, 26 de Abril de 2022

Jazz em Hollywood: Eles vivem de noite

texto: Daniela Rôla

Daniela Rôla é crítica de cinema, colabora no site de referência À Pala de Walsh e é mentora da página Perfume Cameo, dedicada a fragâncias cinematográficas. Convidámo-la a explorar intersecções entre o jazz e o cinema: viajamos até à Hollywood clássica.

Convido-vos a fitarem o rosto desta criança. A sombra do trompete que vemos nele projetada deixa transparecer o encantamento que a criança experimenta perante aquilo que está a acontecer à sua frente - uma jam session, algo nunca antes testemunhado por este jovem rapaz. Uma criança que conhecemos como totalmente desenraizada, sem nada de seu, nem ninguém de seu, e que é transportada, atraída pela música que se escapa por uma pequena janela, música vinda do outro lado da parede. Será impossível não fazermos o paralelo com outras crianças, aquelas que conhecemos do conto dos Irmãos Grimm e que foram atraídas pela música do flautista.  

O filme em questão chama-se “Young Man with a Horn” (Michael Curtiz, 1950) e este “young man” do título parece justamente apontar para um maravilhamento que vemos em Rick enquanto criança e que ele nunca perderá na idade adulta. Esta adoração total nunca deixará de existir, já que o trompete será o único verdadeiro amor que ele vai conhecer e que o acompanhará ao longo de toda a vida, a música como o objeto de devoção total. Aliás, colocando em diálogo a imagem do Rick Martin criança e do Rick Martin adulto, imaginamos ser a própria sombra da sua vida adulta a projetar-se no rosto de criança.

A paixão de Rick pelo trompete, logo na infância, abre-lhe o caminho para poder tornar-se alguém, para encontrar a sua vocação. Não se trata aqui de ascensão social, mas antes de submersão social – pertencer, mergulhar num mundo singular, com códigos próprios. Em “The Man with the Golden Arm”, de Otto Preminger, é justamente através dessa submersão que Frankie Machine procura paradoxalmente vir à tona, voltar a ter a hipótese de construir uma vida. Frankie, a personagem interpretada por Frank Sinatra, é um toxicodependente que durante a fase de reabilitação descobre o amor pela bateria e pelo jazz. Essa descoberta, que é apoiada pelo médico que dele se ocupou no centro de reabilitação, representa para ele uma hipótese de abandonar de vez a heroína, uma hipótese de vida – “you can’t be that hooked and live”.

Sendo certo que, em “Young Man with a Horn”, o jazz, a vida na música, é também mostrada como vício. Só no jazz é que Rick encontra verdadeira completude, verdadeiro prazer. Conhecedora disso, a sua mulher, Amy (Lauren Bacall), querendo feri-lo, ataca aquilo que ele mais ama, começando a destruir a coleção de discos que é o único pertence que ele transporta de cidade para cidade. Essa ligação vital à música, essa dependência total é tal que, já nos momentos finais do filme, quando, depois de vaguear pelas ruas sob a luz desorientadora do dia, vemos no piso de asfalto o seu instrumento destruído, sabemos que necessariamente isso significará a morte do próprio executante. “Honey, I live music.” – diz Paul Newman a dado momento em “Paris Blues”.

Frankie Machine nunca consegue chegar a esse nível de compromisso com o jazz, nunca consegue mais do que aquela performance tímida e solitária num apartamento esquálido, às cinco da manhã, correndo o risco de perturbar os vizinhos. A sua vida anterior, a vida que antecedeu a reabilitação e a paixão pelo jazz, continua a sugá-lo. Frankie vê-se preso num quarto escuro, na mesa de jogo, uma noite que dura quase dois dias. Podia ser uma jam session interminável, num qualquer clube noturno, mas não. É apenas um jogo sem prazer e sem vitória e que provoca a ruína final, a audição que aborta pouco depois de ter começado. O dia nunca traz nada de bom, carrega apenas a realidade, a dor, fere os olhos.

