Jazz Vária, 13 de Abril de 2021

Jazz Vária

O rei esquecido (25/ Freddie Keppard)

texto António Branco

Há músicos que passam quase como fantasmas pela história do jazz. De tão fugaz ou longínqua a sua marca, deles se intui uma presença difusa, que parece esvair-se no tempo e no espaço. Apesar de apenas nos ter legado um punhado de gravações, o cornetista Freddie Keppard, um dia cognominado de “rei” de Nova Orleães, sem ter exibido esse título, é um deles. António Branco recorda-o no vigésimo quinto episódio de Jazz Vária.

Freddie Keppard nasceu na baixa de Nova Orleães a 27 de fevereiro de 1889, o que o coloca geracionalmente entre Buddy Bolden (que o antecedeu dinasticamente) e Louis Armstrong (embora tenha sido o mentor deste, Joe Oliver, a ostentar a coroa). Vários músicos com memórias claras do som de Bolden diriam mais tarde que Freddie Keppard soava mais como Bolden do que qualquer outro, antes ou depois dele.

Acentuando a pronúncia francesa do nome de família (silenciando o d final), o pai, Louis Keppard Sr., trabalhava como cozinheiro no lendário Vieux Café até à sua morte prematura (alguma não o será?). A mãe, Emily Peterson, era da paróquia de St. James e tocava violino. O seu irmão Louis, um ano mais velho, também viria a ser músico profissional. Vivendo na Villere Street, rodeados por um ambiente musicalmente fervilhante (em casa e na rua), os pequenos Louis e Freddie deram juntos os primeiros passos na exploração do universo dos sons, o primeiro no violino e o segundo na guitarra. Consta que a primeira canção que aprenderam foi “Just Because She Made Dem Goo-Goo Eyes”, com letra do menestrel seu conterrâneo John Queen.

Para poderem ir até à Basin Street engraxar sapatos, tentavam enganar a polícia passando-se por mais velhos. A ideia era ganharem uns trocos e assim alimentarem o sonho de serem músicos, tentando encontrar quem lhes pudesse facultar uma aprendizagem mais formal e lhes desse uma oportunidade de integrar a cena musical da cidade. Permanece incerto se Freddie conseguia ler partituras; o mais provável é que aprendesse os arranjos de ouvido e utilizasse as suas capacidades inatas acima da média para improvisar sobre as melodias-base das canções. Antes de se dedicar à corneta – o que aconteceu aos dezasseis anos – tocou também violino, bandolim e acordeão. Segundo o irmão, era habitual os executantes de outros instrumentos mudarem para sopros, por ser mais fácil encontrarem trabalho nas “street bands”, algo que não agradou particularmente à mãe, até ao dia em que o viu desfilar de uniforme.

Os dois irmãos tornaram-se líderes dos seus próprios grupos. Freddie criou a orquestra Olympia por volta de 1905, na qual pontificava o clarinetista Alphonse Picou. Sendo uma banda crioula, dispunha de vasto e diversificado repertório, mas viu muitas portas fecharem-se. Louis dirigia a orquestra Magnolia, residente no cabaré Huntz's and Nagel's, que contava nas suas fileiras com Joe Oliver, que roubaria o título de “King” a Freddie após vencê-lo num concurso de talentos. Freddie juntou-se então à Eagle Band de Frankie Dusen, ocupando o lugar deixado vago por Buddy Bolden, mantendo (e, de certa forma, desenvolvendo) o estilo deste.

No final de 1911 (ou início de 1912) o contrabaixista Bill Johnson, radicado em Los Angeles, pôs de pé a Original Creole Ragtime Band para difundir a música de Nova Orleães por todo o país. Convidou vários músicos desta cidade, de entre os quais Freddie Keppard. O grupo passou por São Francisco em 1913 e nos anos seguintes apresentou-se em Chicago e Nova Iorque, como Original Creole Orchestra ou That Creole Band. Keppard foi, por isso, um dos primeiros músicos de Nova Orleães a mostrar os sons que emergiam nesta cidade fora dela. O aumento de popularidade insuflou-lhe o ego: passou a autografar fotografias suas onde constava a legenda “star cornetist”.

