Jazz Vária, 14 de Dezembro de 2021

Jazz Vária

Mel e sangue (26/ Eric Dolphy)

texto António Branco

Em meados do século XX, Eric Dolphy foi um dos músicos que migraram para domínios mais experimentais, contribuindo para lançar os alicerces do free jazz. O seu estado de saúde e as circunstâncias de uma morte inesperada ainda não estão completamente esclarecidos e são objeto de especulação, quase 60 anos depois. António Branco recorda-o no vigésimo sexto episódio de Jazz Vária e dedica o texto a Rui Eduardo Paes (foto de Don Schlitten).

«Eric Dolphy morreu de uma “overdose” de mel.» Quem o afirmou foi o arranjador e diretor de orquestra Gil Evans. «Toda a gente pensa que ele morreu de uma “overdose” de droga, mas ele estava numa fase de boa saúde. Teve diabetes instantâneos e não sabia. Comia nozes e consumia pequenos frascos de mel todos os dias e foi isto que o matou. Entrou em coma e não saiu dela», disse o músico canadiano.

Na primavera de 1964, antes de um concerto em Oslo, Eric Allan Dolphy (1928-64) informou Charles Mingus de que planeava ficar na Europa após aquela digressão. Estava desiludido com as posições dominantes nos Estados Unidos em relação aos músicos que perscrutavam caminhos diferentes. Pretendia basear-se em Paris, cidade onde muitos músicos de jazz expatriados foram recebidos de braços abertos. Para além disto, estava noivo de Joyce Mordecai, bailarina clássica que vivia na capital francesa.

Antes de partir para a Europa, Dolphy deixou documentos e outros pertences com os amigos Hale e Juanita Smith. Muito deste material terá sido entregue mais tarde ao flautista James Newton. Em maio de 2014, foi anunciado que cinco caixas contendo partituras tinham sido doadas à Biblioteca do Congresso norte-americano.

Naquele mês de junho, Eric Dolphy morreu na sequência de uma crise de diabetes. Dois meses antes, Mingus – na ressaca da decisão que lhe havia sido comunicada – compusera e gravara um blues intitulado “So Long Eric” (algumas vezes com o subtítulo “Don’t Stay Over There Too Long”). Muitos detalhes relacionados com a sua morte estão ainda hoje, quase 60 anos volvidos, envoltos em mistério. As notas que acompanham a caixa com as gravações completas de Dolphy para a Prestige referem que o músico desmaiou no seu quarto de hotel em Berlim e quando chegou ao hospital foi diagnosticado como estando em coma diabético. Após alegadamente receber uma injeção de insulina, terá entrado em choque e não resistiu.

No documentário “Last Date” (1991), da autoria do Hans Hylkema e Thierry Bruneau (biógrafo de Dolphy) – exibido há uns anos no Jazz em Agosto da Fundação Calouste Gulbenkian –, porém, é defendida a tese de que Dolphy desmaiou em palco e foi logo levado para o hospital. Ignorando que era diabético, os médicos terão assumido o estereótipo do músico de jazz, negro e provavelmente toxicodependente, para concluir, de modo apressado e cruel, que tivera uma “overdose”, tendo sido deixado numa cama para que os medicamentos administrados para desintoxicação fizessem efeito.

Eric Dolphy morreu apenas nove dias depois de ter completado 36 anos. Chegara dois dias antes a Berlim, já com queixas, para tocar com um trio liderado por Karl Berger na abertura de um clube novo chamado The Tangent. Aguentou durante os dois primeiros dos três “sets” previstos para aquela noite, antes de abandonar o palco. Segundo algumas fontes, na manhã seguinte, cheio de dores e com delírios, mal conseguia articular as palavras «Levem-me para casa, levem-me para casa...» A mãe de Eric, Sadie – que tal como o pai, Eric Dolphy Sr., tinha emigrado do Panamá –, dirá que o filho nunca teve problemas de coração ou diabetes. «Ele nunca se queixou de nada.» Acreditava que o filho morreu porque sempre exigiu demasiado de si próprio.

«O que quer que diga será um eufemismo. Só posso afirmar que a minha vida ficou muito melhor por tê-lo conhecido. Foi uma das melhores pessoas que encontrei, como homem, amigo e músico», balbuciou um chocado John Coltrane quando soube da sua morte. A relação entre ambos era tão próxima que Sadie confiou-lhe o clarinete baixo do filho, pois estava a ter pesadelos com Eric a tocar o instrumento.

Dolphy ajudou Coltrane a regressar a Nova Iorque quando este foi despedido por Johnny Hodges em Los Angeles devido à sua dependência da heroína e teve grande influência na sua música. Apesar das gravações do quinteto de Coltrane com Dolphy (incluindo as sessões “Africa/Brass” e “Live at the Village Vanguard”) serem hoje consideradas lendárias, a revista Downbeat rotulou-as à época como sendo “anti-jazz”. Coltrane dirá mais tarde a este propósito: «Eles fizeram crer que nós não sabíamos nada de música (...) Doeu-me ver [Dolphy] ficar magoado por causa disto...»