Rick Martin em “Young Man with a Horn” e Ram Bowen em “Paris Blues” são criaturas que vivem da música e para a música, o jazz é tudo na sua vida. E viver o jazz intensamente significa viver de noite. Uma noite feita de bares, caves, restaurantes, diners, clubes noturnos. A noite que conhecemos, por exemplo, em “Sweet Smell of Success” (Alexander Mackendrick, 1957) através da lente prodigiosa de James Wong Howe, o direto de fotografia, uma cidade feita de sombras e pretos profundos, densos, aveludados, envolventes. Não há existência sem sombra, sem o peso da noite. É nesta noite que se tece a trama de J.J. Hunsecker, poderoso colunista que tenta armadilhar a relação da sua irmã mais nova com Steve Dallas, um guitarrista que integra um quinteto de jazz em ascensão. A perversidade das suas maquinações, tentando desmerecer o músico, armadilhando a sua integridade enquanto se apresenta a Susan como o irmão consolador, é apta a destruir a vida dessas duas pessoas. J.J. não hesita arruinar a reputação do músico, detido pela posse de marijuana e exposto à violência policial, simultaneamente conduzindo a própria irmã ao desespero, quase se precipitando num fatal mergulho na noite.

Se Nova Iorque é cenário óbvio para este tipo de vivência noctívaga intensa, em “Paris Blues”, de Martin Ritt, atravessamos o Atlântico e visitamos uma outra noite, a noite parisiense. Foi esta a cidade escolhida por Ram Bowen (Paul Newman) e Eddie Cook (Sidney Poitier), dois expatriados, músicos de jazz, para praticaram a sua arte.  É nesta Paris que Eddie encontra um lugar em que o racismo não é uma questão, onde ele pode ser simplesmente músico. Daí ele persistir em não regressar aos Estados Unidos, um país que nada faz para acolhê-lo, apesar de ser o seu país natal. Eddie prefere exilar-se voluntariamente – isto é, até ao momento em que Connie começa a instigá-lo a enfrentar a discriminação e os defeitos do seu país, em lugar de fugir deles. A música foi, afinal, forma de lidar com estas questões, criando um laço com uma cidade nova, esquecendo o que ficou para trás. Até ao momento em que a solução deixa de chamar-se “jazz” e passa a chamar-se “amor”. 

Os problemas que Ram enfrenta são de índole bem diferente. Ele corteja (ou deixa-se cortejar) por Lilian, mas este é um romance que, justamente por implicar um desencontro de criaturas do dia e criaturas da noite, parece não ter futuro – “This romance is doomed. You get up too early.” – diz Ram. O entusiasmo de Lilian pela música (e pelo músico) é genuíno e visível, faz parte do entusiamo próprio de uma americana que visita os lugares boémios de Paris, um interlúdio que ela quer viver sem freios, como tantos outros interlúdios europeus que conhecemos do cinema de Hollywood dos anos 1950-60, filmes como “Summertime” (1955), “Light in the Piazza” (1962), “Three Coins in the Fountain” (1954), “Funny Face” (1957) ou “September Affair” (1950) - interlúdios que aconteciam geralmente em Itália e frequentemente nos braços de Rossano Brazzi. É um antídoto para aquilo que ela deixou em casa, nos Estados Unidos, a vida de uma banal cidade americana – “Small town, small job, small life”.

Neste filme em que diversas histórias se entrelaçam, uma das personagens a ocupar o fundo do palco, o Gypsy de Serge Reggiani, é uma invocação do Frank Sinatra de “The Man with the Golden Arm” – o músico que vive em luta permanente com a droga, sendo difícil perceber se o jazz funciona para ele como caminho de perdição ou caminho de salvação. As dependências que surgem perante os nossos olhos são de diferente natureza, mas cruzam-se constantemente. O jazz é também para Ram um vício, algo que ele seria incapaz de dispensar ou consumir em doses moderadas – é isso que vemos de forma inequívoca no rosto de Paul Newman naquele plano final, no momento da despedida na estação de comboio.

Se o cinema mainstream de Hollywood abordava estes temas de forma mais ou menos tímida, mas bastante mais franca quando associados a um estilo de vida boémio, associado à noite, e a seres cuja vida não gira à volta do que acontece entre as nove e as cinco, já o cinema experimental abraçava estas personagens como suas, como sucede em “The Connection”, de 1961, o filme de found footage de Shirley Clarke, em que um jovem realizador filma um grupo de músicos que aguardam desesperadamente pela chegada do seu dealer.

