Rafael Toral, 13 de Maio de 2021

Rafael Toral

Em órbita com o Space Quartet

texto João Morado

O Space Quartet tem concertos marcados para os próximos dias 14 (Centro Cultural de Belém) e 22 de Maio (GNRation): é o regresso do projecto de Rafael Toral após meses de paragem devido à pandemia. João Morado contextualiza nas notas abaixo o que se vai ouvir em Lisboa e em Braga.

São raros os projetos de investigação que se prolongam durante várias décadas. Qualquer que seja a área de pesquisa, o destino desses empreendimentos coletivos ou pessoais encontra-se amplamente à mercê de diversas variáveis que não se podem controlar. Amiúde, estes são esforços que definham ao longo do tempo por falta de apoio económico ou institucional, fatores que afetam a motivação e a tração de uma linha de investigação; outras vezes, são programas que esbarram contra becos sem saída, implicando um término abrupto de uma linha de raciocínio por falta de soluções; igualmente comuns são as divergências que ocorrem em relação ao plano inicial, que fazem com que a correlação do atual trabalho em pesquisa com as ideias que o despoletaram apenas se possa estabelecer através de saltos semi descontínuos, quase quânticos, resultado de disjuntos acessos de criatividade.

O Space Program de Rafael Toral foi um caso de inaudita longevidade no panorama musical, um programa contínuo que sofreu várias ramificações que despontaram entre 2004 e 2017 a partir de uma espinha dorsal comum. A premissa inicial foi a da humanização da música eletrónica por meio de uma abordagem «mais preocupada com o músico do que com o instrumento», que recentra, tal como no jazz, o músico como o decisor central do processo criativo, no qual «a tecnologia é um meio e não um fim». A alienação do músico em relação ao seu produto estético é, então, mitigada através da consideração de que o «que se toca é mais importante do que o instrumento com o qual se toca». Argumentos fortes - e ainda válidos -, que motivaram uma investigação que lançou para a exosfera subprodutos que ainda orbitam no presente.

Concluído em 2017, o Space Program deixou, contudo, um herdeiro direto. A linha de continuação que se encontra ativa, o Space Quartet, já não vive como um «programa de pesquisa», tal como o era o seu antecessor, mas, sim, da «aplicação avançada das suas descobertas». Os resultados destas explorações, também elas experiências per se, poderão ser presenciados ao vivo em concertos agendados para 14 de Maio, em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, e 22 de Maio, em Braga, no GNRation. A acompanhar Rafael Toral estarão os membros da mais recente formação do quarteto, composto por Nuno Torres (saxofone alto e eletrónica), Hugo Antunes (contrabaixo) e Nuno Morão (percussão e bateria).

 

Retrospetiva de uma odisseia espacial 

A compreensão da atual génese estética e conceptual do Space Quartet requer uma contextualização alargada da matriz que o alicerça. Um resumo-compilação das suas bases pode ser escutado em “Open Space” (2020). O mapa de ação do programa espacial de Rafael Toral começou por ser definido em “Space” (2006), álbum seminal em que foram enunciadas intenções e apresentadas as matérias de estudo.

Dividido em três partes, “Space” foi concebido como uma orquestração baseada na eletrónica em que Toral tocou todos os instrumentos, excetuando as participações pontuais de Fala Mariam e Sei Miguel, este último considerado por Toral como um «grande mestre» que, inelutavelmente, influenciou o sentido inicial do Space Program, em parte inspirado pelo método de direção musical daquele. Em “Space”, são evidentes as tangentes com a música ambiente, geografias que Toral explorou minuciosamente em “Sound Mind Sound Body” (1994), “Wave Field” (1995) e “Violence of Discovery and Calm of Acceptance” (2001), discos de projeção internacional, ainda hoje referenciados como clássicos do género e venerados por músicos de outras paragens sónicas, tais como John Frusciante.

Rompendo com o arsenal de ideias e metodologias nascidas a partir da fase pré-Space Program, Toral começou, então, por contrapor às ambiências “drone”, imersivas e de “continuum” estático, geometrias experimentais, abstratas e não-lineares com emergentes referências a contextos jazzísticos e de improvisação livre. Não se tratava, no entanto, de improvisação estrita no sentido de haver liberdade total para a construção de um discurso «derivativo ou experimental». Pelo contrário, a intencionalidade sempre foi um dos fulcros deste “modus operandi”, que recorre a uma matriz onde são possíveis diferentes tomadas de decisão dentro de uma estrutura pré-definida. Nas palavras de Toral, «as decisões de micro e macro escala dão-se num quadro em que o modo de funcionar e de soar de cada músico é focado em matérias específicas», que são, então, «articuladas, em grau variável, com formas elementares».