A relação entre Dolphy e Mingus era bastante mais complexa. «Não havia muita conversa. Às vezes parecia que Charles não gostava dele, mas ao mesmo tempo também tinha a sensação de que ele o amava profundamente», disse o baterista Dannie Richmond. Houve momentos em que ambos se degladiaram musicalmente em palco. Mas a morte de Dolphy afetou Mingus de uma maneira muito profunda. «Tenho a sensação de que havia algo não dito entre os dois.»

De acordo com o escritor e crítico John Kruth em “God Bless the Child – Part II”, Mingus defendia que Dolphy havia sido assassinado, recordando que um médico de Manhattan chamado Finklestein lhe fizera um “check-up” completo e lhe dissera que estava bem de saúde e pronto para embarcar na digressão europeia. Antes de partir, Eric fora sujeito a uma intervenção cirúrgica para remover um tumor em forma de ovo que tinha na testa. «Isto não teria acontecido se Eric fosse diabético», clamou um desconfiado Mingus.

Também o trompetista Ted Curson se referiu à trágica e precoce perda: « Destroçou-me. Quando o Eric se sentiu mal nesse dia [em Berlim], o facto de ser negro e músico de jazz fê-los pensar que se tratava de um drogado. Eric nunca utilizou quaisquer drogas. Era diabético – só tinham de fazer uma análise ao sangue e logo saberiam. Ele morreu por nada.» Logo após saber da morte, Curson gravou “Tears for Dolphy”, uma sentida homenagem ao amigo.

O baterista Sunny Murray, que estava nessa altura também a tocar no velho continente com o saxofonista Albert Ayler – num histórico quarteto que se completava com o contrabaixista Gary Peacock e o trompetista Don Cherry – disse que Dolphy queria ficar na Europa e tocar com eles, com o grupo de free jazz. «Mas ele morreu de repente. O boato que corria era de que ele tinha sido envenenado. Isso mexeu comigo e comecei a perceber que muitas pessoas estavam a querer fazer-me coisas e comecei a ficar muito nervoso.»

A morte de Eric Dolphy aconteceu num momento particularmente turbulento da história dos Estados Unidos, menos de um ano depois de o presidente Kennedy ter sido assassinado durante um desfile em Dallas. A atmosfera era de revolução e desejo de mudança. Sustenta Kruth que a devoção à musica de Coltrane e Dolphy evoluiu para uma busca desenfreada para encontrar Deus. Começaram a viver com uma dieta à base de mel e as conversas entre ambos eram reservadas para todas as coisas sagradas (incluindo a música).

O impacto da obra de Eric Dolphy é tremendo – embora nalguns círculos ainda hoje subvalorizado –, necessitando, mesmo no presente, de ser entendido nas suas múltiplas dimensões. Foi um verdadeiro profeta musical: alguém, em boa hora, intitulou assim um álbum que reúne gravações históricas feitas em Nova Iorque, em 1963. Desenvolvendo técnicas pouco convencionais, logrou uma expressividade ímpar, num tempo de transição na história do jazz. Mas nem todos pareciam compreendê-lo e eram críticos do seu trabalho: Miles Davis, por exemplo, disse num “Blindfold Test” da revista Downbeat que Dolphy soava «como se alguém lhe estivesse a pisar o pé».

Em jovem, Eric gostava de estudar ao ar livre, acompanhado pelo som dos pássaros. “Outward Bound” (1960), “Out There” (1961) e “Out To Lunch!” (1964) – atente-se na utilização insistente da palavra “out” – ou “Far Cry” são discos de audição e estudo absolutamente obrigatórios. «Podes tocar todas as notas que quiseres», disse certa vez Dolphy ao crítico Leonard Feather, numa tentativa de transmitir a essência da música que fazia, demasiado “out” para ser “in” e demasiado “in” para ser “out”.

Recordando Dolphy, Charles Mingus disse: «Normalmente, quando um homem morre, tu lembras-te – ou dizes que te lembras – apenas das coisas boas sobre ele. Com Eric, isso é tudo o que te consegues lembrar. Era um homem absolutamente sem necessidade de magoar.» Referia-se-lhe como um “santo” e batizou o filho, o cantor Eric Dolphy Mingus, em sua homenagem. Na pedra tumular pode ler-se a inscrição: «Ele vive na sua música.» Dois dias após a sua morte, o baterista Han Bennink recebeu uma carta dele com detalhes sobre uma apresentação futura no Café Montmartre, em Copenhaga…

Como bem nos lembra John Litweiler, a luta pela liberdade é matéria recorrente desde o início do jazz. Eric Dolphy foi um combatente, até ao fim.

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