O Frank Sinatra de “The Man with the Golden Arm”, ao qual é negada a salvação jazzística, as suas aspirações reduzidas a uma audição desastrosa que não dura mais de cinco minutos, está bem distante do Frank Sinatra de “High Society” (filme em que o dia também magoa, mas apenas porque a alta sociedade de Newport bebeu demasiado Champagne na festa da noite anterior). No filme de Charles Walters, uma versão musical de “The Philadelphia Story” (primeira adaptação ao cinema da peça de Philip Barry), Sinatra tem por companhia Louis Armstrong e o crooner Bing Crosby. Longe do Sinatra em versão de músico solitário, perdido nos caminhos sinuosos da noite, do vício e do crime, este é o Sinatra sofisticado, nonchalant, em que a coolness está na imagem do galã improvável de fato impecável, de mão no bolso, chapéu tombado sobre o olhar, copo de bourbon na mão, servindo-nos os magistrais temas compostos por Cole Porter. E Louis Armstrong, que víamos também, numa passagem fulgurante, em “Paris Blues”, está aqui naquele que foi o seu território de eleição nas suas inúmeras aparições em Hollywood – os “filmes solares” dos grandes estúdios (filmes como “Artists and Models”, 1937, “A Song is Born”, 1948, “Here Comes the Groom”, 1951, ou “The Glenn Miller Story”, 1954).

“High Society” (Charles Walters, 1956) é ainda um musical ao puro estilo dos grandes estúdios de Hollywood, servido pelos melhores valores de produção, mas este é também o momento em que começa a adivinhar-se o canto de cisne do género. Não deixa, todavia, de ser curioso assinalar a sua permeabilidade ao jazz, a sua condição de musical à procura de novas ideias. C.K. Dexter-Haven, desempenhado por Bing Crosby, é um milionário com aspirações musicais (mais urbanas do que eruditas) e que está a promover a realização de um festival de jazz em Newport, disponibilizando a sua mansão como sala de ensaios para os músicos que vão chegando para participar no festival. Louis Armstrong, que inaugura os momentos iniciais do filme, acompanhado da sua banda, acaba por ser, em certa medida, investido do papel de mestre de cerimónias, cúmplice no diálogo musical que se estabelece entre o milionário e a sua vizinha, também sua ex-mulher, Tracy Lord (Grace Kelly).

A presença de Louis Armstrong em “High Society” é, ainda assim, uma passagem menos fugaz (mas também menos esfuziante) do que aquela que ocorre em “Paris Blues”, em que a chegada da sua banda, para um concerto único, é anunciada por grandes cartazes afixados pelas ruas de Paris. 

Outra presença que não podemos deixar de notar e assinalar em “Paris Blues” é aquela que figura na assinatura dos créditos musicais, Duke Ellington. A composição da banda sonora viria a valer-lhe a nomeação para um Oscar, de forma um pouco caricata, já que designação foi atribuída na categoria de “musical”. Se “High Society”, de que falávamos anteriormente, cai indubitavelmente nesta categoria, o mesmo não se passa com “Paris Blues” – ainda que seja deveras tentadora a ideia de olhar para este e outros dos filmes aqui citados como aproximações a um tipo de “noir musical”.

O trabalho realizado em “Paris Blues” não é prestação singular de Duke Ellington em Hollywood. É também da sua autoria a banda sonora de “Anatomy of a Murder” (Otto Preminger, 1959), um filme carregado de elementos do noir - o homem solitário, a mulher maliciosa, o crime, a sedução pela palavra – e ao qual a música empresta uma dose extra de coolness e de realismo, escapando a um tipo de banda sonora que tantas vezes abafa a imagem ou a trata de forma indistinta, indiferente. O filme torna-se mais cool ainda por via do contributo de Saul Bass nos créditos iniciais, construindo/desconstruindo um corpo como quem compõe um puzzle, uma história feita de verdades, meias-verdades, efabulações. Duke Ellington faz mesmo uma breve aparição como Pie Eye, partilhando o banco do piano com James Stewart.

Saul Bass assina também os créditos iniciais de “The Man with the Golden Arm”, depurando um braço que é prodigioso no dealing das cartas de jogar. O mesmo braço que poderia ser prodigioso se o sonho de fazer música pudesse ter ido mais longe. O mesmo braço que vemos ser fustigado pela agulha, quando Frankie sucumbe, uma vez mais, ao vício.