De igual importância neste processo criativo são também os limites impostos à sintaxe discursiva relativamente à essência do som tocado. Existem orientações que definem «se um som é curto ou longo, se se repete ou varia, se o faz de modo regular ou irregular». Putativamente simples, este é um modo de composição que o crescimento exponencial da combinatória binomial rapidamente torna «infinitamente complexo».

Alea iacta est, e a produção cósmica de Rafael Toral nunca mais parou. Seguiram-se múltiplas encarnações destes ideais sob a forma de diferentes séries e formações. A primeira, individual, é agora referência primária para o entendimento de parte da axiomática a que Toral recorre em contexto de grupo. “Space Solo 1” (2007) e “Space Solo 2” (2017) desvelam investigações variadas sobre, por exemplo, a interação entre corpo físico e modulação de ondas sonoras ou o controlo de ressonância em circuitos eletrónicos, estudo que teve a suas origens em “Aeriola Frequency” (1998).

De importância incontornável é, também, a série da qual resultaram os álbuns “Space Elements I”, “II” e “III” (2008, 2010, 2011). Cada volume deste braço – singular, mas não autónomo - focou-se na criação de teoremas para uma instrumentação específica, em cenários camerísticos, tocados por pequenos “ensembles” que contaram com a colaboração de ilustres nomes como César Burago, Manuel Mota, Riccardo Dillon Wanke, David Toop, Tatsuya Nakatani e Evan Parker, entre outros. As paisagens sonoras aqui desenhadas representam uma evolução instrumental em relação às pesquisas restritas à eletrónica, não deixando, porém, de partilhar os seus postulados. Os volumes da série “Space Elements” partiram, destarte, de gravações de grupo usadas como “matéria” para a composição de peças meticulosamente pensadas. Falamos de música textural, granular e reducionista, repleta de acidentes topológicos resultantes de uma correspondência imprevisível entre ação e efeito, com uma tensa, mas eloquente articulação entre o som e o silêncio que enfatiza a estruturação do discurso musical no âmbito do Space Program.

Do laboratório à interação comunitária

Foto de Vera Marmelo 

Com um conjunto de diretivas precisas e experiências cristalizadas, Rafael Toral estendeu inevitavelmente o seu programa de ação a diversos contextos performativos. Essa extrapolação ocorreu através de atuações ao vivo que permitiram uma perspetivação do “ethos” do Space Program sob vários pontos focais.

A continuação do trabalho a solo originou a série “Space Studies”, composta por sete instâncias que «não têm existência material nem são objectos». São resultado de concertos em que foram estabelecidos «mapas de exploração» das «possibilidade de fraseado» dos vários instrumentos eletrónicos usados por Toral. Numa dimensão colaborativa, surgiram os Space Collectives, «numerados segundo o número de pessoas de que cada um era composto», e pelos quais foram tocadas peças ao vivo, «escritas e cronometradas», em festivais como o All Tomorrow’s Parties, no Reino Unido, ou o Primavera Sound, no Porto. E como qualquer corpo de investigação só sobrevive quando as ferramentas por si criadas transcendem o domínio do autor original, no plano pedagógico Rafael Toral coordenou o Space Program Workshop, oficina dedicada a praticantes de “hacking” e “circuit bending” e a músicos de eletrónica que pretendia transmitir conhecimentos práticos sobre «estruturação de fraseado e articulação e escuta, colmatando o lado experimental e derivativo do uso desse tipo de instrumento em geral».

Concluiu-se, assim, com o lançamento de “Space Solo 2” (2017), um ciclo de mais de uma década de investigação, processo que Toral afirma ter sido «muito holístico», apesar da sua configuração «científica». Foram derivados corolários sobre «o que pode ser a música eletrónica», através de uma aproximação «centrada no gesto, na presença do corpo e na decisão humana», idiossincrasias ubíquas no jazz e que, tal como Toral demonstrou, são igualmente aplicáveis na esfera da música eletrónica.

A designação de música electrónica pós-free jazz, que o próprio concedeu a estes registos discográficos, não se encontra, portanto, desalinhada do carácter filosófico-sonoro que lhes está subjacente - os laivos de minimalismo e impressionismo da fase pré-Space Program foram alargados por ideias expressionistas e estruturalistas em que o léxico da eletrónica serviu como meio para uma expressão livre e individual.

 

Um percurso de órbitas elípticas 

As nuvens de cometas que vogam pelo espaço sideral em trajetórias elípticas deixam, à sua passagem, um rasto de gases e poeira. Com a conclusão do Space Program, para trás ficaram «a natureza de pesquisa e a disciplina exclusiva» a que este trabalho obrigou, substituídas, agora, numa fase pós-Space Program, por um campo de ação em torno de «um espaço mais livre, já não obrigado a uma disciplina estética tão rigorosa».

