(des)encontros com o jazz (e música improvisada) em Portugal #01, 25 de Abril de 2022

(des)encontros com o jazz (e música improvisada) em Portugal #01

25 de Abril: 48 anos depois

texto: Pedro Cravinho / ilustração: Travassos

No primeiro texto da sua rubrica "(des)encontros com o jazz (e música improvisada) em Portugal", o investigador Pedro Cravinho aborda a importância do 48.º aniversário dia 25 de abril de 1974.

O dia 25 de Abril de 1974 teve lugar há 48 anos. Sim, foi quase há meio século, que um golpe militar liderado pelos ‘capitães de Abril’ mudou o destino de Portugal, ao pôr fim ao regime do Estado Novo (1933-1974). Após o sinal, “E depois do adeus”, por Paulo de Carvalho, ao fechar da noite de 24. A ‘Revolução dos Cravos’, importante momento da história contemporânea portuguesa, iniciou-se na madrugada de 25 ao som de uma canção proibida "Grândola, Vila Morena" na voz de um poeta, José Afonso, conduzindo os militares ao derrube de Marcello Caetano, e lançando Portugal ‘no trilho’ da democracia. A eles, juntou-se ‘o povo’ na rua celebrando ‘pacificamente’ o fim (de quase meio século) de ‘fascismo’ em Portugal!

Foram 48 anos de um país amordaçado, reprimido e isolado do exterior, com uma alta taxa de analfabetismo e uma disparidade extrema em termos desigualdade social e de género, sob influência de uma mentalidade colonial dominante e da Igreja Católica Portuguesa. Reprimido pelos agentes da polícia política (PIDE/DGS) apoiada numa extensa rede de delactores (bufos), o ‘Portugal’ de Salazar & Caetano funcionava a diferentes velocidades: urbano versus rural, educação versus instrução, e alta cultura versus cultura popular. Portugal esse, no qual ‘o jazz’ era consumido principalmente ao nível da esfera privada – clubes e festivais (escassos) – e circulava ‘timidamente’ na esfera pública. Inicialmente no cinema e rádio (só mais tarde, em 66 chegariam os “5 Minutos de Jazz” do Zé Duarte). Posteriormente na televisão com programação irregular. A partir de Setembro de 1963, através dos programas da série “TV Jazz,da autoria de Manuel Jorge Veloso (membro do Partido Comunista Português), com uma forte componente didática, os telespectadores portugueses e os músicos que (na época) tocavam jazz passaram a ouv(er) novos repertórios e muitos artistas que nunca visitaram Portugal até Abril de 1974. Levando hoje a questionar qual tem sido o papel de televisão ao longo dos últimos 48 anos de democracia na divulgação e promoção do jazz (e música improvisada) em Portugal.

Mas 48, ou mais precisamente, o ano de 1948, ao nível do jazz em Portugal, ‘iniciaria’ com uma emblemática jam session organizada por Luís Villas-Boas no Café Chave d’Ouro. Reunindo músicos nacionais e estrangeiros (de passagem pela cidade de Lisboa), Villas-Boas, escrevia a 25 de Janeiro a Manuel Guimarães, outro importante promotor de jazz da cidade Invicta, o seguinte, «Vão amadores, profissionais... muito bom e que deve agradar.» Simultaneamente, de forma diplomática, tentava apaziguar disputas entre promotores de jazz nortenhos sobre a possibilidade da criação de um Hot Club do Porto. Passados uns dias, a 6 de Fevereiro, a jam session do Chave d’Ouro conforme planeada por Villas-Boas, reuniu Domingos Vilaça, Art Carneiro, Tavares Belo, Esteves Graça, Aleixo Fernandes, Fernando Freitas da Silva, Fernando Albuquerque, Rafael Couto, Jorge Costa Pinto, juntamente com outros entusiastas do jazz Portugueses, e com Tom Kelling e Albert ‘Pops’ Whitman.

