"Trégua", de José Valente & Orquestra Filarmónica Gafanhense, 5 de Novembro de 2021

"Trégua", de José Valente & Orquestra Filarmónica Gafanhense

O riso como música

texto Rui Eduardo Paes

É no próximo domingo, 7 de Novembro, que José Valente lança o álbum "Trégua" (edição 9 Musas) com a Orquestra Filarmónica Gafanhense, lançamento esse assinalado por um concerto inserido no Festival MILHA. Um disco que irá fazer história no que respeita ao encontro de duas linguagens diferentes, a do jazz e a filarmónica, como escreve Rui Eduardo Paes nas "liner notes" do disco, que aqui reproduzimos.

Se em outros países europeus não é estranha a colaboração de músicos de jazz ou livres-improvisadores e de compositores ditos “eruditos” com bandas filarmónicas e de rua, em Portugal não tenho registo de experiências anteriores como esta realizada entre José Valente e a Orquestra Filarmónica Gafanhense – e isto apesar de sabermos que alguns saxofonistas de renome no nosso país, a exemplo de Ricardo Toscano e Desidério Lázaro, deram os primeiros passos na música em contexto filarmónico. Não era esse, de todo, o caso de Valente, até pelo instrumento que escolheu, a violeta, cujos estudo e estágio formador se fazem ainda no âmbito clássico, em orquestras sinfónicas e ensembles de câmara. A atracção deste pelo binómio sopros / percussão em que se alicerça o formato e sua combinação, na qualidade de instrumento solista (mas também agindo como um timbre mais da banda), com a também chamada viola de arco teria, necessariamente, de ter contornos singulares.

Esta singularidade é moldada por factores que, surgindo mais do que por simples coincidência, foram até explorados em todas as características mais intrínsecas: a filarmónica em causa tem um repertório de peças especialmente exigentes, chegando a incluir Bach e Mahler nas suas páginas, e o facto de contar como maestro com um músico activo na área do jazz e da música criativa, Henrique Portovedo, proporcionou a José Valente uma amplitude de abordagens, de léxicos, de gramáticas, que não seriam expectáveis – isso partindo sempre dos «formatos reconhecidamente portugueses de banda filarmónica, satisfazendo-os». Ao longo da audição de “Trégua” sucedem-se marchas, ambientes circenses, situações que nos remetem para os bourrées e os boleros da tradição, passagens que soam quase como árias de opereta ou os hinos das nossas sociedades recreativas, mas damos com muito mais do que estas matérias-primas. E sim, ouvimo-lo a improvisar sobre, e dentro, (d)o que deixou escrito nas partituras, ignorando compartimentações que ainda estão muito vivas no entendimento musical dominante.

Se o anúncio deste projecto poderia fazer crer, aos mais distraídos, que José Valente se coadunaria às apertadas coordenadas que regem uma filarmónica, eis que do seu encontro com esta orquestra de Gafanha resulta algo de inédito, em termos que a história da música portuguesa decerto registará. Estamos, no entanto, perante um compositor e um violetista que forjou para as suas práticas todo um conceito, como já tinha ficado bem explícito nos álbuns “Os Pássaros Estão Estragados” e “Serpente Infinita”. “Trégua” é uma obra conceptual em que conseguimos identificar uma multiplicidade de referências, filosóficas, literárias e, como não podia deixar de ser, musicais, estas incidindo tanto no domínio da música contemporânea como no do jazz, com introjecções de fórmulas provenientes das músicas populares de raiz. Sempre fugindo ao óbvio ou ao estereótipo, como concluímos pelo tratamento zappiano que faz dos ritmos latinos do tema de abertura deste disco, “A Birra do Gaspar”, ou do malhão da faixa que o designa, “Trégua”.

De “Serpente Infinita” vem em “Trégua” ainda a ideia de restabelecimento cunhada por Albert Camus, de entendimento da diversidade, representada pelo que Valente quis deixar materializado nesta música construída a partir de ingredientes opostos: um «diálogo motivado entre línguas diferentes». A “trégua” do título é esse diálogo encenado, encarado como um factor de alegria, de festa, de dança. A leitura de Henri Bergson e do seu “Le Rire” trouxeram-lhe o aprofundamento de que necessitava para definir este novo parâmetro, designadamente a noção de que é o acidente, o imprevisto, que nos faz rir, como «quando uma pessoa tropeça num obstáculo porque está a olhar para outro lado». Assim, imaginou caminhos e colocou obstáculos ao longo do seu percurso, na forma de linhas musicais de desenvolvimento que são contrariadas pela inesperada – e com intenção declaradamente humorística - introdução de elementos contrastantes. Tal resolução tem em conta, por inteiro, a percepção do ouvinte, que é, para todos os efeitos em tal registo de comédia, «a personagem central, invisível mas presente, da qual as personagens de carne e osso se encontram suspensas».

As notas que José Valente foi apontando nos seus cadernos enquanto compunha este “Trégua” são bastante esclaredoras quanto aos objectivos pretendidos, e nelas constam algumas citações de Bergson. Como esta: «Uma personagem de tragédia nada mudará no seu comportamento se souber como a julgamos; (…) Mas um defeito ridículo, assim que se sabe ridículo, tenta modificar-se, pelo menos no exterior. Se Haspergon nos visse a rirmos da sua avareza, não digo que se corrigiria dela, mas mostrá-la-ia menos, ou de outro modo.»

