Resposta ao texto de Beatriz Nunes, 8 de Fevereiro de 2022

Resposta ao texto de Beatriz Nunes

Resposta ao texto de Beatriz Nunes: “Jazz em Pt: a questão da crítica machista não resolvida“

texto: Gonçalo Falcão / fotografia: Cathy Berberian com o vestido de cena de Stripsody, circa 1966

Sobre o texto de Beatriz Nunes e a discussão que ele promove – sempre útil e pertinente – enquanto autor do texto original e membro da equipa da Jazz.pt, quero esclarecer o seguinte:

O debate sobre questões de género (de racismo ou outras) na música e no jazz é um tema pertinente e necessário. A revista “Jazz.pt” gostava de contribuir para este diálogo pois também considera que estas questões não estão encerradas e devem ser conversadas.

O meu texto não apresenta um dualismo entre voz e instrumento. O uso da palavra “dualismo”, que sustenta a argumentação inicial, é pouco rigoroso pois implicaria a presença de dois princípios ou realidades opostas. Ora não é isso que acontece. Não crio uma oposição entre voz e instrumentos em nenhum lugar do meu texto. A voz é diferenciada (como é a bateria e o piano). O uso da palavra (e do conceito) de dualismo procura instalar um argumentário que não tem suporte no meu texto.

Também refere  – e bem – que a minha narrativa nunca assume o feminino na palavra “cantores”, mas que mesmo assim se sente legitimada (estatisticamente) para poder inferir que há uma questão sexista. Eram de facto quatro as cantoras programadas no festival. Mas também cantaram três vozes masculinas. E também foram criticadas. E muitos outros músicos (14 concertos!). E dá-se ainda o caso de, num dos textos sobre um cantor masculino, a minha impressão não ter sido a mais favorável e de ter até usado argumentos semelhantes aos que usei para a Joana Raquel. Assim sendo, querer levar o texto para uma questão sexista não é intelectualmente honesto.
Acresce que: em dois dos casos femininos, a apreciação musical não foi positiva; mas nos outros dois foi elogiosa. Há uma paridade acidental. A questão é musical e não de género: a Vera Morais foi destacada como o concerto do dia.

Mente quando diz que “Por sua vez, os restantes músicos eram homens e instrumentistas”. Tanto Manuel Linhares como Daniel Sousa ou António Loureiro cantaram e Manuel Linhares só cantou. E não os omiti. Não pode truncar o meu texto para justificar um dos centros argumentativos do seu, o da discriminação de género.

Escrevi num comentário lateral ("a talho de foice") sem destinatário e a propósito da falta de comunicação crónica dos músicos portugueses (sem género): “os cantores (...) têm responsabilidades acrescidas – o modo como se apresentam em palco, vestidos com a mesma roupa que usaram para ir ao Leroy Merlin comprar material para instalar umas luminárias”. E mantenho. Enquanto um baterista se senta atrás do instrumento, o cantor assume (normalmente) a frente do palco (aliás como é assumido pela subscritora quando afirma “No jazz, a voz é tradicionalmente utilizada em primeiro plano, através da palavra ou do scat.”) e o seu corpo (o aparelho vocal não sobrevive isoladamente) é o seu instrumento. Por isso mantenho que o cantor/cantora tem de facto uma responsabilidade acrescida no modo como se apresenta em palco. Teria sido grave se a minha crítica tivesse incidido só ou maioritariamente sobre este aspeto. Mas não o fiz. Esta frase aparece numa consideração lateral e sem género ou destinatário.

A autora consideram que esta frase foi dirigida às mulheres porque “A bem da honestidade, dizer “cantores” no jazz é um falso neutro. Estatisticamente, a maioria dos “cantores” são mulheres e os homens são instrumentistas”. Eu escrevi sobre o caso concreto da 12º edição do Porta-Jazz onde tocaram 4 cantoras e 3 cantores. Em nenhum momento as questões referidas foram feminizadas ou constritas a questões de sexo ou género no meu texto. Forçar que o sejam (porque estatisticamente...) é querer encontrar razões censórias através de processos de ilação criativa.

Não há, nem houve uma percepção limitada sobre o papel do cantor. Aqui a assinante assume que sou ignorante.
Não duvido que conheça muito mais cantoras e técnicas que eu, até porque se especializou. Se olhar para o meu passado na música e na escrita veria que seria mesmo muito difícil que eu não soubesse que o cantor pode ser um “shouter” (escrevi sobre o John Zorn quando ele veio cá com os Naked City em 1992), um “talker” (idem sore o David Moss e Ken Nordine). E sobre o Phil Minton (onde algumas das técnicas da Leonor Arnaut radicam). E o Américo Rodrigues.

Se formos às minhas preferências pessoais em vozes femininas percebe que eu já percebi que há mais mundo after Nina Simone: Joan La Barbara, Laurie Anderson, Annette Peacock, Meredith Monk, Diamanda Galas, Lydia Lunch, Sheley Hirsh estão entre as minhas preferidas. Admiro imenso a Cathy Berberian (não só na Sequenza III do Berio mas nas também nas suas próprias pautas gráficas, como por exemplo em Stripsody). Da escrita para vozes do Sciarrino ou do João Madureira com os poemas da Adília Lopes. E a beleza sublime da escrita para vozes femininas da Hildegard Von Bingen. E do excelente último álbum de Sara Serpa. Há mais, mas estes são os primeiros exemplos que vieram à memória.

Relido o meu texto continuo a achar que ficou claro que não me pronuncio sobre a abordagem escolhida pela Leonor Arnaut mas sim sobre a qualidade da sua abordagem. É uma apreciação qualitativa sobre o modo, não sobre a forma.
Não vou alegar que foi por sexismo que a autora desqualificou a minha capacidade em apreciar abordagens menos conservatórias.