Mas 48, foi também o ano em que Luís Villas-Boas no dia 19 de Março apresentou a sua proposta para sócio efectivo do Hot Club de Portugal (HCP), ficando registado com o número 1. Igualmente, foi o ano de troca de correspondência entre o Governador Civil de Lisboa, Mário Madeira, e vários gabinetes do regime do Estado Novo: Subsecretário de Estado das Corporações e Providência Social e o Ministro da Educação Nacional sobre o destino do HCP. Isto, porque os estatutos do clube só foram oficialmente aprovados pelo Governo Civil de Lisboa no dia 16 de Março de 1950. Importa igualmente assinalar que 48 foi também o número de subscritores dos primeiros estatutos do HCP. Entre eles, contavam-se vários músicos da zona de Lisboa, Tavares Bello, Domingos Vilaça, Esteves Graça, os irmãos Sangareau, muitos estudantes, e um cineasta, Fernando Leitão. Infelizmente, esse documento “não mereceu aprovação” por parte do Ministério da Educação Nacional do regime do Estado Novo. Isto, porque tinha uma finalidade “cultural, educativa e artística”. Ou seja, porque ambicionava, segundo um dos artigos dos estatutos: “6.º – Criar cursos privativos, nos quais os interessados possam assimilar e aperfeiçoar a sua técnica” (Estatutos do “Hot Clube de Portugal”, 22 de Junho de 1946, p.2). Ou seja, essa ambição ‘educativa’ do HCP colidia com a alínea a) do n.º 5 do artigo n.º 2 do Estatuto do Ensino Particular, segundo o parecer do Subsecretário de Estado da Educação Nacional.

Em termos de outros acontecimentos associados a 48, directamente ou indirectamente relacionados com jazz (e música improvisada) em Portugal. Segundo os registos das licenças da Inspecção dos Espectáculos regista-se a passagem por Portugal nesses anos, entre outros, os artistas norte-americanos, George Johnson (Lic. n.º 2907) e Inez Maude Cavanaugh (Lic. n.º 2940). Outubro, seria a vez de saxofonista tenor, Carlos Wesley ‘Don’ Byas (Lic. n.º 3006). Na época ‘pairava’ por Barcelona e que voltaria a Portugal, onde gravou com os fadistas Amália Rodrigues (LP, Columbia, 1972) e Carlos do Carmo (EP, Philips, 1976).

O ano ‘encerraria’ com o nascimento de Carlos ‘Zíngaro’ Alves a 15 de Dezembro de 1948. Estudante de violino na Fundação Musical dos Amigos das Crianças (Lisboa) e depois na Academia dos Amadores de Música e no Conservatório Nacional. Estudando igualmente órgão durante dois anos na Escola Superior de Música Sacra. Ou seja, teve um percurso musical inicial com forte bases de música dita ‘clássica’. Fundador do grupo PLEXUS em 1968. Após três anos de serviço militar (dois anos e meio em Angola), juntamente com Jorge Lima Barreto impulsiona a Associação Conceptual Jazz. A partir de meados da década de 1970, começa a trabalhar com alguns dos principais improvisadores internacionais. Para além dessas colaborações, entre 1974 a 1980 foi director musical do grupo de teatro Cómicos (Lisboa), ajudando a fundar uma galeria de arte com o mesmo nome. Em 1979, recebeu uma Fulbright Grant e foi convidado a participar da Creative Music Foundation com Anthony Braxton, Roscoe Mitchell, Tom Cora e Richard Teitelbaum. Posteriormente já na década de 1990, ‘encontramos’ Zíngaro em muitas gravações, incluindo as colaborações com Richard Teitelbaum, Joëlle Léandre, Peter Kowald Ort Ensemble e Peggy Lee. Entre muitos outros. Infelizmente, este espaço é demasiado ‘curto’ para abordar o longo e brilhante percurso deste importante ‘improvisador’ Português, nome incontornável dos palcos internacionais. Mas fica aqui simbolicamente assinalado, esperando despertar a curiosidade de alguns leitores mais ‘jovens’, ou menos atentos, que queiram aprofundar um pouco mais o conhecimento sobre a história do jazz (e música improvisada) em Portugal.

Hoje passados 48 anos desde o dia 25 de Abril de 1974, com várias gerações de mú[email protected] (que tocam) jazz (e música improvisada) nascidos ‘em liberdade’ importa assinalar outro momento histórico. A presença esta semana de uma representação Portuguesa naquele que é considerado o maior evento dedicado ao jazz em continente Europeu, o Jazzahead 2022. Iniciativa organizada pela Rede Portuguesa de Jazz – neste momento, acredito, que alguns dos leitores estarão talvez a questionar-se ‘Rede Portuguesa de Jazz??? mas isso existe???’ [de imediato, ‘disparam’ as pesquisas online]. Aqueles mais atentos, devem recordar-se do breve artigo no Público da autoria de Nuno Pacheco “Rede Portuguesa de Jazz nasce fora dos centros mas com ambição europeia”. Ou de um anúncio da Europe Jazz Network (aqui).

