Nazaré da Silva, 17 de Março de 2022

Nazaré da Silva

Mistérios

texto: Nuno Catarino / fotografia: Vitorino Coragem

Jovem cantora e compositora, Nazaré da Silva já conseguiu ganhar o seu espaço próprio. Editou em 2021 o seu disco de estreia, “Gingko” (edição Robalo), registo que levou a que fosse reconhecida como “Artista Revelação”, nos Prémios RTP / Festa do Jazz, em dezembro do ano passado. Nazaré apresentou neste disco um conjunto de temas originais, interpretados por um grupo de jovens músicos da mesma geração – João Almeida, Bernardo Tinoco, Zé Almeida e Samuel Dias – todos músicos em processo de afirmação.

Nazaré começa por explicar a sua ligação à música e a inevitável influência familiar: «Estive envolvida de alguma forma com a música desde bastante cedo, muito graças aos meus pais, ambos pianistas. Comecei a tocar piano e a cantar, informalmente, em casa por volta dos cinco anos. Tive algumas aulas de piano, esporádicas, com a minha mãe, mas principalmente, sempre estive rodeada de música devido ao meu ambiente familiar.» O seu percurso seguiu a via académica: «mais tarde, com 16 anos, decidi ingressar no curso de jazz da Escola de Jazz do Hot Clube e escolhi a voz como instrumento principal. Foi aí que decidi trabalhar à volta do jazz, por um lado pela vontade de consolidar conhecimentos que tinha vindo a adquirir por intuição, por outro, porque sempre tive um grande fascínio pela improvisação e tinha vontade de explorar as suas possibilidades. No fundo, foi a soma de algumas circunstâncias daquele momento que impulsionaram a minha ida para escola estudar jazz.»

Para Nazaré, o seu instrumento é a voz. Quando falamos de influências, a nível vocal, a resposta não é óbvia: «é sempre difícil responder, porque por mais nomes que refira sinto que deixo sempre algum de fora. Assim faço a ressalva, os nomes que disser agora, são os que me vieram à cabeça no momento e existem certamente outros. Dito isto, as minhas influências têm sido díspares e com maior ou menor peso ao longo da minha vida musical. Foram, entre outras, Ella Fitzgerald, Elis Regina, Mônica Salmaso, Joni Mitchell, Kate Bush, Jeanne Lee. Em relação a vozes portuguesas, destaco, pelo lado da música popular portuguesa, a Filipa Pais, e, pelo lado do jazz e música com cariz de improvisação a Maria João, a Rita Maria e a Sara Serpa.»

O título do disco tem uma explicação: «“Gingko” é o nome da minha gata, que esteve muito presente no momento da composição dos temas para o disco e que, para além disso, compôs ela própria a primeira faixa do álbum, caminhando sobre as teclas do piano. Por sorte gravei a melodia que daí surgiu e ficou o tema “Gingko”. Fez sentido para mim prestar-lhe esta pequena homenagem.» Este seu primeiro trabalho em nome próprio surgiu por incentivo de uma outra figura de peso do jazz português, a cantora Maria João: «o disco veio de um desafio que me foi lançado pela Maria João, professora de voz, no último ano da licenciatura em jazz da Escola Superior de Música de Lisboa, que sugeriu às alunas finalistas que idealizassem e gravassem um disco. Assim foi. Foi a primeira vez que senti que tinha chegado a algum sítio que fazia sentido gravar. É um disco que considero um retrato honesto daquilo que sou, musicalmente, neste momento. É um disco de canções, o que permitiu que explorasse também o lado da escrita e das palavras, universo que me é muito querido, mas, ao mesmo tempo, não são canções fechadas, existe um grande espaço de liberdade e improvisação, que temos vindo a desenvolver cada vez mais à medida que vamos tocando.»

Além de se destacar a voz, neste disco assume o papel de compositora, e assina quase todas as composições. Conta o processo: «As composições foram todas feitas comigo a cantar ao piano. Algumas surgiram através de textos, outras foram o contrário, veio primeiro a música e só mais tarde foi feito um texto para ela. A certa altura comecei a cansar-me da sonoridade do piano com a voz e daí surgiu a necessidade de pensar numa instrumentação que não correspondesse a esse som. A partir daqui foi mais natural para mim pensar nas pessoas que eu queria que tocassem esta música e surgiu o quinteto, sem instrumento harmónico, com, para além da voz, dois sopros, saxofone tenor e trompete, contrabaixo e bateria. Foi, também, a partir desta instrumentação que concebi os arranjos, com a colaboração do Samuel Dias. Chegamos a uma sonoridade, por vezes, quase coral, em que os sopros podem cumprir um papel harmónico, sem prescindir do seu carácter melódico, com o qual fiquei bastante satisfeita.»