Alega-se que “fragilizou as opções de Joana Raquel de forma altamente subjectiva e objectificante” assumindo que a forma tímida (a timidez não é um conceito tanto quanto consigo alcançar) enfraquece as “escolhas performativas”. Eu nunca o assumi e não percebo porque é que o assume por mim. A abordagem podia ser sussurrante e eremita e excelente mesmo assim (não deixa de ser curioso que Rui Miguel Abreu usou exatamente a mesma palavra na sua crítica a este concerto)

O que é dito é que a cantora foi desinteressante e que isso não decorreu só da forma tímida: o meu texto justifica-o com mais argumentos que não podem – mais uma vez - ser omitidos. Porque é que ignora a crítica feita à letra das canções e ao facto de “todas as músicas acontecem em registos lentos e pendulares e que a voz opera também sempre com o mesmo tipo de estratégias, com picos de agudos cíclicos que, ao fim de um certo tempo, fatigam.” Foi ainda dito que a cantora nunca conseguiu estabelecer uma relação com o público, mantendo-se distante e envolta sobre si mesma.
Não tinha que o fazer, mas neste caso contribuiu para o desapego.

É dito, citando-me, que dou a entender que existem cantoras que são mais cantoras que outras. Não é verdade. O que eu escrevi é que há cantoras que cantaram melhor e mais interessantemente que outras naquele dia, naquele festival. O texto tem um contexto, reforço. Nada é dito sobre as cantoras elas próprias, a minha crítica não avalia as pessoas (como é que o poderia fazer, não tenho o prazer de as conhecer pessoalmente!). Avalia o seu desempenho. Aliás a comparação também devia ter sido feita com “eles” dado que a minha apreciação ao concerto de Manuel Linhares não foi tão elogiosa como a que fiz à Vera Morais ou à Susana Nunes. Porque é que discrimina sempre o Manuel Linhares, omitindo-o? Ou o António Loureiro? Ou Daniel Sousa?

De seguida – e mais uma vez – a signatária enviesa o discurso para não querer abordar as questões fundamentais – as musicais – camuflando-as com outras; quando diz que “umas resolvem, outras estragam, umas são a solução, outras o problema,” afirmando que este é um “discurso patriarcal bastante problemático” estão a formar uma argumentação com palavras que não estão lá. Em nenhum momento foi dito que “estragam” (que Leonor Arnaut estragou o concerto, por exemplo) ou que são um problema (que Joana Raquel foi um problema, por exemplo). O que foi dito é que a sua prestação naquele local, naquele dia foi desinteressante e que a repetição do mesmo tipo de posturas (Linhares, Raquel, Arnaut) parecia indicar uma questão (o título do texto é “a questão da voz” relembro). Nada aqui é “patriarcal” (relembro que o patriarcado é um sistema social em que os homens mantêm um poder primário e autoritário sobre as mulheres) até porque a crítica a Manuel Linhares também não foi positiva enquanto a Susana Nunes, Daniel Sousa e Vera Morais foi. Mais uma vez a autora tenta levar o problema para a discriminação de género mas a presença de homens e de mulheres e a crítica positiva e negativa a ambos contradi-la.
Usar este tipo de argumentação – problemática porque censória - para não falar do essencial, a música, é que me parece negativo.

Querer argumentar que o facto de ter gostado da prestação de Susana Nunes e de não ter gostado da de Leonor Arnaut é uma forma de estimular a “luta de umas contra as outras”, sugerindo que existe um discurso machista que se compraz em patrocinar disputas entre mulheres como forma de as perpetuar, é uma fantasia contra a qual não argumentarei (e o Manuel Linhares e o Daniel Sousa?). Acho que deve ser notado para que se perceba o dislate e ficar com quem o faz.

No último ponto da discussão sugere-se que tenho falta de ética, de auto-crítica e de consciência sobre o meu poder. Diz-se ainda que a forma é discriminatória e silenciadora.
A crítica é de facto discriminadora por natureza. Discrimina, separa. Tenta salientar qualidades e apontar defeitos. Não como forma de exercício de poder mas para contribuir para um discurso (neste caso artístico) e para a formação de públicos. Percebo que em 2022 a crítica é cada vez mais limitada num mundo dominado por interesses capitalistas e onde a independência face a esses interesses é difícil. Todos os concertos são bons, todos os discos são bons, todos os festivais são bons. O papel dos críticos é igual ao do facebook: dizer, és linda(o), adoro-te, amo-te.

Esta movimento na produção crítica (vaga, elogiosa, genérica) deveria desagradar aos músicos. O Manuel Linhares, a Leonor Arnaut ou a Joana Raquel podem não ter gostado do modo como as ouvi. Mas a sua carreira, felizmente, não vive nem está dependente da crítica feita a um dos seus concertos. Se, de algum modo, a minha opinião serviu para alguma autocrítica sobre a sua música, excelente, mas não estou à espera que o faça ou sequer que seja incorporada pelos visados (nem tãopouco que os elogios a Susana Nunes ou Vera Morais as deslumbrem). É só uma opinião fundamentada e informada.

Tenho muita pena que as questões relativas à música – as que verdadeiramente interessam – nunca sejam abordadas neste direito de resposta, optando-se por usar pretensas questões dualismo, patriarcalismo, machismo ou outras. Tenho pena porque este argumentário é uma forma de censura muito comum em 2022.
E por isso – concordando agora inteiramente com a subscritora - este e outros temas são debates que valem a pena. Vamos falar?

Como nota final deixo um o meu apreço pela iniciativa de Beatriz... porque acredito sinceramente que as questões de género são importantes e há que ter coragem para as levantar, mesmo que aqui discorde da forma e do conteúdo.

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