Jazz Vária #27 (Liberation Music Orchestra/Charlie Haden), 29 de Junho de 2022

Jazz Vária #27 (Liberation Music Orchestra/Charlie Haden)

¡No pasarán!

texto: António Branco

Já passou mais de meio século desde que o contrabaixista Charlie Haden, integrado no quarteto de Ornette Coleman, dedicou “Song for Che” aos movimentos de libertação das então colónias portuguesas em África, durante o primeiro Cascais Jazz. Nos tempos politicamente incertos em que vivemos, importa recordar a Liberation Music Orchestra e a sua mensagem de inconformismo e luta contra tantos “ismos”.

Vivemos num tempo inquietante, em que nuvens plúmbeas se acumulam sobre as nossas cabeças sem que muitos – ocupados com assuntos certamente mais prementes – sequer se apercebam. A polarização ideológica é crescente em muitos lugares do mundo – já não somos um oásis, lembremo-nos – e a discussão política assume contornos cada vez mais agressivos e intolerantes à diferença. Numa sociedade movida por medos e ressentimentos agitam-se fantasmas do passado, emergem sanhas culpabilizadoras e banalizam-se discursos de ódio contra um inimigo visível: o outro, o estrangeiro, o diferente, o que desafia a norma. A desinformação (tão antiga como a informação) e o simplismo, assentes na impreparação e em conceções obscurantistas, alimentam a cada minuto a grande cloaca digital.

Nos Estados Unidos, o mesmo poderia ser dito para todos os anos entre 1963 – assassinato, em Dallas, do presidente Kennedy – e 1974 – resignação de Nixon, após o escândalo Watergate. Neste lapso temporal, cavou-se um grande fosso entre gerações e partidos políticos. Foram os tempos dos protestos contra a Guerra do Vietname, a Guerra Fria e as ditaduras estrangeiras, os movimentos dos direitos cívicos, o rescaldo do Maio de 1968 e da Primavera de Praga, a emergência das preocupações ambientais. Quando os Beatles tomaram a América, o jazz criativo lutava para sobreviver e a sua componente de protesto, que, sublinhe-se, estava lá desde os alvores, ganhou particular proeminência nesta era de agitação e confronto.

No final da década de 1960, Charlie Haden (1937-2014), genial contrabaixista e homem de inabaláveis convicções políticas, escreveu “Song for Che” como tributo ao revolucionário argentino capturado e executado em 1967, na Bolívia. (Cabe recordar que no documentário “My Enemy's Enemy”, realizado em 2007 por Kevin Macdonald, é alegado que o criminoso de guerra nazi Klaus Barbie terá aconselhado e possivelmente ajudado a CIA a capturar Guevara.) A primeira gravação de “Song for Che” é um registo ao vivo com Ornette Coleman, embora a versão mais conhecida seja a incluída no álbum “Liberation Music Orchestra”, editado em 1969 pela Impulse!, formação cuja génese congeminava há vários anos.

Estabelecendo relações com a Guerra do Vietname, Haden inspirou-se em canções populares e revolucionárias do tempo da Guerra Civil de Espanha – como “El Quinto Regimiento”, “Los Cuatro Generales” e “Viva la Quince Brigada” (agrupadas num “medley” de 21 minutos) – para construir um universo sonoro que bebe no jazz, na folk e naquilo que se viria a chamar “músicas do mundo” (expressão com que embirro), mas também na música urbana de Kurt Weill e nos conceitos politonais de Charles Ives.

As peças refletem episódios vividos pelas forças internacionais que lutaram ao lado do governo democraticamente eleito em Espanha contra os fascistas liderados por Franco, incluindo os três milhares de americanos que integravam a brigada Abraham Lincoln. Haden será o estratego, mas a grande força criativa do álbum é Carla Bley, que escreveu originais, arranjou versões e contribuiu com um fenomenal trabalho pianístico. Bley tinha grangeado prestígio com a música para “A Genuine Tong Funeral” (1967), do vibrafonista Gary Burton. Ao tempo das sessões de gravação da LMO, trabalhava afincadamente no seminal “Escalator Over the Hill”.

Esta primeira encarnação da LMO conta com os préstimos de um leque impressionante de talentos: os trompetistas Don Cherry e Michael Mantler, o trombonista Roswell Rudd, o trompista Bob Northern, o tubista Howard Johnson e os palhetistas Perry Robinson, Gato Barbieri e Dewey Redman, o guitarrista Sam Brown, o baterista Paul Motian e o percussionista Andrew Cyrille.

Na célebre passagem pelo primeiro Cascais Jazz – festival organizado por Luís Villas-Boas, com colaboração com o fadista João Braga e Hugo Lourenço –, a 20 de novembro de 1971 (fez 50 anos), Haden, inicialmente renitente em deslocar-se a Portugal, decidiu aproveitar a oportunidade para protestar contra o regime ditatorial então encabeçado por Marcello Caetano, dedicando “Song for Che” aos movimentos de libertação de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Foi detido e interrogado pela PIDE. Viria a ser libertado devido à intervenção do adido cultural dos Estados Unidos em Lisboa e expulso do país. Já nos Estados Unidos foi interrogado pelo FBI.