Nesta sua estreia, Nazaré da Silva lidera um quinteto, acompanhada por cinco jovens músicos da mesma geração. Não é coincidência: «Escolhi estes músicos quase de maneira instintiva. Conhecemo-nos todos já há bastante tempo, passámos juntos pela escola do Hot Clube e, mais tarde, pela ESML [Escola Superior de Música de Lisboa]. No fundo, são os meus amigos e são músicos que adoro e com quem adoro tocar. Para além disso, não queria apresentar a música como uma coisa acabada e com eles senti que ela se expandiu, muitas vezes, para sítios inesperados. Essa imprevisibilidade é algo que aprecio muito. Sinto que isso continua a acontecer sempre que tocamos.»

O facto de ser filha de um músico que é reconhecido como um dos mais brilhantes músicos portugueses, o pianista João Paulo Esteves da Silva não pode ser ignorado. Por um lado, poderá ter sido um apoio, por outro lado poderá ser difícil lidar com a sua permanente “sombra”. Nazaré esclarece: «Teve sem dúvida peso no meu percurso. Não é óbvio falar sobre isto, porque é bom dissociar, eu sou uma coisa, o meu pai é outra, e nem sempre é fácil não ser vista como uma consequência do meu pai. Mas, de certa forma, somos consequências de tudo o que nos acontece, e claro que ter ouvido o meu pai desde sempre teve uma grande influência naquilo que faço hoje. Mesmo que de forma inconsciente, que acredito ter sido, é uma referência inevitável. A questão da “sombra”, felizmente, não é algo que me atormente.»

A cantora tem colaborado com outros músicos - como no grupo do Afonso Pais (e no disco “O que já importa”) ou no Omniae Large Ensemble de Pedro Melo Alves (e no disco “Lumina”). Para Nazaré, «têm sido experiências mesmo muito boas. Sempre adorei cantar com outras pessoas e o som de vozes em conjunto pode ser das coisas que mais me toca. Em ambos os projetos sinto que funcionamos como um corpo coletivo, um instrumento, apesar de cada um ter os seus momentos mais solistas, e esse trabalho de aperfeiçoar um instrumento, que são vários, e trabalhar o detalhe do som, em várias vertentes, afinação, timbre, dinâmica, etc., é muito rico. Aprendo e evoluo muito com esse tipo de trabalho.»

Nazaré é uma mulher que se afirma como líder de um projeto, num mundo do jazz - e particularmente em Portugal - onde ainda são poucas as que o fazem, em comparação com o número de homens. Relata a sua experiência: «O meio do jazz e da música improvisada é, de facto, predominantemente masculino. Acho essencial que se debata e exponha esta desigualdade, que mais mulheres tenham oportunidade de se afirmar como artistas, de maneira a, também, quebrar este círculo vicioso: há poucas mulheres na música, poucas mulheres têm visibilidade, logo menos mulheres vão ver a música como uma possibilidade ou um caminho para si. Ao mesmo tempo, acho que estamos a evoluir no bom sentido, ainda com muito a fazer, mas sinto uma maior consciência na minha geração em relação a estes assuntos, fala-se muito mais sobre isto.»

Além do seu projeto em nome próprio e dos grupos de Afonso Pais e de Pedro Melo Alves, «canto e toco teclados numa banda de indie rock, os Biloba, liderada pelo Francisco Nogueira. Também faço parte de um ensemble de improvisação vocal, dirigido pela cantora e produtora argentina Aixa Figini. Neste momento está em construção o projeto “Estação dos Quatro Poemas” de autoria da Maria Ceia, em que canto acompanhada da Rita Maria e com direção musical do Luís Cunha. Relativamente a planos para o futuro, tenho muita vontade de tocar, a música do meu disco, claro, mas também com todos estes projetos. Também tenho planos de escrever música nova, mas os moldes em que a vou lançar são ainda um mistério.» Vamos então esperar que o futuro nos revele os seus mistérios.

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