, 8 de Fevereiro de 2022

Jazz em Pt: a questão da crítica machista não resolvida

texto: Beatriz Nunes

Face à recente crítica publicada na revista jazz.pt a partir do festival Porta-Jazz, proponho uma reflexão sobre a forma como se fala de mulheres no jazz em Portugal.

Não são casos isolados os discursos assentarem em estereótipos sexistas e considerações enviesadas. Não podemos ignorar o poder destes discursos discriminatórios, tantas vezes naturalizados e legitimados, que são particularmente nocivos num meio onde as mulheres ainda representam uma minoria e raramente são as protagonistas. Daí a urgência da reflexão e de uma mudança estrutural.

Utilizarei os textos de Gonçalo Falcão “12.º Festival Porta-Jazz / Dia 2: a questão da voz / Dia 3: a questão da voz resolvida” para a jazz.pt como um estudo de caso.

O texto apresenta desde logo um falacioso dualismo entre voz e instrumento, diferenciando o papel dos cantores em relação aos restantes instrumentistas. A narrativa nunca assume o feminino da palavra “cantores”, embora as quatro músicas visadas nestes dois textos sejam exclusivamente mulheres. Por sua vez, os restantes músicos eram homens e instrumentistas, e as características do discurso que lhes foram reservadas eram bastante distintas.

Sobre nenhum saxofonista foi dito que era “visualmente pouco interessante” ou que “soube estar em palco”. Sobre mulheres/cantoras sim. Foi ainda afirmado: “os cantores (...) têm responsabilidades acrescidas – o modo como se apresentam em palco, vestidos com a mesma roupa que usaram para ir ao Leroy Merlin comprar material para instalar umas luminárias”. A bem da honestidade, dizer “cantores” no jazz é um falso neutro. Estatisticamente, a maioria dos “cantores” são mulheres e os homens são instrumentistas, portanto, é justo expor que esta diferenciação entre voz e instrumento é inseparável de uma diferenciação sexista (Dias & Nunes, 2021; McKeage, 2004; L. Wehr, 2016; Teichman, 2020; Tucker, 2002; Raine, 2020).

 

O que é uma verdadeira cantora?


1. O corpo e a tradição

“Leonor Arnaut nunca se assumiu como cantora, passando a integrar um fundo sonoro que frequentemente tendeu para o noise1. No jazz, a voz é tradicionalmente utilizada em primeiro plano, através da palavra ou do scat. Porém, esta percepção limitada sobre o papel do/a cantor/a é anacrónica e não partilha da mesma liberdade que outros instrumentistas têm em desenvolver um registo mais exploratório do seu instrumento. A ideia de que utilizar a voz como um recurso textural desqualifica a vocalista no seu instrumento é particularmente destrutiva. A frase retira ainda toda a agência e intencionalidade desta escolha (“não se assumiu”). Mais à frente, pretende-se fragilizar as opções de Joana Raquel de forma altamente subjectiva e objectificante: “(...) mais uma vez, uma cantora envolta sobre si mesma, uma presença tímida, visualmente pouco interessante”. O conceito de timidez é utilizado para enfraquecer as escolhas performativas da cantora, que novamente optou por se afastar de uma expectativa mais tradicional.

Contrariamente ao que afirma a crítica, é um gesto de enorme afirmação propôr um corte com a ideia de que as mulheres cantoras apenas devam entreter, dançar, ser visualmente agradáveis ou fisicamente expressivas. Estas mulheres estão à procura de novas possibilidades para o seu corpo no palco. O escrutínio do corpo feminino, a sexualização, o assédio são formas de violência bastante familiares às mulheres desde muito jovens. Focar-se no interesse visual dos cantores (que eram só mulheres) é de uma profunda objetificação deste grupo (que repito, eram só mulheres). Daí que escrever em 2022 que uma cantora é “visualmente pouco interessante” é inaceitável.

Requer muita confiança a esta nova geração de mulheres no jazz, ainda num cenário dominantemente masculino, inventar novos papéis, novas formas de fazer música e novas formas de estar em palco (tendencialmente igual à dos colegas instrumentistas). As suas propostas são profundamente válidas e inspiradoras.

 

2. Comparar para reinar 

Por oposição, o autor considerou: “resolveu a questão da voz: Susana Nunes apareceu em palco e imediatamente sentimos que estávamos perante uma cantora.”2

Esta comparação, dando a entender que existem cantoras que são mais cantoras que outras, que umas resolvem, outras estragam, umas são a solução, outras o problema, é um discurso patriarcal bastante problemático. A tradição da crítica protagonizada por autores masculinos que comparam mulheres no jazz procurando autenticidade é bastante antiga3. Neste caso, o autor instrumentaliza as inegáveis qualidades musicais de Susana Nunes para continuar a desqualificar as propostas de Leonor Arnaut e Joana Raquel. Esta estratégia argumentativa já antes havia sido utilizada no dia 6 de Julho de 2020 pelo mesmo autor em reportagem para a jazz.pt sobre o festival Jazz no Parque de Serralves: “Leonor Arnaut limitou-se no concerto a dobrar os sopros, cantando a melodia, enquanto Raquel Lima, bem mais interessante, presente e interventiva, declamou / cantou e dançou os seus textos”. A comparação entre mulheres e o mito de “luta de umas contra as outras” não é um caso exclusivo deste autor, como podemos ver na crítica de Rui Eduardo Paes dirigida ao concerto de Sara Serpa na Festa do Jazz em 2011: “A esse nível não esteve melhor que Maria João e Joana Machado e não salvou a honra do canto jazz nacional”. 

Não se espera que a crítica seja neutra, nem tampouco objectiva, mas ela deverá ser ética, autocrítica e consciente sobre o seu lugar de poder. Esta forma de fazer crítica discriminatória e silenciadora já não nos serve. Bem-vindos a 2022. 

 

1 https://jazz.pt/report/2022/02/05/dia-5-de-fevereiro-16h-overdosing-em-musica-ha-um-problema-com-os-cantores/
2 https://jazz.pt/report/2022/02/07/12-festival-porta-jazz-dia-3-a-questao-da-voz-resolvida/
3 “There are several examples of jazz critics “pitting” female jazz musicians against each other. An example of this is the criticism written around Mary Lou Williams and Hazel Scott, who were often compared to each other, with the latter dismissed as not being a “real” jazz musician” (Kernodle, p.28, 2016).

 

Beatriz Nunes
Investigadora em Ciências Musicais e Estudos de Género 

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