Cinco anos mais tarde, sendo então Portugal uma jovem e instável democracia, viria a gravar com Paul Motian, “For a Free Portugal”, incluída no álbum de duetos “Closeness”, que inclui também colaborações com Ornette Coleman, Keith Jarrett e Alice Coltrane.

Foi preciso esperar até 1982 para que Haden ativasse de novo o conceito e a LMO reemergisse como denúncia ao apoio da execrável administração Reagan à direita de El Salvador e aos “contras” na Nicarágua. E isso aconteceu com “The Ballad of the Fallen”, editado no ano seguinte com selo da alemã ECM, registo de estúdio. O disco deve o seu título a um poema encontrado no bolso de um estudante salvadorenho assassinado pela Guarda Nacional durante a operação que pôs termo à ocupação da Universidade de El Salvador (em castelhano, “Milonga del fusilado”, que foi também musicado).

Haden olha também para a revolução portuguesa e presta-lhe tributo com uma versão de “Grândola, Vila Morena”, de José Afonso, um dos sinais emitidos pela rádio para dar continuidade às movimentações militares que puseram fim a quase meio século de opressão fascista.

Os muito emotivos temas que abrem e fecham o álbum são uma homenagem ao povo catalão e à sua luta pela independência: “Els segadors” (em português, “Os Ceifeiros”) é o hino nacional de Catalunha e “La Santa Espina” uma sardana (dança de roda cujas origens parecem remontar ao século XIII) que poderia ser o hino popular. Do Chile surge “El pueblo unido jamás será vencido” e, como no disco anterior, é de novo recordado o conflito espanhol com “Si me quieres escribir” e “La Pasionaria”. De novo com arranjos de Bley (que, tal como Haden, também contribuiu com originais), a dúzia de peças conta com intervenções de músicos superlativos como Don Cherry, Dewey Redman, Michael Mantler e Paul Motian. Mesmo se descontarmos a carga política (e não é aconselhável que o façamos), a música é absolutamente deslumbrante.

O terceiro álbum da LMO, “Dream Keeper”, foi editado pela Blue Note em 1990, ano em que Haden grava “Dialogues” com Carlos Paredes (apesar de um momento histórico foi, de facto, uma oportunidade perdida; ambos já se haviam encontrado, em 1978, no Hot Clube de Portugal). Mais uma vez Carla Bley escreveu todos os arranjos para um conjunto de músicos onde, para além dos reincidentes Motian e Redman, pontificam o trompetista Tom Harrell, os saxofonistas Joe Lovano e Branford Marsalis, o trombonista Ray Anderson e a pianista Amina Claudine Myers. Os olhares apontaram-se então para a situação na África do Sul, onde Nelson Mandela tinha acabado de ser libertado, após quase três décadas anos preso na ilha de Robben, e novamente para El Salvador.

“Liberation Music Orchestra: The Montreal Tapes”, quarto registo da formação, foi editado pela Verve em 1999 e conta com gravações efetuadas por alturas do disco anterior, durante vários dias consecutivos no Festival Internacional de Jazz de Montreal, que então prestava merecido tributo ao contrabaixista. São aqui revisitadas duas longas suítes: “We Shall Overcome” (de “Dream Keeper”), emblema de Pete Seeger, outro insigne contestatário, e “La Pasionaria” (de “The Ballad of the Fallen”).

No álbum “Not In Our Name” (2005), editado também pela Verve, Haden expressa uma posição de firme oposição à invasão norte-americana do Iraque – baseada no argumento, fabricado pelos falcões que rodeavam o presidente Bush (filho), de que Saddam Hussein continuava a produzir armas de destruição em massa –, espoletada na infame Cimeira das Lages. Para além de originais de Haden e Bley, e mais uma vez cruzando géneros, inclui versões de “This is Not America” (canção escrita por Pat Metheny, Lyle Mays e David Bowie), “Skies of America” de Ornette Coleman, “Throughout”, de Bill Frisell (notável o contraste entre os saxofones tenor de Chris Cheek e Tony Malaby), do tradicional “Amazing Grace” e de leituras de peças eruditas como “Goin' Home”, de Antonín Dvořák, e do adagio para cordas de Samuel Barber – compositores eles próprios muito atentos às tradições populares.

Charlie Haden atuou por diversas vezes em Portugal, após o 25 de Abril, com diferentes formações, nomeadamente no Jazz em Agosto, da Fundação Calouste Gulbenkian, e também em Cascais, Guimarães e Seixal. Faleceu em Los Angeles a 11 de julho de 2014, finalmente derrotado pelos efeitos degenerativos relacionados com a poliomielite que contraíra em jovem.

Reavivemos a música de Charlie Haden para iluminar os dias que correm.

¡No pasarán!

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