Bergson fala no seu livro de tensão e elasticidade, «duas forças complementares uma da outra com que a vida conta no seu jogo», evitando o «automatismo fácil dos hábitos contraídos». O riso é, então, algo que advém do que inquieta e ameaça esse automatismo existencial: a «rigidez é o cómico, e o riso o seu castigo». Segundo o filósofo também, há nisto qualquer coisa de estético, no sentido de que «o cómico nasce no momento preciso em que a sociedade e a pessoa começam a tratar-se a si próprias como obra de arte». A tradução em música destas perspectivas acontece, pois, de modo muito natural. Observa Valente: «Qualquer coisa “normal”, previsível, é abruptamente interrompida por uma crispação; pode ser um acorde, um golpe, etc. Henri Bergson: “Uma expressão cómica do rosto é a que não promete senão aquilo que dá. É um esgar único e definitivo.”»

O que temos, assim, é uma caricatura, a música como caricatura. Bergson ainda na interpretação de José Valente: «A arte do caricaturista é surpreender esse movimento por vezes imperceptível e torná-lo visível a todos, aumentando-o. (…) Para que um exagero seja cómico, é necessário que não surja como um fim, mas antes como simples meio de que o desenhador se serve para tornar manifestas aos nossos olhos as contorções que vê em preparação na natureza. É esta contorção que importa, é ela que interessa.» Valente tira daqui as suas próprias ilações: «Quando o gesto é repetido, o espectador começa a adivinhar o seu seguimento, a sua consonância, e sente que também faz parte da repetição, em efeito de marioneta. O espectador julga ter um poder sobre o artista, porque acha que sabe o que vai acontecer. É aqui que deve surgir o imprevisível, o dito gesto crispado, uma forma feita de consonâncias interrompidas, de lugares-comuns subitamente assaltados, por exemplo com gestos free.» Free como abreviatura de free jazz, entenda-se: uma música dissonante. Ora, o recurso à dissonância é aqui assumido como negação explícita da consonância.

Um problema emerge neste enquadramento, e o autor de “Trégua” depressa se consciencializou dele: a transformação da imprevisibilidade, enquanto modus operandi, numa rotina. O que de mais intrigante encontramos neste álbum é a maneira como a evita, trabalhando ao nível da nuance e do pormenor. Neste contexto, o acidente não tinha necessariamente de ser uma resposta abstracta, pois «essa hipótese seria um status quo por si só», mas sim aquilo a que Valente chama «queda», «uma queda literal, uma mudança radical de género e estilo».

O nome “Trégua” inspira-se directamente no romance “La Tregua” de Primo Levi, o relato da viagem de regresso a casa do escritor após a libertação de Auschwitz no fim da Segunda Guerra Mundial, e que é lido por José Valente como o processo de «transferência de qualquer ser humano de uma fase de dificuldade extrema, de um flagelo, para algo mais optimista e pacífico». Um restabelecimento camusiano, portanto. De “La Tregua” retira-se a ideia de passagem de um estado de espírito, mas também físico (em alusão à doença de Primo Levi em Katowice) a outro, bem como a ideia de agitação, com movimentos dançáveis a contrariarem a sombria inquietude de alguns episódios descritos no livro. Passagem, transição, são factores chave também nas referências musicais deste projecto, que passam pelo Concerto para Violino de John Adams, o Concerto para Viola de William Walton, a Sonata para Viola e o Quarteto nº 1 de Gyorgy Ligeti ou o “Da Stijl” e o “La Commedia” de Louis Andriesen, o “Failing” de Tom Johnson e o “Out of Earth” de Oliver Waespi, do lado erudito. Na vertente jazzística cruzamo-nos com as progressões harmónicas do “Giant Steps” de John Coltrane, pelo groove do Michael Brecker Quindectet nas gravações de Tóquio editadas pela Blue Note, por “Piece of Five” de Trilok Gurtu com a NDR Big Band ou por Andreas Schaerer em “The Big Wig”. Numa das pautas, encontramos ainda indicações para utilizar escalas de bebop em motivos “picados” a Adam Khachaturian.

O improvável é a dimensão e o substracto deste “concept” que articula o convencional com o disruptivo, o formal com o excêntrico, o épico com o desconcertante, o profundo com o volátil. A gargalhada dos membros da orquestra que abre “Festa” não se converte apenas em música, está-lhe subjacente, continua a fazer-se ouvir no seu interior. Não é um apontamento sónico, é uma condição estruturante. José Valente ri-se, identificando nesse riso a sua recusa de quaisquer espartilhos, a começar pelos filarmónicos, depois pelos clássicos e depois ainda pelos do jazz, mas apenas na sequência da inventariação e mimetização dos elementos que, quando estabelecidos, se tornam fixos e inertes, impossibilitando o restabelecimento e a trégua. O riso vem da tensão assim sustentada e permite a acima mencionada elasticidade, uma subversão pela abertura ao descontrolo, regra geral assumida e personificada pelos solos improvisados da violeta. Este riso-música pretende ser, e apresenta-se, como a «caricatura da própria comédia», na medida em que modifica, imita, exagera e, por fim, nega uma realidade, premissas de qualquer comediante. O riso-música, enfim, como «gesto social» (Bergson, novamente), constituindo a primeira obra de jazz filarmónico em Portugal. Poderia ter sido algo de pomposo, mas é divertido. Quem diria, em tempos tão cinzentos como estes...