Distanciando-se da circularidade do Space Program, Toral visitou regiões de maior excentricidade angular, ainda sob a influência, mesmo que amortecida, do campo gravitacional do seu antigo programa. Deste modo, transportou a adquirida «capacidade de tocar instrumentos algo “experimentais” com um discurso coerente e de elevação artística» para um novo conjunto de projectos, sobre os quais explica que «o “Moon Field” (2017) e o Jupiter and Beyond (2020) têm alguns elementos que vêm da estética mais antiga ligada ao Ambient», enquanto «”Saturn” (2018) é uma estrutura esboçada em traços largos para enquadrar uma colaboração com João Pais Filipe, na altura o baterista do Space Quartet».

O Space Quartet, esse, surgiu da «evolução de todos os Space Collectives», e em particular do Space Trio, formação que Toral deixou cair pois «a dinâmica que quis com o Space Trio conseguia com mais eficácia num quarteto». Como explicado pelo próprio, o «potencial infinito» deste quarteto emerge porque, «em vez de partes cronometradas, cada músico decide livremente como, quando e durante quanto tempo vai usar os seus materiais». Este fluxo evolui «sem sincronismo e sem aviso» e, consequentemente, «a música está sempre a progredir e a gerar novas configurações».

A primeira formação do quarteto foi integrada por Henrique Fernandes (contrabaixo), João Pais Filipe (bateria e percussão) e Ricardo Webbens (sintetizador modular). Com a saída de Fernandes e a entrada de Hugo Antunes, em 2016, ficou então definido o conjunto de músicos que viria a gravar o álbum homónimo de estreia do quarteto, lançado em 2018 pela portuguesa Clean Feed. Em 2018, Nuno Torres substituiu Webbens no saxofone alto, e Nuno Morão assumiu o comando da bateria e da percussão. Esta configuração, que resiste até ao presente, revelou-se a mais duradoura, algo que agrada ao seu diretor artístico, o qual, com evidente satisfação, promete que «continuará a avançar».

Semelhante atitude é partilhada pelos restantes músicos do Space Quartet. Para Nuno Morão, fazer parte do quarteto é «a concretização mais próxima de um sonho de quase todas as crianças: ser um cosmonauta». O sucesso desta interação musical, explica, reside «numa ética de trabalho musical» que permite nunca perder «a vital possibilidade de nos surpreendermos mutuamente». Hugo Antunes aponta o «equilíbrio entre um não-compromisso intermusical e o não corromper de uma narrativa interna» como a chave para a fluida navegação do grupo. Já Nuno Torres assinala a «escuta entre todos e a introdução de propostas por parte de cada um» como fundamental, processo em que «existe um diálogo constante entre todos que serve como espaço de reflexão sobre o que vai surgindo e como a música vai correndo».

Desengane-se, porém, quem pense que o jazz cósmico de Sun Ra, porventura a maior referência quando se fala de jazz espacial, esteja diretamente relacionado com a música produzida pelo Space Quartet. Em relação a esta presumível ligação, Toral é perentório ao afirmar que «há muito mais em jogo do que isso, mesmo que as muitas alusões ao enviado de Saturno também sejam verdadeiras».

A alusão ao espaço é, aqui, paradoxalmente, bastante mais térrea do que à primeira vista se possa conjeturar. Descreve Toral, em notas de apresentação de “Directions” (2021), o mais recente trabalho do quarteto, que o espaço a que se refere é o da «valorização de pausas, interstícios, uma certa métrica de expressão e narrativa, uma forma de criar transparências e, acima de tudo, um regresso a uma dimensão humana, consciente do seu bater de coração e do seu pensamento orgânico».

“Directions” foi lançado pela Clean Feed, sucedendo a “Under the Sun” (2020), registo gravado ao vivo que marcou a estreia discográfica do quarteto que irá a palco nas próximas sextas-feiras. A música destes dois trabalhos apenas será reproduzida de forma aproximada em contexto de concerto, pois «é sempre nova, mesmo quando se adotam padrões ou estratégias já cristalizadas nas gravações», esclarece Antunes. No entanto, refere Morão que os «elementos-base» dos álbuns serão mantidos, isto é, «os músicos, os instrumentos e a prática» serão os mesmos.

A excitação do regresso aos palcos, após «uma ausência forçada da atividade pública», é também indisfarçável pelos músicos, que se sentem «entusiasmados com a possibilidade de poder voltar a tocar em público» e antecipam atuações que «atravessarão grandes expansões intergalácticas à procura de novos mundos». A conjuntura político-social dos últimos tempos, que confirmou que «trabalhar em meio artístico parece continuar a ser uma atividade de resistência», não afetou, por isso, a sonoridade «única» do quarteto, que promete dar «voltas pela exosfera de som» em que confortavelmente navega.

Estando o Space Program concluído, há agora espaço para que a sua linhagem voe livremente. Que assim o faça e, pelo caminho, nos surpreenda.