Unido se tornou... num membro honoris causa da banda, fruto dos seus arranjos, ideias e conselhos.»

Outra História” (UB 1003), do projecto da Conferência dos Sons liderado pela cantora, Fátima Serro e pelo pianista Paulo Gomes, foi o terceiro trabalho editado pela Up Beat Records. Gravado, segundo as liner notes, nos Aura Estúdios em Paços de Brandão em Novembro de 1996, e masterizado três anos mais tarde, em Janeiro de 1999. Aos líderes, juntaram-se, Rolf Delfos (saxofones), Bernardo Moreira (contrabaixo), e participação especial de Paulo Pinto (guitarra) nas faixas “Nojo de Mim” e “Outra História” e de José Luís Rego (saxofone alto), na faixa “Outra História”.

“Politonia” (UB 1004) foi projecto seguinte lançado pela Up Beat liderado pelo guitarrista José Soares, juntamente com Franco Piccianno (piano), Massimo Cavalli (contrabaixo) e Nelson Sobral (bateria). Gravado em Lisboa durante Maio de 1998 nos estúdios da Gravisom, trata-se de um álbum de originais, apenas com um standard, “Goodbye Pork Pie Hat” (de Charles Mingus). Tal como os trabalhos anteriores desta editora, a edição e masterização foi realizada no Porto nos Estúdios Pinguim.

Olhar” (UB 1005), de Carlos Barreto foi a última produção da Up Beat Records, que contou com Bernardo Sassetti (piano), Perico Sambeat (saxofones alto e soprano) e Mário Barreiros (bateria). Tratou-se de um álbum de originais (da autoria dos vários membros do quarteto) gravado em Lisboa no Estudos Xangrilá e tal como todos os trabalhos anteriores da Up Beat foi editado e masterizado nos Estúdios Pinguim. Barreto quando questionado por Patrícia Lemos «com nomes tão sonantes como os que pertencem a este quarteto, vocês preferiram ligar-se a uma jovem editora independente chamada Up Beat. Como é que a ser essa experiência?» O contrabaixista respondia, «sou amigo do Eduardo Santos há vários anos. Soube da existência dessa editora, que julgo ser a única neste momento a tratar da área do jazz... As grandes editoras estão sempre a borrifar-se para o jazz.»

A relevância da escolha deste tópico prendeu-se com duas questões. Em primeiro lugar, realçar o carácter DIY da Up Beat Records, visto que antecedeu o aparecimento de editoras portuguesas independentes como a Clean Feed e a Tone of a Pitch, às quais, gradualmente, outras se seguiram até aos dias de hoje (tópico para uma próxima rubrica). Hoje, passadas mais de duas décadas desde que Eduardo Santos criou a Up Beat, ou seja, atingido quase o primeiro quarto do século, é admirável o panorama nacionais das editoras de jazz independentes. Em segundo lugar, devido à actualidade dos princípios que estiveram na base da criação da Up Beat. Dedicar-se ao apoio dos mú[email protected] de jazz (e música improvisada) em Portugal que pretendiam ver os seus trabalhos editados, mas aos quais as grandes editoras fecha(va)m as portas sobre o pretexto que o jazz (e música improvisada) não vende.

Ao terminar estas linhas, consciente do número de novas editoras independentes de jazz portuguesas, e suas excelentes produções, surge a questão mas o que fazer para que esses mú[email protected] e projectos circulem de forma regular “fora de portas”? Uma melhor organização do sector (aqui) e incentivos à exportação da nossa cultura jazzística. Sim, “Jazz é Cultura.”

 

O autor segue a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

Sobre o autor:

Pedro Cravinho é cofundador e membro da Direção da Rede Portuguesa de Jazz – área da investigação. Diretor dos Arquivos da Faculty of Arts, Design and Media da Birmingham City University (BCU). Investigador Sénior em Estudos de Jazz no Birmingham Centre for Media and Cultural Research (BCMCR), co-líder do BCMCR Jazz Studies e History, Heritage & Archives Research Clusters. Investigador do CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar “Cultura, Espaço e Memória” (Portugal) da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Membro das direções do National Jazz Archive (Inglaterra), Scottish Jazz Archive (Escócia), da Duke Ellington Society (Reino Unido) e membro do West Midlands Archives (Inglaterra). Cofundador das conferências internacionais ‘Documenting Jazz’ e autor de diversos textos sobre jazz em Portugal. O último, acabado de ser publicado, “Encounters with Jazz on Television in Cold War Era Portugal: 1954 – 1974” (Routledge, 2022), é dedicado a Manuel Jorge Veloso.

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