No sentido de facilitar alguma informação, decidi terminar este primeiro texto da rubrica (des)encontros com o jazz (e musica improvisada) em Portugal, com comentários sobre a ‘embaixada’ Portuguesa no Jazzahead. Criada através de escritura pública, a Associação Rede Portuguesa de Jazz, internacionalmente conhecida por Portugal Jazz, é uma associação sem fins lucrativos dividida em quatro áreas centrais: criação, divulgação, educação e investigação. Convém, talvez, esclarecer que não é um clube ou uma associação de músicos, mas sim de colectivos ou associações de músicos, compositores ou promotores (ainda poucas em Portugal). Isto é, constituído por entidades colectivas que desenvolvem actividade na área do jazz e da música improvisada (residentes) em Portugal continental e insular e/ou por portugueses residentes no estrangeiro, assim como pessoas singulares associadas a estruturas no âmbito do ensino, investigação, divulgação, promoção e criação. Tem como objectivos estatutários: a promoção e a divulgação do jazz e da música improvisada; a melhoria das condições de trabalho dos músicos e das infra-estruturas associadas a esta prática performativa; a defesa dos interesses da comunidade jazzística (em geral); o apoio a novos projectos e eventos; a projecção internacional do jazz e da música improvisada produzidos em Portugal e ou por músicos portugueses residentes no estrangeiro; bem como o apoio à formação dos jovens e a interacção com os agentes musicais em Portugal e noutros países.

Com a tal “ambição europeia” a Rede Portuguesa de Jazz estará no Jazzahead 2022 representada por alguns membros e outras entidades convidadas (não membros). Membros: Clean Feed, Jazz Ao Centro Clube, L.U.M.E., Nischo, Orquestra Jazz de Matosinhos e Sons da Lusofonia. Convidados (não membros): Hot Clube de Portugal, Porta-Jazz e Robalo. Importa aguardar pelos próximos passos em período pós-pandémico. Em termos de rescaldo de 48 anos após Abril de 1974, podemos ter certeza: o jazz (e música improvisada) em Portugal está mais que nunca vigoroso, pronto ‘a circular’ globalmente! Mas carece de apoio. Será que vamos ter que esperar mais 48 anos para isso acontecer?

25 de Abril de 2022

O autor segue a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

Sobre o autor:

Pedro Cravinho é cofundador e membro da Direção da Rede Portuguesa de Jazz – área da investigação. Diretor dos Arquivos da Faculty of Arts, Design and Media da Birmingham City University (BCU). Investigador Sénior em Estudos de Jazz no Birmingham Centre for Media and Cultural Research (BCMCR), co-líder do BCMCR Jazz Studies e History, Heritage & Archives Research Clusters. Investigador do CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar “Cultura, Espaço e Memória” (Portugal) da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Membro das direções do National Jazz Archive (Inglaterra), Scottish Jazz Archive (Escócia), da Duke Ellington Society (Reino Unido) e membro do West Midlands Archives (Inglaterra). Cofundador das conferências internacionais ‘Documenting Jazz’ e autor de diversos textos sobre jazz em Portugal. O último, acabado de ser publicado, Encounters with Jazz on Television in Cold War Era Portugal: 1954 – 1974 (Routledge, 2022), é dedicado a Manuel Jorge Veloso.

Agenda

01 Outubro

Jorge Moniz “Cinematheque”

Fórum Cultural do Seixal - Auditório Municipal do Seixal - Seixal

01 Outubro

Orquestra de Jazz de Espinho & Orquestra Clássica de Espinho “Kind of Blue”

Auditório de Espinho - Espinho

01 Outubro

Quarteto Cabaud / Marques

Hot Clube de Portugal - Lisboa

02 Outubro

Desidério Lázaro Quarteto

Espaço Espelho d'Água - Lisboa

02 Outubro

Zé Eduardo Trio e Lighthousers

Cantaloupe Café - Olhão

03 Outubro

Ernesto Rodrigues, Daniel Levin, Maria da Rocha e João Madeira

Cossoul - Lisboa

04 Outubro

Luke Winslow-King

Auditório Carlos Paredes - Lisboa

04 Outubro

Stanley Jordan

Douro Jazz - Teatro Municipal de Vila Real - Vila Real

05 Outubro

Nicole Mitchell

Museu Nacional Machado de Castro - Coimbra

05 Outubro

Luke Winslow-King

Casa da Cultura - Setúbal

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