Apesar de ser dos mais novos, tornou-se o membro mais conhecido da orquestra, ao ponto de, mais tarde, muitos julgarem ser ele o líder, apesar de não existirem registos de ter desempenhando outras funções na banda. A isto não será alheio o facto de ter sido um dos poucos a deixar registos gravados e a permitir uma análise da sua vida e obra. Entre 1915 e 1917, a banda continuou a divulgar a música de Nova Orleães junto de um público ainda pouco familiarizado com o estilo “hot”.

Após apresentações bem-sucedidas em Nova Iorque, surgiu um convite para gravar para a Victor, naquela que poderia ter sido a primeira gravação da história do jazz, dois anos antes de “Livery Stable Blues”, pela Original Dixieland Jass Band, um grupo integrado apenas por músicos brancos. Uma estória muito difundida é a de que Keppard teria recusado gravar para evitar que lhe roubassem o estilo. Estaria tão preocupado com a eventual cópia da sua forma de tocar que usava um lenço sobre a mão para esconder o movimento dos dedos, embora tal possa ter sido uma manobra para divertir o público (qualquer músico que o quisesse “roubar” fá-lo-ia pelos ouvidos e não pelos olhos). Também se conta que Keppard recusou gravar com receio de ser enganado pela editora, e que por isso teria pedido os mesmos valores do artista mais bem pago ao tempo, o cantor lírico Enrico Caruso.

Por volta de 1917, Keppard fixou-se em Chicago, cidade que se tornaria o seu centro de operações, salvo durante o breve período em que permaneceu na Costa Este para trabalhar com o maestro, compositor e pianista James Tim Brymn (que gostava de se apresentar como “Mr. Jazz”). Para seu infortúnio, pouco depois de chegar à cidade ventosa, o monarca da corneta era Joe “King” Oliver. Tal não o impediu de trabalhar em vários grupos (Lil Hardin Armstrong, Jimmie Noone, Johnny Dodds, Erskine Tate, Doc Cook ou Don Pasqual) ou de liderar as suas próprias formações. A presença de Keppard em Chicago ajudou a atrair outros grupos de Nova Orleães, antecipando o êxodo para norte de muitos músicos de jazz, em busca de melhores condições de vida.

Nos arquivos da Victor existe registo da gravação-teste de um tema chamado “Tack 'em Down”, feita por uma Creole Jass Band, a 2 de dezembro de 1918, cerca de dois anos após a sua primeira aparição em Nova Iorque. Keppard fez todas as suas gravações conhecidas em Chicago entre 1923 e 1927, na parte final deste período já com a saúde em acentuado declínio. Os temas relativamente aos quais parece não subsistirem dúvidas de serem de sua autoria são os três registados sob o nome Freddie Keppard's Jazz Cardinals, dois com a orquestra Vendome de Erskine Tate e uma dúzia com a orquestra de Doc Cook.

A maior parte dos músicos contemporâneos de Keppard em Nova Orleães – que tocaram com ele ou que o escutaram – enalteceram as suas inovações técnicas e a sua criatividade, embora também tenha havido quem argumentasse que era um músico convencional: Louis Armstrong ter-se-á referido ao seu estilo como sendo “fancy”, numa aceção pouco abonatória do termo. Mas o lendário “Jelly Roll” Morton, que se autointitulava “inventor do jazz”, disse de Freddie Keppard que este tinha «o melhor ouvido, o melhor tom e a mais maravilhosa execução» que alguma vez ouvira. Sem ser desrespeitoso para com “King” Oliver, o trompetista “Papa Mutt” Carey dizia que Keppard fora o melhor cornetista de Nova Orleães antes do aparecimento em cena de Louis Armstrong. Buster Bailey, clarinetista que tocou com Oliver e Armstrong, disse que o cornetista «poderia tocar tão suave, tão alto, tão doce e tão áspero quanto quisesse».

Na parte final da vida, esteve a braços com problemas de alcoolismo e tuberculose, apesar de ter continuado a tocar até 1932, muitas vezes alto, mas nem sempre bem. O trompetista Bob Shoffner recordou que em 1931, quando a banda de Louis Armstrong se preparava para deixar Chicago no autocarro da digressão, o próprio Satchmo pediu ao motorista que parasse em frente ao apartamento de Keppard, para que os seus músicos o pudessem saudar. Morreu a 15 de julho de 1933 e, como já nesse momento, quase ninguém o recorda.