“Anatomy of a Murder” aposta no lado subversivo do jazz na construção da personagem de James Stewart, o advogado Paul Biegler. Na sua casa, típica casa de um solteirão, o frigorífico enche-se com os proveitos das suas pescarias, com o restante espaço da casa distribuído de forma equitativa entre compêndios jurídicos e álbuns de jazz. A paixão de Paul Biegler pelo jazz causa espanto a Laura (Lee Remick), que não consegue conjugar essa afinidade eletiva com o perfil de um advogado típico:

«-   You’re a funny kind of lawyer. The music and all.

-        Aren’t lawyers supposed to like music?

-        Not that kind of music.»

 

São, afinal, as próprias lides jurídicas, o próprio jargão jurídico a adquirir uma certa musicalidade, deste modo aproximando as duas paixões de Biegler que pareciam tão díspares – a lei e o jazz. É o que sucede quando a sua secretária se queixa da falta da letra “p” na máquina de escrever e do texto retorcido que daí resulta:

«-   “Party of the first part” comes out “arty of the irst art.” It doesn't make sense. It's embarrassing.

-        “Arty of the irst art.” I kinda like that. Has a ring to it.»

 

Se em “Anatomy of a Murder” as sequências no tribunal assumem, por vezes, um teor quase cómico – o advogado e o procurador que se digladiam, em plena teatralidade e astúcia profissional, o juiz que proíbe os risos à audiência a cada menção da palavra “panties” -, em “The Wrong Man” (Alfred Hitchcock, 1956) nada há de divertido no funcionamento da máquina judicial. Manny Balestrero (Henry Fonda) é um contrabaixista que integra o combo jazz do Stork Club, o famoso clube noturno nova iorquino, o tipo de sítio onde algumas das estrelas de outros filmes de Hitchcock poderiam ser (e provavelmente foram) vistas, mas que Manny nunca poderia frequentar enquanto cliente. Manny é um pai de família e se vive de noite é apenas porque a isso é forçado pela sua profissão. A sua vida, o menos glamorosa possível para começar, vai entrando numa espiral descendente até ao despojamento total, sem que consigamos alguma vez perceber como foi possível tal ter acontecido. Daí o terror absoluto do filme – que uma vida possa, simplesmente, desaparecer. E é com horror que vemos os dedos de Manny, os mesmos dedos que passavam pelas cordas do contrabaixo, a serem violentados pelo polícia, conspurcados de tinta para a recolha das impressões digitais. Na sala de audiências em que decorre o julgamento de Manny não há entretenimento. Vemo-lo apenas de olhar perdido, contemplando todos os que o rodeiam na sala, espectador silencioso e invisível da sua própria condenação.

“Paris Blues” tomou, no Brasil, o título de “Paris vive à Noite”, lembrando remotamente o inspirado título do filme de Frank Borzage, “History is Made at Night”. A noite é feita de muitas histórias, de muitas vidas que pululam nestes cenários que acabámos de percorrer. Foi por via destas personagens que vivem num mundo muito próprio, feito de noite e de música, feito de paixões inelutáveis, que o jazz logrou imprimir uma admirável marca no cinema de Hollywood. Aquilo que lhe foi pedido não é pouco – que fosse, simultaneamente, tanto vício quanto terapia, tanto elemento do real quanto forma de alienação. Quando o dia dói, o jazz é o elixir.

Agenda

27 Maio

MIVRO I

Teatro Helena Sá e Costa - Porto

27 Maio

Diogo Alexandre Bock Ensemble

Casa D’artes do Bonfim - Porto

27 Maio

293 Diagonal / Gil Silva

Teatro Angrense - Angra do Heroísmo

27 Maio

Antón Quintela 5tet

Teatro Helena Sá e Costa - Porto

27 Maio

Bruno Pernadas e Mário Delgado

Teatro Narciso Ferreira - Riba de Ave

27 Maio

El Twanguero

O Cinema - Oliveira de Azeméis

27 Maio

Júlio Resende & FBP Jazz Sessions

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

27 Maio

Orquestra de Jazz do Algarve com Ana Laíns e Cherry

Cerca do Convento - Loulé

27 Maio

Brian Jackson

Passos Manuel - Porto

27 Maio

João Capinha Quinteto

Sala do Clube - Valado de Frades

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